Meu CEO
Capítulo 1 O CEO

Já pensou no que faria se alguém esbarasse em você e, simplesmente, fosse embora como se você não existisse? Emma sempre foi uma garota tímida, que sabe de tudo, mas que não tem amigos. Quando se formou na faculdade, só pensava em fazer o que amava e trabalhar tranquilamente na frente de um computador. Mas, em um dia fatídico, ela é praticamente atropelada por um anônimo que vai embora sem ao menos lhe pedir desculpa, deixando para trás um único objeto: o seu celular. Desejando se vingar dele usando o seu conhecimento, Emma invade o telefone do desconhecido e tenta, a todo custo, descobrir quem é o homem alto, de ombros largos e arrogante que a deixou no chão como se não existisse. O problema é que o estranho não é tão anônimo e, pior, é o novo CEO da empresa onde ela trabalha. Ian não é o mais simpático dos homens e todos odeiam sua arrogância, mesmo sendo novo no trabalho. Depois que esbarra em uma mulher na rua, ele não imagina que sua vida ficará de pernas para o ar. Ao receber de volta o celular que achava ter perdido, começa a receber mensagens de uma anônima que não tem papas na língua. Porém, o problema nisso tudo é que ela não quer ser descoberta e Ian não descansará até encontrar a única mulher que o desafia e não tem medo dele; pelo menos na internet. Um jogo de gato e rato começa entre os dois. E, no fim, quem vencerá? Emma O dia começou bem difícil. Dormi tarde porque estava empolgada criando um software, portanto me me atrasei nesta manhã, não tomei café e perdi o metrô. Fiquei vinte minutos esperando o próximo e, quando ele chegou, não tinha lugar para me sentar. Apesar de ter acordado quase agora, meu corpo ainda está cansado. E, depois do trabalho, ainda tenho que correr com Bia, que está me forçando a fazer essa atividade todos os dias depois do trabalho. Agora estou quase correndo para chegar a tempo para o meu turno no emprego. Meu chefe não é tão ruim, mas odeia atrasos. E, mesmo sabendo que Victor não dirá nada a ele sobre isso, não posso me arriscar. Estou quase na porta giratória que dá acesso ao prédio, quando uma parede bate em mim e eu caio de quatro no chão. Olho para cima e vejo que o filho da puta, que nem olha para trás, corre para entrar no prédio. Não dá para ver direito quem é. O que me deixa ainda mais furiosa. Ainda no chão, vejo um aparelho celular caído. Ele deve ter deixado cair. Levanto-me, pensando que se o dia começou assim, nem posso imaginar o que mais pode acontecer. Pego o celular e volto a andar. O homem deve ser um daqueles idiotas que trabalham no topo da empresa e se acham os donos do mundo. Não é porque fico em uma sala fria e sem graça, que mereço ser tratada dessa forma. Passo pela porta e, como de rotina, mostro meu crachá à Molly, que já me conhece e sabe do meu ódio por esse ritual desnecessário. Ela sorri e libera a minha entrada, mas antes de eu seguir para o meu setor, resolvo perguntá-la sobre o brutamonte que passou na minha frente. — Molly, você sabe quem é o cara que entrou como um furacão antes de mim? — Nunca o vi aqui antes, mas parece que um executivo chegou e todos estão pisando em ovos. — Claro. Eles se acham os donos do pedaço. — falei irritada. — Obrigada, Molly! Agora, tenho que ir, ou me atrasarei ainda mais. Ando até o meu setor, o de engenharia, e dou de cara com o responsável por ele, meu chefe querido. Passo ao lado dele com uma cara de culpada, entretanto ele não fala nada, e dou graças a Deus por isso. Ocupo minha cadeira em frente aos computadores e olho para Victor, que está concentrado em algo. No entanto, sei que notou a minha presença. — Você tem sorte de ser a melhor no que faz, Emma. Se não fosse assim, o senhor Milton te colocaria na rua. — Dá um sorrisinho de lado. — Nem me atrasei tanto. — tentei me defender. — Mas ele é paranóico com isso e eu já te cobri duas vezes. — Estica-se para me olhar. Dou um sorriso e começo o meu trabalho. Minha atenção hoje está no celular que peguei. Irei devolvê-lo, mas é claro que tenho que descobrir primeiro quem é aquele homem que mais parecia um prédio quando passou por mim. Foi um grosso por ter me derrubado e não me pedido desculpa. Entregarei seu telefone de volta, porém também vou irritá-lo e ele nem saberá quem foi. Deixo minha investigação sobre o senhor arrogante para o meu horário de almoço, pois já cheguei atrasada e não quero o senhor Milton me dando uma bronca por mexer no celular. *** Pego o aparelho e vou almoçar. Sento-me na cantina do prédio, peço o meu prato, recosto minhas costas na cadeira e começo a vasculhá-lo. Sempre fui boa com equipamentos de softwares. Já me coloquei em situações horriveis, todavia hoje sou boa no que faço. É por isso que trabalho nesta empresa e sou pioneira em proteção de dados aqui, nos Estados Unidos. Minha curiosidade fala mais alto do que a moral de não mexer no que não é meu. É facil invadir o celular e, logo de cara, vejo um papel de parede fofo: um cachorrinho