Mafioso indomável
Capítulo 1 Abstinência

Correndo feito uma barata tonta, eu confiro pela milésima vez se a porta do meu quarto está trancada. Sentindo a adrenalina percorrendo minhas veias eu tento controlar os batimentos cardíacos e as mãos trêmulas enquanto esborrifo um pouco de perfume, por pouco não derrubo o frasco no chão ao desviar minha atenção para o tubo de batom vermelho mate. Reaplico uma camada nos meus lábios já rubros e confiro se não manchei os dentes (sou mestre em fazer isso!), aproveitando para checar meu hálito ao assoprar na minha mão em concha. Eu estou tão agitada que não percebo o ridículo daquilo, não faria diferença alguma se eu estivesse cheirosa ou com bafo afinal! Espio meu corpo para ter certeza se meu conjunto de lingerie está devidamente em seu lugar, ajustando o fio dental no meu bumbum um pouco incomodada com a sensação dele atochado lá no meio, mas ao mesmo tempo admirada com a forma como ele acentua meus quadris outrora estreitos. Prazer em finalmente te ver, bundinha! Penso enquanto me empino e olho minha forma por trás do ombro. Realmente pareço ter mais bunda do que de costume! Coloco a playlist para tocar num volume médio e então meu estômago embrulha quando percebo ter chegado a hora. Eu estou prestes a fazer algo inimaginável, pelo menos para mim, e por um segundo cogito desistir. Inspiro fundo, soltando lentamente o ar pela boca. Desistir agora não é opção. Acalme-se, Candy! Você está no controle. Posiciono-me de frente ao notebook, mais precisamente em frente à câmera, e fito a tela do monitor. Ali eu leio a seguinte mensagem: Clico nela e já faço uma pose sensual, a qual tive que ver bastantes vídeos eróticos para imitar. Não só as poses, como também todas as encenações e gestos sexies o suficiente para atrair a atenção dos homens. Acredita que até a maneira correta de gemer eu treinei? Calma, é claro que eu sei mostrar o meu prazer quando estou excitada, mas digamos que sou meio discreta, nunca havia permitido me libertar à ponto gritar antes. Ainda mais por dividir o apartamento com a minha amiga, imagine se ela me ouvisse do outro lado das finas paredes do nosso humilde cafofo estudantil? Quando o momento começa a se aproximar, posso sentir a minha coragem vacilando enquanto meu estômago pesa com a ansiedade. No entanto, não tenho outra opção. Não pense como Candice! Você agora é a Candy. XXLcock: Nossa, baby! Você é gostosa! Forço um sorriso sedutor e respondo numa voz doce, utilizando o microfone. — Obrigada, baby! Não posso deixar de me sentir um pouco sem jeito. Ainda não estou acostumada com isso, é o meu segundo dia fazendo show nesse site, mas preciso deixar meu pudor de lado se quero ganhar dinheiro sendo modelo de webcam. Para falar a verdade, estar ali nem é tão horrível assim... No fundo, é bom se sentir desejada. Mas veja bem, masturbar-me entre quatro paredes quando tenho necessidades é uma coisa, ter de fazer strip-tease e me masturbar em frente à câmera é outra e, posso não ser nenhuma santa, mas aquilo estava me deixando morta de vergonha! Se não fosse meu desespero... se eu tivesse escolha... Bigd1ck: WOW! Você é a mais gata de todo o site! Bigd1ck: Adoraria ver esses peitos, Candy! Mostre os seus mamilos, aposto que estão durinhos. Após ler as mensagens, eu brinco um pouco com a alça do meu sutiã para provocar. Sinto o meu rosto esquentar, mas continuo com o show, me movimentando no embalo da melodia. — Querem ver os meus seios? — pergunto docemente e deslizo um dos lados do sutiã, quase deixando um seio à mostra, mas logo o cubro novamente. Dessa vez várias pessoas respondem no meu chat dizendo que sim. Eu sorrio genuinamente agora. Eles estão se entretendo e isso quer dizer que tenho mais chances de ganhar desejos, como é chamada a moeda do site. — Hm... Enviem gorjetas para pedidos, babies! — respondo e me deixo levar pelas batidas eróticas da música “Every body here wants you” de Jeff Buckley. Desperto assim que ouço o som de moedas titilando. Alguém acabou de me pagar! Olho para a tela, procurando avidamente pelo nome da pessoa. SeuChefe – gorjetas enviadas! (100 desejos) Até que enfim alguém que não use nada referente ao tamanho do pênis no nome de usuário! E olhe, ele me pagou 100 desejos de primeira! Isso equivale a dez dólares. — Obrigada, SeuChefe! Quer fazer algum pedido que esteja incluído no menu? — digo, sorrindo para a câmera, como se estivesse olhando em seus olhos. Esse pensamento me faz corar, mas tento não transparecer minha timidez. SeuChefe: Continue dançando, Candy. Fico sem reação por um momento. Ele só quer que eu continue me movimentando da maneira que eu estava fazendo antes. Outros usurários pedem outras coisas, a maioria querendo que eu tire uma das peças da minha lingerie, mas para isso eles teriam que me enviar gorjetas. Portanto atendo somente ao pedido do SeuChefe e fecho os olhos por um instante, deixando a música me embalar. O ritmo é tão sensual e doce que, inevitavelmente, me sinto da mesma forma. Percorro as mãos pelo meu corpo, sentindo o contato suave da luva de seda contra a pele, e me arrepio com a sensação deliciosa. Posso sentir a minha calcinha molhar com o tesão. SeuChefe – gorjetas enviadas! (200 desejos) MilkXtreme – gorjetas enviadas! (80 desejos) Abro os olhos, saindo do transe com o barulho das moedas e verifico quem foi que pagou dessa vez. Foram dois! O SeuChefe deu a maior gorjeta, porém não posso deixar de dar atenção para o outro cliente. — Obrigada, SeuChefe! Obrigada, MilkXtreme! Tento não revirar os olhos ao falar o último nome. Seu username significa leite extremo! — Quais desejos vocês gostariam que eu realizasse? MilkXtreme: Me deixe ver seus peitos gata! Ele pagou o valor exato que estipulei para retirar o