O Arqueiro
Capítulo 1 O Arqueiro

onsulta com a Dra. Barbee. Almoço com Lily. Pegar a roupa na lavanderia. Passar no hospital Cpara dar um beijo em Mickey. Eu estava deitada na mesa de exames, congelando, contando meus compromissos do dia nos dedos enquanto aguardava. Charlotte Barbee dissera que voltaria logo para terminar o exame, mas vários minutos tinham se passado. Contei nos dedos de novo. Almoço. Lavanderia. Mickey. Havia alguma outra coisa, mas não consegui me lembrar o quê. Na verdade, não conseguia ir além de Mickey. Fazia seis dias que ele estava lá – mas, é claro, muitos dias antes ele já não era realmente o Mickey. Hoje de manhã, porém, ele me pareceu ótimo, quase o mesmo de sempre. Charlotte entrou apressada, pedindo desculpas. – Droga de plano de saúde! Eles acham que não tenho mais o que fazer... – Ela bufou e depois suspirou. – Onde estávamos, Lucy? Num instante voltei à posição anterior, os pés descalços apoiados com firmeza nos estribos de metal da mesa ginecológica, congelados como o restante do meu corpo. – Por que todo esse frio aqui dentro, Charlotte? Isso é maldade. Ela não respondeu, então levantei a cabeça do travesseiro e vi seu rosto entre meus joelhos dobrados. Ela estava ajustando um par de afastadores para ter uma visão melhor daquilo que, na minha opinião, jamais deveria ser visto. – Então, como vai Mickey esta semana? – indagou Charlotte, ignorando meu comentário sobre a temperatura. – Melhor do que na semana passada – respondi, retesando-me em reação ao seu toque. – Ele continua no hospital? – Continua. Mas vai poder ir para casa na sexta, se estiver bem. E espero que esteja! Charlotte Barbee abriu seu sorriso compreensivo. – Há quanto tempo vocês estão casados? – Quase onze anos. – Não pode ser. Como o tempo passou tão depressa? Agora respire fundo. Respirar fundo me fez tossir e então me lembrei: comprar pastilhas para a tosse. Aquele era o meu checkup anual e Charlotte Barbee não podia ser mais meticulosa. Sabia o que procurar e, se encontrasse alguma coisa, eu veria em seu rosto – como vira antes. Para um observador desinformado, talvez parecesse apenas um exame de rotina comum, mas a verdade era mais complicada. Eu estava sendo virada do avesso em busca de uma recorrência do câncer. Tivera o primeiro episódio da doença sete anos antes, aos 26. A patologia me situava não na coluna das mulheres adultas saudáveis, mas na coluna mais delicada das sobreviventes de câncer – quer dizer, pelo menos até eu ter completado cinco anos sem recidivas. Respiro com mais facilidade agora que estou na coluna saudável com minhas duas irmãs. O mesmo câncer que levou nossa mãe e nossa avó ameaça também Lily, Priscilla e a mim. Com esses genes instáveis correndo em nosso sangue, somos todas muito vigilantes, sobretudo a Dra. Barbee, em quem depositamos nossa confiança. Lily se ofereceu para ir à consulta comigo, para me dar apoio moral, mas, honestamente, esses checkups são mais difíceis para minha irmã do que para mim, por isso dispensei sua generosidade. Lily é a mais preocupada de nós três, e seu maior medo é me ver adoecer de novo. Hoje em dia, quando se trata de exames médicos, ela se prepara para o pior, rezando o tempo todo para ouvir as palavras mágicas da boca de Charlote: está tudo ótimo. Essa declaração equivale a ganhar na loteria e, até ouvi-la, Lily tem a convicção de que uma preocupação dedicada é a garantia de um bom resultado. Quanto a mim, só espero ter mais tempo. Durante cinco anos me dei por feliz de receber a vida em porções semestrais, pelas quais eu agradecia e comemorava como se tivesse passado a perna no destino. Agora, se eu for considerada saudável nos checkups anuais, terei direito a nacos maiores de tempo. Hoje é o meu segundo checkup