Secretaria submissa
Capítulo 1 Passado

Passado — Sou o mais forte. Posso fazer isso, pai! – Christopher, meu irmão mais velho, se voluntariou para cortar lenha. Nossa família havia decidido passar as férias de verão em uma casa de campo, com o intuito de nos divertimos, mas parecia que eu era o único que não encontrava graça naquele calor infernal misturado ao cheiro de mato e cocô de cavalo que transpirava dos cantos daquele lugar. Nada contra a vida campestre. Porém, eu adorava a cidade grande e todas as facilidades que ela proporcionava. Confesso que até sentia falta das aulas na escola – eram muito mais interessantes que cortar o tronco de árvore para brincarmos de acender a lareira à noite, quando a temperatura despencava bruscamente. A verdade era que havia lenha o bastante para o mês inteiro armazenada nos cestos de verga na sede. Mas o sr. Carl Simmons, meu pai, desde que eu e meu irmão crescemos o suficiente para compreendermos sobre ensinamentos de vida, fazia questão de tirar um tempo em sua agenda congestionada e nos levar para fazer as mesmas atividades que praticou com nosso falecido avô no passado. Tudo para que no futuro nos tornássemos homens dignos de todo o império que ele próprio construiu a duras penas. Com todas essas lições que queria nos passar, desconfiava que meu pai viraria palestrante quando se aposentasse dos Negócios. — Não, papa! Eu! Eu! Eu sou mais forte! — a pequena Sienna dizia, pulando no colo de nosso pai, que gargalhou com o pedido ousado de minha irmãzinha. Minha mãe segurou Sienna e a repreendeu com doçura: — Você é muito pequena, meu amor. E também essas atividades não combinam com uma donzela feito você. A garotinha cruzou os braços e enfezou o rosto, com um bico enorme nos lábios. O fato era que, dentre os três filhos que minha mãe tivera, a mais nova ironicamente tinha o gênio mais forte. Já Christopher, assim como eu, era mais reservado, tranquilo. No entanto, admito que na infância costumávamos ser mais ariscos, mas isso mudou com o passar do tempo e agora temos mais juízo do que mais da metade dos adolescentes esfuziantes da nossa escola. Meu pai se aproximou e fez cócegas na barriga da minha irmã, que soltou uma risada engraçada. — Ao voltarmos à sede, prometo que pensarei em algo divertido para você, princesinha. — Promete, papa? — Os olhos dela brilharam. — Prometo! — ele afirmou e se virou para me procurar. — Mas agora o seu irmão cortará a lenha. Não queremos passar frio à noite, não é mesmo, Brandon? Christopher sorriu pela expressão de insatisfação que deixei escapar em rosto e logo tratei de desfazê-la. Sabia como aquilo era importante para o meu pai, por isso não retruquei. — Claro! Levantei do assento e caminhei em direção a Christopher, que me entregou o machado. — Manda ver! — Christopher sussurrou. Sob os olhares atentos de nosso pai, posicionei uma tora em cima do tronco que servia de apoio e afastei meu corpo para trás. Com atenção, calculei o diâmetro, demorando mais alguns segundos do que Christopher levava para cravar a lâmina do machado na madeira. Escutei os comentários de minha mãe atrás de mim. — Frio. Estrategista. E com uma ótima... – respirei fundo, levantei o machado e rachei a tora. — E com uma ótima pontaria — ela completou, orgulhosa. — Caramba! – Christopher exclamou, pegando os pedaços lenhas que caíram no chão. — Mais simétrico do que isso, só os lados de uma bola de basquete. Mandou mais que bem, cara! — Christopher sorriu e deixou alguns tapinhas nas minhas costas, enquanto eu ouvia o comentário do minha mãe para o meu pai. — Parece que estamos diante de um ótimo sucessor, Carl. — Besteira, querida! Christopher é o mais velho, estou preparando ele para isso. Minha mãe soltou um suspiro demorado e disse por fim: — Independentemente de quem vai liderar o conglomerado, temos duas boas opções, meu bem. Criamos bem nossos meninos. Tenho certeza de que estamos diante de futuros grandes homens. CAPÍTULO 1 Chicago — Coitadas! Devem estar completamente