branco bem pequeno que está olhando diretamente para a câmera. Fico pensando em como um cara tão bruto como aquele pode ter um animal de estimação. Deveria ser proibido. Esse cachorro deve estar precisando de ajuda. Meu pedido chega e eu almoço enquanto olho a galeria dele. Espero não ter nada tão comprometedor aqui. Deus me livre ver um nude de um desconhecido! Abro as fotos e vou passando uma por uma, vendo pessoas em festas, duas senhoras que podem ser sua mãe é avó, e um senhor que acho que já vi em algum lugar. Nada de muito importante. Até que chego em uma selfie. Puta merda! É ele! Até me engasgo com a bebida. O cara é lindo. Não! Lindo é pouco. A foto é dele depois da academia. Nossa! Suado fica um pecado. Seus cabelos pretos estão caídos sobre o seu rosto quase pálido e seus olhos azuis parecem penetrar a minha alma. Arrasto o dedo para o lado, a fim de ver se há outras fotos dele. Constato que, Graças a Deus, têm muitas. O senhor arrogante tem músculos incríveis e fica perfeito de terno. Vejo o horário e noto que meu tempo de refeição está acabando. Vou deixar para vasculhar mais coisas depois que eu sair do trabalho. Talvez enquanto eu estiver no banho. Por Deus, Emma! Não seja tão pervertida! Guardo o celular no bolso e volto para o meu setor. Minha mente não sai do homem que vi nas fotos. Sei que ele foi um idiota, contudo não posso deixar de apreciar sua beleza. Será que é tão arrogante e imbecil relmente? Podia estar tão atrasado e distraído, que nem tenha me visto em sua frente. Não! Não posso arranjar desculpas para ele. Não sou tão pequena e insignificante assim. E apesar de ser um pouco estranha e me vestir como uma adolescente problemática, tenho o meu valor. Não vai ser um menino riquinho com um corpo de deus grego que vai me derrubar. Deixarei isso para lá, descobrirei quem ele é e lhe devolverei o telefone, porém não como o deixou quando derrubou. *** Chego em casa e coloco minha roupa de corrida. Não sou de fazer muitos exercícios, mas Bia pretende ficar com o corpo definido e não quer fazer isso sozinha. Só corro para relaxar, já que não tenho ninguém para ver o resultado de tanto esforço. Mesmo sabendo que não deveria penssar dessa forma, penso. Não demora muito para que ela chegue batendo na porta do apartamento. — Vamos logo! Temos que correr o dobro hoje. Não resisti e comi duas fatias de torta. — avisou desanimada. — O quê? — Ela só pode estar alucinando. — Você quer me matar? — Deixe de ser sedentária! — Puxa o meu braço até me fazer passar pela porta. Mesmo não querendo correr tanto, saio de casa. Como estou com muita coisa na cabeça, usarei esse tempo para pensar em uma forma de fazer o gato arrogante pagar por ter me deixado no chão. Logo começamos a andar e, depois, a correr. Passamos por muitos lugares durante a corrida. — Então... O que fez hoje além de se sentar na frente de um computador para olhar números e coisas bizarras que não entendo? — Bia perguntou ofegante. — Você não vai acreditar. — Mostro-me bem empolgada com a novidade. — Eu me atrasei de novo, mas o pior é que quando eu estava entrando no prédio, um cara esbarrou em mim e foi embora como se nada tivesse acontecido. — Não estou entendendo. A notícia é ruim e você está com um sorriso no rosto. É meio masoquista. — Mantém o cenho franzido. — O cara deixou o celular cair. — ignorei sua ironia. — E agora ele está sob o meu poder. — Tento não ficar empolgada demais. — Sabe, Emma? Quando digo a você para arranjar um namorado, é exatamente por isso. — Lá veio mais uma ironia. — Alguém esbarra em você e, como uma maluca, rouba essa pessoa e sorri como uma psicopata? Estou ficando preocupada. — Não encha, Bia! Vou devolver o celular dele. Mas também vou me vingar do idiota. — Reviro os olhos. — Podemos ver um filme se acha que sua noite está tão ruim. — Será que dá para me apoiar nisso? — reclamei. — É a primeira vez que faço algo assim, e nem sei quem é o homem. Posso ser demitida, já que ele é, provavlmente, um dos executivos. — Eu curto sexo selvagem e você é fora da lei. Facinante! Ainda não sei por que somos amigas. — brincou. Bato de leve em seu ombro e continuamos a corrida. Bia, como uma tagarela, prossegue brincando com a história, deixando-me um pouco irritada. Quando começa a falar algo sobre o seu trabalho, agradeço. *** Estou na banheira, quando pego novamente o celular para o vasculhar e descobrir mais sobre o homem. Quero achar seu nome, porém não consigo ser tão fora da lei e ir direto à sua caixa de mensagens ou e-mail. Bia sempre fala que sofro da “síndrome” de ser certinha demais. E é verdade. Apesar de poder e conseguir entrar em muitos computadores e redes de dados, nunca faria isso. Já me ferrei uma vez ao ser culpada por algo que não fiz, e hoje tenho esse trauma. Decido ligar para alguém e rezo para que essa pessoa fale pelo menos o nome dele. A quantidade de contatos femininos é enorme. E não é para menos, já que ele é lindo. É lógico que pega