Correndo feito uma barata tonta, eu confiro pela milésima vez se a
porta do meu quarto está trancada. Sentindo a adrenalina percorrendo minhas
veias eu tento controlar os batimentos cardíacos e as mãos trêmulas enquanto
esborrifo um pouco de perfume, por pouco não derrubo o frasco no chão ao
desviar minha atenção para o tubo de batom vermelho mate. Reaplico uma
camada nos meus lábios já rubros e confiro se não manchei os dentes (sou
mestre em fazer isso!), aproveitando para checar meu hálito ao assoprar na
minha mão em concha. Eu estou tão agitada que não percebo o ridículo
daquilo, não faria diferença alguma se eu estivesse cheirosa ou com bafo
afinal!
Espio meu corpo para ter certeza se meu conjunto de lingerie está
devidamente em seu lugar, ajustando o fio dental no meu bumbum um pouco
incomodada com a sensação dele atochado lá no meio, mas ao mesmo tempo
admirada com a forma como ele acentua meus quadris outrora estreitos.
Prazer em finalmente te ver, bundinha! Penso enquanto me empino e
olho minha forma por trás do ombro. Realmente pareço ter mais bunda do
que de costume!
Coloco a playlist para tocar num volume médio e então meu estômago
embrulha quando percebo ter chegado a hora. Eu estou prestes a fazer algo
inimaginável, pelo menos para mim, e por um segundo cogito desistir.
Inspiro fundo, soltando lentamente o ar pela boca. Desistir agora não é opção.
Acalme-se, Candy! Você está no controle.
Posiciono-me de frente ao notebook, mais precisamente em frente à
câmera, e fito a tela do monitor.
Ali eu leio a seguinte mensagem:
— Porra! Quantas vezes eu tenho que pedir para que me entregue essa droga de contrato? Bato minhas mãos contra a mesa de mogno do meu escritório e me arrependo assim que sinto a dor se alastrar dos dedos até o braço. Minha paciência já se esgotou, essa assistente nova é lerda demais, já é a terceira vez que peço pela mesma coisa e nada! Preciso ler o maldito contrato antes que a reunião comece, e agora tenho menos de uma hora para me preparar. — De-Desculpa senhor Knight! A impressora estava sem tinta e tive que trocar o cartucho... — Achei que tivesse dito que era proativa na entrevista! Como deixou que algo assim acontecesse, hein? — Me...me perdoa! Já venho trazer os papéis... A assistente, da qual não lembro o nome, se desculpa profusamente antes de sair em busca do bendito contrato. Percebo uma lágrima escorrer pelo seu rosto no instante em que se vira e, vendo aquela cena, sinto que minha cabeça vai explodir. Merda! Massageio minha têmpora e inspiro fundo algumas vezes para controlar o estresse. — Cara, o que foi que você fez dessa vez? Aperto os olhos com força e passo as mãos pelos meus cabelos antes de olhar o meu irmão mais novo que acabara de entrar sem permissão, como de costume, na minha sala. — Eu não fiz nada, Gabe! Aquela assistente é que não sabe fazer o trabalho dela. — James, não precisava fazer a pobre coitada chorar... — Se não aguenta a pressão, então devo demiti-la! Eu avisei a maneira como as coisas são aqui na empresa logo na entrevista e ela aceitou. Gabe me encara por um longo momento sem falar nada e então balança a cabeça. — Cara, eu e Pete concordamos que precisamos conversar. Já sei sobre que os meus irmãos querem conversar, mas finjo ignorância a respeito. — Então conversem os dois, ué! Agora me dê licença, preciso organizar a papelada antes que os nossos clientes cheguem. — Não se faça de desentendido, James. Precisamos conversar, nós três. A porta se abre novamente e eu me levanto, achando que é a tal assistente me trazendo o contrato. Fecho a cara quando vejo que é o meu outro irmão. Cacete! Cadê. A. Porra. Da. Minha. Assistente. Imprestável? — O que você quer, Pete? — esbravejo. Meu irmão do meio levanta as mãos para o alto e me olha espantado. — Opa! Calma brother, só vim avisar que os slides e tudo o mais estão prontos na sala de reunião. Meus irmãos gêmeos me olham preocupados, o que só piora o meu humor. Odeio que me olhem dessa maneira. Não suporto que sintam pena de mim. Eu deveria ser o mais forte — sendo o irmão mais