arrasadas. — O comentário em tom de pesar, ainda que tivesse sido proferido baixinho por alguém, chegou aos meus ouvidos quando fui abraçada por Charlotte, minha irmã mais nova. Ela chorava incessantemente no funeral de nosso pai. Embora eu vivesse o auge dos meus vinte e poucos anos e minha irmã tivesse acabado de alcançar os dezenove, para os amigos da minha família ainda continuávamos a ser as garotinhas de Tom Davies, meu pai. Observei minha mãe, que estava imóvel ao nosso lado. Talvez estivesse ainda em choque devido à rapidez com que as coisas aconteceram. Nunca imaginamos que papai fosse embora tão cedo, tampouco que sofreria um mal súbito ao sair de casa pela manhã e nos deixaria sem chance de despedidas. Apertei os lábios, sentindo um gosto amargo na boca, e voltei a assistir o caixão baixar no túmulo. Uma enorme coroa de flores foi posta sobre o amontoado de terra. Logo um pingo rechonchudo d’água atingiu minha testa, me levando a olhar para o céu nublado. Encarei a chuva iminente e não demorou muito para que algumas pessoas abrissem seus guarda-chuvas pretos e outras saíssem correndo em busca de abrigo. — Temos que ir, mãe. — sussurrei para a senhora de cabelos negros iguais aos meus. Por um momento, pensei que ela não tivesse escutado, pois não me respondeu de imediato. Porém, depois de algum tempo, ela aquiesceu. — Claro. Temos que ir. — Vamos, Charlotte — murmurei, afagando os cabelos de minha irmã. — Eu não quero ir, Tara. Vamos ficar mais um pouco. — ela respondeu, me apertando, ainda em lágrimas. Apesar da minha irmã estar no segundo ano da universidade, ela não aparentava ter a idade que tinha. Era uma menina doce e extremamente sensível. Muitas vezes, suas atitudes me levavam a pensar que ela era uma criança de pernas longas. — Para de bobagem, está chovendo. Se não sairmos daqui, certamente adoeceremos. Não é isso que você quer, não é mesmo? Ela me soltou imediatamente, limpando as lágrimas com o antebraço. — Claro que não. — Ela fungou. Partiu meu coração a ver naquele estado, como se meu coração ainda estivesse em condições de ser golpeado naquele dia. Corremos pela grama viçosa, alcançando o carro de nossa família. Antes mesmo de abrir a porta do carona, notei os homens corpulentos parados debaixo da chuva, ao lado de uma caminhonete preta. Talvez fossem pessoas que estivessem ali à espera de um próximo sepultamento ou simplesmente conheciam meu pai e haviam se atrasado. Seja lá quem aqueles homens eram, isso não ocupou minha mente por muito tempo, pois tudo estava nebuloso demais dentro de mim. A verdade era que ninguém está preparado para perder alguém que se ama, disso eu sei. Mas, perder meu pai naquele momento, foi como se tivessem tirado o pilar basilar da nossa família. Uma perda irreparável. Eu ainda não tinha a mínima noção do quão devastador aquilo ainda poderia se tornar em nossas vidas. Minutos depois — Que carros são esses? Estamos esperando alguém, mãe? — perguntei, estranhando os veículos pretos estacionados em frente à nossa garagem. Por sinal, um deles, a caminhonete preta, muito se assemelhava à que eu vi mais cedo no cemitério. — Não sei. Talvez devam ser os amigos de seu pai querendo notícias — mamãe respondeu, parando logo atrás e destravando o cinto. Papai foi o tipo de homem que fizera muitas amizades em vida, principalmente antes de perder sua empresa para as dívidas. Me lembro como se fosse ontem de nossa casa cheia de homens de ternos caros e mulheres de vestidos fabulosos. Também me lembro do cheiro forte de charutos cubanos que vinha do escritório que ficava no primeiro andar. Um estilo de vida não muito distante da nossa atual realidade, com a diferença de que agora estávamos falidos e apenas nos esforçávamos para manter as aparências. Saímos do carro e atravessamos o jardim, sendo surpreendidas por um senhor de preto sentado no banquinho de madeira em nossa varanda. Acompanhado de dois armários em forma de gente. O senhor tinha cabelos grisalhos, corpo forte e alto e uma