todas que quer. Aposto que com uma ou duas chamadas, alguma delas atenderá, desesperada para sair com ele novamente. Resolvendo colocar minha teoria em prática, clico em um número com o nome de “Ariana”. A ligação começa a chamar uma, duas vezes... — Ian! — falou a voz feminina muito empolgada, no outro lado da linha. Um sorriso de satisfação toma o meu rosto. — Desculpe! Não é o Ian. — tentei disfaçar a minha voz para o caso de, futuramente, isso ser usado contra mim. — Quem é e por que está me ligando do celular do Ian? — perguntou furiosa. Eu penso um pouco na resposta e minha mente diabólica organiza um roteiro fora do comum para a Emma sem graça. — É que eu queria ouvir a voz da vadia que está atrás do meu namorado. Quero lhe avisar para ficar longe dele se não quiser perder seus peitos falsos e todas as plásticas mal feitas do seu rosto. — falei em um tom de irritalção e bem mais alto do que normalmente falo. Não sei de onde isso está vindo, mas se demorar muito, acabarei rindo e pondo tudo a perder. — Olhe aqui, querida! Se o seu namorado fica atrás de mim, a culpa não é minha. — rebateu alterada. — Meu Ian não fica atrás de mulheres; são as vadias que ficam atrás dele. Espero que esse recado sirva de lição para que não chegue perto do meu homem! E pode dizer a todas as suas amigas que farei o mesmo com elas caso as veja a cem metros dele. — Desligo a chamada. Deus! O que deu em mim e por que fiz isso? Meu coração bate a mil por hora, como se estivesse prestes a sair pela boca. Agora sei como se chama o dito cujo. Mas, Ian do quê? Fuço ainda mais o telefone e não acho nada que ligue esse nome ao seu sobrenome. Talvez amanhã eu lhe investigue na empresa. Por enquanto, botarei meu plano em ação. Entro novamente na galeria e começo a editar as fotos. É claro que algumas só edito as cópias, já que não sou tão cruel. Depois volto aos contatos e mudo os nomes das piranhas por coisas engraçadas. Acho que ele ficará puto com a bagunça que estou fazendo. Não ouso ir às suas conversas particulares, porque isso é muito pessoal e não quero invadir sua privacidade. Já basta o quanto estou invadindo. Sei que para alguém que pode fazer o que faço, invadir é o objetivo, entretanto tenho os meus limites. *** Acordo cedo e nem tomo café. Depois do banho, coloco roupas que não são muito chamativas, pois nunca gostei de chamar a atenção para o meu corpo. Saio na rua e ando até o metrô com uma pequena caixa na mão. Dentro dela, está o celular. Descobrirei quem é o Ian antes do almoço e lhe entregarei o aparelho depois. A única pessoa naquela empresa que sabe até os segredos mais sujos dos chefões, é Ágatha. Ela é uma das secretárias dos executivos que ficam no topo do prédio. Se há alguém que sabe quem é o bonitão arrogante, é ela. Após sair do metrô, ando algumas quadras até o trabalho. Hoje ele não veio me derrubar. Que pena! Eu poderia xingá-lo pessoalmente. Terei apenas que imaginar sua reação ao ver o que fiz no seu celular. Além da capa de glitter rosa com enfeites que coloquei nele, baguncei os contatos e editei as fotos. Poxa! Será uma boa cena. Passo pela recepção, vou para o meu armário e coloco a caixa no fundo do espaço, com medo de que alguém me veja e me denuncie quando o telefone estiver nas mãos dele. Em seguida, sigo para a cantina e peço um café expresso. Logo avisto Ágatha, que está sentada com outras duas secretárias, tendo uma conversa bem animada. Não sou amiga delas. Na verdade, a quantidade de amigos que tenho, posso contar nos dedos. Para todas essas pessoas, sou a garota estranha, igual era no ensino médio. Embora esteja em boa forma, não tenho roupas chamativas ou sexies e opto por não usar brincos ou colares. Contudo, faço algumas tatuagens quando sinto vontade. Ágatha, por outro lado, é uma mulher linda, de trinta e dois anos, que veste roupas chiques e está sempre de saltos. Ela mexe no seu cabelo liso de cor escura como se estivesse em um comercial e eu fico só adimirando sua beleza enquanto ando até elas. — Emma, como vai? — perguntou de forma simpática. Ainda por cima, a mulher tem simpatia. — Estou muito bem, Ágatha. Obrigada! — Dou um sorriso tímido. — Como vocês estão? — falei com as outras só para não parecer rude ou fofoqueira. Elas sorriem e falam, juntas, que estão ótimas. — Meninas, eu queria perguntar se vocês já viram um homem por aí. Sei que seu primeiro nome é Ian, que ele tem pelo menos 1,90 de altura, cabelos negros, olhos azuis... — Tem pinta de arrogante? — Ágatha acrescentou. — Sim. — confirmei feliz. — Você já o viu por aí? — Se eu já vi? Menina, quem não viu esse homem? E, que homem lindo! É um deus grego, mas muito estressado e mal- humorado. Está sempre dando ordens e sendo arrogante. Eu já sabia que ele não era uma boa pessoa, no entanto queria que alguém, pelo menos, dissesse algo de bom dele, para que eu não me sentisse tão mal por desejá-lo. — Quem é ele, Ágatha? — questionei, bastante curiosa, sentando-me no meio