Jeck Meu Amigo Meu Amor
Capítulo 1 Samantha Martinez

Doze anos antes... Eu tinha oito anos quando entendi que as palavras têm peso físico. Algumas caem no chão como vidro quebrado e cortam os pés de quem passa descalço; outras flutuam como poeira de sol e aquecem a pele. Minha mãe biológica preferia as de vidro. — Ela não é o que eu encomendei, Kevin — ela disse na sala de jantar da nossa antiga casa, os dedos apertando a taça de vinho com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Olhe para ela. É defeituosa. Um erro de fabricação que vai arrastar o meu nome na lama para o resto da vida. Eu estava escondida atrás da cortina de veludo pesado, sentindo o cheiro de cera de assoalho misturado com o suor frio do meu próprio medo. Eu sabia que era diferente. Os médicos diziam aos meus pais que eu tinha três cópias do cromossomo 21 em vez de duas — uma pequena mutação genética que mudava o formato dos meus olhos, o ritmo da minha fala e a forma como meus músculos aprendiam a obedecer aos comandos do cérebro. Uma trissomia. Para os livros de biologia, era ciência. Para a mulher que me gerou, era uma ofensa pessoal. Meu pai, Kevin, tentava remendar os cacos. Ele se ajoelhava no chão de parquet, afastava a cortina e me puxava para o abraço dele, murmurando contra o meu cabelo que eu era a luz dos olhos dele. Mas o amor de Kevin não conseguia preencher o buraco que a rejeição materna cavava dia após dia. Minha mãe não me tocava a não ser por obrigação. E, quando tocava, era com uma rispidez mecânica, como quem afasta um móvel fora do lugar. Houve a vez da bochecha vermelha, a marca dos dedos dela ardendo na minha pele durante horas, e a cumplicidade silenciosa de Eunice, a empregada que passava pomada de arnica no meu rosto enquanto eu mordia o lábio inferior para não chorar na frente do meu pai. Não conte ao papai, eu pensava. Ele fica com os olhos tristes quando a mamãe briga. A infância com ela cheirava a formol e exigência. Em São Paulo, para onde nos mudamos quando eu fiz seis anos, a casa nova era imensa e fria. Meu quarto tinha paredes lilás e um tapete felpudo onde eu costumava deitar para ouvir música no rádio, mas eu sentia que estava ocupando um espaço que não me pertencia. — Você nunca será uma princesa, Samantha — ela decretava diante do espelho do corredor, ajustando o próprio colar de pérolas. — Princesas são perfeitas. Você é apenas um fardo que eu sou obrigada a carregar. Acreditei nisso por muito tempo. Recusei vestidos cor-de-rosa. Evitei contos de fadas. Achava que o meu destino era ser a nota discordante na sinfonia da minha família. Até que eu acordei na casa da tia Hadi. Foi um sábado cinzento, de garoa fina, e eu fiquei na boate porque meu pai ainda não havia arrumado uma babá. Então, ele me deixava no escritório da boate, sempre com uma moça para me vigiar. Na época, eu tinha apenas oito anos. Aí, acordei em uma casa estranha no dia seguinte.  Estava em um apartamento menor, mais iluminado, onde o cheiro de café fresco misturava-se com o aroma de baunilha e livro novo. Olhei em volta, atônita, até encontrar uma mulher de pele escura como o céu noturno sem lua, os olhos amendoados brilhando com uma gentileza que eu nunca tinha visto em um adulto. — Bom dia, flor — ela disse, sorrindo de um jeito que desarmou todas as minhas defesas. Ela me chamou de flor. Minha mãe nunca me chamara de nada além de "problema" ou "menina". Hadiya não falava com aquela voz artificial e infantilizada que os adultos costumavam usar comigo na escola. Ela conversava de igual para igual, perguntava o