acentuada proeminência no local da barriga. A pele do rosto sapecado pelo sol parecia ser coberta por uma camada oleosa de sebo, contrastando com os olhos azuis cinzentos, quase brancos. Ele se levantou, encarando minha mãe. — Gilbert? — mamãe disse em um fio de voz, como se tivesse visto o próprio diabo em pessoa. — Eleanor! — Ele assentiu, abaixando a cabeça momentaneamente. — Meus pêsames, minha querida. Claramente, senti minha mãe ficar desconfortável ao meu lado, enquanto Charlotte perguntava baixinho em meu ouvido: — Sabe quem é? — Não tenho a mínima ideia. — sussurrei de volta. O olhar do velho desviou para minha direção, como se estivesse ansioso por isso. Ele desceu os olhos pelo meu corpo, descaradamente, me embrulhando o estômago, e suspirou pesadamente. Perguntou: — Então essa é a famosa Tara? — Pela primeira vez em meses, tive a impressão que a palavra “famosa” endereçada a mim não fazia referência aos meus 200 mil de seguidores nas redes sociais. — Sim. Essa é minha filha mais velha, Tara. Com o que posso ajudá- lo, Gilbert? — A forma demasiadamente solícita que mamãe tratava aquele homem me assustava. — Não vai me convidar para entrar? Mamãe nos olhou com receio, com os ombros tensos. Quase gritei para ela que o despachasse, porém ela assentiu. — Claro. Vamos entrando — ela disse, dando um passo em direção à porta principal. Fiquei paralisada onde me encontrava e o homem se virou para me perguntar: — Não vai entrar, boneca? — Meu nome não é boneca. — grunhi. — Não sei se vou entrar ou não. Por que isso seria da sua conta? — rebati e assisti seus olhos queimarem. — Filha, por favor, entre. — minha mãe interveio. Raramente minha mãe me chamava de “filha”, pois ela era do tipo que não se expressava com afeto, e isso me fez estranhar a situação. — Por favor, Tara. — ela repetiu, quase rogando. Não sei por que concordei em entrar, mas o fiz, me rendendo ao pedido apreensivo dela. — Tudo bem. Ela suspirou. Dei alguns passos em direção à sala, sendo acompanhada por Charlotte. Ela não conseguia disfarçar seu estranhamento diante de nossa visita. Graças a Deus que aquele homem asqueroso ignorava completamente a existência da minha irmã mais nova, direcionando aqueles olhares apenas para mim. — Meninas, vocês podem subir e me deixar a sós com o sr. Gilbert e seus homens. — mamãe deu a ordem, mas antes que pudéssemos subir para o andar superior, o velho se meteu: — Não, Tara ficará aqui. — Ele apontou para mim. — O assunto é de total interesse da menina. Minha mãe e eu nos entreolhamos e ela pigarreou, olhando para minha irmã. — Charlotte, você pode subir então. — Só saio daqui com a Tara, mãe. Mamãe levou as mãos para as têmporas, visivelmente esgotada com o dia que tivemos. — Apenas suba! — ela disse, entredentes. — Não! — Charlotte bateu o pé. — Agora, Charlotte! Eu sou sua mãe e estou mandando, apenas me obedeça. Apertei o ombro de Charlotte antes que ela se negasse mais uma vez a subir. — Obedeça à mamãe, Lottie. Ela se virou para mim e comentou, baixinho: — Tenho medo desse homem, Tara. Ele está olhando estranho para você desde que chegamos. — Está tudo bem, maninha. Você pode subir. Não precisa se preocupar comigo. Sei me virar, lembra? Qualquer coisa eu chuto as bolas dele igual fiz com o atrevido do Rupert quando ainda estávamos na escola. — Promete? — Prometo. Farei até pior caso precise. Charlotte soltou um sorriso triste e foi finalmente convencida a subir para o segundo andar. Se já não bastasse termos perdido nosso pai naquele dia, ainda tínhamos que lidar com o estresse de uma visita inesperada. Quando os passos de Charlotte desapareceram no andar de cima, escutei o velho se mover pela sala e o vi sentar em nosso sofá, enquanto seus homens permaneciam ao lado da porta de entrada. Um deles me dava calafrios só de olhar: careca, rosto tatuado, corpo forte e olhar tenebroso. — Eu queria ter ido ao funeral de Paul, mas sabe como é que é: eu odeio esses tipos de eventos. — o velho começou falando. — Confesso