delas. — É o mais novo chefe, querida. Ian Novack. É o filho de Robert Novack e assumiu a empresa depois que o pai sofreu o acidente e ficou em coma. Estou paralisada. Ele é o chefe? O dono de tudo aqui? Porra! — Você está bem? — perguntou ao ver minha pele mais pálida do que o normal. — Ele te fez algo? — Não. Eu só o vi por aí. Parecia que tinha comido algo estragado. — Ainda estou tentando me recuperar. — Ele está assim desde que assumiu os negócios. — Revira os olhos. — O que tem de lindo, tem que mal-educado. — Ok, meninas. Tenho que trabalhar agora. Obrigada pela informação! — Levanto—me e saio de perto delas. Meu Deus! Ian é o CEO da TEC Corporation?! A minha ansiedade está fazendo com que minhas mãos soem e meu coração acelere. Acho que não posso entregar o celular do meu chefe, pois não quero irritá-lo. Mas, ao mesmo tempo, ele é um grosso com todo mundo. Seu pai está em coma, porém isso não justifica seu modo de tratar as pessoas. O conflito em meu peito pode até me causar um infarto se eu continuar pensando nisso. Não posso desistir agora. Afinal, ele não saberá quem sou e não sabe nem que existo. Vou trabalhar e, após o almoço, levarei o pacote para a recepção. Depois, ele que se vire! O que irá deixá-lo ainda mais irritado. Não sei se isso me deixa feliz ou com mais medo. Volto do restaurante com o pacote, levando-o na bolsa para que ninguém perceba nada, entro no prédio com ele na mão e vou até a recepção, onde vejo Molly. Minha língua parece presa, mas não posso desistir agora. Seria errado ficar com o aparelho. — Molly, uma moça me entregou este pacote agora a pouco e disse que é para o entregar ao Ian Novack. Ela parecia muito irritada e nem quis entrar. — Entrego-lhe. Odeio mentir, e não faço isso com frequência; só quando preciso muito.

Capítulo 2 Vou acreditar em você

— Quem é Ian Novack? — questionei. — Lembra do homem por quem você me perguntou ontem e eu também não sabia quem era? — Afirmo com um aceno de cabeça. — É ele, o novo chefe. Dizem que é muito arrogante. Ian é muito famoso por essa atitude, no entanto não parecia ser um brutamonte quando falei com a piranha no telefone. — Entendi. Então, você pode entregá-lo? — Pedirei para que Mila entregue. Ela é secretária dele. — Coitada! — Rimos. Sigo para o meu posto. Não quero ver o homem pessoalmente. Provavelmente, ele vai querer me matar quando souber o que fiz. Ian Meu dia foi cheio para a merda e minha cabeça está doendo. Tive duas reuniões demoradas e ainda tenho papéis para ler e assinar. Olho para o relógio e constato que são sete e meia. Está na hora de eu ir embora e nem está perto de terminar o que tenho para fazer. Sendo assim, acabo optando por deixar o restante dos afazeres para amanhã. Esse trabalho está me matando e ainda tem a preocupação com meu pai, que está em coma há dois meses. Os médicos não têm uma previsão de quando — e se — ele acordará. Não quero perdê-lo. É um bom pai e sempre esteve ao meu lado, mesmo quando eu cometia algum erro. Agora, a minha obrigação é cuidar dos negócios da família. Algo que está me estressando muito. Vivo com dor de cabeça e com as preocupações invadindo minha mente, fazendo-me perder a razão. Notei que aqui, na empresa, todos estão correndo de mim. Também... Estou sempre dando ordens e de mau humor. Com toda a certeza, eles me odeiam. E, olha que só estou aqui há uma semana. Ontem mesmo esbarrei em alguém e nem parei para ajudar a pessoa. Estava tão cheio e atrasado para uma reunião, que isso não tinha passado pela minha cabeça. Até agora. Escuto batidas leves na porta e vejo minha secretária entrar. Ainda não decorei seu nome. Na verdade, não decoro nomes de mulheres, porque costumo sair com tantas, que todos se misturam. Ela está com um pacote na mão e eu tento, a todo custo, não apreciar as curvas do seu corpo no vestido azul-escuro. — Senhor Novack, alguém pediu para que lhe entregassem isto. — Coloca a caixa sobre a mesa. — Quem pediu? — Estou pensativo. O pacote é estranho e eu não sabia que receberia algo hoje. — Não sei, senhor. Foi entregue na recepção. A pessoa nem quis entrar para entregar e demonstrava estar chateada. — Exibe preocupação no rosto. Olho para a caixa com curiosidade. Quem me entregaria isso? A mulher sai da sala, fecha a porta e eu a abro. Fico surpreso ao ver um celular. É igual ao que perdi depois de esbarrar naquela pessoa. A capa rosa cheia de glitter chama a minha atenção e me leva a pensar que alguém está pregando uma peça em mim. É tudo muito estranho. Quem me entregaria um pacote tão desleixado contendo dentro um aparelho cheio de purpurina? Pego- o, ligo-o e me surpreendo quando vejo meu papel de parede. É o meu próprio celular, o qual deixei cair, sendo devolvido para mim. Está cada vez mais esquisita a situação. Curioso, desbloqueio a tela e vejo se tudo está como deixei, porém me surpreendo ao descobrir que a tal pessoa bagunçou tudo nele, trocando os nomes dos contatos e editando fotos com