sutiã, então vou conceder o seu pedido. Porém, estou curiosa por saber o que o SeuChefe quer pedir antes. — E você, SeuChefe? Quer me pedir algo? Mordo os lábios à espera de sua resposta, pela primeira vez animada com o que estou fazendo. Leio o seu nome novamente e me pergunto o porquê dele o ter escolhido. Será que é no sentido de ser dominador? Mas até agora não fez questão de nada estranho... SeuChefe: Dance para mim Candy, e sorria para a câmera. Eu amo o seu sorriso. Eu não faço ideia de como ele é, mas pelo modo como fala parece ser sério e, ao mesmo tempo, gentil. O seu comando, diferente do outro cliente, me deixa excitada. Cruzo as pernas ao sentir o calor aumentar entre elas, seguido de um leve espasmo. Meu corpo todo está ardendo em desejo, inebriando todos os meus sentidos e intensificando a vontade de ser estimulada. Tento imaginá-lo me tocando onde eu mais necessito e deixo o fogo me consumir de vez. SeuChefe: Também amo quando enrubesce dessa maneira. Sua mensagem me lembra de que ainda estou parada sem fazer nada, perdida em pensamentos devassos! Ajeito-me e volto a dançar, dessa vez é “Turn me on” da Norah Jones que está tocando e simplesmente adoro! Retiro a peça de cima bem lentamente e libero meus seios empinados, deixando em evidência os meus mamilos rosados. SeuChefe – gorjetas enviadas! (300 desejos) SeuChefe: Retire as luvas, meu doce. Seu pedido singelo me deixa ainda com mais tesão e assinto com anseio, querendo lhe agradar. Não respondo em voz alta, simplesmente faço o que me pediu. Imito os movimentos que havia visto em um vídeo de dança burlesca, mordisco as pontas da luva e puxo devagar o braço num gesto que espero estar sendo sensual! Posso sentir o meu rosto esquentando de novo. Concentre-se, Candy! Pisco para a câmera e repito a ação com o outro braço, liberando-me totalmente das luvas de seda preta. Recebo várias mensagens, mas meus olhos só procuram por ele. Assusto-me ao perceber que tem mais de cem pessoas me assistindo. Não imaginei que teria tantas visualizações logo de início. A aba do meu chat pisca alertando o recebimento de uma mensagem privada. SeuChefe: Doce Candy, você faz show privado? Meu sorriso se alarga quando vejo quem é a pessoa que me enviou a mensagem. O meu cliente mais pagante! Não quero que os outros me ouçam, então eu digito. Candy: Aceito sim. Você me quer por quanto tempo? SeuChefe: Eu só tenho alguns minutos... E realmente preciso gozar antes de ir embora. Candy: Hummm... O que ele quer que eu responda? Fico sem saber o que falar até receber sua próxima mensagem. SeuChefe: Eu pago 2000 desejos por vinte minutos. UAU! Eu tenho a plena consciência de que não ganharia tantas gorjetas se continuasse meu show em público. Prendo o meu lábio inferior contra os dentes enquanto penso na sua proposta. E se ele for um cara totalmente bizarro e me pedir coisas estranhas? Eu estou no controle. Esse show é meu. Antes mesmo que eu perceba, os meus dedos já estão batendo contra as teclas. Candy: Fechado, SeuChefe. Sou sua por vinte minutos! SeuChefe te convida para um show privado. Aceitar / Recusar Clico em aceitar e me preparo para o seu próximo pedido. SeuChefe: Obrigado, doce menina. Agora aperte seus deliciosos mamilos com força. Ofego em antecipação e os belisco com força, a mistura de dor com prazer é o suficiente para me fazer gemer alto. Arrepio-me toda com a deliciosa sensação que percorre meu corpo, ficando cada vez mais molhada. SeuChefe: Isso... acho que não vou aguentar vinte minutos. Você me deixa duro, Candy. Vou gozar a qualquer momento se continuar gemendo desse jeito. Fito o seu comentário, atônita. Eu nunca, em todos os meus poucos relacionamentos, me senti tão... tão desejada e poderosa! Gemo baixinho, involuntariamente. Esse cliente está me excitando tanto e eu nem esperava por isso! Achei que naquele dia precisaria fingir, encenar tudo, mas esse homem está me tirando dos eixos. A dor do prazer me atinge e eu preciso... preciso acabar com essa angústia! Deslizo umas das mãos do seio até o ventre, e continuo aventurando os meus dedos até mais em baixo, chegando ao meu íntimo ensopado. Faço pressão contra o clitóris e estremeço. É tão gostoso! SeuChefe: Como você sabe que é gostoso se não provou? Será que seu gosto é tão doce quanto o seu nome? Eu estava tão consumida pela sensação que nem percebi que pensei em voz alta! Sem tempo e vontade de ficar sem graça, continuo me tocando com mais urgência, mas paro de me movimentar quando leio sua nova mensagem. SeuChefe: Lamba seus dedos melados, Candy. Quero que me diga qual é o seu sabor. Meus olhos se arregalam um pouco, pasma com o seu pedido. Eu nunca havia me provado antes! Levo os dedos até meus lábios e timidamente toco a ponta da língua neles, com medo de ficar com nojo do sabor... mas por incrível que pareça não é tão ruim assim. Na verdade, é agridoce, não sei ao certo como explicar. Enfio os dois dedos inteiros na boca e os chupo todos, ronronando de excitação. SeuChefe: Estou me estocando tão forte agora! Fale qual é o seu sabor, quero saber antes de esporrar, mirando nessa sua boquinha! O tom da sua mensagem me surpreende. Parece mais desesperado, urgente. — Parece com... — Lambo os lábios buscando resquícios do meu gosto neles.