que prefiro mil vezes a sinceridade do ser humano em seus minutos finais de vida às falsidades diante de um caixão. — O que o trouxe aqui? — mamãe perguntou, se esforçando para amaciar a voz. — Negócios. — Negócios? — Sim. Seu marido fez muitos deles comigo no passado e também me deixou na mão diversas vezes. Agora, mais uma vez, deu um jeito de fugir e não pagar o que me deve. — Ele soltou uma risada seguida de uma tosse seca. — Acho que deve saber disso, Eleanor. Papai ainda devia dinheiro? Quando a empresa do meu pai faliu, eu tinha idade suficiente para saber o que estava acontecendo. Presenciei a venda de várias de suas casas, apartamentos e carros para cobrir o desfalque que se arrastou por anos em sua construtora. Por isso, saber que ele ainda devia alguém me pegou de surpresa. Mamãe pigarreou e confirmou. — Sim, ele comentou comigo dias atrás. Mas acho que não há mais nada que eu possa fazer em relação aos negócios do meu marido. — Claro que não, Eleanor. O que você poderia me dar? Essa casa mequetrefe que Paul comprou na década retrasada? — desdenhou ele. — Por favor, não nos tire essa casa. É um dos últimos bens que temos, eu já vendi quase todas as minhas joias... — Ah, Eleanor! Não me admiro com sua pouca inteligência, afinal, Paul sempre acostumava mal você e suas filhas, não é? Mesmo quebrado, o pobre coitado continuava esbanjando como se estivesse em condições. E sabe o que ele dizia para mim? “Me dê mais dois meses, Gilbert, vou pagar a dívida com juros.”. Mas tudo não passava de uma grande ilusão criada na cabeça do infeliz... — E o que posso fazer, Gilbert? Ele morreu! Não tenho mais nada. Não tenho dinheiro, não tenho mais marido... Apenas essa casa, o carro e minhas filhas. — Sim, você tem suas filhas. — Ele me olhou fixamente. — Ainda bem que tem filhas, Eleanor. Principalmente a bela Tara. — Quer saber? Venda essa casa. Venda o carro. Venda tudo. Mas, por favor, não nos faça mal — mamãe suplicou. — Você não é digna de pena, Eleanor. É burra demais! Gosto de pessoas mais inteligentes. Você acha mesmo que quero o resto dos bens daquele verme? — ele rosnou, se levantando, e vociferou para minha mãe como um canalha covarde: — SEU MARIDO ME DEVE 10 MILHÕES DE DÓLARES! — Eu sinto muito, mas não tenho esse dinheiro, Gilbert! — Minha mãe tremia muito enquanto levava as mãos para a cabeça. — Eu queria ter esse dinheiro para poder entregar a você, mas não o tenho. Gilbert deu um passo para trás e alisou os próprios cabelos com a mão. — Certo. Não vim achando que você iria fazer surgir todo esse dinheiro do nada, mas vim aqui para cobrar a dívida e selar nosso trato. — Trato? Ele me fitou mais uma vez. — Sim. Como não pode me ressarcir a fortuna que seu marido não me pagou em vida, terá que pagar com uma de suas filhas. Depois de ficar observando a conversa de fora, não me contive e me intrometi. — Como assim, seu velho nojento? Pagar com uma de nós? — Língua afiada como eu gosto, boneca. Mas pelo visto terei que ensinar você a me tratar com dedicação e subserviência. Farei questão de ocupar essa boca imunda todas as noites. Verme! O monstro se virou para minha mãe, que estava calada, estática, com os olhos arregalados. — Isso é tudo, Eleanor. Sua filha será a décima mulher com quem eu me casarei. Eu conto com seu apoio e obediência. — ele continuou a dizer absurdos e minha mãe não disse absolutamente nada. Apenas escutou. — Amanhã mesmo venho buscar minha noiva, então separe os documentos da garota e uma muda de roupas. Ela não precisará de muita coisa, eu mesmo faço questão de comprá-las para Tara. Antes de passar pela minha mãe, ele disse como um aviso: — E nem tentem fugir ou me enrolar, eu já estou farto de sua família há muito tempo. E você sabe muito bem o que acontece com que decide me passar a perna, não é mesmo, Eleanor? Seu marido usou da minha misericórdia por um bom tempo, não pense que terá a mesma sorte. A partir de hoje, a garota é minha e o preço será pago. Esperei por um ato de coragem de minha