Quando acreditamos estar em nosso limite, eis que a esperança é renovada.
Capítulo 1 Quando a informação está em nosso limite,

ISABELLE Caminhei apreensiva em direção à uma agência de empregos perto da minha casa. Após me deparar com “aquele” anúncio online, precisava ver com meus próprios olhos se era “tudo aquilo”. Há alguns dias, pesquisando sobre ofertas de trabalho na internet, me deparei com uma vaga em aberto um tanto inacreditável, já que o salário era no mínimo cinco vezes maior que o normal. Após preencher meus dados, cerca de uma hora depois recebi uma ligação marcando minha entrevista para hoje. Ser mãe solo em Miami é complicado. Os gastos são extensivos, e como tenho filha e mãe para auxiliar, acabo ficando sobrecarregada em várias ocasiões. Meu sonho sempre fora cursar a faculdade de arquitetura, mas como fui mãe bem nova - e o pai de Hanna nos abandonou -, acabei por passar dificuldades em minha vida, deixando esse sonho para mais tarde. Sempre fui uma mulher sonhadora e batalhadora, só que no momento as batalhas estão vindo em primeiro lugar, e como minha filha é prioridade, abdiquei de algo que tanto almejo para focar em educá-la, para que ela cresça com condições de se tornar uma mulher independente. Já estava no saguão do pequeno escritório esperando ser anunciada. Havia ligado antes para obter algumas informações, porém quase nenhuma foi passada a mim. Estou desempregada, e isso já basta para ter que me reinventar e procurar empregos aleatórios pela cidade, só que após colocar meus olhos nessa oferta de emprego fiquei tentada a descobrir mais sobre o trabalho. Após ser anunciada adentrei ao local a passos largos. Uma senhora de cabelos grisalhos e óculos vermelhos estava sentada analisando alguns papéis. Depois que se deu conta da minha presença, me olhou de cima a baixo, fazendo sinal para me sentar. Esbocei um sorriso breve, sentando na cadeira logo depois. — Isabelle Campbell... — Pegou um dos papéis. — Meu nome é Helena. Vejo que está interessada no cargo. — Sim. Muito. Meu breve diálogo no telefone foi a respeito disso, mas não houve muitos detalhes, até porque não havia conversado diretamente com Helena. — Bem, o emprego se trata de ficar responsável por uma casa e por quem está nela, se for resumir os fatos. Sei que por telefone minha assistente não lhe passou tudo, então, estou aqui para esclarecer suas dúvidas. — O que realmente preciso fazer? — Aceitando o trabalho oferecido, você será a governanta de uma casa, por assim dizer. Como Colin gosta dizer, você será a faz tudo. Literalmente tudo, tirando preparar o almoço dele e o jantar. E quanto antes começar, melhor. Por que ela fala como se o emprego já estivesse sendo direcionado para mim? — Você não fará nenhuma entrevista? Nem me conhece direito, e... — Isabelle Campbell... — Me interrompeu, e novamente pegou o papel no qual leu meu nome segundos atrás. — 23 anos de idade, mãe solo. Mora na Collins Avenue, número 6784. Trabalhou em um restaurante chamado Garby’s por um ano, logo após o fechamento do mesmo, trabalhou como babá para a família Rogers, e após essa família se mudar da cidade, ficou desempregada por três meses, e... — Voltou sua atenção para mim. — ...está sentada em minha frente neste exato momento. Como essa mulher sabe todas essas informações? — Estou confusa. Não passei nenhum dado meu, somente meu nome e sobrenome, como pode saber tanto? — Meu bem, acho que não sabe a que vaga de emprego está se dispondo, então, vou lhe ajudar. — Me olhou intensamente, com seus olhos castanho-claros. — Para o salário que foi ofertado a pessoa tem que ser de confiança. — Você tem os meus dados, só que não sabe essa informação — retruquei. — Se enganou novamente! — Um sorrisinho satisfatório brotou em sua face. — Liguei para o dono da lanchonete onde trabalhou, e também para a família Rogers. Você foi bem indicada. Sei tudo da sua vida, meu bem. Analisei meticulosamente por alguns segundos aquela mulher que me intrigava. Eu me sentia espionada de certa forma, e por dentro experimentava um misto de divertimento e surpresa. — Você fala como se eu já estivesse contratada. — Basicamente. É só dizer sim. — Cruzou os braços e sorriu. Que coisa estranha... Nunca vi um salário tão alto com uma entrevista tão fácil. Na realidade estou querendo fazer vários questionamentos, mas estou com medo de piorar algo que parece estar certo. Essa conversa está muito estranha. Se é que posso chamar de conversa uma entrevista assim. — Por que está tão fácil, me diz? — Farei uma analogia: é fácil porque se torna difícil. Simples assim. Ninguém consegue a proeza de permanecer nesse emprego, e espero estar errada sobre você. — Preciso saber de algo pessoal da vida desse tal Colin? Sua face mudou bruscamente. Me espantei, já que ela começou a me olhar ternamente. — Sim. — Seus olhos ficaram um pouco tristes. — Ele perdeu a esposa e a filha em um acidente de carro há cerca de um ano. — Meu