— parece com nata de coco, mas é um pouco salgado também... cremoso... SeuChefe: Abra sua boca e coloque a língua pra fora, vou gozar! Seu comentário me atinge com força total. Separo os lábios e mostro a língua devagar, como se estivesse acariciando o seu pau se ele estivesse aqui comigo. Meus dedos se movem com intensidade contra o meu clitóris e sinto os espasmos aumentarem junto com a sensação inebriante do orgasmo iminente. Arquejo de prazer e solto um longo gemido, ainda com a boca aberta para receber o seu jorro, mesmo que virtualmente. Esse pensamento me faz ter outra contração, tão forte que flexiono os dedos dos pés quando o segundo orgasmo chega. SeuChefe: Candy... Obrigado pelo show. Você me fez gozar tanto que sujei em parte não só o monitor, como minha mesa do escritório. Terei que limpar essa bagunça. Sorrio ofegante ao ler seu comentário. — Você não tem medo de perder o emprego? SeuChefe: Não. Essa é a vantagem de ser Chefe ;) Não consigo segurar o riso! Perco totalmente a compostura e todo o meu disfarce de mulher sedutora vai para o ralo quando começo a rir do meu modo natural. Isso quer dizer que não pareço nada sexy no momento! SeuChefe: Adoro o seu riso, doce menina. Mordo os lábios sem saber o que responder e posso sentir o rubor tomar conta da minha face. — Obrigada. Será que... posso saber o seu nome? Ele demora alguns segundos antes de responder. SeuChefe: James. — Obrigada, James... SeuChefe: O prazer foi meu, Candy. Literalmente. Transmissão encerrada. Demoro um pouco para me recompor. Pisco algumas vezes para desanuviar a visão, ainda ofegante e febril depois de uma sessão surpreendentemente quente com um homem totalmente desconhecido. Eu nem ao menos sei como ele é fisicamente! Mas aquele mistério todo era ainda mais excitante, eu poderia imaginá-lo do jeito que eu quisesse, ganhar uns bons orgasmos e ainda receber dinheiro por isso! Aposto que está se perguntando como eu fui parar de paraquedas nessa profissão. Bem, para isso eu preciso voltar alguns dias... Capítulo 1 Passo os dedos trêmulos pelos meus longos cabelos, prendendo-os numa trança lateral. Confiro pela última vez o meu reflexo no pequeno espelho do banheiro e suspiro. Eu não queria ir nesta festa! — Não adianta mudar de ideia agora, Candice! Você vai nem que eu tenha que te arrastar pelo campus! Gemo de frustração e encaro a minha amiga, que está me observando da porta com as mãos no quadril. — Nathy, eu deveria estar estudando para a minha prova de Constitucional! — tento arrumar uma desculpa, mas, ainda que ambas estudemos Direito, ela não se atenta muito com as notas como eu. Ela estala a língua e revira os olhos, ignorando as minhas palavras. Além de ser minha melhor amiga, Nathy divide o apartamento comigo, e por mais que sejamos totalmente diferentes e nos irritemos uma com a outra de vez em quando, nos amamos como irmãs. — Você prometeu que iria nessa festa comigo. Deixe de ser CDF pelo menos um dia! Suas notas são sempre ótimas. E tem uma coisa, acha que não sei que essa prova só será na próxima semana?! — É... — fico sem graça, pega no flagra. — Mas eu gosto de estudar com antecedência... — digo sem jeito, sabendo que estou ficando sem argumentos. — E outra coisa, a mais importante: você me PROMETEU! Então termine de se arrumar logo que o pessoal já está nos esperando – ela completa e aponta para o meu quarto, como se fosse uma mãe a me dar ordens. Olho para baixo, para as roupas que estou vestindo, sem entender. — Mas eu já estou pronta! — Ah não! Você não vai sair desse jeito comigo nunquinha! Nathy agarra a minha mão e sai me arrastando pelo quarto. Abre o closet, jogando várias roupas sobre a cama. Olho horrorizada para as peças que ela escolheu. Com certeza estavam faltando alguns metros de pano por ali. — Esses aqui vão ficar perfeitos em você! Troque logo essa roupa sem graça. Estou te esperando na sala. Seguro a minissaia jeans e o top preto nas mãos, imaginando se daria muito na cara se, naquele instante, eu fingisse que estava passando mal... Talvez de uma doença instantânea e contagiosa... — E solte esses cabelos! — ela grita da sala. — Não entendo por que você vive prendendo eles desse jeito, são lindos! Reviro os olhos antes de retirar a minha calça jeans e a camiseta cropped do corpo. Visto a minissaia e o top preto com relutância, sentindo- me muito exposta e totalmente diferente do que sou. Não tenho medo de mostrar um pouco de pele, mas aquilo já beirava a periguetice e, para piorar, eu não fui abençoada com um corpão como a minha amiga. Só estou fazendo isso porque, como Nathy jogou na minha cara há instantes atrás, eu havia prometido. Estava bêbada quando fiz a promessa, mas ainda assim eu dei minha palavra... — Satisfeita? — Adentro a sala do nosso minúsculo apartamento estudantil, dando uma voltinha, sem graça e me sentindo um pouco ridícula. Ela sorri, aparentemente satisfeita. Porém, quando seus olhos pousam no meu rosto, ela enruga o nariz. Nathy se aproxima de mim com um olhar determinado. O que será que está acontecendo? Fico até com medo e dou um passo para trás, mas ela me alcança. Liberta as minhas longas mechas loiras da trança e me bagunça os cabelos. Eu quase tenho um ataque de fúria com esse gesto, porém ela não me dá nem tempo para respirar. Antes que eu reclame, sou jogada no sofá. — Fique quieta que eu vou dar um jeito nessa sua carinha de boneca. Sinto as cerdas do rímel passando pelos meus cílios repetidas vezes, o pincel do blush contornando as maçãs do meu rosto e, por fim, o gloss besuntar os meus lábios. — Está gata demais! Agora sim está pronta pra a balada. Reviro os olhos, achando que ela está exagerando. Ela me leva até o banheiro, e quando vejo o meu reflexo no espelho fico pasma. Essa sou eu? Meu rosto, que antes aparentava ser tão delicado como o de uma boneca de porcelana, agora parece mais maduro e bem sensual. Caramba, eu estou incrível! — Vamos! — Nathy me desperta do meu momento narcisista. Sorvo uma grande lufada de ar e a solto lentamente pela boca, embaçando o espelho, antes de seguir minha amiga porta afora. *** — Minha prima me contou que largou o emprego só para fazer isso! Estava dando mais dinheiro do que o salário de merda dela. — Kate gesticula animadamente enquanto