mãe, porém ela abaixou a cabeça e assentiu. — Sim, senhor. Eu sei. — Ótimo. Agora sim Paul poderá quitar sua dívida e o infeliz poderá descansar em paz. A raiva me corroía por dentro toda vez que sua boca se abria para desonrar a memória do meu pai. Como se ele merecesse isso. E o pior, como se eu tivesse a obrigação de pagar aquela maldita dívida com meu próprio corpo, sonhos e alma. Aquilo era um tremendo de um absurdo! Ele saiu pela porta da frente, nos deixando a sós em nossa sala de estar. Corri para minha mãe e peguei suas mãos. — Vamos chamar a polícia, mãe — sussurrei. Ela me olhou com pena e começou a chorar. — Não adiantará, Tara. Você não conhece esse homem... Estamos encurraladas. — Ela soltou minhas mãos e cobriu o rosto. — Ele mandará nos matar antes mesmo de chegarmos à delegacia. — Nos matar? Então esse é mais um motivo para procurarmos ajuda, mãe! — repliquei, indignada. Ela voltou a segurar minhas mãos e nos conduziu para o sofá ao lado. Sentamos uma de frente para a outra, respirando fundo. — Tara, escute-me! Esse homem é perigoso e há gente dele por todos os cantos. Não há como lutar contra ele, confie no que eu digo. Eu sei que o que vou falar é meio absurdo, mas não temos outra alternativa. Você vai ter que casar com Gilbert se quiser viver. — Eu prefiro a morte. — Tara... — Você não está pensando racionalmente, mãe. Não é possível! Em que século acha que vivemos para aceitar que uma coisa dessa aconteça? Vou agora mesmo falar com meus seguidores e avisar à polícia. Seja lá quem esse homem for, sua reputação estará manchada por todos os cantos da América. — disse, pegando o celular do bolso traseiro. No mesmo instante, o aparelho foi arrancado da minha mão. — Você não vai fazer isso! — Claro que vou, mãe! Devolva agora meu celular! Não sou mais nenhuma criança para você decidir os rumos do meu futuro, principalmente quando um velho asqueroso entra em nossa casa me reivindicando para si como se eu fosse uma filha da puta. A palma de sua mão estatelou sonoramente em minha bochecha, levando meu rosto a cair para o lado. — Você não sabe de nada sobre a vida, menina. Você acha mesmo que seus 200 mil seguidores vão impedir que Gilbert nos faça mal? No máximo, essas pessoas ganharão é uma notícia ruim, mas no final você estará morta. Ouviu? Morta! — Seus olhos arregalaram, apavorados. — Eles não poderão fazer nada para reverter isso. E como você não tem prova alguma, esse demônio dará um jeito de limpar toda a sujeira que envolver o nosso nome depois do estrago. — Meu sangue gelou. Embora eu sempre tivera uma relação de diálogo com meus pais, não me recordava de escutar sobre alguém como ele em nosso convívio. — Não existe ninguém que ouse bater de frente com Gilbert Russel. Por isso, pense bem. Não é sua vida que está em jogo, mas a minha e da sua irmã também. — Isso é loucura! Isso só pode ser um pesadelo! — Levei as mãos para a cabeça e puxei meus cabelos, me levantando do sofá. Caminhei até a janela da sala e vi que dois dos homens daquele velho não haviam ido embora. — Por favor, Tara. Pense direito, querida. Pense na sua irmã, em mim. Não seja egoísta a ponto de nos deixar cair em miséria. Sorri, mortificada. — Eu que estou sendo egoísta, claro! — ironizei, baixinho, para que ela não pudesse ouvir. Seja com a vida ou com a morte, o certo era que alguém tinha que pagar a dívida que o papai deixou. E, para meu azar, essa pessoa tinha que ser eu. Me virei para minha mãe, com o medo correndo em minhas veias, e avisei, decidida: — Charlotte deve retornar à Califórnia o mais rápido possível. Assisti ela soltar um suspiro de alívio. — Amanhã mesmo a colocarei dentro de um avião — mamãe respondeu, com um resquício de esperança nos olhos ao passo que nascia um verdadeiro tormento em meu peito. Eu sairia dessa, prometi a mim mesma, ainda que não tivesse ideia do quanto Gilbert poderia ser nocivo. Eu jurei a mim mesma que daria tudo de mim para fugir e levar minha família para bem longe das garras daquele velho.