Deus! — Arregalei os olhos, surpresa com a intensidade das palavras. — Colin não fala sobre o que houve e se fechou após esse acidente. Ele sempre foi um homem sério, carismático e centrado, mas agora parece que a parte boa dele se foi, e nada em sua vida faz sentido, exceto... — Exceto...? — Me interessei. — Joshua, seu filho. Ele será uma de suas responsabilidades se aceitar o trabalho. — Entendo. — Ainda assim, Colin se distanciou dele. Não tente entendê-lo, Isabelle. — Parou por um breve momento, olhando para o nada e respirando fundo. — Uma regra: não pergunte sobre o seu passado. Se quiser manter o emprego tente ao máximo ignorar Colin. Nenhuma das dez mulheres que contratei duraram no mínimo 1 mês o auxiliando. Me falaram muito bem de você, é por isso que estou confiando que será diferente das demais, só preciso que não faça nenhuma bobeira. Colin te demitiria somente por olhar torto em sua direção, e estou cansada de tentar encontrar pessoas para esse trabalho. — Por qual motivo se preocupa tanto com ele? — indaguei, sabendo que ela não parecia uma simples mulher que trabalhava em uma agência de empregos. O jeito que ela fala desse homem é diferente e me chama a atenção. Não tenho dúvidas disso. — Ele é meu amigo. Era. Não sei bem como falar isso agora. — Baixou os olhos. — Eu e meu marido tivemos uma amizade muito bonita com Colin e Jeniffer, sua falecida esposa. Depois que ele a perdeu... tudo mudou, e o único contato que temos um com o outro é esse: procurar mulheres para tomar conta de sua mansão. — Entendo. Alguns segundos de silêncio preencheram o pequeno ambiente, e notei pela primeira vez desconforto por parte dela. Continuei um pouco apreensiva, já que não imaginava a nossa conversa se desenrolando dessa maneira. — Vamos aos fatos. — Juntou as mãos e focou em mim novamente. — Em suma, Colin será insensível, sem educação, mal humorado, perverso, mesquinho e outros “lindos adjetivos” que esqueci. — Parou, repensando algo. — Um tirano, meu bem. Não... isso é pouco. Olhei desconfiada para Helena, que fazia extremamente o contrário do que pensara depois de tudo que ouvi. Em vez de enaltecer as qualidades do seu suposto amigo, ela se dava ao luxo de fazer exatamente o contrário. — Isso é um incentivo? — Estou sendo realista. Colin é um homem infeliz, que não liga para quase mais nada na vida. E, acredite ou não, ele próprio me disse para especificar suas “qualidades” para alguém que pleiteasse a vaga. Pelo menos Colin é um homem sincero, e tem noção de que é insuportável. Estava interessada e um pouco retraída. Saber disso tudo é estranho, pensei que fosse uma vaga normal, mas pelo visto de normal não tem nada, a começar pelo salário que é cinco vezes superior ao que é pago no mercado. Será que isso tudo é para suportar sua chatice e afins? Não pode ser somente isso... — Não é possível que ele seja tão insuportável. — Afirmei com cuidado, e ela se inclinou sorrindo. — Digamos que o demônio veio passear na Terra, e resolveu se estabelecer por aqui. Esse é o Colin, um dos demônios da pior parte do inferno. Mesmo assim o considero meu amigo, há de se destacar. — Ele é tão difícil assim como pessoa? — Soltei uma risadinha abafada. — Meu bem, acredite quando digo que preferiria conhecer o próprio Lúcifer pessoalmente do que Colin. — Parou e girou a caneta me analisando. — Então, lhe pergunto novamente, você está realmente disposta a aceitar esse trabalho? Minhas contas não se pagam sozinhas, e estou passando por um momento de dificuldade. Não hesitei. — Sim, eu aceito. Me levantei para sair do seu pequeno escritório, só que novamente ouvi a voz de Helena. — Só para saber... ele é o famoso Colin Adams. Rapidamente me virei, surpresa com essa informação. Ele é o arquiteto mais famoso da cidade, e admiro os trabalhos que ele fez durante esses anos. A vida dele é bastante reservada pelo que pesquisei, e uma tragédia a marcou, só que foi abafada na época pela mídia. — Tudo bem. — Espero que isso não influencie em nada o seu trabalho — falou. — Minha secretária estará lhe esperando do lado de fora para ajeitar o que falta. — Não irá. Obrigada pela oportunidade — falei decidida. Após sair da sala tentei relembrar ao máximo o que sabia sobre Colin Adams... *** Ao chegar em casa me deparei com Hanna, minha filha, desenhando na sala, enquanto minha mãe preparava o almoço. Fiquei na altura dela, e após fitar seus olhos azuis esperançosos, logo tratei de informar as boas novas. — Tenho uma novidade para você, raio de sol. — O que é, mamãe? — Arrumei um emprego. — Eba! Abracei minha filha, ela sabia o quanto a palavra “emprego” era importante para mim, já que conversávamos sobre o assunto de forma corriqueira. Apesar de ela ser novinha e ter completado 5 anos mês passado, Hanna é esperta em alguns assuntos, e entende muita coisa que falo. — Vou conversar um pouco com a vovó. Rapidinho volto para colorir com você, certo? — Uhum. Fui na direção da minha mãe e dei-lhe