fala. Tento me afastar um pouco para não ser alvo do líquido que beira em seu copo, prestes a ser derramado. Escuto a conversa dos meus amigos quieta, enquanto beberico a minha cerveja. A música alta, o burburinho e os gritos de vitória das pessoas jogando bilhar na ampla sala abafavam as nossas vozes. Por isso não fico tão constrangida com o tópico da vez, já que ninguém fora do círculo consegue escutar. Meus olhos fazem uma varredura no ambiente, estamos em um canto da sala de TV do casarão, minhas costas estão apoiadas na parede cor de creme que se estende por toda a casa. Daqui consigo ver o centro do aposento onde se encontram quatro sofás marrons em corino assentados em um semicírculo em frente à tela plana. Ninguém parece estar assistindo à partida de football, os assentos estão ocupados por um grupo de pessoas rindo e conversando enquanto bebem e alguns casais com as línguas enfiadas nas gargantas de seus respectivos parceiros. — Deixa eu ver se entendi direito... A sua prima se prostitui? — Michael pergunta, curioso. Giro minha cabeça bruscamente ao voltar minha atenção para o meu amigo. — Não! Não é se prostituir! Ela não dorme com ninguém... Ela só faz shows virtuais. É como se fosse... É como se fosse strip-tease, mas ela vai além de tirar a roupa, sabe? Usa brinquedinhos e tal. — Caraca! E isso dá certo?! — Nathy parece mais interessada do que deveria. Quando percebe isso, tenta disfarçar: — Quero dizer, como ela sabe que vai ganhar o dinheiro se é virtual? — Então, pelo que entendi o site é bem organizado e confiável. As pessoas que assistem aos shows compram créditos, e os gastam em forma de gorjeta toda vez que gostam do show. Se quiserem fazer algum pedido especial, elas pagam a modelo usando os créditos e ela recebe o dinheiro na conta! — Não sei se eu teria coragem de fazer algo assim... Usar o meu corpo em troca de dinheiro? E se algum cara me pagasse e pedisse algo que eu considerasse nojento? — Nathy diz, fingindo se arrepiar de nojo. — Amiga, você é a dona do show. Ninguém te obriga a fazer nada! Tem até como você colocar uma espécie de menu, com as coisas que faz e as que não, sem perigo algum... Sabe, eu estava pensando em fazer também, mas tenho medo que alguém me reconheça — confessa. — O que você acha, Candice? Quase me engasgo com a cerveja e encaro Nathy, com vontade de dar uns tapas naquela carinha linda dela. Ela sabe muito bem que sou envergonhada demais para falar desses assuntos... Bom, deixa eu me explicar. Não sou nenhuma santa, que isso fique bem claro. Já tive um namorado sério e saí com alguns homens. Mas não me sinto à vontade para falar de certas coisas. — Se ela não se importa em usar sua imagem como instrumento de trabalho, nem de que algum dia alguém poderá reconhecê-la, manchando para sempre seu futuro e ferrando com sua vida... Então, que ela seja feliz. — Nossa, Candice! Você é muito dramática. — Sou realista. — Encolho os ombros e volto a beber o conteúdo do meu copo de papel. Meu celular começa a vibrar no bolso da saia. As únicas pessoas que têm meu número são os meus amigos, que por sinal estão todos aqui, e meu pai. Saio correndo até o lado de fora da fraternidade, fugindo do barulho e atendo. — Alô? — minha voz soa um pouco sem fôlego. — Senhorita Greece? Não sei o porquê, mas a voz feminina e sóbria no outro lado da linha me faz arrepiar. — Sim... sou eu. — Estamos ligando pois a senhorita é o contato de emergência do senhor Thomas Greece... Sinto o meu sangue gelar e meu coração bater erraticamente. A pressão nos meus ouvidos é ensurdecedora, mas eu faço uma força e tento entender o que a mulher está falando. — ... Sofreu ataque cardíaco essa noite e está hospitalizado. Seu estado é grave. Conseguimos estabilizá-lo, mas ele precisa de tratamento e se não houver melhoras, uma cirurgia será necessária. Meus olhos se enchem de lágrimas e minha garganta se fecha. Imaginar o meu pai sozinho numa maca de hospital me sufoca de dor. — Onde ele está? Eu estou a caminho, só me diga... por favor... me diga que ele está bem. — Como eu disse, ele está estável agora, mas sua condição não é das melhores. Seu pai precisa de tratamento, mas infelizmente não podemos fazer muita coisa, pois o plano de saúde não cobre... Minha náusea piora e me dobro com ânsia de vômito, ainda com o celular colado na orelha. O que posso fazer? Meu pai é a única família que tenho. — Eu... eu vou dar um jeito. Estou indo para o hospital. Anoto tudo e só após encerrar a ligação, me permito vomitar na grama. As pessoas que passam por mim me olham enojadas, provavelmente achando que estou caindo de bêbada. Lágrimas escorrem quentes por meu rosto e mal consigo respirar com a dor pesando no peito, mas ergo a cabeça e me levanto com as pernas trêmulas. Limpo minha boca rudemente com as costas da mão e vou andando para o meu apartamento, à poucas quadras de onde está rolando a festa, mas ainda assim longe para uma caminhada. Corro pela rua escura com as calçadas ladeadas por árvores, sempre tive medo de me aventurar pelo campus à noite e sozinha, mas eu estou tão nervosa que mal penso na possibilidade de ser atacada. Chegando em casa a primeira coisa que faço é trocar de roupa. Não posso aparecer lá vestida dessa forma! Com minha bolsa à tira colo eu busco por meus documentos e o meu cartão contendo todo o dinheiro que eu havia guardado nos últimos meses na poupança. Quando enfim acho que tenho tudo em mãos eu respiro fundo e tento raciocinar. A cidade onde eu fui criada fica a três horas da faculdade onde estudo. Pego as chaves do carro da Nathy em cima do balcão da cozinha sem nem pensar duas vezes e vou embora às pressas. Minha amiga deve me perdoar quando souber o motivo do sumiço do seu precioso carro. Ou pelo menos, assim espero.