Capítulo 2 Na manhã seguinte

Na manhã seguinte — Tem algo de errado e vocês não podem me esconder — Charlotte afirmou minutos antes embarcar no próximo voo. Mamãe varreu com as mãos os ombros da minha irmã e negou mais uma vez: — Claro que não, querida. É coisa da sua cabeça. — E por que tenho que voltar urgentemente para Stanford? Dei um passo à frente e a tranquilizei: — Escute, Charlotte. Você confia em mim? Ela meneou a cabeça em positiva. — Então não se preocupe. Eu e a mamãe ficaremos bem e precisamos que embarque nesse voo hoje mesmo — falei, lhe oferecendo um pedaço de papel. — O que isso? — ela perguntou, confusa. — O número de celular de um colega que conheci em um acampamento de verão alguns anos atrás. Arón também está estudando em Stanford e estará esperando você no aeroporto. Por favor, Charlotte, esteja sempre perto dele na universidade e em hipótese alguma saia do campus ou da fraternidade sozinha. — Por que disso agora, Tara? — Pela primeira vez, senti Charlotte se assustar de fato com a situação. — Por que preciso de alguém para me proteger? O que está acontecendo? Estamos correndo perigo? Emudeci. — Eu tenho o direito de saber. — Ela apertou o punho. — É alguma coisa com o papai? É isso? Olhei para minha mãe e ela balançou levemente a cabeça em negativa para mim. Eu não poderia revelar a verdade para Charlotte naquele momento, pois a conhecia suficientemente bem para saber que ela não entraria naquele voo se soubesse da situação em que nos encontrávamos. Tornei a fitar o olhar doce de minha irmã e me aproximei para abraçá- la. — Vai ficar tudo bem, Lottie. Por favor, você tem que confiar em mim para que tudo dê certo. — Eu preciso saber o que está acontecendo para poder confiar em você, Tara. Eu não conseguirei ficar tranquila sabendo que estão me escondendo algo. Apertei seu corpinho contra o meu, encostei os lábios em sua orelha e sussurrei sem que minha mãe pudesse ouvir: — Eu coloquei uma carta em sua bolsa antes de sair de casa. Lá eu explico exatamente tudo. Leia tudo com máxima atenção e cautela quando o avião alçar voo. — Afastei meu corpo e segurei suas mãos. — Vai dar tudo certo, irmã. Mas você precisa entrar no avião primeiro. Ela mordeu o canto dos lábios, contendo as lágrimas. — Certo. A voz no alto autofalante do aeroporto anunciou a última chamada, nos alertando para o tempo. Charlotte me abraçou novamente, só que dessa vez com mais força. — Eu te amo. — Eu te amo muito — respondi, apertando seus cabelos e lutando contra a vontade imensa de chorar. Charlotte recuou um passo, com os olhos em lágrimas, e abraçou nossa mãe também, se despedindo em seguida e caminhando para o portão de embarque. Ela olhou para trás, em uma oportunidade derradeira de nos ver pela última vez, mesmo que por um breve instante, e tão logo se obrigou a seguir em diante, desparecendo na porta à frente. Permanecemos ali por alguns minutos, como se estivéssemos digerindo a partida de Charlotte. Ou talvez só esperando que minha mãe se virasse para mim e me lembrasse daquilo que foi combinado. — Temos de voltar logo para casa. Gilbert já deve estar indo ao seu encontro. — Não. Mamãe se virou para mim e indagou: — Como não? — Não vou fazer isso, mamãe. Não vou dar minha vida de bandeja àquele homem. Ela pareceu inspirar fundo e disse, pausadamente: — Já havíamos conversado sobre isso. Pensei que já estivesse tudo certo em sua cabeça, Tara. Virei para encará-la e disse: — Eu vou fugir agora. Se quiser, venha comigo, mãe. Caso contrário, me sentirei profundamente culpada se algo lhe acontecer. Mas essa é minha vida e você não pode me obrigar a ir ao inferno e continuar vivendo. Assisti seu rosto endurecer e suas linhas de expressão marcarem ainda mais sua face. Minha mãe demorou a falar alguma coisa, mas disse depois de muito pensar: — Qual o seu plano? Perseguimos as portas laterais do aeroporto em passos urgentes. Se tudo desse certo, encontraríamos uma