que eu gostava de comer, ouvia com atenção quando eu tropeçava nas palavras por causa da minha fonoarticulação e, nos dias seguintes, mudou-se de vez para a nossa vida. Não demorou para que eu percebesse os olhares cúmplices, os sorrisos roubados e as mãos dadas escondidas entre o meu pai e ela. Hadiya não curou a minha genética. Ela curou o meu reflexo no espelho. Com ela, aprendi que o meu corpo — embora flácido na hipotonia que exigia horas de fisioterapia e balé para manter a postura erguida — pertencia a mim. Fui à escola, enfrentei os olhares tortos dos colegas que repetiam a palavra mongol nos corredores, e aprendi a erguer o queixo. Tive a proteção feroz de Jack, meu melhor amigo, cujos olhos verdes faiscavam de raiva toda vez que alguém tentava me diminuir. — Ela é mais inteligente que você, seu babaca! — Jack berrou uma vez na praça de alimentação do shopping, peitando um garoto do ensino médio que havia rido da forma como eu pronunciava as consoantes. Jack nunca me tratou como uma causa social. Ele brigava comigo por causa de controle de videogame, dividia fatias de pizza de calabresa comigo na calçada e conhecia o som exato da minha risada quando eu estava nervosa. Eu me apaixonei por ele em silêncio, de um jeito profundo e aterrorizante, guardando esse segredo no fundo das costelas por anos, com medo de que a amizade quebrasse se eu ousasse revelar o que sentia. E agora, aos vinte anos, olhando para trás através dos espelhos da faculdade de Letras onde estudo e dos textos que rascunho nos meus cadernos, eu entendo quem sou. Carrego três cópias do cromossomo 21. Tenho traços marcantes, uma dicção que exige atenção e uma sensibilidade que capta a maldade a quilômetros de distância. Mas também tenho uma mente afiada, um diploma universitário em curso, uma mãe que me ensinou o valor da dignidade e um pai que aprendeu, aos trancos e barrancos, a soltar a minha mão para que eu pudesse caminhar sozinha. Minha mãe biológica tentou sumir da minha vida depois de uma aparição patética e chorosa anos atrás, mas ela já não habitava os meus dias. O passado virou cicatriz. O presente, por outro lado, cheira a café, a papel impresso e ao perfume amadeirado que Jack usa todas as vezes em que vem me buscar na faculdade. E eu não tenho mais medo de desejar o futuro.

Capítulo 2 Samantha Martinez

Dias atuais… A vida tem um jeito curioso de pedir licença antes de desmoronar as nossas certezas. Ou, no meu caso, de reconstruí-las. Se me perguntassem há alguns anos, eu diria que o mundo era um lugar estreito, desenhado em tons de cinza e delimitado pelas expectativas alheias. Mas a verdade — e eu aprendi isso encarando o espelho todas as manhãs — é que a vida é incrivelmente ampla, vibrante e dona de um ritmo próprio. Eu me chamo Samantha Martinez. Tenho vinte anos, uma saúde de ferro, uma mente que não para de inventar histórias, uma mãe que é o meu porto seguro e um segredo guardado tão fundo nas costelas que às vezes me pergunto como minhas costelas ainda aguentam a pressão. O nome desse segredo é Jack. Jack é meu melhor amigo. Meu confidente. O cara que conhece o som exato da minha risada quando estou nervosa e que sabe decifrar minhas pausas quando a fala decide tropeçar na minha língua. Ele também é a criatura mais perigosa para a minha sanidade mental. Lindo de um jeito que desafia qualquer lógica. Cabelo castanho liso que insiste em cair sobre a testa, olhos verdes que mudam de tom conforme a luz — parecendo esmeraldas quando ele ri — e um corpo atlético de quem passa horas correndo ou nadando. Quando