velho, ainda que por alguns minutos — sou eu quem devia me preocupar com o bem estar deles. — Obrigado por avisar, Pete. E você, Gabe? — Amanso o meu tom de voz o máximo que consigo. — Como já disse antes, eu consegui baixar os números, o projeto está bem mais viável sem perder a qualidade. — Ótimo! Os contratos estão prontos, mas preciso deles impressos! Mal termino de falar e a porta se abre novamente, minha ampla sala parece menor com tanta gente aqui dentro. — Aqui está senhor, desculpe a demora. — Ela me entrega os documentos com as mãos trêmulas e seu olhar fixo ao chão. — Evite que isso aconteça novamente, ou então será demitida. A mulher assente e vai embora. — James! Você não pode tratar uma funcionária dessa maneira, cara! — Gabe me admoesta e vejo que Pete concorda. — Brother, você precisa de umas férias, se divertir um pouco. Está ficando cada vez mais ranziza, pô! — Não preciso de nada disso! Amo o meu trabalho, por mais que seja estressante ás vezes... — Afrouxo a gravata, sentindo-me sufocado. Meus irmãos trocam olhares. — James... você só vive aqui no escritório. Não têm saído com a gente, nem com seus amigos. — É, brother. Nós não dissemos nada antes por respeito... mas não acha que já passou da hora? Merda! Não acredito que esses filhos da mãe estão me dizendo isso! Sinto o meu coração bater contra o tórax tão forte que fico com falta de ar. As lembranças tentam se apoderar de mim, me sufocando, mas eu luto contra elas e as bloqueio. — Vocês não sabem do que estão falando, porra! — Cara, nós sabemos que você odeia que toquem no assunto, mas já faz quase dois anos desde que ela se foi. — Gabe encolhe os ombros e sua expressão fica mais séria, algo incomum de se ver. A pressão no tórax aumenta a cada palavra que sai da boca de Gabe, minha visão fica turva e luto para não transparecer minha dor. Porra, eu não quero sentir isso! — Eu sei que você a amava e respeitamos o seu luto, mas já está na hora meu brother... — Fecho os olhos com força ao ouvir Pete, e quando os abro vejo tudo vermelho — Stacy não gostaria de te ver desse modo. Se afastando cada vez mais das pessoas e se tornando esse ser que parece prestes a explodir a qualquer segundo! Vôo pra cima dele com a mão fechada em punho, mas Gabe me segura antes que eu acerte o rosto do meu outro irmão. Me solto bruscamente dos braços de Gabe e me afasto dos dois, antes que desfigure os seus rostos. Chego a parar para pensar como seria mais fácil de nos discernir se eu fizesse isso, mas inspiro fundo e acalmo meus nervos. — Não abram mais a boca para falar sobre isso! — Afasto-me até minha mesa com o peito arfante — Eu estou bem da maneira como estou lidando com minha vida. O trabalho é a única coisa que me preenche o vazio que Stacy deixou. — Desculpa, James. — Eles dizem em uníssono. Quando enfim acho que o assunto está por encerrado, ouço o Gabe falar: — Mas você tem que admitir que está fora de controle. Tive que pagar uma nota na indenização de Suzanna. Olho para ele incrédulo. — Suzanna? Quem é essa? — Sua última assistente, aquela que se demitiu por justa causa! Esfrego as mãos no meu rosto quando enfim lembro-me de quem ele está falando. Suzanna se demitiu quando gritei com ela, e com razão, por ela não ter me passado a ligação do meu cliente mais importante. Tudo bem que pedi para avisar que estava fora enquanto eu redigia a porra do contrato desse mesmo cliente, mas fui claro ao dizer que se fosse relacionado a ele, era para me passar as malditas ligações. — Nós somos seus irmãos e te amamos, mas nem a gente está aguentando, bro. Encaro os dois sem palavras, tenho estado com a cabeça quente ultimamente, admito. Mas não imaginava ser tão grave assim. — O que vocês dois me sugerem então? Que eu tire as benditas férias? E então o que será das reuniões agendas nesses meses todos, hein? — Cruzo os braços à espera da brilhante resposta. Pete coça a cabeça e olha para o Gabe. Os dois se comunicam em silêncio, coisas de gêmeos, por isso também compreendo o significado daqueles olhares. — Nem fodendo! Literalmente! — Nego veemente