viatura da polícia que nos levaria à delegacia e eu denunciaria todo o ocorrido, pedindo para que acionassem a polícia da Califórnia assim que Charlotte tocasse o chão do aeroporto Internacional de Los Angeles. Embora mamãe acreditasse que nada que fizéssemos mudaria o nosso destino, eu tentaria. Morreria tentando caso fosse preciso. E quando eu chegasse à delegacia, ligaria minha câmera e anunciaria toda essa merda aos quatro cantos, destruindo a imagem de vida perfeita que construí nos últimos anos. — Por favor, nos ajude! — eu disse, me aproximando de um policial ao lado de uma viatura perto da entrada lateral. Ele era alto, tinha cabelos pretos e usava óculos escuros. — Com o que posso ajudar, senhorita? — Eu e minha mãe estamos sendo perseguidas, precisamos de ajuda! — quase implorei por aquilo. — Acalme-se. Claro que posso ajudá-las, vocês estão seguras agora. Mas precisam me contar exatamente o aconteceu — ele disse, tocando o meu braço. — Vamos entrando na viatura, as levarei para um local em que possamos conversar melhor. — Para delegacia? — mamãe questionou o rapaz. — Sim, para a delegacia. — ele falou, abrindo a porta. Mamãe tocou o meu braço, como se quisesse desistir. — Oh, mãe! Vamos lá, vamos manter a fé — disse, baixinho. — Senhorita, algum problema? — o policial perguntou atrás de mim. — Hãm, não, nada! Minha mãe só está assustada. — Seja lá quem esteja perseguindo sua mãe e a senhorita, não deixarei que essas pessoas ponham as mãos em vocês. Dou minha palavra. Senti mamãe relaxar ao meu lado e ela foi convencida pelo homem de bem em nossa frente. Dei espaço para que ela pudesse passar e entrar no carro e em seguida fiz o mesmo, sentando no banco traseiro. — Aliás, qual é mesmo seu nome? — perguntei para o homem que se aprumou no lugar do motorista. Ele retirou os óculos escuros e me respondeu: — Nico. — Prazer, Nico. Eu me chamo Tara, e minha mãe, Eleanor. — O prazer é todo meu, pessoal. — ele respondeu, me encarando pelo retrovisor com um meio sorriso nos lábios. Segurei a mão da senhora ao meu lado e sussurrei que tudo ia dar certo, como um mantra, enquanto Nico dava partida e dirigia para a delegacia. A rota começou a ficar estranha quando não prosseguimos pelas avenidas agitadas de Chicago. Ao invés disso, Nico pegou uma estrada cujos os lados não tinham nada além de árvores enormes e musgos na base dos troncos. Mamãe apertava minha mão com força e eu questionei Nico, que havia ficado calado desde que saímos do aeroporto. — Com licença, Nico. Não deveríamos seguir pela cidade? — Estamos na cidade, srta. Tara. Não se preocupe, estamos quase parando. — Tem certeza? — Absoluta. Olha lá, eles já estão nos esperando — ele disse. — Eles quem? Nós não estávamos indo para a delegacia? Olhei rapidamente para a frente através do para-brisa e avistei dois carros pretos altos, muito semelhantes aos que encontramos no dia anterior quando chegamos do funeral. Alguns homens de pretos esperavam ao lado do carro e um nó se formou em minha garganta quando reconheci um deles, o careca de rosto tatuado. Não. Não pode ser. Não! Fitei minha mãe, que estava cabisbaixa, como se já tivesse imaginado que isso aconteceria. — Desgraçado! — Avancei pelo banco, socando o vidro blindado entre nós, fazendo com que as extremidades estremecessem. — Nós confiamos em você — rosnei. — Infelizmente, não sou uma pessoa em que possa se confiar, senhorita — ele declarou. O homem que se apresentou como Nico parou no acostamento e no mesmo instante a porta do carro da frente se abriu e aquele homem nojento se pôs para fora. Senti todos os meus membros ficarem dormentes, enquanto meu cérebro era esmagado pela possibilidade do meu corpo ser tocado por aquele velho asqueroso. A porta ao lado se abriu em um rompante junto à ordem de Gilbert: — Saia! Fiquei parada, escutando as batidas desesperadas de meu coração, com um grito de socorro entalado na garganta. — Eu disse para sair, sua