ele decide aparecer na minha casa sem camisa, com o peito suado brilhando sob o sol da tarde e as bermudas caídas na cintura baixa, o meu cérebro entra em curto-circuito. Eu tento desviar o olhar. Juro que tento. Olho para o vaso de samambaias, para o chão de cerâmica, para as nuvens no céu de São Paulo. Mas meus olhos têm vontade própria e sempre encontram o caminho de volta para ele. Ai, Jesus… — sussurro para dentro, sentindo o rosto esquentar. Muitas pessoas olhariam para nós e repetiriam o roteiro batido. Diriam que uma mulher com síndrome de Down — com meus traços marcantes, os olhos amendoados, o rosto arredondado e as bochechas que denunciam qualquer emoção — deveria se contentar com o básico. Deveria aceitar a amizade como o teto máximo do seu universo afetivo. Mas quem inventou essa regra nunca sentiu o estômago dar voltas quando a mão de um homem roça na sua pele. A trissomia do cromossomo 21 moldou o meu corpo e o meu ritmo de aprendizado, mas não roubou o meu direito de desejar, de amar e de queimar por dentro. Eu sou uma mulher inteira. E sei exatamente o que sinto. O problema não é o que sinto; é o peso do que isso pode custar. Se meu pai, Kevin, descobrisse o que passa na minha cabeça em relação a Jack, ele provavelmente acionaria o modo superprotetor em nível máximo. Meu pai me ama com uma devoção que às vezes sufoca. Ele passou a vida inteira me blindando das garras de um mundo preconceituoso, do trauma do abandono da minha mãe biológica e das armadilhas da rua. Mas, no fundo, Kevin ainda me enxerga através da lente da menina frágil que quase perdeu a vida numa internação hospitalar aos nove anos de idade. Lembro daquele hospital com uma nitidez dolorosa. O ar rarefeito, o peito fechado, o medo de não conseguir respirar depois de uma intoxicação alimentar grave. E, no meio daquele caos estéril, os olhos de Jack. Ele tinha nove anos, mas já trazia no olhar aquela calma firme. Ficou sentado na poltrona ao lado da minha cama todos os dias. Cantou músicas desafinadas, me contou histórias mirabolantes e segurou minha mão até o meu pulso parar de tremer. Ali, naquela cama de hospital, a amizade deixou de ser apenas convivência e virou raiz. Com o tempo, a raiz floresceu e virou algo bem mais perigoso. Minha mãe, Hadiya — a mulher de pele escura e olhos de veludo que escolheu ser minha mãe de verdade —, é a única que sabe de tudo. Foi ela quem enxugou minhas lágrimas no dia em que desabei, apavorada com a possibilidade de Jack nunca me olhar com outros olhos. — O amor não pede permissão para nascer, minha filha — Hadiya me disse, afagando meu cabelo com aquela paciência infinita. — E você tem tanto direito a ele quanto qualquer outra pessoa. Não deixe que o medo limite o seu coração. Minha mãe biológica tentou apagar minha existência antes mesmo de eu nascer e, anos depois, apareceu apenas para arrancar mais pedaços de mim antes de sumir de vez para uma cela de prisão. Mas Hadiya me costurou por dentro. Ela me ensinou que o meu valor não depende da aprovação de quem não soube me olhar nos olhos. Ainda assim, o mundo lá fora insiste em morder. Nunca vou esquecer o dia em que fui à casa de Jack para fazermos um trabalho da faculdade de Letras e acabei ouvindo o pai dele conversando na cozinha. As palavras vieram cortantes como vidro quebrado: "O garoto não deveria perder tempo com uma doente. Isso é um peso morto para o futuro dele." Naquele dia, Jack fez o que poucas pessoas teriam coragem de fazer. Ele peitou o próprio pai, gritou na sala de estar, disse que eu era dez vezes mais inteligente