frases irônicas. Quem fez isso? A minha preocupação passa a ser de que tenham roubado alguma informação minha, prejudicado alguns dos meus projetos ou até mesmo pegado dados importantes. Mais surpreendente do que receber meu celular de volta com um possível roubo de dados, é ler a mensagem que acabou de chegar. “Então, bundão... Gostou do que fiz no seu celular? Talvez, na próxima vez, preste mais atenção e não esbarre em pessoas aleatórias na rua, deixando-as com a bunda no chão.” Não sei se é pela ironia ou pelo cansaço em meu corpo, mas rio do que leio. Seja lá quem for, tem bom humor. Contudo, logo noto que pode se tratar de alguém perigoso que me hackeou para conseguir informações minhas. “Você, estranho, está tentando me chantagear para me roubar mais coisas?” O mais irônico de tudo é que comando uma empresa que tenta evitar esse tipo de situação. Se o dono foi uma vítima, imagine os clientes. Talvez a pessoa esteja querendo me derrubar ou provar que não fazemos um bom trabalho. O que não posso permitir. O engraçado é que não sou respondido. O meu tom de rispidez deve ter assustado o provável hacker. Decido deixar essa história um pouco de lado. Estou cansado e não penso muito bem quando minha cabeça está cheia. Coloco o celular no bolso e entro no elevador, segurando os papéis que eu deveria deixar para lá, mas decidi levar para casa. Quero concluir alguns trabalhos antes que cheguem mais na manhã seguinte. Como um idiota curioso, pego o telefone às pressas assim que o sinto vibrando. “Senhor bundão, se eu quisesse prejudicar você ou roubar seus dados, não precisaria me esforçar tanto. Além do mais, devolvi seu aparelho. Deveria me agradecer por ser mais gentil que o senhor.” Não sei se isso me tranquiliza. Apesar de louca, essa pessoa pode estar certa. Dentro deste aparelho tem contatos de gente importante na minha agenda. O que seria o bastante para me dar uma bela dor de cabeça. “Não posso agradecer a uma pessoa que não conheço e que, principalmente, mudou tudo no meu celular.” Não obtenho resposta. Assim que chego no térreo, meu motorista já está à minha espera. Entro no carro, ainda pensando no acontecido. Minhas roupas estão cheias de glitter. E, pensando bem nos detalhes, quem está fazendo esse jogo comigo deve ser uma mulher. Glitter, capa rosa... Sem falar da pequena estatura da vítima que foi ao chão no dia anterior. Como se esse acontecimento fora do comum já não fosse preocupante, ainda tenho a preocupação com o meu pai, que está em uma cama de hospital. Não se vai ou não acordar. Desde o seu acidente, martirizo-me por não ter lhe ajudado da forma como queria e por não ter sido mais presente. Algo que, provavelmente, teria evitado todo esse problema. É por isso que estou tão dedicado agora. “Posso até sentir sua arrogância de onde estou. Entendo que é um homem ocupado, mas deveria ser mais gentil às vezes. Assim, talvez, fosse procurado por afeição, e não por interesse de piranhas siliconadas.” Sinceramente, estou com alguma coisa errada na cabeça, pois rio do seu sarcasmo. Não foi nada demais, apenas uma provocação descabida, porém é algo que me alegrou. “Quem é você e qual é o seu nome? Estou achando que é uma adolescente rebelde que acha que pode brincar com um estranho.” “Alguns diriam que, de acordo com minha estatura e tipos de roupas que uso, poderia ser realmente uma adolescente. Mas, não se preocupe! Não será processado por abuso de menores. E, quanto ao meu nome, nunca saberá. Não quero nem que sua boca suja o pronuncie. Para meios de comunicação, pode me chamar de Birdpink.” “Que raio de nome é esse? Aposto que não é muito criativa.” “Não sou. Por isso falei algo que estou vendo em um pôster, no metrô.” “Acha que conversar de forma irônica comigo vai me punir pelo que fiz? Porque não estou exatamente irritado. Achei que fosse alguém perigoso, mas vejo que é apenas uma mulher que deseja um pouco de atenção. E, para falar a verdade, estou me divertindo.” “Está me chamando de egocêntrica? É você quem está se aproveitando do meu tempo.” “Foi você quem começou a mandar mensagens, passarinho.” “Foi uma péssima ideia.” A conversa que começou estranha está me distraindo do dia tedioso que tive. Acho que o passarinho está mais irritado do que eu. “Desculpe-me por ter a derrubado ontem. Foi uma grosseria não ter a ajudado. Na verdade, isso teria acabado com o mistério, passarinho. Você me deixou curioso para saber qual é o seu rosto.” Ela não me responde imediatamente e eu me surpreendo pela minha espera ansiosa. Nem tinha notado que o carro já estacionou na garagem do prédio e devo confessar que quero continuar a troca de mensagens. No elevador, fico tentando imaginar a mulher com quem me esbarrei. Se eu não tivesse sido tão desatento e, como ela mesma disse, um bundão, poderia saber sua identidade. Talvez seja uma estranha que, ocasionalmente, estava passando pela TEC Corporation ou uma funcionária. Mas não acho que algum funcionário teria