vadia insolente! — Ele agarrou meus cabelos e me puxou para fora, enquanto minha mãe gritava. Caí no chão, ralando meu braço no asfalto. Ele veio para cima de mim e espancou um tapa em meu rosto. Mamãe gritou mais alto, pedindo para parar, no entanto, sua voz foi abafada por alguém. O covarde me levantou, me segurando pelos cabelos, e disse em meu ouvido: — Essa é a última vez que você terá a chance de tentar fugir de mim. Na próxima, eu corto sua garganta. — Corte minha garganta agora! — Cuspi em sua cara. Ele apertou os olhos, respirou fundo e depois os abriu lentamente, com o inferno no olhar. — Vai demandar muito tempo para domar você, menina. Mas não me importo, adoro éguas selvagens. — Ele acariciou o lado do meu rosto com o dedão e eu fechei os olhos, sentindo minha bochecha queimar com as lágrimas que vazavam dos meus olhos. — Você me amará, Tara. Ou pelo menos, me obedecerá. Eu prometo, menina. Ele se afastou, dizendo alto: — Dom! Pega a garota. Olhei para o lado e vi o brucutu tatuado vindo ao meu encontro com um pano na mão. — O quê? — perguntei enquanto ele se aproximava e pegava minha cabeça com a palma da mão com brutalidade. — O que você vai fazer? Ele não respondeu, apenas cobriu minhas vias respiratórias com um produto químico, o qual não consegui identificar. Tentei agarrar o punho do algoz e tentar lutar contra meus sentidos para eu permanecer lúcida, porém eles foram enfraquecendo a cada fração de segundo, até eu me entregar completamente aos braços da escuridão.

Capítulo 3 Algumas horas depois

Algumas horas depois — Por que exatamente não me quer mais, Brandon? — a voz de Clarisse no viva-voz reverberava por todo o interior do meu carro, em mais uma de suas ligações desnecessárias. — Por favor, não se humilhe desse jeito! — murmurei, apertando o volante, cansado dos joguinhos dela. — Você não me ama mais? — ela ronronou do outro lado da linha. — Quer mesmo que eu responda a essa pergunta? Ela fez uma breve pausa. — Então é verdade o que nossos amigos dizem. Você não me ama mais. — Eu realmente não sei por que ainda atendo suas ligações. Você deveria voltar para o seu ex-marido e me deixar em paz. — Então devo voltar para você? — ela provoca. Às vezes me esqueço que um dia fomos casados e que ela terminou comigo para se casar com outro. — Essa é a última vez que atendo uma ligação sua... — respondi, perdendo a paciência e tentando entender que pecado eu cometi para merecer um dia fodido de reuniões na presidência e depois ganhar uma ligação dessas. — Espera! Espera! Eu estou em Chicago, foi por isso que liguei. Pensei que fosse se interessar por uma noite com você e eu em uma banheira de espuma em alguma cobertura de um hotel caro. — Foi essa a razão de me ligar? Me propor uma transa em um quarto de hotel? — Sim. Parece uma proposta maravilhosa, não? Ainda sinto saudade do gosto do seu corpo. Aposto que também sente saudade da maneira que faço amor. Ela só poderia estar de brincadeira. Clarisse definitivamente não mudou com o tempo, ainda continuava a mesma mulher convencida e audaciosa. — Por favor, escute com atenção o que vou dizer. Se eu quisesse ter uma noite com uma trepada sensacional, você seria a última pessoa em quem pensaria. Não porque ainda tenho ressentimentos, mas sim porque existem mulheres que desempenham melhor tal tarefa. — Você está me humilhando, Brandon. — Já havia aconselhado a não se humilhar. Passar bem. — Encerrei a ligação, suspirei profundamente e finalmente me livrei da voz daquela mulher entrando em meus tímpanos. Clarisse foi a razão principal para eu acreditar que o amor é uma dádiva para poucos. Talvez ela fosse a única e última mulher que teve verdadeiramente meu coração nas mãos. Mas isso era passado, não guardava mais rancor, tampouco havia reservado sentimentos para minha ex-mulher. Tornei-me um homem totalmente indiferente a tudo, inclusive ao ódio

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