anual, e devo dizer que doze meses dão de dez em seis. Ainda assim, minha rotina é a mesma – recebo a boa notícia, agradeço a Deus e sigo em frente com a minha vida. Mas só até chegar a hora de me preparar para a consulta seguinte e pesar mais uma vez as estatísticas, que são desoladoras. Ao voltar, o câncer costuma se mostrar vingativo. Se sinto o medo me dominar, o que acontece de vez em quando, eu o espanto com as palavras que ouvi do meu pai há muito tempo. Às vezes me pergunto se ele fazia ideia de que eu levaria sua sabedoria tão a sério. Mas, por causa dela, a morte, no fim das contas, não me apavora. De estar morrendo, porém, não posso dizer o mesmo. Já passei por isso antes e não me saí bem. Observar as pessoas que amo, o pavor nos olhos de Mickey... Agradeço a Deus todos os dias por termos superado isso, pois descobri que sou muito melhor em deixar partir do que em aceitar que me deixem partir. – Preciso só de uma amostra de urina e você está liberada – disse Charlotte, trazendo-me de volta ao presente. – Então, está tudo bem comigo? Pousando as duas mãos fortes e habilidosas em meus ombros, ela cravou os olhos nos meus: – Vamos mandar todas as suas amostras para o laboratório e eles me ligarão dizendo que você está ótima. – Eu sabia. Quer dizer que não devo me preocupar com o cansaço? – Lucy, eu estou cansada. Cansaço não é privilégio seu – queixou-se ela. – E essa coceira na garganta? – Abra a boca. – Ela me examinou com o auxílio de um abaixador de língua. – Não vejo nada que me preocupe aqui. Há quanto tempo você está tossindo? – Não sei. Alguns dias, acho. – Vou colher uma amostra para ver se não há estreptococos, só para garantir. – Você é uma médica maravilhosa – comentei, depois de quase me engasgar enquanto ela colhia a amostra para o exame. – Tento ser. – Ela pôs a amostra num pequeno frasco de plástico e sorriu para mim. – Tudo certo. Agora vista essa camisola e vá fazer a mamografia. – Maravilha – falei, com sarcasmo. Ter meus pequenos seios imprensados no mamógrafo e examinados em busca de mudanças microscópicas era a pior parte dessa provação. O câncer começa numa única célula, que recruta as células à sua volta para a rebelião e depois sai vandalizando a vizinhança. Uma vez detectados pontinhos numa mamografia, o dano já teve início. Charlotte ergueu meu queixo com o dedo e me olhou como se lesse meus pensamentos. – Lucy, eu ligarei se precisarmos conversar, mas não estou preocupada. Então não se assuste se eu telefonar só para bater papo. Assenti. – Certo. Ótimo. Vamos jantar na semana que vem. Do outro lado do corredor, forcei-me a conversar com Aretha enquanto ela manipulava meus seios como se fossem massa de pão. Ela é a única técnica em mamografia de Brinley, por isso deve conhecer os peitos da nossa pequena comunidade melhor do que suas donas. É uma mulher alta, atlética e totalmente profissional. Fico imaginando o que ela deve pensar quando nos vê fora da clínica, tocando nossas vidinhas cotidianas. Será que reconhece nossos peitos antes de registrar nosso rosto? Gosto de Aretha. Seu filho, Bennion, foi meu aluno de história e eu sabia que ela monitorava seus deveres de casa. Pensei em lhe agradecer por isso, mas, como já falei, ela é o profissionalismo em pessoa. Desde que comecei a fazer esses exames, Aretha nunca me disse nada até terminar seu trabalho, e hoje não era uma exceção. – Prontinho, Lucy. É sempre um prazer ver você. Benny adorava suas aulas. – Ele é um bom aluno. Você deve ficar orgulhosa. – Fico, sim. Vesti-me e comecei a escovar meu cabelo comprido. Perdi um pouco a noção do que fazia, olhando pelo espelho à procura dela. Preciso fazer isso em todos os checkups – é parte do ritual. Procuro sinais de que a Morte esteja à espreita num canto, no