coragem de fazer tal coisa. Eles parecem me odiar. Mas se for, seria interessante conhecê-la. Assim que abro a porta, Hunter vem muito feliz ao meu encontro. Esse Poodle foi um presente da minha mãe para mim. Ela disse que eu era muito solitário. Claro... Não sabia sobre as visitas femininas frequentes a este apartamento. Como um idiota, pego o aparelho telefônico assim que ele vibra. Apesar de não gostar do que a mulher fez com ele, surpreendentemente, ela está me cativando. “Está, mesmo, pedindo desculpa?” “Nem sempre sou um bundão. E admito que errei. Se nos encontrarmos novamente, posso até te pagar um café como um pedido de desculpa.” “Não vai rolar. Mas, talvez, se chamar algumas das muitas mulheres de sua agenda, elas poderão te fazer companhia.” “Não se preocupe! Meu interesse é puramente investigativo. Não quero que me interprete mal.” Minha curiosidade, de fato, está ficando aguçada. Essa mulher conseguiu me prender em uma conversa enquanto as outras só falam em roupas e bolsas caras. “Fico feliz. Eu nunca iria querer ser mais uma em sua lista. Uma longa lista. E não pensei nisso, mas devo continuar no anonimato.” Eu rio, sento-me no sofá e encaro o celular como se, em meses, estivesse fazendo a coisa mais empolgante. Esse passarinho acha que conseguirá resistir a mim? “É impressão minha ou está com medo?” “Não conte piadas, bundão! Não tenho medo de você. Acontece que prefiro me manter a uma distância segura.” “Claro. Porque tem medo de não resistir.” “O seu egocentrismo chega na atmosfera, bundão.” O mais interessante de tudo é que não desejo parar de falar com ela. Ainda nem tirei os sapatos ou afrouxei a gravata; só consigo olhar para a tela e esperar pela sua resposta. “Torço para me esbarrar em você outra vez, somente para te ouvir falar essas coisas olhando em meu rosto.” “Espero que isso nunca mais volte a acontecer. Não sou alguém confiante o bastante para dizer na cara tudo que penso.” Essa mensagem me faz rir. “Tenho que ir, senhor bundão. Amanhã acordarei cedo, e ainda tenho que terminar um trabalho.” “Logo agora, que estava ficando animado.” “Boa noite, senhor bundão!” “Gostou mesmo da minha bunda. Não para de falar dela.” “Já vi melhores.” “Vou acreditar em você.” A falta de resposta me deixa frustrado, no entanto acabo me lembrando do quanto isso é ridículo. Nem faço ideia de quem é a mulher e já quero ser amigo dela? Deixo o celular de lado e vou para o banho a fim de esfriar meu corpo e buscar relaxamento. Em nenhum momento a minha cabeça deixa de pensar na estranha com quem me esbarrei. Comecei o dia pensando que ele seria mais um estressante e chato, mas até que a surpresa me deixou feliz.

Capítulo 3 Desafio

Assim que acordo, lembro-me do celular e, como um tolo, verifico se tem mais alguma mensagem da mulher misteriosa. Não tem nenhuma. É decepcionante, e me irrito comigo mesmo por pensar assim. Resolvo cuidar de tudo para começar o trabalho. Tomo banho, coloco um terno cinza e arrumo os cabelos em frente ao espelho. Meu pai sempre se orgulhou de ser pioneiro no ramo de proteção de dados. Era um leigo no assunto, mas um mestre em administrar. Com o crescimento da internet, também cresceram novas oportunidades de roubar. É por isso que a TEC Corporation se especializou nessa área e hoje trabalha com diversas empresas, bancos e pessoas que fazem parte desse meio digital. Depois de pegar os papéis que trouxe ontem para casa, enfio- me no elevador, que desce até o estacionamento. Meu motorista já está à minha espera. Quando entro no carro, resolvo dar atenção aos documentos. Ontem não consegui resolver nada, pois só pensava na estranha, mas hoje resolvi esquecê-la e focar em trabalhar. Chego rápido à sede de Nova York, já que estava me mantendo ocupado, lendo os diversos formulários e novos contratos. Saio do veículo e paro antes de passar pela porta da frente. Apesar de poder entrar pelo subterrâneo, gosto de chegar por aqui para passar pela recepção e conferir as coisas. Contudo, meu objetivo de hoje é encontrar uma pessoa específica, mesmo sabendo que é tolice. Assim que noto quão ridículo é o que estou fazendo, passo pela porta giratória e vou direto ao meu escritório. É claro que o passarinho irritante não faz parte do meu quadro de funcionários. — Bom dia, senhor Novack! — minha secretária me cumprimentou com um belo sorriso no rosto. Talvez seu nome seja Mia. Ela sempre me deseja um bom dia, mas nunca lhe retribuo. — Bom dia, senhorita! — Passo por ela, lendo o papel que está em minhas mãos. — Você poderia me trazer um café, por favor? — Coloco minhas coisas sobre a mesa. — Claro, senhor. — Dá um sorriso assustado que me faz franzir o cenho. — Aqui estão os papéis para a análise. — avisou-me antes de sair. “Ótimo!” Mais papéis! Alguma força maior que toma o meu corpo me faz pegar o celular do bolso. Eu tentei, a todo custo, tirar todo o glitter dele na noite passada. Busco as mensagens de ontem. “Ser simpático não faz o