com a cabeça, tremendo de raiva. — Mas você está precisando, cara! Vamos sair essa noite e arrumar uma gata para você. Posso sentir a pressão do sangue subindo até a minha cabeça. Só de me imaginar com outra mulher sinto como se estivesse traindo a Stacy. Confesso que sai com algumas mulheres, mas todas as vezes que terminava a foda eu me sentia péssimo. A culpa era tanta que sequer sentia prazer no ato do sexo, tinha que fechar os olhos e imaginar minha esposa para poder gozar. Lembrava-me do seu perfume de rosas misturado com seu suor, seus cabelos pretos revoltos contra o travesseiro e os sons que ela emitia a cada estocada minha. Desisti de buscar prazer em outras mulheres e desde então alivio a tensão com as mãos mesmo, buscando em minha memória a sua perfeição. — Não adianta, porra! Vocês não acham que já tentei? Depois desses vinte meses, acham mesmo que não transei com outras? Os olhares de alívio deles só aumentam minha raiva. Parece que a única coisa que os preocupavam era se eu havia transado. Caralho, do que adianta transar e não sentir a porra do desejo? — Não deve ter tentado direito então, brother. — Pete balança a cabeça sorrindo, me dá vontade de quebrar seus dentes. — Não se feche pro mundo, James. Há tanta mulher legal por ai... não tô dizendo que é para você se apaixonar de novo, mas se divertir e relaxar. — Não estou a fim de conhecer ninguém. — resmungo. — Mas é o que tô tentando dizer, cara! Não precisa conhecer! Não precisa sequer saber seu nome... — Não sou como você, Gabe. — Passo os dedos por meus cabelos curtos e os levo até a nuca. — Brother, faça o que quiser. Só por favor... Alivie essa tensão. Se não quiser sair por ai atrás de sexo gostoso o problema é seu! Mas não venha nos encher o saco, não aguentamos mais essa merda! Alguém bate na porta me impedindo de dar uma boa resposta ao Pete. — Entre! — Com licença. O senhor Mitchell e sua equipe chegaram. — Minha assistente comunica num sussurro irritante. Puta que me pariu! Os filhos da mãe ficaram me perturbando tanto que nem tive tempo de reler os papéis! Agora já era, a reunião deve começar. Minha pressão aumenta fazendo a dor de cabeça voltar com força total. Gabe e Pete me fitam preocupados quando me flagram massageando novamente a têmpora, um gesto comum ultimamente. Talvez eles tenham alguma de razão. Não concordo em tudo, mas realmente eu preciso relaxar um pouco e me aliviar dessa tensão.
A festa da fraternidade Kappa Sigma, onde meu amigo Michael vive, começou tarde, como sempre. Por isso estou saindo do Campus da Universidade Stanford em plena madrugada, espero conseguir chegar ao Hospital em Fresno no início da manhã! Olho para o relógio digital no painel do carro percebendo já quase ser três horas, mas não posso acelerar sem por minha vida em risco. Meus olhos estão cheios de lágrimas e está sendo extremamente difícil enxergar, por mais que eu queira chegar logo e ver meu pai, não posso arriscar sofrer um acidente. Do que adiantaria? Não ajudaria em nada o meu pai se estivesse morta. Normalmente eu levo por volta de três horas saindo de Palo Alto, em San Francisco, até a minha cidade natal. No entanto, a estrada está mais deserta e sem o trânsito consigo chegar um pouco mais rápido, eu acho. Meu celular começa a tocar alto fazendo meu coração disparar com o susto, mas não atendo. Provavelmente é a Nathy querendo saber onde fui parar. Droga! Na minha pressa e desespero esqueci completamente de deixar uma mensagem. Paro o carro no encostamento e retorno sua ligação. — Alô? — Cadê você? Estava morrendo de preocupação! Sumiu da festa e não te encontrei em casa... Oh não! Eu estou atrapalhando alguma coisa? Finalmente deixou de ser caretinha e está na cama de um cara gostoso? Nathy não me dá nenhuma brecha para responder! Caramba! Como ela consegue falar tanto sem dar uma pausa para respirar? — Não, ami-miga... — Minha voz sai entrecortada com os pequenos soluços. — Candice, está me preocupando. O que aconteceu? Onde você está? Inspiro fundo e solto o ar pela boca antes de responder. — Estou indo ver meu