do que o homem jamais seria e que nunca, em hipótese alguma, se afastaria de mim. Ele me defendeu com unhas e dentes. Mas a frase ecoou em mim como uma sirene de alarme. Uma doente. Um peso. Eu não sou uma doença. Sou Samantha. Tenho sonhos grandes, quero escrever livros, quero viver a minha própria história, ocupar espaço, viajar, me apaixonar e ser correspondida. E, por mais que eu saiba o meu valor, o medo de ser vista como um fardo por quem eu amo continua ali, espreitando nos cantos escuros da mente. O som do portão da frente rangendo me tira dos devaneios. Afasto os pensamentos e olho para o pátio. É ele. Jack entra empurrando a bicicleta, a camiseta cinza ligeiramente amarrotada pelo vento e o cabelo castanho fora do lugar. Ele traz uma sacola de papel nas mãos e aquele sorriso de canto que tem o poder místico de desalinhar todo o meu autocontrole. — Achei que você estaria morrendo de tédio — ele diz, subindo os degraus da varanda com passos leves. — Então decidi chantagear o barista da esquina. — O que você fez? — pergunto, tentando manter a voz firme enquanto meu coração já disparou na maratona habitual. — Consegui o último milkshake de morango com pedaços de chocolate belga. O seu favorito. Ele estende o copo gelado para mim. Nossos dedos se roçam de leve na transição. É um contato mínimo, fugaz, mas a eletricidade que salta dali parece percorrer todo o meu braço até travar na base da minha nuca. Jack puxa uma cadeira e senta-se ao meu lado, os olhos verdes fixos no meu caderno de anotações aberto sobre a mesa de centro. — Vejo que a veia poética atacou de novo — ele comenta, apontando com o mento para as folhas rabiscadas. — O que está escrevendo dessa vez? Segredos de Estado? — Coisas minhas — disfarço, puxando o caderno rapidamente para perto do meu corpo e fechando-a com um movimento brusco. — Um dia desses você vai me deixar ler um poema seu, Sam. Prometo não rir da sua cara. — Um dia — replico com um sorriso desafiador, embora por dentro eu saiba que os versos que escrevo à noite trazem o nome dele em quase todas as estrofes. — Quando você merecer. Ele ri, jogando a cabeça para trás. É o tipo de som que me faz querer congelar o tempo e guardar aquele segundo numa caixinha de vidro. Ficamos em silêncio por alguns instantes, o vento morno da tarde balançando as folhas das árvores na rua. A proximidade dele é quase palpável. Consigo sentir o cheiro do sabonete misturado com o perfume amadeirado que ele usa — aquele detalhe íntimo que só quem convive de perto conhece. — Sabe… — começo, tentando soar casual enquanto brinco com o canudo do milkshake. — Você nunca fala sobre namoro. Nunca traz ninguém aqui, nunca comenta de rolo na faculdade. Parece um monge budista. Jack para de balançar as pernas. O sorriso relaxado em seu rosto se desmancha sutilmente, dando lugar a uma expressão mais densa. Ele desvia o olhar para o horizonte, onde o céu de São Paulo começa a ganhar tons alaranjados de fim de tarde. — Não é que eu seja monge, Sam. É só que… as coisas não são tão simples assim. — E o que seria simples? Ele vira o rosto devagar, encarando-me com uma intensidade que me falta o ar. Os olhos verdes parecem escurecer sob a luz dourada. — Eu gostaria de encontrar alguém que me fizesse perder o rumo — ele diz baixinho, quase para si mesmo. — Alguém que goste de conversar comigo até de madrugada, que entenda minhas manias, que não ache que eu sou perfeito e que me olhe do jeito… do jeito que eu sou de verdade. O mundo ao nosso redor parece encolher até caber no espaço entre nós dois. — Isso