meu tipo. As pessoas me olham como se eu fosse um estranho.” A falta de resposta me irrita e me faz guardar o aparelho novamente. Concentro-me somente nos papéis agora. “É isso que dá ser mal-educado com todo mundo. Se continuar assim, bundão, pode ser o chefe do ano.” Apesar da demora, ela finalmente respondeu, e, como um idiota, olho a mensagem no mesmo instante. “Senhor bundão”. Estou começando a me acostumar com esse apelido. Não somos amigos, tampouco quero que sejamos, apesar de estar curioso para saber quem ela é. “O que a senhorita Birdpink está fazendo agora?” Ela me manda uma foto e eu vejo que está no metrô. Não me enviou uma dela, e sim de uma senhora dormindo, sentada no banco da frente. “A senhora parece simpática, mas quero uma foto sua.” “Está ficando obsessivo com esse assunto. Não terá uma foto minha. Contente-se com a senhora simpática!” Ela tem razão: estou começando a insistir demais nessa questão. Deveria me concentrar no trabalho. Entretanto, agora, que estamos conversando de novo, é difícil apenas ignorá-la. “Tem razão. Vou começar a ignorá-la, passarinho.” “Não seria o primeiro. Então, tudo bem.” “Claramente, não vou fazer isso até que me mostre algo com o qual eu me contente.” Surpreendentemente, minha tela é invadida por uma foto do seu dedo do meio. É pouco, mas consigo ver que sua pele é pálida, com uma tatuagem, e que sua unha está pintada de azul, combinando com sua cor. Isso me agrada. “Gostei da tatuagem. É muito sexy. Gostaria de saber se outras partes do seu corpo também são." “Vai ficar só com a mão, senhor bundão.” “Você é a mulher mais difícil que conheço. Geralmente, não preciso fazer nada para que as mulheres tirem as calcinhas.” “Isso, na verdade, é uma honra. Eu nunca faria tal coisa com um pervertido como você.” “Só está dizendo isso porque está longe, e não na minha frente. Acredite: eu lhe agradaria muito, passarinho. Tanto que desejaria repetir.” “Nunca vai acontecer.” “Agora é você que está me subestimando. Tome cuidado ao me provocar!” “Vai ter que ficar com a ideia de que nunca vai me encontrar, de que jamais vou ser uma das idiotas que ficam no seu pé e de que nunca me faria perder cabeça a ponto de ficar com você.” Toda essa provocação está me deixando louco. Ninguém nunca falou assim comigo antes ou me recusou. Essa mulher pode ser uma lunática, porém está me motivando a provar o contrário. “Espero ter a oportunidade de provar o contrário, passarinho.” Emma Não sei por que mandei mensagens para ele, nem por que conversamos. É loucura! Ian é meu chefe, um egocêntrico safado. Talvez seja a falta do que fazer ou a solidão. Só isso para justificar tudo que está acontecendo. Devo confessar que ele é engraçado, embora seja irritante. E, apesar de saber disso, ainda quero receber e responder suas mensagens. Não posso negar que senti um pouco de medo e que até agora sinto. Não fiz nada demais, porém, com a fama de chefe que ele tem, devo me prevenir e não dar muita pinta, para não correr o risco de topar com ele e ser reconhecida de alguma forma. O pior é que assim que virei o quarteirão, eu o vi. Ele estava lindo, trajando um terno cinza. Sua bunda fica maravilhosa na roupa mais justa e seus cabelos estavam sendo levados pelo vento, mesmo não sendo tão longos. O homem é lindo, quase um deus. Se não fosse tão arrogante... Fiquei feliz quando o vi entrar no prédio. E, para disfarçar, esperei alguns minutos do lado de fora. Quando trabalho, as horas se passam e eu nem percebo. Gosto muito do que faço e de onde trabalho. Sou a única mulher no meu setor e uma das melhores no ramo, assim como Victor, que agora está me pedindo ajuda com o olhar. Depois de ser um cavalheiro ao ajudar Ágatha e Mia, ele se tornou o queridinho delas. É sempre bem-educado, um bom ouvinte, nunca é desrespeitoso com ninguém, e todas o acham fofo. Só o observo de onde estou. Geralmente, nós nos vemos no restaurante, na hora do almoço. Só não quando estou com preguiça, pouca fome, e opto por comer algo na lanchonete da empresa. Mas hoje, em uma tentativa inútil de fugir dos meus pensamentos, escolho ir com ele e suas novas amigas para lá. É estranho estar no mesmo lugar que as secretárias. Elas são simpáticas e nunca me olharam estranhamente, nem nada, mas compará-las a mim neste exato momento seria um crime. Enquanto estou com uma camiseta simples, uma calça jeans surrada e sapatos de adolescente do segundo grau, elas estão usando um vestido bonito, saltos altos, e estão com os cabelos bem feitos, além de maquiagens elegantes. Até parecem madames, pela forma de agir. — Vocês não sabem como está sendo estranho o meu trabalho hoje. — Falou Mia. Está empolgada com o que vai contar. Ela é a secretária de Ian. Portanto, querendo ou não, infelizmente, fico curiosa para saber a notícia. — Por quê? — Perguntou Ágatha. — O idiota do seu chefe fez alguma coisa? Quero dizer... mais alguma coisa? — Ele está de bom humor. — Comentou surpresa, com um sorriso nos