Capítulo 2 Antes que eu exploda

— Porra! Quantas vezes eu tenho que pedir para que me entregue essa droga de contrato? Bato minhas mãos contra a mesa de mogno do meu escritório e me arrependo assim que sinto a dor se alastrar dos dedos até o braço. Minha paciência já se esgotou, essa assistente nova é lerda demais, já é a terceira vez que peço pela mesma coisa e nada! Preciso ler o maldito contrato antes que a reunião comece, e agora tenho menos de uma hora para me preparar. — De-Desculpa senhor Knight! A impressora estava sem tinta e tive que trocar o cartucho... — Achei que tivesse dito que era proativa na entrevista! Como deixou que algo assim acontecesse, hein? — Me...me perdoa! Já venho trazer os papéis... A assistente, da qual não lembro o nome, se desculpa profusamente antes de sair em busca do bendito contrato. Percebo uma lágrima escorrer pelo seu rosto no instante em que se vira e, vendo aquela cena, sinto que minha cabeça vai explodir. Merda! Massageio minha têmpora e inspiro fundo algumas vezes para controlar o estresse. — Cara, o que foi que você fez dessa vez? Aperto os olhos com força e passo as mãos pelos meus cabelos antes de olhar o meu irmão mais novo que acabara de entrar sem permissão, como de costume, na minha sala. — Eu não fiz nada, Gabe! Aquela assistente é que não sabe fazer o trabalho dela. — James, não precisava fazer a pobre coitada chorar... — Se não aguenta a pressão, então devo demiti-la! Eu avisei a maneira como as coisas são aqui na empresa logo na entrevista e ela aceitou. Gabe me encara por um longo momento sem falar nada e então balança a cabeça. — Cara, eu e Pete concordamos que precisamos conversar. Já sei sobre que os meus irmãos querem conversar, mas finjo ignorância a respeito. — Então conversem os dois, ué! Agora me dê licença, preciso organizar a papelada antes que os nossos clientes cheguem. — Não se faça de desentendido, James. Precisamos conversar, nós três. A porta se abre novamente e eu me levanto, achando que é a tal assistente me trazendo o contrato. Fecho a cara quando vejo que é o meu outro irmão. Cacete! Cadê. A. Porra. Da. Minha. Assistente. Imprestável? — O que você quer, Pete? — esbravejo. Meu irmão do meio levanta as mãos para o alto e me olha espantado. — Opa! Calma brother, só vim avisar que os slides e tudo o mais estão prontos na sala de reunião. Meus irmãos gêmeos me olham preocupados, o que só piora o meu humor. Odeio que me olhem dessa maneira. Não suporto que sintam pena de mim. Eu deveria ser o mais forte — sendo o irmão mais velho, ainda que por alguns minutos — sou eu quem devia me preocupar com o bem estar deles. — Obrigado por avisar, Pete. E você, Gabe? — Amanso o meu tom de voz o máximo que consigo. — Como já disse antes, eu consegui baixar os números, o projeto está bem mais viável sem perder a qualidade. — Ótimo! Os contratos estão prontos, mas preciso deles impressos! Mal termino de falar e a porta se abre novamente, minha ampla sala parece menor com tanta gente aqui dentro. — Aqui está senhor, desculpe a demora. — Ela me entrega os documentos com as mãos trêmulas e seu olhar fixo ao chão. — Evite que isso aconteça novamente, ou então será demitida. A mulher assente e vai embora. — James! Você não pode tratar uma funcionária dessa maneira, cara! — Gabe me admoesta e vejo que Pete concorda. — Brother, você precisa de umas férias, se divertir um pouco. Está ficando cada vez mais ranziza, pô! — Não preciso de nada disso! Amo o meu trabalho, por mais que seja estressante ás vezes... — Afrouxo a gravata, sentindo-me sufocado. Meus irmãos trocam olhares. — James... você só vive aqui no escritório. Não têm saído com a gente, nem com seus amigos. — É, brother. Nós não dissemos nada antes por respeito... mas não acha que já passou da hora? Merda! Não acredito que esses filhos da mãe estão me dizendo isso! Sinto o meu coração bater contra o tórax tão forte que fico com falta de ar. As lembranças tentam se apoderar de mim, me sufocando, mas eu luto contra elas e as bloqueio. — Vocês não sabem do que estão falando, porra! — Cara, nós sabemos que você odeia que toquem no assunto, mas já faz quase dois anos desde que ela se foi. — Gabe encolhe os ombros e sua expressão fica mais séria, algo incomum de se ver. A pressão no tórax aumenta a cada palavra que sai da boca de Gabe, minha visão fica turva e luto para não transparecer minha dor. Porra, eu não quero sentir isso! — Eu sei que você a amava e respeitamos o seu luto, mas já está na hora meu brother... — Fecho os olhos com força ao ouvir Pete, e quando os abro vejo tudo vermelho — Stacy não gostaria de te ver desse modo. Se afastando cada vez mais das pessoas e se tornando esse ser que parece prestes a explodir a qualquer segundo! Vôo pra cima dele com a mão fechada em punho, mas Gabe me segura antes que eu acerte o rosto do meu outro irmão. Me solto bruscamente dos braços de Gabe e me afasto dos dois, antes que desfigure os seus rostos. Chego a parar para pensar como seria mais fácil de nos discernir se eu fizesse isso, mas inspiro fundo e acalmo meus nervos. — Não abram mais a boca para falar sobre isso! — Afasto-me até minha mesa com o peito arfante — Eu estou bem da maneira como estou lidando com minha vida. O trabalho é a única coisa que me preenche o vazio que Stacy deixou. — Desculpa, James. — Eles dizem em uníssono. Quando enfim acho que o assunto está por encerrado, ouço o Gabe falar: — Mas você tem que admitir que está fora de controle. Tive que pagar uma nota na indenização de Suzanna. Olho para ele incrédulo. — Suzanna? Quem é essa? — Sua última assistente, aquela que se demitiu por justa causa! Esfrego as mãos no meu rosto quando enfim lembro-me de quem ele está falando. Suzanna se demitiu quando gritei