um grande abraço apertado. Ela se chama Elisa, e tem 55 anos de idade. Ela trabalha desde os 15 anos, e sente prazer no que faz. Posso afirmar que devo tudo a ela. Fui auxiliada desde que me entendo por gente. Me recordo dela segurando a barra em momentos que eu não tinha a menor perspectiva de assuntos ao meu redor se ajeitarem. — Pelo visto está feliz. — Sorriu sinceramente enquanto ajeitava a cozinha. — Sim. Fui procurar alguns esclarecimentos sobre a vaga de trabalho que me ofereceram, e é tudo verídico. O salário é aquele e consegui a vaga do emprego. — Parabéns, filha. — Sua face se tornou alegre instantaneamente. — Nós duas sabemos que estamos passando certas dificuldades, e... Não continuei a falar por alguns segundos. Acabei relembrando de um passado não muito distante onde tivemos que deixar de comer para Hanna ter algo para se alimentar. Meus olhos se encheram de lágrimas, e balancei a cabeça tentando esquecer isso por um momento. — Filha... — Nunca mais quero ver Hanna pedindo um prato de comida e não ter refeição alguma em casa. Isso é inadmissível para mim como mãe. Sinto que fui falha. Minha mãe trabalha como diarista em alguns dias. Moramos na mesma casa e dividimos as despesas. Nem sei dizer o quanto é importante sua ajuda, sem ela eu não seria nada. Como a família Rogers se mudou há alguns meses, fiquei desempregada nesse período, e com isso ajudei minha mãe trabalhando de faxineira em alguns lugares, isso quando podia levar Hanna comigo, algo esporádico. — Não se culpe, filha. — Tocou em um dos meus ombros. — Você não poderia imaginar que Rudolph a deixaria antes do casamento. — Só que ele me deixou. — Sua vida irá melhorar. É só ter fé, meu anjo. No fundo tinha esperança pelas suas palavras, contudo, ainda estava receosa com o rumo da minha vida. CAPÍTULO 2 “Trabalhar com um chefe grosso, arrogante e estúpido não é ruim, difícil mesmo é ter saudades dele quando conhece o seu mais novo patrão...”

Capítulo 2 Quando a informação está em nosso limite

ISABELLE Neste exato momento estou na sala de estar da mansão em que irei trabalhar. Analisando rapidamente o lugar vejo um ambiente bem trabalhado, há de se destacar. Não esperaria menos de um arquiteto famoso como Colin Adams, e tenho certeza de que boa parte da mansão leva uma assinatura dele. Ainda avaliando a casa, percebi quando uma pessoa apareceu no enorme corredor em minha frente... Um homem imponente, com cabelos que iam até perto das costas e barba espessa, mas alinhada, caminhou a passos largos e enérgicos para mais perto de mim, ficando a uma distância de um metro do meu corpo, não me estendendo nem mesmo a mão. Sorriso então... nenhum. O homem parecia um dos vilões de filmes de terror que me acostumei a assistir. Não havia nenhuma afeição em sua face, o típico da pessoa que você não conseguiria decifrar somente analisando por poucos segundos. Resolvi quebrar o gelo do momento. — Bom dia, me chamo... — Eu sei como se chama. — Me cortou, com cara de poucos amigos. — As instruções estão na mesa, é só as ler. — Me lançou um olhar inquietante, e logo depois meneou a cabeça para a mesa em questão. — Acho que sabe ler, estou certo? — Sei, e... — Então faça o seu trabalho e memorize bem minhas regras, se conseguir essa proeza que basicamente mulher alguma consegue, tudo correrá bem durante as horas que estiver aqui. Que homem fofo! Só que não! — Se houver dúvidas... — Não haverá dúvidas! — Grunhiu ao me cortar novamente, e seu rosto ficava mais irritado a cada palavra que proferia. — Ou você sabe ler e interpretar ou não sabe! Decida-se! — Eu sei ler e interpretar! — Forcei um sorriso, e pela primeira vez não fui interrompida. Tenho certeza que foi pela minha frase curta, não dando espaço para ser antecipada de alguma forma. — Ótimo! — Virou as costas e caminhou para o lugar de onde veio inicialmente. Quando fui em direção a mesa onde estava disposto o papel das instruções, ouvi novamente sua voz grave, mas ele nem se deu ao trabalho de me olhar, visto que ainda continuava de costas. — Outra coisa: não fale comigo! — O que quer dizer com isso? — disse a frase em um segundo, já que o medo de ser interrompida veio à tona. — Exatamente o que ouviu! Somente se dirija a mim quando eu conversar com você. Fui claro? — Colin continuava de costas, e parecia aumentar sua voz a cada frase que se seguia. — Sim, senhor. — E não me chame de senhor. Deus, me dê paciência, porque se me der forças... — Tudo bem, Colin. — Você começa amanhã. Após dizer isso, o homem sumiu das minhas vistas, e segundos depois ouvi uma porta batendo de uma forma estrondosa. — Bom dia para você também — sibilei para mim mesma. Fui em direção a lista, e vi alguns itens “normais”. 1 – Não me incomode! Sim, estou reforçando! 