existe? — sussurro, com a voz falhando um pouco. — Acho que sim. — Jack engole em seco, desviando os olhos para as próprias mãos antes de voltar a me encarar. — O problema não é saber se existe. O problema é ter coragem de assumir quando a gente encontra. Fico imóvel. O milkshake perdeu o gosto. O barulho dos carros na avenida principal pareceu sumir. Tenho a impressão nítida de que ele está falando de mim, de que há um abismo invisível entre o que queremos dizer e o que ousamos pronunciar em voz alta. Mas antes que o silêncio se torne pesado demais, Jack balança a cabeça, sacudindo a tensão como quem acorda de um transe, e dá um sorriso torto. — Enfim… chega de filosofia de boteco. Vamos terminar aquele trabalho de acessibilidade da faculdade antes que o professor me dê zero. — Você só quer que eu faça a parte difícil — acuso, rindo nervosamente para camuflar o tremor nas mãos. — Descobriu meu plano secreto. Anda, traz os papéis para a mesa da sala. Passamos a hora seguinte espalhando folhas, livros e anotações pela mesa de centro. Trabalhamos lado a lado, com os ombros quase se tocando. A cada movimento, a cada esbarrão casual de braços, a minha pele formigava. Em determinado momento, enquanto eu lia em voz alta um trecho sobre inclusão urbana, notei que ele havia parado de anotar. Virei o rosto e o peguei me encarando fixamente, com o queixo apoiado na mão. — Que foi? — pergunto, sentindo as bochechas queimarem. — Você tem uma voz bonita, Sam — ele diz, com uma sinceridade crua que me desarma por completo. — Quando você lê sério assim… dá vontade de passar o dia inteiro ouvindo. Desvio o olhar para o papel, fingindo uma concentração extrema que não existe. — E você tem a mania irritante de me elogiar só para me deixar desconcentrada. Jack solta uma risada curta, calorosa. Mas, logo em seguida, vejo o maxilar dele travar de leve. Um rastro de sombra cruza o seu semblante, como se uma lembrança incômoda tivesse invadido a sala. — Tá tudo bem? — pergunto, tocando de leve o dorso da mão dele. É um gesto impulsivo. O calor da pele dele me faz estremecer, mas não recuo. Jack olha para a nossa mão conectada por um segundo antes de erguer os olhos para mim. Há um peso ali, uma hesitação contida que eu conheço bem. — Tá sim, pequena — ele murmura, usando o apelido carinhoso de sempre, mas com um tom diferente, mais grave. — Só… pensando em algumas cobranças da vida. Coisas do meu pai. Deixa para lá. Ele não entra em detalhes, e eu não pressiono. Respeito o espaço dele da mesma forma que ele respeita o meu. Mas a pontada de preocupação fica ali, suspensa no ar. Mais tarde, já recolhida no meu quarto, com a luz abafada do abajur iluminando as paredes lilases, pego meu diário. A caneta desliza pelo papel com urgência: “Ele sente. Eu vejo nos olhos dele, no jeito como ele me protege, na forma como ele me olha quando acha que estou distraída. Mas há uma muralha invisível entre nós — o medo dele de estragar tudo, o meu medo de perder o meu melhor amigo. Se eu contar o que sinto e ele recuar, eu não sei se consigo juntar os cacos. Mas viver fingindo que ele é apenas um irmão ou um colega está se tornando insuportável. Até quando vamos dançar em volta desse fogo sem nos queimar?” Fecho o caderno com cuidado e apago a luz. Na penumbra do quarto, fecho os olhos e imagino por um segundo o que seria se eu tivesse a coragem que tanto exibo nos meus textos. Jack é o meu porto seguro, meu cúmplice, meu maior desejo silencioso. E, enquanto o sono não vem, decido que, por mais assustador que seja, vale a pena arriscar o coração.