com ela, e com razão, por ela não ter me passado a ligação do meu cliente mais importante. Tudo bem que pedi para avisar que estava fora enquanto eu redigia a porra do contrato desse mesmo cliente, mas fui claro ao dizer que se fosse relacionado a ele, era para me passar as malditas ligações. — Nós somos seus irmãos e te amamos, mas nem a gente está aguentando, bro. Encaro os dois sem palavras, tenho estado com a cabeça quente ultimamente, admito. Mas não imaginava ser tão grave assim. — O que vocês dois me sugerem então? Que eu tire as benditas férias? E então o que será das reuniões agendas nesses meses todos, hein? — Cruzo os braços à espera da brilhante resposta. Pete coça a cabeça e olha para o Gabe. Os dois se comunicam em silêncio, coisas de gêmeos, por isso também compreendo o significado daqueles olhares. — Nem fodendo! Literalmente! — Nego veemente com a cabeça, tremendo de raiva. — Mas você está precisando, cara! Vamos sair essa noite e arrumar uma gata para você. Posso sentir a pressão do sangue subindo até a minha cabeça. Só de me imaginar com outra mulher sinto como se estivesse traindo a Stacy. Confesso que sai com algumas mulheres, mas todas as vezes que terminava a foda eu me sentia péssimo. A culpa era tanta que sequer sentia prazer no ato do sexo, tinha que fechar os olhos e imaginar minha esposa para poder gozar. Lembrava-me do seu perfume de rosas misturado com seu suor, seus cabelos pretos revoltos contra o travesseiro e os sons que ela emitia a cada estocada minha. Desisti de buscar prazer em outras mulheres e desde então alivio a tensão com as mãos mesmo, buscando em minha memória a sua perfeição. — Não adianta, porra! Vocês não acham que já tentei? Depois desses vinte meses, acham mesmo que não transei com outras? Os olhares de alívio deles só aumentam minha raiva. Parece que a única coisa que os preocupavam era se eu havia transado. Caralho, do que adianta transar e não sentir a porra do desejo? — Não deve ter tentado direito então, brother. — Pete balança a cabeça sorrindo, me dá vontade de quebrar seus dentes. — Não se feche pro mundo, James. Há tanta mulher legal por ai... não tô dizendo que é para você se apaixonar de novo, mas se divertir e relaxar. — Não estou a fim de conhecer ninguém. — resmungo. — Mas é o que tô tentando dizer, cara! Não precisa conhecer! Não precisa sequer saber seu nome... — Não sou como você, Gabe. — Passo os dedos por meus cabelos curtos e os levo até a nuca. — Brother, faça o que quiser. Só por favor... Alivie essa tensão. Se não quiser sair por ai atrás de sexo gostoso o problema é seu! Mas não venha nos encher o saco, não aguentamos mais essa merda! Alguém bate na porta me impedindo de dar uma boa resposta ao Pete. — Entre! — Com licença. O senhor Mitchell e sua equipe chegaram. — Minha assistente comunica num sussurro irritante. Puta que me pariu! Os filhos da mãe ficaram me perturbando tanto que nem tive tempo de reler os papéis! Agora já era, a reunião deve começar. Minha pressão aumenta fazendo a dor de cabeça voltar com força total. Gabe e Pete me fitam preocupados quando me flagram massageando novamente a têmpora, um gesto comum ultimamente. Talvez eles tenham alguma de razão. Não concordo em tudo, mas realmente eu preciso relaxar um pouco e me aliviar dessa tensão.

Capítulo 3 Ofegante

A festa da fraternidade Kappa Sigma, onde meu amigo Michael vive, começou tarde, como sempre. Por isso estou saindo do Campus da Universidade Stanford em plena madrugada, espero conseguir chegar ao Hospital em Fresno no início da manhã! Olho para o relógio digital no painel do carro percebendo já quase ser três horas, mas não posso acelerar sem por minha vida em risco. Meus olhos estão cheios de lágrimas e está sendo extremamente difícil enxergar, por mais que eu queira chegar logo e ver meu pai, não posso arriscar sofrer um acidente. Do que adiantaria? Não ajudaria em nada o meu pai se estivesse morta. Normalmente eu levo por volta de três horas saindo de Palo Alto, em San Francisco, até a minha cidade natal. No entanto, a estrada está mais deserta e sem o trânsito consigo chegar um pouco mais rápido, eu acho. Meu celular começa a tocar alto fazendo meu coração disparar com o susto, mas não atendo. Provavelmente é a Nathy querendo saber onde fui parar. Droga! Na minha pressa e desespero esqueci completamente de deixar uma mensagem. Paro o carro no encostamento e retorno sua ligação. — Alô? — Cadê você? Estava morrendo de preocupação! Sumiu da festa e não te encontrei em casa... Oh não! Eu estou atrapalhando alguma coisa? Finalmente deixou de ser caretinha e está na cama de um cara gostoso? Nathy não me dá nenhuma brecha para responder! Caramba! Como ela consegue falar tanto sem dar uma pausa para respirar? — Não, ami-miga... — Minha voz sai entrecortada com os pequenos soluços. — Candice, está me preocupando. O que aconteceu? Onde você está? Inspiro fundo e solto o ar pela boca antes de responder. — Estou indo ver meu pai... Ele está no hospital, Nathy. Posso escutar minha amiga arfando no outro lado da linha. — Por que não me avisou? Eu iria com você! Está com o meu carro? Eu não o achei no estacionamento. — Nem pensei amiga, só precisava sair logo daí. Desculpe pelo carro... Fungo e seco o nariz, encostando a testa no volante. — Eu não me importo com isso! Só acho que você não deveria estar dirigindo nessas condições, eu poderia levá-la... — Eu estou conseguindo dirigir, não se preocupe comigo. Quando eu chegar lá te aviso, ok? Só me faça um favor... avise aos nossos professores em comum na segunda se eu não voltar a tempo? — Claro amiga, mesmo se eu não avisar eles saberão que algo aconteceu. Vão sentir falta da melhor aluna, se eu não fosse sua amiga sentiria inveja! Solto um