2 – É necessário que leve e busque Joshua na escola, mas isso somente quando completar 15 dias de serviço, visto que não confio em você ainda, e nem sei se isso irá ocorrer algum dia; 3 – Seu horário será de 07:00h até 17:00h. Não é das 07:01h até 17:01h, que fique claro. Eu cobro algo chamado pontualidade, e se eu perceber que chegou atrasada por duas vezes você estará na rua! 4 – É terminantemente proibido entrar no corredor que dá acesso ao meu quarto. DEIXEI UMA PLACA perto do mesmo escrito: “não vá adiante”. DEDUZINDO QUE CONSEGUE LER E INTERPRETAR, acho que saberá bem o que fazer quando se deparar com ela. 5 – Há dias que estou mais estressado que o habitual. Sim! Eu consigo ser mais insuportável, então, evite ficar perto de mim, ou até mesmo respirar ao meu lado. 6 – Você está aqui para gerenciar, e não para tocar nas coisas. Explicando melhor, você delega funções, por assim dizer, e não fica mexendo nos objetos ao seu redor. Seu trabalho é não deixar nada faltar, e se houver uma falha nisso, estaremos com problemas. Pode ter certeza! 7 - Não traga ninguém para a minha casa! Conte isso como uma advertência, não preciso dizer o que acontece quando houver duas, não é? (Sim, é como se fosse um atraso no seu horário); 8 - Nunca. Jamais. Em hipótese nenhuma pergunte sobre o MEU passado para mim ou qualquer pessoa que trabalhe aqui. Qualquer comentário a respeito disso você será demitida. DEMITIDA! 9 – Qualquer dúvida converse com Helen, ela está em nossa casa há vários anos, e sabe de tudo. Você está nesse emprego graças a ela, visto que ela se recusou a ficar como governanta por eu ser insuportável; 10- E por último, mas não menos importante: Não me incomode! Força do hábito! Aprendi que as pessoas gravam coisas importantes quando reforçadas. O homem tem um senso de humor negro, não há o que discutir, mas apesar de tudo, agora entendi porque nenhuma mulher conseguiu trabalhar mais de um mês aqui. *** — Estou dizendo, ele me deixou apavorada e com medo de completar uma frase sequer. — Isso é sério, amiga? — Ah, isso porque não mencionei o “bilhete” que mais parecia uma ameaça que ele “pregou” em cima da mesa. — Tomei um gole do meu suco de laranja e repensei as regras que ele escreveu. — Isso porque nem começou de fato a trabalhar. — Lauren riu, e forcei um sorrisinho fraco. Lauren é a minha melhor amiga, e me ajudou bastante quando Rudolph me abandonou. Como somos vizinhas há vários anos, somos confidentes em relação a quase tudo, e nos tornamos inseparáveis. Ela é ruiva, baixa e tem os olhos verdes-claros. Acho minha amiga linda, mas como várias mulheres que conheço, ela tem um complexo com seu corpo, apesar de eu sempre tentar levantar o seu astral. Eu sou um pouco diferente. Tenho os cabelos pretos e longos, caindo na altura do meu bumbum. Meço 1,60m e tenho os olhos negros. Não sou assídua na academia, já que não disponho de tempo, mas possuo o corpo razoavelmente bonito. Na verdade, nós, mulheres, nunca estamos satisfeitas com nosso corpo, então... — Vou tentar ignorar Colin o máximo possível. — Isso não é ruim? — Cruzou os braços me olhando com o semblante divertido. — É o que ele quer, Lauren. No meu trabalho farei o que me mandarem. — Se está dizendo... — Levantou as mãos, simulando rendição. — Eu preciso do dinheiro que ele irá me pagar, e farei de tudo para não me afetar com as poucas palavras grosseiras dele. Simples assim. Eu não sabia ainda, mas isso dificilmente iria acontecer. *** O dia seguinte estava sendo um inferno na casa de Colin. Um caminhão descarregou móveis e utensílios em frente ao portão principal do casarão. Eu mais parecia uma barata tonta, já que não havia informação alguma sobre isso. Não sabia nem em qual local os móveis estariam dispostos, muito menos se eles eram realmente para cá. — Isabelle! Fui chamada por um homem, que mais parecia um dos seguranças da casa, e que nem fez questão de conversar direito comigo, somente me entregou um papel e disse: — Confira tudo. Se algo faltar você estará com problemas. Dito isto, deu as costas e foi em direção ao jardim. O que há de errado com as pessoas dessa casa? Depois de passar a última hora conferindo os objetos e tentando entender onde os mesmos ficariam, eis que o motorista com a expressão mal- humorada veio conversar comigo. Estranho ele ser mal-humorado, não? Até porque ninguém que frequenta essa casa é... — Assine! Estou atrasado. — Ainda não conferi, e... — Está tudo aí, moça. Me ajude a te ajudar, vamos! — Falou um pouco mais ríspido, me entregando a caneta. Leia-se: praticamente a jogou em mim. Minha paciência já não estava das melhores, mas foquei no dinheiro que receberia no fim do mês e abri um sorriso falso. Eu realmente precisava desse trabalho. Assinei o papel. Rapidamente o homem manobrou seu caminhão para fora da mansão. Voltei para os meus afazeres, conferindo os objetos e a cópia que me foi entregue, mas eis que... Eu sabia! Tenho um sexto sentido para algumas coisas, e antes mesmo de assinar o papel, algo apitou em minha cabeça, contudo só agora vi a burrada que fiz. Sim, está faltando algo. Uma geladeira! Procurei por tudo que é canto a bendita, mas