lábios pintados de vermelho. — Desejou um bom dia para mim, pediu “por favor” quando quis um café e não estava tão grosso como sempre. Será que o pai dele morreu? — Credo, Mia! Talvez ele só esteja revendo como trata os funcionários ou tenha transado com alguém ontem. — Disse Ágatha, fazendo-me engasgar com o suco que bebia. Todas olham para mim, e Victor ri da minha cara. Nenhum deles sabe realmente o que aconteceu. — Seria alguma namorada? — Questionou Mia, pensativa. — Não mesmo. — Respondi sem pensar, vendo—as lançar um olhar estranho para mim novamente. — Vocês mesmas dizem que o homem é um arrogante. Como arranjaria uma namorada que o suportasse? — Argumentei após minha gafe. — Pode até ter razão, Emma. Mas, já viu o homem? — Perguntou o óbvio. — Ele é lindo de morrer e tem muito dinheiro. Aposto que seu telefone está repleto de número de mulheres. Ontem, por exemplo, uma delas foi ao seu escritório. Estava tão irritada que nem esperou que eu anunciasse sua chegada. — A mulher do telefone, talvez? — Então, essa está descartada como candidata. — Ironizou Ágatha. — Ele ficou chateado e nem sabia do que ela estava falando. — Mia continua pensativa. Eu poderia deixar essa passar, mas meus dedos e a burrice da minha cabeça falam mais alto. Pego o meu celular e digito uma mensagem para ele, antes de sair do restaurante. “Deve ter sido divertido lidar com a loira oxigenada ontem.” Surpreendendo-me, Ian responde rápido, como se já esperasse pela minha mensagem. “Então, foi você mesmo. Saiba que ela ainda está me irritando. Por que disse que é minha namorada? Todos sabem que não namoro.” “Foi exatamente por isso que eu disse. Gostaria de ter visto as caras dos dois.” “Não foi nada engraçado ter que aturar as bobagens dela quando me procurou.” Não sei se está irritado ou simplesmente comentando o fato. “Quem sabe, na próxima, eu esteja por perto para ver como vai reagir à outra mulher irritada por alguma coisa que eu tenha dito sobre você?” “Um momento...” Os três pontinhos no final de sua mensagem me irritaram, pois o restante está demorando uma eternidade para chegar. “Como sabe que ela esteve ontem no meu escritório? Está me espionando, comprando informações ou...? ” Só agora reflito sobre o que fiz. Antes Ian achava que eu era uma estranha da rua, mas agora sabe que estou mais próxima dele do que imaginava. Fico puta comigo mesma e desejo me bater. “Acho que falei demais.” Desejo apagar as mensagens, achando que assim ele se esquecerá, porém o estrago já foi feito. “Você trabalha para mim, não é, passarinho?” “Você ainda não sabe quem sou, então espero que isso não me traga problemas, bundão. Além do mais, não estou cometendo um crime, não é?” “Se sou seu chefe, não admito que fale comigo dessa forma e exijo vê-la agora.” Já fiz muita merda na vida e gosto de achar que sou inteligente, só que isso foi demais. Agora estou quase ferrada. Tomara que ele não me procure na empresa só para me demitir. “Acho que está convencido demais, Ian. Não pode me exigir isso. Apesar de ser meu chefe, não sabe quem sou, e não vou dar a você a oportunidade de me demitir.” “Não quero demitir você, só saber, finalmente, qual é o rosto da mulher que está me deixando louco.” “Eu estou te deixando louco? Não me conte piadas! É você quem está se importando muito com esse mistério. Além do mais, não vou acreditar que não me demitirá, já que até o momento o que sei sobre você é que não se permite ser desafiado por um funcionário. O que quer dizer que não vou dizê-lo quem sou, bundão.” O momento de silêncio só me deixa ainda mais nervosa. Não gosto de situações como essa, onde estou sendo pressionada, mas admito que a culpa é minha. “Tudo bem, passarinho. Mas saiba que vou descobrir quem é, querendo ou não, e provarei que sou de confiança, que não vou demiti-la.” “Boa sorte, então! Não sou fácil de ser achada. E, mesmo se estiver no mesmo lugar que eu, nunca imaginará quem sou.” “É um desafio?” “Não, Ian. Não é um desafio. Agora, deixe-me voltar ao trabalho!” Guardo o celular no bolso e retorno ao prédio sozinha. Não quero que, de alguma forma, ele tenha tempo de me achar. Antes de passar pela recepção, vejo-o encostado na parede de mármore, olhando para todas as pessoas que passam pelo hall. Filho da mãe! Respiro fundo, enfio-me no meio de um grupo de funcionários que trabalha nos escritórios do andar de cima e tento, a todo custo, não o olhar. Sinto um frio na barriga incomum quando passo ao seu lado, mas, como já sei, ele nunca olhará para mim. Nem me nota quando passo. Lá no fundo tenho dois sentimentos conflitantes, e um deles é bem idiota. Queria ser o tipo de mulher que ele notasse. Mas isso nunca vai acontecer. Vou direto para o meu setor. Talvez possamos conversar quando ele me mandar mais mensagens, pois eu não tomarei mais essa iniciativa. Não quero mais brincar de provocar o chefe. Se, por algum azar, Ian me achasse, tenho total certeza de que me demitiria.

Continuar lendo