espelho, de pé atrás de mim, ou flutuando em torno do meu campo de visão. Mas não há nada, o que é muito reconfortante – ainda mais com as palavras mágicas da Dra. Barbee. Depois de pronta, fui a pé até o Damian’s, onde combinei de me encontrar com Lily para almoçar. A caminhada, com o sol e a brisa morna no meu rosto, foi uma delícia. Adoro morar aqui. Brinley, Connecticut, é uma cidadezinha onde se pode chegar a praticamente qualquer lugar em menos de quinze minutos a pé. Do ancoradouro até “o centrinho” – a versão local de uma praça municipal – são pouco mais de três quilômetros, e as ruas paralelas que formam nossos bairros se estendem apenas por mais um quilômetro e meio de cada lado. Connecticut é cheio de história e charme, mas, para mim, Brinley é o melhor de tudo: bairros antigos e respeitáveis, ruas arborizadas, aquela política que é exclusividade de cidades pequenas, com reuniões de emergência no centrinho para discutir o problema do cocô dos cachorros ou a necessidade de regulamentar a forma como são enroladas as mangueiras. Havia um monte de gente na rua e ninguém parecia muito apressado para chegar a algum lugar. Mas talvez isso fosse apenas porque eu não tinha que ir a lugar nenhum, depois do início das férias escolares e de ter corrigido 170 provas finais. Vi minha vizinha Diana Dunleavy levando a neta, Millicent, para a aula de balé. A garotinha rechonchuda fazia piruetas ao passar pelo mercadinho Mosely’s em seu tutu rosa-shocking. Diana acenou para mim. – Millie herdou todo esse talento de mim, sabia? – gritou ela do outro lado da rua. Caí na gargalhada ao ver a menina dar uma trombada em Deloy Rosenberg, que vinha saindo da Sandwich Shoppe com uma refeição para viagem. Ele deixou cair a bandeja de papel, virando um dos sacos, mas aparentemente sem grandes danos. Ainda assim, Millie escondeu o rosto enrubescido nas dobras da saia de Diana até que o chefe de polícia de Brinley desistiu de acalmá-la e se afastou com seu almoço. Toda vez que encontro Deloy de uniforme lembro-me do meu pai. Avistei Lily e Jan do outro lado da rua, então atravessei em zigue-zague para alcançá-las. Jan Bates, nossa vizinha de porta, acabou virando sogra de Lily, exatamente como eu previra na infância. O que eu não sabia na época era que Jan se tornaria uma verdadeira mãe para mim também. Oscar Levine martelava uma placa no portão do nosso pequeno parque quando me viu. O homenzinho ossudo largou o martelo e gritou: – Lucy, você vem à Festa da Savelha no sábado, certo? – Claro que ela vem, Oscar – respondeu Lily por mim. Jan me deu um rápido abraço e sussurrou em meu ouvido: – Diga que sim e pronto. – Eu não perderia a festa por nada – respondi a Oscar. – Mickey já vai estar em casa até lá e também vem comigo. – Beleza! A Festa da Savelha é um ritual de primavera que acontece em todo o vale do rio Connecticut, mas nós, moradores de Brinley, seguimos a tradição à risca. Prestamos homenagem aos peixes supostamente ameaçados pregando-os em pranchas de carvalho em volta de uma fogueira e depois nos empanturrando com eles. Essa é apenas uma das muitas coisas que me fazem adorar morar em Brinley. – Bem, preciso ir ensinar garotinhos a plantar pinheiros – disse Jan, rindo. – Não se metam em encrenca, meninas – recomendou, dando um beijinho em cada uma de nós antes de seguir seu caminho. Minha irmã então se virou para mim com um sorriso grande demais que não conseguia esconder sua ansiedade. – E aí, como foi? – perguntou, enlaçando meu braço no dela. – Estou ótima. Charlotte não viu nada de preocupante. E Aretha disse que meus peitos estão fantásticos. – É, posso ouvi-la dizendo isso. – Na verdade, falou que estão mais bonitos que os seus. Lily riu. – Bom, agora sei que você está mentindo. – Minha