infelizmente ela não estava dentro da casa, nem mesmo na parte externa. E agora? Terei que encarar o monstro e me explicar, claro, se eu conseguir falar alguma palavra. *** Fiquei naquele dilema: falo ou não falo com Colin? Mesmo após duas horas, ainda estava com receio de procurá-lo na mansão, só que não precisei pensar muito, já que o vi caminhando perto do jardim, analisando alguns dos móveis que haviam chegado. — Bom dia! — disse alegre, e só depois me dei conta da burrada, pois o homem não sorri, e pelo que percebi é incapaz de falar bom dia também. — Espero que esteja tudo aqui. — Então... acho que faltou algo. — Sorri minimamente, um tanto sem graça. — Acha?! — Seu tom continuava ríspido. — A geladeira não veio — disse por fim, já preparando meu psicológico. — Por que não me avisou no momento que deu falta dela? — Eu... estava conferindo as mercadorias, mas o cara estava com pressa, e só depois vi que ela não estava aqui... — Quer dizer que assinou os papéis confirmando “todos” os materiais entregues, mas está faltando “somente” a geladeira? — Claramente debochou da minha estupidez ao me cortar, como de praxe. Eu fui estúpida em cair na pilha do motorista, confesso. — Sim, fui muito... — Incompetente! — Me interrompeu já virando as costas. — Em vez de me procurar e... — Você disse para falar contigo somente se falar comigo. — Dessa vez eu que o interrompi ao retrucá-lo. Depois que Colin se virou notei uma pequena veia marcando sua testa. O homem respirou fundo, me analisou, baixou a cabeça e depois fechou os olhos. Parecia contar mentalmente carneirinhos e sibilava baixinho algumas palavras que não consegui ouvir. Não muito tempo depois, chegou perto de mim, e senti um misto de medo e desejo quando senti seu cheiro com mais intensidade. O homem é um cavalo, mas cheira bem. Pensei que ele me diria algo, ou até mesmo me xingaria, mas ele foi em direção a mesa onde o bilhete direcionado a mim fora pregado. Sim, isso mesmo, o homem pregou o bilhete dos “dez mandamentos” na própria mesa. Brincadeira, não resisti! Colin retirou a caneta de um dos seus bolsos e escreveu algo no papel logo em seguida. Momentos depois me lançou um olhar furioso e saiu da sala pisando duro. Não me contive por muito tempo e fui em direção ao bilhete, pude perceber uma mensagem fofa e carinhosa direcionada a mim. Vi que inteligência não é o seu forte, então, vou deixar outra regra aqui: converse comigo quando houver problemas. Fui claro ou vou precisar desenhar?! Realmente, minha convivência com esse homem será mais difícil do que previ. *** O dia de trabalho foi duro, há de se destacar. Depois do meu vacilo inicial, fiz de tudo para correr atrás dessa “geladeira”, e no fim do dia o motorista fez “a boa vontade” de retornar. O homem estava uma fera, só que eu estava mais irada, ah... estava. — Você atrasou minha última entrega, e... — Não quero saber! — O cortei. — Na próxima vez faça a decência de esperar eu conferir e não me apressar. Se fizesse o seu trabalho direito conseguiria entregar tudo, mas tentou ser rápido e precisou voltar ao mesmo lugar por incompetência sua. O homem ficou branco, e logo depois esbugalhou os olhos em minha direção. Sim, sou nervosa quando quero. — Tu-tudo bem, senhora. — Se afastou rapidamente, mas fiquei com certa dó pelas palavras que falei. Claramente o intimidei. Quando virei as costas, eis que Colin me observava a no máximo meio metro do meu corpo. O susto foi tanto que dei um pulo para trás. — Que susto, homem! — Falei, e ele permaneceu impassível, só me fitando. — Que hora errada para ter pulso firme, não acha? Se tivesse feito isso antes, você não teria problemas. — Não queria falar com ele dessa maneira, vi que o homem ficou branco e desconcertado. — Claro, ele me viu atrás de você! Está explicado... Pelo visto ele não ficou assim por minhas palavras, e sim pela presença de Colin no meu encalço. — Me desculpe novamente por... — Ao invés de pedir desculpas de minuto em minuto, porque não presta mais atenção em seus afazeres? Acho que percebeu que não gosto de conversar contigo, e acho que é recíproco, então, que tal fazer o seu trabalho e esquecer o que não é importante, hein? — Eu... — Boa noite, Isabelle. Novamente saiu do meu raio de ação, mas a idiota aqui... — Espere! A altura da minha voz, bem como a urgência da mesma o fez virar, com o semblante curioso. — Você me deu boa noite, então... boa noite para você também, Colin! Pela primeira vez percebi um mínimo sorriso em sua face, mas se enganam vocês se era algo bom... — Você é inacreditável. É cada uma que Helena contrata... — O que eu fiz? — Além de tudo não é nem um pouco esperta. Seguiu seu rumo e fiquei perplexa em saber que ele havia achado ruim o simples fato “de se virar” para eu desejar uma boa noite a ele. Homens... Colin Adams, qual grosseria a mais devo esperar de você? CAPÍTULO 3 “Nunca meça a dor de alguém se você não sabe o que ela passou durante a vida...”