pai... Ele está no hospital, Nathy. Posso escutar minha amiga arfando no outro lado da linha. — Por que não me avisou? Eu iria com você! Está com o meu carro? Eu não o achei no estacionamento. — Nem pensei amiga, só precisava sair logo daí. Desculpe pelo carro... Fungo e seco o nariz, encostando a testa no volante. — Eu não me importo com isso! Só acho que você não deveria estar dirigindo nessas condições, eu poderia levá-la... — Eu estou conseguindo dirigir, não se preocupe comigo. Quando eu chegar lá te aviso, ok? Só me faça um favor... avise aos nossos professores em comum na segunda se eu não voltar a tempo? — Claro amiga, mesmo se eu não avisar eles saberão que algo aconteceu. Vão sentir falta da melhor aluna, se eu não fosse sua amiga sentiria inveja! Solto um pequeno riso e balanço a cabeça. Nathy sempre implica comigo sobre eu ser estudiosa. Diferente dela, que tem uma família com dinheiro, eu não posso me dar ao luxo de perder minha bolsa de estudos. Além do mais, prometi ao meu pai. — Te amo sua louca, preciso ir agora... — Também te amo, amiga CDF linda! Mantenha-me informada... Finalizo a ligação e volto minha atenção à pista escura. Já estou a caminho, papai. *** Adentro o estacionamento do Hospital do Coração e fico de boca aberta com a fachada, ironicamente meu peito dói! Parece mais um hotel de luxo, imagine quanto vai ser a conta hospitalar... Uma facada. Corro até a entrada e espero a recepcionista me atender, estou tremendo dos pés à cabeça e meus olhos estão inchados de tanto chorar, mas tento manter a compostura. — Bom dia, meu pai está internado aqui e preciso vê-lo. — Qual é o nome do paciente? — Thomas Greece, ele foi internado ontem à noite. A recepcionista digita as informações no computador com destreza e logo me olha por sobre o alto balcão. — Aguarde, por favor. A Dra. Green irá chamá-la. Como assim? Tenho que esperar para poder ver o meu próprio pai? — Não posso ver o meu pai antes? — Infelizmente são ordens, a doutora gostaria de conversar com você antes de levá-la ao quarto. Sento-me angustiada na sala de espera e observo o interior do hospital para passar o tempo. É tudo tão limpo e bem iluminado, as cadeiras e sofás são confortáveis e o estilo lembra mesmo a de um Hotel SPA. Será que os pacientes recebem um tratamento de massagem como parte da internação? Sorrio com esse pensamento, tão logo o sorriso surge em meus lábios ele some. Isso aqui não é brincadeira, meu pai está mal e talvez precise de cirurgia. — Senhorita Greece? Aquela mesma voz feminina e forte do telefone chama pelo meu nome. Levanto o olhar e me deparo com uma mulher usando um jaleco branco, seus cabelos ruivos estão presos em um alto coque. Sua altivez é um tanto intimidadora, mas quando fito seus olhos ternos sinto empatia. — Sim... sou eu! Levanto-me do assento para conversar melhor e fico uns quinze centímetros mais alta do que ela. Que engraçado, a primeira vista ela parecia bem maior, deve ser sua postura. — Vou direto ao ponto com você, o seu pai sofreu infarto agudo do miocárdio causado por entupimento das artérias. A caminho do hospital ele teve uma parada cardíaca, mas a equipe conseguiu fazê-lo bater sozinho novamente. Tivemos que administrar alguns remédios para tratar de coágulos e fizemos cateterismo... Assinto catatônica, meu rosto molhado com a torrente de lágrimas que cai sem eu precisar sequer piscar. Eu quase perdi a única pessoa que tenho nessa vida! Nunca conheci minha mãe, ela me abandonou com meu pai depois que nasci e nunca quis saber de mim, então não fiz questão de saber sobre ela também. Papai diz que ela foi sua namorada e que haviam terminado antes dela descobrir que estava grávida. Quando ele soube da gravidez quis reconciliar, porém ela não aceitou, e se não fosse pela insistência do senhor Thomas eu nem estaria aqui hoje! Meus avós já são falecidos, lembro-me pouco deles, pois eu ainda era pequena quando estavam vivos. Portanto, só de pensar na possibilidade de meu pai morrer é terrível. Como se eu fosse jogada num abismo escuro e sem fim, engolida pelas sombras