irmã é linda, tem cabelo louro e curto, pele clara como a de nossa mãe e, ao sol, é quase translúcida. – Então está tudo bem? – perguntou, ficando séria. – Tudo bem – garanti, com uma leve tossida. Ela se inclinou, encostando a cabeça na minha, e senti um tremor de alívio em seu corpo. – Mentirosa. – O quê? – Sei que é cedo demais para ter certeza. – Talvez, mas Charlotte não me pareceu nem um pouco preocupada. Por isso também não estou. Lily me fitou nos olhos como se buscasse uma verdade escondida. Sempre fez isso. – Estou ótima, Lil. Sinto que estou. Ela assentiu, mas não desviou os olhos de mim. – Ainda bem, porque... Você sabe, Lucy, que eu me recuso a enterrá-la. – Sei – falei, apertando sua mão. Na esquina, George Thompson, o único florista da cidade, carregava o porta-malas de um Cadillac com mudas de flores primaveris. Ele resmungou um cumprimento indefinido para nós enquanto arrumava os botões, contorcendo o rosto numa careta. – Como vai Trilby, George? – perguntou minha irmã ao nos aproximarmos. – Ela melhorou? – Não. E anda muito ranzinza. Sabe-se lá por quê, a culpa é minha por ela ter quebrado o pé. Não fui eu que cismei de fazer “jazznástica”, caramba. Pare de rir, Lucy! Não tem a menor graça! Lily me cutucou com o ombro e disse a George: – Olhe só, diga a Trilby que o espelho antigo que ela encomendou já chegou. Ela pode passar para pegar quando estiver melhor. George parou o que estava fazendo e se empertigou. Aparentemente não sabia nada sobre um espelho antigo. A situação parecia que ia azedar, mas Muriel Piper nos poupou do constrangimento. – Oi, meus amores! – cacarejou. – Que dia lindo, não? Estou enlouquecendo com essas flores. Ela deu uma gargalhada gostosa e rouca. Muriel é uma matriarca de Brinley, à beira dos 90 anos, embora jamais admita a idade. Estava de calça jeans, um moletom com capuz e brincos de brilhantes tão pesados que puxavam os lóbulos de suas orelhas para baixo – um modelito informal de jardinagem, com certeza. Muriel me apertou num abraço cuja força contradizia sua idade. – Lucy, você está magra demais. Quero que vá lá em casa, que vou cozinhar para você. Nunca se cuida direito quando Mickey não está bem. – Ele vai voltar para casa na sexta-feira. E estou me alimentando muito bem. – Só na sexta? Ele vai perder a cerimônia fúnebre de Celia amanhã. Concordei. – Bem, apareça com Mickey no fim de semana para eu dar um abraço nele. Adoro aquele menino. – Então se virou para Lily. – E o seu também! Será que é possível ser mais bonito? Minha nossa! – Vou contar a ele que você disse isso, Muriel. – Não se atreva! Eu ficaria com vergonha! É melhor eu ir. Essas flores não vão se plantar sozinhas. Muriel acenou para nós e arrancou com o carro, o porta-malas abarrotado de petúnias e gérberas. Meu celular tocou no bolso e o atendi. – Oi, Priss. – Está tudo bem? – perguntou minha irmã mais velha, sem rodeios. – Charlotte falou que pareço estar ótima, mas que vai ligar se os exames mostrarem algum problema. – Ok. Vou entrar numa reunião. Me ligue mais tarde. Quero saber de todos os detalhes. – E então desligou. Guardei o celular e olhei para Lily. – Não é de espantar que ela seja uma grande advogada. – Ela só queria saber se você está bem – disse Lily, fazendo pouco caso. – E aí? – emendou, enquanto entrávamos no restaurante. – Mickey vai voltar para casa na sexta. Ele sabia da sua consulta de hoje? Balancei a cabeça, negando. – Ele está se recuperando. Não quis falar nada até ter todas as notícias boas para dar junto. – Você é uma boa esposa, Lu. Mic tem sorte de ter você. Dei de ombros, dispensando o elogio e pensando que na verdade era o contrário. Depois de tudo o que passamos, sei que hoje amo Mickey Chandler mais do que no dia em que nos casamos.