Capítulo 3 Quando a informação está em nosso limite

COLIN Quanto mais eu falo para Helena contratar uma mulher inteligente, menos ela faz questão de me ajudar! É in-crí-vel! É pedir muito alguém discreto e que saiba ler a porra de um simples bilhete?! Vida de merda! Além de tudo ela me contrata uma mulher espalhafatosa, que assina documentos sem conferir. É pra foder com o meu dia. E isso porque ela disse que foi bem recomendada, se não fosse... Se acalme, Colin! O dia tem 24 horas. Claro! Essa afirmação foi idiota, mas fazendo uma analogia, posso dizer que passo a porra das 24 horas irritado. Não sorrio, (a exceção é quando estou debochando), e posso dizer que praticamente nada me deixa feliz. Há algo, ou melhor, alguém que me deixa assim, mas nem mesmo o meu filho eu consigo encarar. Não mais. Sim, sou um homem falho. Um pai falho. Um marido... — Esqueça esse assunto, Colin — disse a mim mesmo, olhando para o céu. — E você, eu queria saber porque me odeia tanto, se é que existe! — falei, acho que para Deus, em quem eu acreditava há um ano, mas que agora tenho dúvidas de sua existência. Minha vida mudou bruscamente há alguns meses. Em suma, perdi a minha esposa e minha filha em um acidente de carro. Na verdade não perdi só isso, eu perdi tudo! Minha filha era uma parte de mim, parte a qual nunca mais vou recuperar. Quase ninguém sabe da história real dessa tragédia, já que na época fiz o possível para que praticamente ninguém tivesse acesso aos pormenores dela. Sou um pai destruído por dentro, e a cada momento que respiro sinto saudades de Maddison, minha filha. Ela era o motivo dos meus sorrisos mais bobos, que agora se tornaram escassos. Minha filha fazia o possível para que eu me sentisse um homem completo, e por mais que meu dia tivesse sido estressante, ou algo tivesse dado errado, lá estava ela do meu lado, colorindo seus livros infantis enquanto eu projetava algo. Quanto ao meu filho, devo dizer que apesar de ele ser mais desapegado, eu conseguia estar presente como pai em vários momentos, e sempre o acompanhava nos esportes que ele praticava. Também éramos bastante carinhosos um com o outro, e tal como Maddison, ele também ficava muito tempo comigo. A vantagem de se trabalhar em casa é essa. Bem, a distância foi o que restou. Sei que Joshua me culpa pelo que aconteceu com a irmã e a mãe dele, e não sei como voltar a ter intimidade com meu filho. Sou um dos arquitetos mais famosos do país. Algumas das obras mais famosas da cidade foram por meu intermédio, e algumas estrelas de cinema fizeram questão de me procurar após o meu início promissor. Em um primeiro momento conciliei bem meus afazeres, e realmente sentia prazer em meu trabalho. Essa vontade se esvaiu de mim quando descobri que minha vida pessoal era rodeada de segredos, e além de tudo, pouco tempo depois perdi um dos bens mais preciosos da minha vida. Meu celular começou a tocar incessantemente, e como já sou um homem estressado, estava para jogá-lo na parede, mas resolvi atender quando notei a pessoa que me ligava. — Preciso falar pessoalmente contigo, Colin. — James Sullivan, um dos mais renomados empresários da nossa cidade, falou prontamente. Além de um homem importante, o considero como meu amigo pessoal. Estranho eu falar que tenho amigos, não? A verdade é que possuo alguns, apesar de ter me tornado um homem com sentimentos limitados. — Tem a ver com o projeto? — O questionei, já sabendo que era bem provável que esse fosse o assunto principal. — Sim, e mais algumas coisas. — James... — Me encontre no Vero Italian Restaurant às 13h em uma semana. — Daqui a sete dias? — Sim, terei somente esse horário. Posso contar com a sua presença? Sei que é um homem ocupadíssimo... — debochou. Ele sabia que eu praticamente não saía da minha mansão. — Pode deixar. Desliguei o telefone, mas certa curiosidade rondou meus pensamentos sobre o que James queria comigo. Já não era burrice minha ter prometido ao homem que eu faria o projeto de sua mais nova mansão? ISABELLE Ao chegar em casa ainda havia resquícios de estresse por todo o meu corpo. É difícil me estressar, mas hoje o dia foi complicado, principalmente por minha falha ao conferir com exatidão os objetos que chegaram na mansão. Colin Adams... Já vi homens arrogantes que se acham o centro do mundo, mas não igual ao Colin. É complicado descrevê-lo, mas dificilmente alguém conseguiria conviver ao seu lado por 24 horas, e acho que ele compreende isso e se isola. Minha opinião. Estava penteando os cabelos da minha filha enquanto ela brincava com sua boneca, Lucy, que parecia amar mais do que o normal. Depois de algum tempo, Hanna me encarou, e já sabia que seria questionada sobre algo. — Como é o seu patrão, mamãe? — Um doce... — revirei os olhos. — Como jiló! Depois que rimos um pouquinho, voltei minha atenção para o seu cabelo. — Ele é chato, mamãe? — Ele precisa melhorar muito para conseguir essa proeza. — Relembrei