num vortex. A ânsia de vômito volta, sinto a visão escurecer e fico tonta. — Candice? Você está bem? A doutora segura meu braço quando minhas pernas se dobram como gelatinas. — Eu... não. Não estou nada bem. — Fecho os olhos esperando a vertigem passar. Ela me ajuda a sentar na cadeira mais próxima e tenta me acalmar. — Acalme-se, seu pai está estável agora. — Eu quero vê-lo! Por favor, me deixe ver meu pai... Dra. Green assente rapidamente, seu rosto é um misto de sobriedade e compaixão. — Tudo bem, eu só preciso que você entenda que ele vai precisar continuar com o tratamento. Precisa tomar os remédios todos os dias daqui para frente. E se por acaso ele tiver qualquer sintoma, teremos que pensar na cirurgia. — Está bem, quando ele pode ter alta? — Devemos monitorar o ritmo cardíaco e fazer o tratamento intensivo, se tudo ocorrer bem ele será liberado amanhã à tarde. Percorro pelos corredores seguindo os passos da doutora, quando ela para em frente à porta do quarto começo a estremecer novamente. Prendo a respiração e adentro o pequeno cômodo, meus olhos buscam pela figura do meu pai e o encontram deitado e adormecido na maca. Seu aspecto frágil e pálido me deixa sem ar, mas o que me dói mais é ver tantos tubos intravenosos em seu corpo inerte. Ando até ele e toco delicadamente a sua mão, ele está tão gelado! Seguro o fino cobertor e puxo até que lhe cubra melhor. — Vou deixá-los a sós. Se tiver alguma dúvida me chame. Murmuro um agradecimento e a ouço sair enquanto continuo fitando o rosto do papai. Avisto uma cadeira acolchoada e sento-me ao lado da maca, fico ali observando o rosto pacífico dele enquanto dorme. Suas pálpebras se movimentam e o assisto abrir os olhos lentamente. — Pai? — sussurro. — Candice? O que está fazendo aqui, filha? — Sua voz soa quase inaudível. — Como assim o que eu faço aqui? O senhor me deu um baita susto, foi isso! Está no hospital, se lembra de algo? — Sim querida, mas não precisava vir e atrapalhar seus estudos... Levanto-me e me aproximo do seu rosto, lhe beijando a face. — Paizinho, pare de bobagem! É claro que eu viria! — Suspiro quando vejo sua expressão de culpa, como se ele fosse um incomodo para mim. — Pai, eu estou falando sério. Por que não me ligou antes? Você se sentiu mal de repente? Ele fecha seus olhos azuis com força e balança a cabeça. — Já havia sentido alguns sintomas antes, mas não sabia que era o coração. Achei que fosse o estômago ou algo parecido... Acaricio seus cabelos loiros curtos, mal se nota os fios grisalhos. Meu pai ainda é jovem e em forma, por isso é tão difícil de entender. Como ele pode ter sofrido um infarto? Tem somente trinta e nove anos, nunca fumou, não bebe, e raramente come besteiras! Sempre gostou de correr e fazer caminhadas... Eu simplesmente não compreendo. — Deveria ter ido ao médico, pai. Você prometeu que ia se cuidar enquanto eu tivesse fora. Não faça mais isso, ok? — Aprendi da pior forma, filha. Não se preocupe comigo, não vou dar essa bola de novo. — Volta a fechar os olhos e então noto sua respiração ofegante. — Ficarei com você até te darem alta, já pedi para meus amigos me passarem anotações das aulas e avisar meus professores... — Não! Candice, você deve voltar para faculdade. Não precisa ficar aqui, eu estou bem. Foi só um susto. — Não sei de onde ele tirou as forças, mas segura minha mão firmemente. Ele está louco se acha que vou deixá-lo sozinho! — Pai! Já conversei com a médica, ela disse que talvez você tenha alta amanhã. Não vou embora. — Você é teimosa, filha. Era para você estar focando nos seus estudos e não se preocupando com seu velho! Meu celular toca e verifico o número que está ligando. É a Nathy! Esqueci de avisar que cheguei bem! — Amiga! Foi mal, eu me esqueci de ligar. — Percebi. Está tudo bem? Olho de relance para o meu pai e gesticulo para ele dizendo que já volto. Caminho até a porta, saindo para o corredor. — Nathy, meu pai é um cabeça dura... ele está tentando amenizar toda a situação. — Eu já sabia que ele iria fazer isso! Senhor Thomas não gosta de te preocupar, amiga. Apesar