Capítulo 2 O Arqueiro

dois REGISTRAR = PROCESSAR = ENTENDER 7 DE JUNHO DE 2011 – PARA A SESSÃO COM GLEASON Levei quase uma semana para sair do buraco desta vez, mas ao menos não me deixei afundar totalmente. Sabia que estava encrencado, equilibrando-me na beira do abismo e mais uma vez achando que seria capaz de dar um salto e voar – ganhar altitude e pairar sobre o precipício que eu tinha consciência de que iria me engolir. Isso já aconteceu antes, mas felizmente não agora. Esta é a minha vida: o tempo todo me aproximando e me afastando da beira de um buraco que ora me fascina, ora me apavora – um buraco cheio de qualquer coisa que a minha imaginação dite no momento. É imperativo que eu me mantenha distante, mas quanto mais perto chego, melhor me sinto. Ou pior. E essa é a ironia ridícula, porque sou compulsivamente atraído para esse perigo e, quanto mais perto chego, mais perto quero chegar. Essas profundezas representam uma fuga inimaginável – às vezes pura euforia, outras vezes, uma dor tão intensa que não consigo nem começar a descrever. Seja como for, a beira do abismo me chama com suas mentiras que soam como promessas. Mentiras doces, sedutoras, às quais nem sempre consigo resistir. Os remédios ajudam. Assim como a terapia. Minha força de vontade também ajuda, quando consigo encontrá-la. Assim como meu intelecto, que, por incrível que pareça, não está amarrado às outras funções do meu cérebro deficiente. Tenho o conhecimento mais profundo que a experiência pessoal é capaz de proporcionar. Em meio a tudo isso, quase sempre sei o que está acontecendo comigo, mesmo que às vezes me sinta distante, como um espectador. Ainda assim, tento pôr em prática uma das muitas estratégias destinadas a evitar que eu seja engolido. Nem sempre funciona. Minha maior influência é minha esposa. Graças a ela estou decidido a manter uma boa distância do precipício, mesmo que nem sempre eu consiga. Às vezes, como quando ela ficou doente, o precipício vem até mim. Às vezes, isso acontece sem motivo algum. O abismo cresce de forma inexplicável, mesmo que eu corra dele para salvar a vida, até ficar sem chão sob meus pés e me ver perdido outra vez. Por mais que eu me esforce, é em vão. Para muita gente, esse abismo não existe, mas ele é uma ameaça real para quem sofre de transtorno bipolar. Sei que pareço um dependente químico, mas nenhuma droga causa a mesma sensação que a loucura quando está prestes a nos dominar, nem o desespero que vem imediatamente após você ter cedido a ela. 7 DE JUNHO – MAIS TARDE Reli a última coisa que escrevi no diário procurando identificar alguma merda reveladora capaz de levar meu psiquiatra, Gleason Webb, a torcer o nariz e me mandar refazer tudo. Mas não vi nenhum trecho em que eu possa ter extrapolado. Aquele ali sou eu, sim, e acho que descrevi a situação bastante bem para um pirado. Eu estava esperando Lucy na escadaria da frente desta clínica que às vezes parecia ser o meu lar longe de casa. Estava tendo um bom dia, interna e externamente. Podia sentir meu eu estável emergindo aos poucos, porém com confiança. Eu tinha que admitir que sentira falta desse cara. Ele me deixa satisfeito. Não é lá muito excitante, mas é cômodo e seguro, e posso contar com ele para pensar com clareza. Consultei o relógio e me perguntei onde estaria Lucy – a essa altura já deveria ter chegado. Levantei-me e comecei a andar de um lado para outro, mas logo tornei a me sentar. Ela chegaria quando chegasse, não havia motivo para ficar nervoso. Sorri porque de repente me dei conta de que os remédios tinham funcionado. Eu era capaz de argumentar comigo mesmo e isso me alegrou... O milagre dos psicotrópicos. Lucy ficaria feliz – ela gostava mais do Cara Estável do que de mim, o que não era propriamente verdade. Lucy me amava – mesmo com parafusos soltos, peças sobressalentes e partes danificadas. Ela amava o pacote todo – dizia