do seu rosto. — Hã? — Seus olhinhos confusos me fitaram. — Não é nada, meu amor. Ele é difícil, só isso. — Tá bom. Depois do jantar terminei alguns afazeres e coloquei Hanna para dormir. Ao deitar-me, repassei mentalmente meu dia, e coloquei em minha cabeça que prestaria o dobro de atenção no meu serviço enquanto estivesse trabalhando... *** Acordei assustada. Por um momento não entendi o motivo do meu sobressalto, mas quando olhei para o meu celular percebi que estava em uma enrascada. São exatamente 6h30m, e eu deveria estar na casa de Colin em no máximo trinta minutos. Não iria dar tempo! Meu cérebro (como um bom amigo), tratou de me desanimar logo após correr em direção ao meu guarda-roupas. Por sorte, minha mãe levaria Hanna com ela, já que a escolinha dela está em período de férias. Merda de celular que não despertou! Ou despertou e eu não ouvi?! Ótimo! Nem eu mesma sei o que houve, só que não vou ficar procurando desculpas, preciso chegar a tempo de alguma forma. Me arrumei em tempo recorde, e fui voando ao meu carro, entrando no mesmo e acelerando o máximo para chegar na mansão até as 7h, algo que eu estava duvidando que aconteceria. *** Entrei na casa de Colin exatamente às 7h, e um alívio descomunal tomou conta de mim. Eu consegui! Sorri para mim mesma, mas quando fui em direção a uma das portas notei uma figura masculina com os braços cruzados, impassível, me olhando como se eu fosse uma pessoa desconhecida. Ao estabelecermos contato visual, meneou a cabeça de um lado para o outro, em desacordo, visualizando logo em seguida o seu relógio. — 5 minutos atrasada! — Eu... — Olhei para meu celular, e o mesmo marcava 7:01h. Contando o trajeto que fiz no interior da mansão, eu tinha absoluta certeza que estava dentro do horário. — Cheguei exatamente às 7h — retruquei. — Vou ter que lhe ensinar a olhar as horas corretamente? — Seu timbre ficou mais grosso. — Olhei meu celular agora, estou falando... Não consegui falar por muito tempo, e o homem veio para mais perto, fazendo-me segurar a respiração por causa da nossa distância, que era curtíssima neste momento. De novo aquele perfume gostoso... — Olhe para trás! — Seu tom de voz mandava, não simplesmente pedia. — Colin, eu já entendi que... — Vou ter que ficar te interrompendo toda hora?! — Grunhiu, estreitando os olhos ao me cortar pela milésima vez. Obedeci. — Agora foque na parede à sua frente! — Senti seu hálito perto do meu pescoço, e fiquei um pouco arrepiada. Novamente fiz o que me foi pedido e me deparei com um enorme relógio. — Qual horário está sendo marcado no relógio que está na parede? Merda! — São 7:05h. — O que isso significa? — Estou atrasada. — Assenti, abaixando um pouco a cabeça. — E o que acarreta atrasos? — Ele parecia se divertir neste momento, visto que a tonalidade da sua voz mudou um pouco. — Uma advertência. — Acho que entende o que acontecerá quando ocorrer a segunda, não é, dona Isabelle? — Sim, Colin. — Me dei por vencida. Sabendo que esse homem é meticuloso em excesso, eu poderia ter ajustado meu celular com os inúmeros relógios da casa. — Ótimo! — Senti-o sair da minha presença, e instantes depois sumiu das minhas vistas. *** Sentei-me em uma das cadeiras da cozinha e coloquei minhas mãos na cabeça. Depois de alguns segundos inerte, abri meus olhos, e percebi uma mulher me observando com um sorriso destacado em sua face. — Me desculpe, não queria interromper seu momento. — Sem problemas. — Me levantei, tentando sorrir, algo difícil depois do que aconteceu mais cedo. — Você trabalha aqui, certo? — indaguei. — Sim, meu nome é Helen. Qualquer dúvida estarei aqui para lhe ajudar, criança. Eu deveria te apresentar o pessoal que trabalha para Colin, mas ontem percebi o quanto estava atarefada. Uma senhora de cabelos grisalhos que aparentava estar no auge de seus 50 anos de idade me fitava com um grande sorriso, e por dentro me senti bem, já que a maioria das pessoas dessa casa não sabem o que é sorrir. — Graças a Deus encontrei a famosa Helen! — Soltei sem pensar, e a senhora riu um pouco de mim. — Me desculpe — complementei. — Não se preocupe. Acho que já conheceu Colin. — Arqueou as sobrancelhas quase no mesmo instante em que passei a mão em meus cabelos relembrando de sua fisionomia, principalmente seu rosto lindo, mas rabugento. — Sim. — Suponho que tenha o adorado, ele é um amor, não é? Olhei para ela incrédula, só que Helen franziu o rosto de um modo divertido e tive de rir novamente. Ela só podia estar sendo sarcástica, porque o homem... — Prefiro não responder. — Me esquivei, não podia tomar uma segunda advertência, batendo meu recorde, e ser demitida em menos de três dias de trabalho. — Colin é estressado assim com a maioria das pessoas. 