de todos o chamarem de “senhor”, inclusive eu, papai está longe de ser um idoso. Por isso reviro os olhos, pois Nathy pronunciou essa palavra de forma sedutora. Faz isso só para implicar comigo, como de costume! — É... eu sei. O pior é que ele estava me escondendo o jogo sobre sua situação financeira! — Passo os dedos pelas minhas madeixas loiras, enrolando as pontas. — A médica já me avisou do seguro, ele não cobre tudo. Vou pagar sem ele saber, papai não pode se estressar por causa do coração. — Nossa! Se precisar de dinheiro emprestado eu posso falar com minha mãe... Nunca! Eu amo a minha amiga como uma irmã, mas nunca faria isso. Ainda mais pedir dinheiro para sua mãe, elas não se dão bem! — Não é necessário, eu tenho minhas economias. Juntei cada centavo de quando trabalhei como recepcionista no consultório dentário. — Ah, verdade, mas me avise se mudar de ideia, ok? — Ok... Desligamos e passo rapidamente na lanchonete para tomar meu café da manhã, quase almoço, antes de voltar ao quarto. Retorno com a barriga forrada e me acomodo na cadeira novamente, percebendo que papai apagou, aproveito e fecho os olhos para um cochilo... — Senhorita? Uma voz calma me desperta do torpor. Apuro minha visão borrada com o sono e vejo uma enfermeira. — Oi? — Digo um pouco grogue, ainda despertando. — Senhorita, me perdoe a intromissão, mas já está dormindo faz algumas horas e notei que não comeu nada... Até o seu pai já almoçou e voltou a dormir. Que exagerada, eu fui dormir pouco depois de uma hora! — Obrigada. Pode me informar as horas? Ajeito-me no assento e sinto os músculos gritarem de dor. Dormi numa posição horrível! Massageio a nuca com desespero, mas assim que começo a acordar para valer várias sensações de incomodo me afligem. Primeiro é a bexiga cheia, preciso urgente ir ao banheiro! A segunda é a fome corrosiva, meu estômago está doendo já implorando por comida, de novo! — Querida, são duas horas da tarde de domingo. O que? Não é possível! Estou dormindo por vinte e quatro horas? vinte e quatro? Meu queixo cai, estou pasma. Fiquei praticamente em coma e ninguém me acordou? Pensando bem eu não dormi por um dia inteiro e ainda viajei de carro na madrugada. Estava exausta, fisicamente e emocionalmente. O lado bom disso tudo é que meu pai logo terá alta, assim espero! Olho para ele deitado em sua fina maca, dormindo... ao menos já acordou e fez suas coisas antes de voltar pro seu sono restaurador. Corro para o banheiro antes de passar no refeitório do hospital, compro dois sanduíches naturais e um suco de laranja para matar o que estava me matando: a fome. Aproveito e respondo as centenas de mensagens dos meus amigos. Retornando ao aposento onde meu pai está internado, deparo-me com a doutora no corredor. — Olá, era você mesmo quem eu estava procurando — diz com um pequeno sorriso. — Sim? Ele já pode ir? — Felizmente sim, já dei alta. Seus batimentos cardíacos estão bons e não houve nenhuma recaída. No entanto, ele continuará tomando alguns medicamentos como parte do tratamento. Assinto aliviada. Finalmente meu pai pode voltar pra casa! — Preciso que algum responsável siga até a recepção para receber a conta. Logo ele poderá ser liberado. Vou até o local indicado e espero a atendente me informar o total dos gastos, minhas mãos tremem de nervoso e expectativa. Preencho algumas papeladas e, quando finalmente recebo a conta, quase caio para trás. Por dois dias de internação, mais os exames médicos, as medicações e o procedimento de cateter eu terei de pagar vinte mil dólares! Vinte mil! Já era... Eu só tenho míseros três mil na poupança! Como faço? — Hã... Tem como eu pagar uma parte agora e o resto em prestações? A mulher me olha séria, afinando os lábios. — Você tem até noventa dias para pagar o total. Entrego o meu cartão com as mãos suando frio, e rezo para conseguir esse dinheiro, ou terei que pagar juros e de quebra ficar com o nome sujo! Nossa... Ainda tem as medicações da receita para comprar! Prendo o choro e tento raciocinar. Preciso encontrar um emprego urgente e que pague bem. Super bem!