que devia ser assim ou não faria sentido me amar. Jurou, faz uma eternidade, que isso era verdade e fez jus a esse juramento. Quem teria acreditado nisso? Essa mulher ainda me fascina, sobretudo em momentos como este, quando saio do buraco com o cérebro embotado e a primeira coisa que consigo enxergar com nitidez é o seu amor. Todo ser humano que não bate bem deveria ter a mesma sorte. Mickey estava esperando por mim sentado na escada do Edgemont Hospital. De calça jeans e camiseta cinza, não lembrava em nada um paciente. Assim que atravessei a rua e ele me viu, seu rosto se iluminou e tive vontade de rir. Ele parecia tão bem, tão saudável. Os ombros largos e as pernas compridas são sua marca registrada. Mas o sorriso é o que mede sua sanidade e, daquela distância, ele parecia perfeitamente bem. Mickey ficou de pé e empurrou os óculos escuros para o alto da cabeça, onde o cabelo escuro continuava farto, a mecha prateada caindo sobre a testa do mesmo modo como quando o conheci. Caminhou ao meu encontro com um sorriso tímido e, ao chegar perto, me envolveu num longo abraço apertado – mas não apertado demais, o que era um bom sinal. Cheguei a pensar que dava para ver o meu Mickey ali dentro, naqueles olhos escuros que poucos dias antes tinham uma expressão insana e desfocada. – Como você está? – perguntei. Mickey se afastou e passou a mão no meu cabelo. – Melhor, Lu. Estive com Gleason hoje de manhã. Ele confirmou que posso ir para casa na sexta. Dei um beijo nele. – Bom para você. Bom para mim. – É. – Ele me puxou de novo para seus braços. Aquele era o meu Mickey. – O que você estava fazendo aqui fora? – Esperando você. Peony disse que ficaria de vigia. Ele olhou para cima e segui seu olhar. De fato, a enfermeira de Mickey, Peony Litman, me acenou da janela do terceiro andar. Tinha no mínimo 70 anos e, fiel à sua formação conservadora, vestia-se toda de branco e usava touca. – Ela falou que podemos dar uma volta, se você se responsabilizar por mim. Olhei para cima e acenei. A enfermeira sorriu e acenou em resposta. Edgemont é um velho hospital colonial que passou por algumas reformas. Na aparência, continua feioso e antiquado, mas essa instituição é eficiente o bastante para atender Brinley e New Brinley. O hospital fica no meio de um terreno impecavelmente cuidado e, nessa tarde amena, havia vários pacientes ali fora. Fiz Mickey passar o braço em volta do meu ombro e inspirei a suave fragrância de lilases e lavandas. – Senti saudade de você, meu bem – disse ele. – E eu de você. – Pelo menos não peguei um avião nem roubei nada. Não saí cavucando o jardim... – Graças a Deus. Na semana anterior, o humor e a energia de Mickey haviam alçado voo aos poucos, à medida que ele ajustava a medicação. Este é o problema de Mickey: aliviar os sintomas depressivos com remédios, Prozac por exemplo, às vezes o leva à hipomania – ele gosta disso, razão pela qual ele não se dispõe a reverter o quadro, sempre achando que pode controlar essa energia. Dessa vez, porém, apesar da tentativa de seu médico de tratá-lo como paciente ambulatorial, Mickey não conseguia dormir. Se não houvesse intervenção, em seguida viria a psicose. Graças a um ajuste na medicação e alguns dias de internação em Edgemont, ele agora estava próximo do que se considera normal para o restante do mundo, mas que, para o meu Mickey, está longe disso. Ainda assim, é mais fácil recuperar-se disso que dos surtos depressivos. – O que você tem feito? – perguntei. – Nada de mais. Um bocado de estabilização. Quando fica chato, conto as papadas de Peony. – Não implique com ela. É um trabalho duro cuidar de você. Jared apareceu por aqui? – Duas vezes. Ele teve notícias do arquiteto e quis me mostrar alguns projetos. São bons. Acho que vamos derrubar aquela parede do fundo para abrir espaço para mais mesas. Mickey e o sócio vinham falando sobre essa expansão da casa noturna