99%, se fizermos uma média. — Quem é a exceção? — Por incrível que pareça... eu! — Ele sempre foi assim? Estúpido, arrogante, grosso, desbocado... Me dei conta das palavras proferidas um segundo depois e levei minha mão à boca, já havia cometido um erro hoje ao chegar atrasada, e agora estou falando mal do meu chefe justamente para a pessoa que está trabalhando com ele há alguns anos. Você é muito esperta, Isabelle! — Não, Colin era o oposto. — Baixou um pouco a cabeça e seu olhar ficou triste de uma hora para outra. — Aconteceram algumas coisas na vida dele, e... Parou. Ela claramente não estava confortável em falar sobre isso, e não serei eu a pessoa que cometerá a segunda burrada no dia. — Não importa. Farei o meu melhor em minhas atribuições. — A interrompi sutilmente, sorrindo. Não queria entrar em detalhes sobre algo que claramente ela não se sentia à vontade, e ainda tinha a regra número 8. Sim, eu gravei as regras. — Certo, Isabelle. — Sorriu ternamente. — Já estava esquecendo, há uma pessoa que preciso te apresentar. — Claro. Nos encaminhamos para uma da salas da mansão, e bem lá no fundo do corredor vi um menino brincando com alguns carros de controle remoto. — Vou deixá-los a sós para se conhecerem. Ele se chama Joshua, e é o filho de Colin. Depois que nos viu, ele se levantou. Analisei seus traços enquanto ele vinha em minha direção, e vi muito de Colin em Joshua. Os cabelos, os olhos, a boca... O menino era praticamente a cópia do pai, sem sombra de dúvidas. — Olá. — Me agachei um pouco. — Oi, moça. — Qual é o seu nome? — perguntei apesar de saber. — Joshua. E o seu? — Isabelle. É um prazer te conhecer. — Sorri. — Hm. Você vai trabalhar aqui quanto tempo? — O dia todo. Por que a pergunta? — Não... é... se vai ficar aqui muitos dias. Meu pai manda as mulheres embora em poucos dias — disse com enorme inocência, logo desviando seus olhos, que mostravam inquietação e tristeza. — Farei tudo ao meu alcance para ele não fazer o mesmo comigo. — Tá bom, moça. Joshua não tem conhecimento do quanto é difícil isso que falei, mas me desdobraria para não perder o emprego, apesar de estar certa que passarei apertada em todos os momentos que ficar frente a frente com Colin. CAPÍTULO 4 “Alguns corações se abrem quando menos esperamos...” ISABELLE Ontem completei uma semana de trabalho. Não tive problemas depois do episódio com o meu atraso. Isso se deve principalmente ao fato de não ter visto Colin com frequência, e quando nos cruzamos, nenhuma palavra saiu de sua boca. Eu continuava dizendo bom dia quando o via, e o homem seguia ignorando minhas palavras. Não tenho culpa de ter uma boa educação até mesmo com as pessoas que não merecem. Havia acordado mais cedo que o normal. Minha mãe estava ao telefone, conversando com uma de suas patroas. Ao notar seu semblante, vi certa angústia estampada em sua face. — O que houve, mãe? — Aconteceram alguns imprevistos e não poderei levar Hanna comigo hoje no trabalho. Me alarmei. É algo fora de cogitação levá-la comigo, já que com mais uma advertência... — Me desculpe, filha. — Darei um jeito. — Sorri, tentando disfarçar a angústia que se alojou em meu peito. Repassei mentalmente minhas opções, e olha que beleza: não havia nenhuma! Lauren, minha amiga, está trabalhando, e tirando minha amiga e a minha mãe, não havia ninguém com quem eu pudesse deixar Hanna. Não sou muito de confiar nas pessoas. Saco! — Está tudo bem, Isabelle. — Respirei. Fui para o quarto da minha filha, e percebi ela em um sono bastante tranquilo. — Queria ter essa paz — sibilei enquanto permanecia de pé, a observando por alguns segundos. É incrível como nossos filhos crescem de uma forma assustadora. Quando percebi ela já havia se tornado uma criança de cinco anos de idade. Como a escolinha dela está de férias, em alguns momentos temos que nos desdobrar, mas não reclamo, a questão é o hoje. Acordei Hanna, que ainda estava sonolenta. — Tenho uma novidade: hoje você ficará comigo no trabalho, filha. — Beijei sua testa. — Onde você trabalha é legal? — disse, ainda meio que dormindo. — Muito. — Tá bom, mamãe. Depois de terminar meus afazeres e ajudar Hanna fui para a mansão de Colin. *** Minha primeira providência ao chegar na mansão foi procurar Helen. Talvez ela pudesse me salvar, ou não... — Você acha que posso esconder minha filha na casa? — falei mansamente. — Esconder? — Helen riu. — Ah, você entendeu... — relatei sem graça. — Não disse a você, mas já tomei uma advertência, e estou preocupada. — Eu sei. Colin me disse. Ótimo! — Você irá me dedurar? — perguntei com calma. — Fique tranquila, Isabelle. Não vou dizer nada, e acho que pode deixar sua filha em uma das salas. Colin dificilmente irá sair do quarto hoje, pelo que fiquei sabendo ele está focado em um novo projeto. Fiquei mais aliviada com sua frase, e provavelmente manteria meu emprego por mais tempo. Provavelmente... *** O período da manhã foi sossegado. Não vi sinal de Colin em parte alguma, e precisava não vê-lo neste dia. Soa errado já que estou em sua casa, só que é necessário, pelo menos por hoje.

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