Capítulo 3 Samantha Martinez

Meu pai me amou antes mesmo de eu nascer, desde o instante em que soube que eu traria um cromossomo a mais na bagagem. Já a mulher que me gerou quis me apagar do mapa na primeira oportunidade. Nunca vou entender como alguém consegue olhar para um filho e desejar o oposto. Claro, existem situações extremas — li recentemente sobre mulheres que engravidam em decorrência de violência sexual, e nessas circunstâncias trágicas a escolha do aborto é um direito legítimo e humano. Mas o que aconteceu comigo foi pura rejeição à diferença. Magda perdeu o direito de ser chamada de mãe no momento em que escolheu a vergonha em vez do afeto. Eu não sinto ódio dela. Hadiya me ensinou que o rancor é um peso desnecessário para carregar na mala da vida. Quem perdeu foi ela, que deixou de conhecer o tamanho do meu coração. — Meu amor, você está em que mundo? — a voz de Kevin me puxa de volta para a realidade da sala de jantar. — Estou aqui falando com você há cinco minutos e você nem pisca. O que essa cabecinha está maquinando agora? Sorrio de lado, disfarçando. — Ah, papai… estava só pensando em como eu tenho a sorte de ter a melhor família do mundo. Ele abre um sorriso largo, com os olhos brilhando daquele jeito protetor que eu conheço de cor. — Ah, minha linda, você é a melhor filha do mundo. Tenho muito orgulho da mulher que você se tornou. Dou ênfase estratégica à palavra que ele acabou de usar: — Mulher, papai. Eu não sou mais uma garota, já tenho vinte anos de idade, sabia? Só falta arrumar um bom namorado para a minha vida ficar completa. O garfo de Kevin trava no ar. O rosto dele passa por três tons diferentes de surpresa antes de se fechar numa expressão de puro pânico defensivo. Olho de relance para Hadiya, que morde o lábio inferior para conter a gargalhada, enquanto Kelly, meu irmão, cruza os braços com ares de xerife. Se depender dos dois, vou passar o resto da vida sob escolta armada. — Você não vai namorar ninguém, dona Samantha — Kelly dispara, balançando a cabeça. — Nem pensar. Nunca! — Kevin recupera a fala, erguendo a mão como se estivesse barrando a entrada de um intruso. — Você ainda está muito jovem para pensar em bobagens, me ouviu, minha filha? Se estiver alimentando ideias desse tipo, trate de tirar da cabeça, porque a minha bebê não vai namorar ninguém. Cruzo os braços, sentindo o sangue esquentar nas veias. — Pai, uma hora isso vai acontecer. É melhor vocês dois se acostumarem logo com a ideia. Tenho vinte anos, sou uma mulher adulta, não uma boneca de porcelana! Os dois homens da casa precisam aceitar que eu tenho direito à minha própria vida amorosa. Kevin abre a boca para contra-atacar, mas Hadiya é mais rápida. Ela limpa a boca com o guardanapo, joga um olhar definitivo para o marido e para o enteado e assume o comando da mesa: — Chega. Vocês dois escutem aqui: a Samantha já é uma mulher feita, e é bom irem se acostumando com a ideia. Ela pode aparecer com um namorado a qualquer momento. E quer saber? Ela namora quando quiser. E você, meu amor, não vai fazer absolutamente nada para impedir, ouviu bem, Kevin? Minha mãe é uma força da natureza. Olho para ela com uma onda de gratidão gigante no peito. — Eu não quero falar sobre isso, não quero ver minha filhinha com homem nenhum e ponto final! — resmunga meu pai, cruzando os braços com um bico infantil que me dá vontade de rir. — E que eu saiba, você nem gosta de ninguém, Samantha. Tenho amigos na sua faculdade, queridinha, então pode apostar que, se estivesse rolando alguma coisa, eu saberia. Meus olhos quase saltam das órbitas. — Pai! Você colocou espiões na minha faculdade? Eu não acredito nisso! Dá-me paciência! Ele tem muita sorte de eu estar completamente apaixonada por Jack e não querer saber de mais ninguém. Já apareceram outros rapazes na faculdade tentando puxar conversa ou me chamar para sair, mas nenhum deles mexe com a minha estrutura. Meu coração tem dono, e ele responde pelo nome de um moreno de olhos verdes intensos que insiste em bancar o meu melhor amigo. Horas mais tarde, já deitada no escuro do meu quarto, o teto lilás parece refletir apenas o rosto dele. No meu amor. Como eu queria estar com ele agora, deitada no sofá da sala, ouvindo música e sentindo o calor do corpo dele perto do meu. É uma droga não conseguir desligar o interruptor dos meus