desde o ano anterior. Seria ótimo ver algo finalmente acontecer. Ele olhou para mim. – Preciso lhe contar uma coisa, Lu. Parei. Essas palavras costumavam ser um prelúdio à catástrofe, por isso me preparei. Será que ele havia comprado outro ônibus no eBay, contratado mais imigrantes para pintar a nossa casa ou pegado emprestada uma cabra para comer nossa grama? – Estou ouvindo – falei. – Não é nada ruim. É só que há uns quatro meses, Lucy, eu... Eu estava bem, então comprei uma passagem para nós num cruzeiro. Fitei-o com uma expressão séria. – Num cruzeiro? – Queria lhe fazer uma surpresa. – Ok, estou surpresa. Quando viajamos? – Bom, devíamos ter viajado na quinta-feira, seu último dia de aulas. – Ah... – suspirei. – Seria divertido. Por que não me contou? – Eu ia contar, mas queria que fosse surpresa. – Que amor. – Estou pedindo reembolso. Talvez consiga metade do dinheiro, porque foi uma internação de emergência. Sinto muito, meu bem. – Eu também! Dá para imaginar? Sexo na praia à meia-noite. Nós dois nadando nus no mar... Acho que preferia que você não tivesse me contado. – Sexo na praia? – Sexo na praia, Michael. E muito. Mickey abriu um sorriso – meu marido estava deslumbrante e com uma expressão espantosamente normal. – Que tal irmos para o Havaí no seu aniversário, em setembro? – Hummm. – Sério. Vamos. Isso vai me manter bem. Não posso dizer quantas vezes esse mesmo plano não deu certo – talvez nem sejam tantas quanto eu imagino, já que aprendemos a não planejar demais. Mesmo assim a ideia do Havaí me pareceu fabulosa. Beijei o queixo dele. – Lucy, juro que vou fazer dar certo. – Tenho uma sugestão – falei. – Juntamos o dinheiro, fazemos as reservas, eu compro o biquíni. Daqui a três meses, no meu aniversário, com ou sem você, eu vou para o Havaí. – Ah, eu irei também. Você não vai sem mim. – Sei disso, mas só por garantia... Você vai ter que cumprir a promessa. Ele passou o braço em volta de mim e continuamos a passear, sonhando e fazendo planos, até os remédios deixarem a boca de Mickey seca demais para falar. Quando voltamos à Unidade Psiquiátrica no terceiro andar, Peony estava de prontidão para nos deixar entrar. – Lucy! Que bom ver você, meu bem. Como vai? – Nada mal. – Já começaram as férias de verão na escola? – Sim. Como isso é bom! A velha enfermeira estalou a língua. – Todo mundo acha que meu trabalho é difícil, mas eu não trabalharia com adolescentes nem pelo dobro do que ganho. Sorri. Eu sentia a mesma coisa com relação ao trabalho dela. Peony entregou a Mickey os comprimidos e um copinho descartável com água e o observou tomá-los. Depois que ele engoliu, ela examinou sua boca e debaixo da língua. Esse pequeno gesto invasivo sempre me surpreendia. Na nossa vida normal, Mickey era um empresário brilhante, divertido, bem-sucedido. Um bom amigo e ótimo de papo. O cara que preparava o jantar se chegasse em casa antes de mim e que resmungava quando eu lhe pedia que desse um pulo no Mosely para comprar absorventes. Que fazia rodízio nos meus pneus e pagava a conta de luz. O cara ao qual eu ainda não conseguia resistir quando saía do banho. E que também era esse cara aí, que de vez em quando se desviava do rumo cuidadosamente mantido, a ponto de Peony precisar checar se não havia escondido o remédio debaixo da língua. Apertei sua mão e ele respondeu apertando a minha. Depois de anos de paciência, perseverança e competência, Gleason – o Dr. Gleason Webb – enfim chegara a um coquetel eficaz para tratar o transtorno bipolar de Mickey. Medicamentos que meu marido às vezes abandonava por motivos que tinham sentido apenas para ele, mas que sempre conduziam a uma reintrodução gradual do coquetel, situação em que nos encontrávamos nesse momento. É necessário um pequeno punhado de comprimidos diários para manter o equilíbrio do meu marido: um estabilizador de humor, em geral litium, às vezes Depakote, com