pequeno riso e balanço a cabeça. Nathy sempre implica comigo sobre eu ser estudiosa. Diferente dela, que tem uma família com dinheiro, eu não posso me dar ao luxo de perder minha bolsa de estudos. Além do mais, prometi ao meu pai. — Te amo sua louca, preciso ir agora... — Também te amo, amiga CDF linda! Mantenha-me informada... Finalizo a ligação e volto minha atenção à pista escura. Já estou a caminho, papai. *** Adentro o estacionamento do Hospital do Coração e fico de boca aberta com a fachada, ironicamente meu peito dói! Parece mais um hotel de luxo, imagine quanto vai ser a conta hospitalar... Uma facada. Corro até a entrada e espero a recepcionista me atender, estou tremendo dos pés à cabeça e meus olhos estão inchados de tanto chorar, mas tento manter a compostura. — Bom dia, meu pai está internado aqui e preciso vê-lo. — Qual é o nome do paciente? — Thomas Greece, ele foi internado ontem à noite. A recepcionista digita as informações no computador com destreza e logo me olha por sobre o alto balcão. — Aguarde, por favor. A Dra. Green irá chamá-la. Como assim? Tenho que esperar para poder ver o meu próprio pai? — Não posso ver o meu pai antes? — Infelizmente são ordens, a doutora gostaria de conversar com você antes de levá-la ao quarto. Sento-me angustiada na sala de espera e observo o interior do hospital para passar o tempo. É tudo tão limpo e bem iluminado, as cadeiras e sofás são confortáveis e o estilo lembra mesmo a de um Hotel SPA. Será que os pacientes recebem um tratamento de massagem como parte da internação? Sorrio com esse pensamento, tão logo o sorriso surge em meus lábios ele some. Isso aqui não é brincadeira, meu pai está mal e talvez precise de cirurgia. — Senhorita Greece? Aquela mesma voz feminina e forte do telefone chama pelo meu nome. Levanto o olhar e me deparo com uma mulher usando um jaleco branco, seus cabelos ruivos estão presos em um alto coque. Sua altivez é um tanto intimidadora, mas quando fito seus olhos ternos sinto empatia. — Sim... sou eu! Levanto-me do assento para conversar melhor e fico uns quinze centímetros mais alta do que ela. Que engraçado, a primeira vista ela parecia bem maior, deve ser sua postura. — Vou direto ao ponto com você, o seu pai sofreu infarto agudo do miocárdio causado por entupimento das artérias. A caminho do hospital ele teve uma parada cardíaca, mas a equipe conseguiu fazê-lo bater sozinho novamente. Tivemos que administrar alguns remédios para tratar de coágulos e fizemos cateterismo... Assinto catatônica, meu rosto molhado com a torrente de lágrimas que cai sem eu precisar sequer piscar. Eu quase perdi a única pessoa que tenho nessa vida! Nunca conheci minha mãe, ela me abandonou com meu pai depois que nasci e nunca quis saber de mim, então não fiz questão de saber sobre ela também. Papai diz que ela foi sua namorada e que haviam terminado antes dela descobrir que estava grávida. Quando ele soube da gravidez quis reconciliar, porém ela não aceitou, e se não fosse pela insistência do senhor Thomas eu nem estaria aqui hoje! Meus avós já são falecidos, lembro-me pouco deles, pois eu ainda era pequena quando estavam vivos. Portanto, só de pensar na possibilidade de meu pai morrer é terrível. Como se eu fosse jogada num abismo escuro e sem fim, engolida pelas sombras num vortex. A ânsia de vômito volta, sinto a visão escurecer e fico tonta. — Candice? Você está bem? A doutora segura meu braço quando minhas pernas se dobram como gelatinas. — Eu... não. Não estou nada bem. — Fecho os olhos esperando a vertigem passar. Ela me ajuda a sentar na cadeira mais próxima e tenta me acalmar. — Acalme-se, seu pai está estável agora. — Eu quero vê-lo! Por favor, me deixe ver meu pai... Dra. Green assente rapidamente, seu rosto é um misto de sobriedade e compaixão. — Tudo bem, eu só preciso que você entenda que ele vai precisar continuar com o tratamento. Precisa tomar os remédios todos os dias daqui para frente. E se por acaso ele tiver qualquer sintoma, teremos que pensar na cirurgia. — Está bem, quando ele pode ter alta? — Devemos monitorar o ritmo cardíaco e fazer o tratamento intensivo, se tudo ocorrer bem ele será liberado amanhã à tarde. Percorro pelos corredores seguindo os passos da doutora, quando ela para em frente à porta do quarto começo a estremecer novamente. Prendo a respiração e adentro o pequeno cômodo, meus olhos buscam pela figura do meu pai e o encontram deitado e adormecido na maca. Seu aspecto frágil e pálido me deixa sem ar, mas o que me dói mais é ver tantos tubos intravenosos em seu corpo inerte. Ando até ele e toco delicadamente a sua mão, ele está tão gelado! Seguro o fino cobertor e puxo até que lhe cubra melhor. — Vou deixá-los a sós. Se tiver alguma dúvida me chame. Murmuro um agradecimento e a ouço sair enquanto continuo fitando o rosto do papai. Avisto uma cadeira acolchoada e sento-me ao lado da maca, fico ali observando o rosto pacífico dele enquanto dorme. Suas pálpebras se movimentam e o assisto abrir os olhos lentamente. — Pai? — sussurro. — Candice? O que está fazendo aqui, filha? — Sua voz soa quase inaudível. — Como assim o que eu faço aqui? O senhor me deu um baita susto, foi isso! Está no hospital, se lembra de algo? — Sim querida, mas não precisava vir e atrapalhar seus estudos... Levanto-me e me aproximo do seu rosto, lhe beijando a face. — Paizinho, pare de bobagem! É claro que eu viria! — Suspiro quando vejo sua expressão de culpa, como se ele fosse um incomodo para mim. — Pai, eu estou falando sério. Por que não me ligou antes? Você se sentiu mal de repente? Ele fecha seus olhos azuis com força e balança a cabeça. — Já havia sentido alguns sintomas antes, mas não sabia que era o coração. Achei que fosse o estômago ou algo parecido... Acaricio