sentimentos. A Bia, minha melhor amiga, vive dizendo que eu preciso tomar uma atitude antes que outra garota perceba o partidão que o Jack é e leve ele embora. Só de imaginar uma garota estranha flertando com ele, meu estômago se contrai num nó doloroso. Será que, se eu me declarar, ele vai se afastar? O medo de perder a amizade dele pesa como chumbo. Prefiro o tormento de amá-lo em silêncio a ter que conviver com a ausência total de Jack na minha vida. É horrível me sentir presa a esse dilema. A Bia tem aquela audácia natural: se quer um cara, chega nele e fala; se não quer, inventa um namorado imaginário sem piscar. Mas eu carrego outras inseguranças. Sei que sou diferente. Embora eu me olhe no espelho e goste do que vejo — acho minhas bochechas marcadas e meus olhos puxados cheios de personalidade —, o mundo lá fora é cruel. Já ouvi comentários maldosos de garotas na faculdade cochichando nos corredores, dizendo absurdos sobre o fato de um rapaz como o Jack andar comigo. Pessoas vazias que tentam diminuir o que não conseguem compreender. Eu não sou feia. Eu não sou um fardo. Sou inteira. Outro ponto que me consome é a tal boate que pertence ao meu pai e ao tio Matheson. Kevin age como se aquela porta fosse proibida para mim até o fim dos meus dias, repetindo que sou muito nova, que o ambiente é perigoso, que eu sou inocente demais. Com o Thiago eles não implicam, penso irritada. Thiago é homem, então pode tudo; eu sou mulher com síndrome de Down, logo, preciso viver empacotada em plástico-bolha. Conversei com a tia Lara e com Hadiya sobre isso tempos atrás. Tia Lara brincou que eu só frequentaria a boate aos trinta anos, mas Hadiya interveio e me deu o aval agora que fiz vinte. O problema real vai ser convencer o meu pai a soltar a coleira. Se eu simplesmente aparecer lá com meus amigos da faculdade, ele vai ter um piripaque na hora. Mas preciso começar a ocupar meu espaço. Se os pais continuarem blindando os filhos de tudo, as pessoas com deficiência nunca vão criar asas. Eu frequento um grupo de apoio e vejo isso o tempo todo: jovens adultos mantidos em redomas pelos familiares, impedidos de errar, de crescer, de viver a própria humanidade. Nós temos limitações, sim, mas temos direito à autonomia. Somos down, não doentes. E, se um dia eu tiver a coragem de contar ao meu pai que amo o Jack — e que o Jack é muito mais do que um amigo —, vai ser uma verdadeira guerra mundial. Especialmente considerando que o pai do Jack nos odeia abertamente só por causa do meu cromossomo a mais. Até quando o preconceito vai ditar as regras do afeto? Quero um futuro onde o mundo seja mais limpo de maldade, onde eu possa caminhar de mãos dadas com quem eu quiser, sem que as pessoas fiquem apontando ou destilando veneno. Inclusive, quando saio com a Hadiya, percebo olhares tortos na rua. E o pior: muitas vezes o preconceito nem é por causa da minha síndrome, mas sim pelo racismo nojento contra a minha mãe, uma mulher negra que construiu uma história linda ao lado de um homem branco. Dá vontade de gritar com essa gente tacanha. Mas escolhi a via da paciência, embora por dentro o meu fogo queime forte. Aprendi da pior forma que nem todo mundo que sorri é amigo. Tive uma colega na época da escola que fingia ser gentil comigo, mas depois descobri que ela só falava pelas minhas costas, dizendo que me aturava "por pena". Pena de quê? Eu não preciso da caridade emocional de ninguém. A família do meu pai também carrega suas cicatrizes. Minha avó paterna nunca quis pisar na mesma calçada que eu; pelo que escuto dos sussurros em casa, ela é uma mulher amargurada que nunca aceitou o fato de o meu pai ter se apaixonado por Hadiya — que, ironicamente, trabalhou em sua casa no passado antes de o amor falar mais alto. Minha avó tentou destruir a vida deles e, de quebra, me rejeitou antes de eu dar o primeiro suspiro. Apesar de tudo isso, nós vencemos. Temos a vovó Alabar, temos minhas tias que amam a Hadiya como irmã, temos uma rede de afeto real. Deixamos o veneno do mundo lá fora e construímos um santuário de amor dentro de casa. Agora, só falta convencer o meu pai de que eu cresci. E fazer o Jack olhar para mim não apenas como a garotinha que ele protegeu no hospital, mas como a mulher que está pronta para amá-lo de corpo e alma.

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