seus cabelos loiros curtos, mal se nota os fios grisalhos. Meu pai ainda é jovem e em forma, por isso é tão difícil de entender. Como ele pode ter sofrido um infarto? Tem somente trinta e nove anos, nunca fumou, não bebe, e raramente come besteiras! Sempre gostou de correr e fazer caminhadas... Eu simplesmente não compreendo. — Deveria ter ido ao médico, pai. Você prometeu que ia se cuidar enquanto eu tivesse fora. Não faça mais isso, ok? — Aprendi da pior forma, filha. Não se preocupe comigo, não vou dar essa bola de novo. — Volta a fechar os olhos e então noto sua respiração ofegante. — Ficarei com você até te darem alta, já pedi para meus amigos me passarem anotações das aulas e avisar meus professores... — Não! Candice, você deve voltar para faculdade. Não precisa ficar aqui, eu estou bem. Foi só um susto. — Não sei de onde ele tirou as forças, mas segura minha mão firmemente. Ele está louco se acha que vou deixá-lo sozinho! — Pai! Já conversei com a médica, ela disse que talvez você tenha alta amanhã. Não vou embora. — Você é teimosa, filha. Era para você estar focando nos seus estudos e não se preocupando com seu velho! Meu celular toca e verifico o número que está ligando. É a Nathy! Esqueci de avisar que cheguei bem! — Amiga! Foi mal, eu me esqueci de ligar. — Percebi. Está tudo bem? Olho de relance para o meu pai e gesticulo para ele dizendo que já volto. Caminho até a porta, saindo para o corredor. — Nathy, meu pai é um cabeça dura... ele está tentando amenizar toda a situação. — Eu já sabia que ele iria fazer isso! Senhor Thomas não gosta de te preocupar, amiga. Apesar de todos o chamarem de “senhor”, inclusive eu, papai está longe de ser um idoso. Por isso reviro os olhos, pois Nathy pronunciou essa palavra de forma sedutora. Faz isso só para implicar comigo, como de costume! — É... eu sei. O pior é que ele estava me escondendo o jogo sobre sua situação financeira! — Passo os dedos pelas minhas madeixas loiras, enrolando as pontas. — A médica já me avisou do seguro, ele não cobre tudo. Vou pagar sem ele saber, papai não pode se estressar por causa do coração. — Nossa! Se precisar de dinheiro emprestado eu posso falar com minha mãe... Nunca! Eu amo a minha amiga como uma irmã, mas nunca faria isso. Ainda mais pedir dinheiro para sua mãe, elas não se dão bem! — Não é necessário, eu tenho minhas economias. Juntei cada centavo de quando trabalhei como recepcionista no consultório dentário. — Ah, verdade, mas me avise se mudar de ideia, ok? — Ok... Desligamos e passo rapidamente na lanchonete para tomar meu café da manhã, quase almoço, antes de voltar ao quarto. Retorno com a barriga forrada e me acomodo na cadeira novamente, percebendo que papai apagou, aproveito e fecho os olhos para um cochilo... — Senhorita? Uma voz calma me desperta do torpor. Apuro minha visão borrada com o sono e vejo uma enfermeira. — Oi? — Digo um pouco grogue, ainda despertando. — Senhorita, me perdoe a intromissão, mas já está dormindo faz algumas horas e notei que não comeu nada... Até o seu pai já almoçou e voltou a dormir. Que exagerada, eu fui dormir pouco depois de uma hora! — Obrigada. Pode me informar as horas? Ajeito-me no assento e sinto os músculos gritarem de dor. Dormi numa posição horrível! Massageio a nuca com desespero, mas assim que começo a acordar para valer várias sensações de incomodo me afligem. Primeiro é a bexiga cheia, preciso urgente ir ao banheiro! A segunda é a fome corrosiva, meu estômago está doendo já implorando por comida, de novo! — Querida, são duas horas da tarde de domingo. O que? Não é possível! Estou dormindo por vinte e quatro horas? vinte e quatro? Meu queixo cai, estou pasma. Fiquei praticamente em coma e ninguém me acordou? Pensando bem eu não dormi por um dia inteiro e ainda viajei de carro na madrugada. Estava exausta, fisicamente e emocionalmente. O lado bom disso tudo é que meu pai logo terá alta, assim espero! Olho para ele deitado em sua fina maca, dormindo... ao menos já acordou e fez suas coisas antes de voltar pro seu sono restaurador. Corro para o banheiro antes de passar no refeitório do hospital, compro dois sanduíches naturais e um suco de laranja para matar o que estava me matando: a fome. Aproveito e respondo as centenas de mensagens dos meus amigos. Retornando ao aposento onde meu pai está internado, deparo-me com a doutora no corredor. — Olá, era você mesmo quem eu estava procurando — diz com um pequeno sorriso. — Sim? Ele já pode ir? — Felizmente sim, já dei alta. Seus batimentos cardíacos estão bons e não houve nenhuma recaída. No entanto, ele continuará tomando alguns medicamentos como parte do tratamento. Assinto aliviada. Finalmente meu pai pode voltar pra casa! — Preciso que algum responsável siga até a recepção para receber a conta. Logo ele poderá ser liberado. Vou até o local indicado e espero a atendente me informar o total dos gastos, minhas mãos tremem de nervoso e expectativa. Preencho algumas papeladas e, quando finalmente recebo a conta, quase caio para trás. Por dois dias de internação, mais os exames médicos, as medicações e o procedimento de cateter eu terei de pagar vinte mil dólares! Vinte mil! Já era... Eu só tenho míseros três mil na poupança! Como faço? — Hã... Tem como eu pagar uma parte agora e o resto em prestações? A mulher me olha séria, afinando os lábios. — Você tem até noventa dias para pagar o total. Entrego o meu cartão com as mãos suando frio, e rezo para conseguir esse dinheiro, ou terei que pagar juros e de quebra ficar com o nome sujo! Nossa... Ainda tem as medicações da receita para comprar! Prendo o choro e tento raciocinar. Preciso encontrar um emprego urgente e que pague bem. Super bem!

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