frequência ambos; vez por outra Risperdal, para impedi-lo de ouvir vozes; Neurontin, para que não tenha convulsões – efeito colateral do Risperdal; Mantidan, para os sintomas semelhantes aos do Parkinson que podem ser provocados pelo uso do Depakote; Propranolol para os tremores e Benadryl para a rigidez muscular causada por eles; Rivotril para a ansiedade e Stilnox para ajudá-lo a dormir. Sem contar os antidepressivos acrescentados quando necessário. Tudo isso funciona como mágica para normalizar o comportamento, o humor e as reações de Mickey, mas depende de ele tomar o que lhe é prescrito e nas horas certas, o que costuma ser uma loteria. Esta é a música de fundo da nossa vida: Mickey está tomando os remédios? Se eu fosse outro tipo de esposa, daquelas que contam os comprimidos, e observasse Mickey engoli-los, como faz sua enfermeira, a resposta seria um sim retumbante. Mas nunca consegui me imaginar tirando dele essa responsabilidade, essa dignidade, por isso nunca o encorajei a depender de mim. Na saúde ou na doença, eu gostava dele com autonomia, não dependente. Isso não significa que eu não fique de olho nele nem que deixe de cuidar da situação durante os surtos. É isso que se faz quando se ama alguém como Mickey. Não estou reclamando. Fui informada de como seria esse tipo de vida. Tive dezenas de oportunidades de mudar de ideia. A verdade é que acho que amei Mickey desde o momento em que o vi. Graças a Deus, porque agora não consigo me imaginar amando – ou sendo amada por – outra pessoa. Apesar dos reveses (e de um cruzeiro cancelado), sei que escolheria Mickey de novo.

Capítulo 3 O Arqueiro

três 8 DE SETEMBRO DE 1998 Ela me deu o número do telefone e, embora eu soubesse que jamais ligaria, decorei-o mesmo assim. Não pude evitar. Ninguém me via como ela. Tenho certeza de que isso soa estranho, mas olhar para mim e me ver são duas coisas muito diferentes. E eu conheço a diferença, já que fui olhado por mulheres – e não poucos homens – durante a maior parte da minha vida adulta. Lucy, porém, parecia me ver não sob o prisma da atração de uma mocinha, mas sob uma luz muito mais generosa, crua e reveladora. Para começar, ela me desarmou por completo quando eu flertava com sua irmã, que, devo confessar, era muito bonita – loura, inteligente e muito interessante, apesar de definitivamente não fazer o meu tipo. Mas eu estava me divertindo e aproveitando sua companhia enquanto as pessoas chegavam à minha casa noturna para uma festa de aniversário. Então, essa garota – ela era apenas uma garota – entrou, e o clima mudou na mesma hora. Para melhor. Todo mundo a conhecia e sem dúvida a adorava. Sei que é clichê, mas não consegui tirar os olhos dela enquanto ela circulava pelo salão. Abraçava todo mundo e ria com todos. Vestia um suéter preto justo, uma saia curta e botas – e, em matéria de beleza, era exatamente o meu tipo. Achei que talvez ela tivesse me flagrado olhando-a, porque quando enfim se aproximou de nós, fiquei meio ansioso. Porém não era comigo que ela queria falar, mas com a moça que eu estava paquerando, e quase desmoronei ao descobrir que as duas eram irmãs. Ela sorriu para mim de um jeito ostensivamente aprovador e disse que se chamava Lucy Houston. O nome lhe caía como uma luva. Mais baixa que a irmã, ela tinha um incrível cabelo castanho que logo desejei tocar. Priscilla parecia uma autêntica modelo – muito bem tratada. Lucy, por sua vez, era mais natural e, acreditem, não precisava de coisa alguma para embelezá-la: tinha a pele clara, grandes olhos verdes, o nariz pequeno e arrebitado, lábios carnudos e beijáveis. Acrescente a tudo isso o fato de ela dar a impressão de ser muito legal e Lucy Houston se torna praticamente irresistível. Descobri, afinal, que estávamos comemorando seu 21o aniversário – jovem demais para os meus 29 anos. Porém algo aconteceu quando ela subiu no palco comigo. Eu só estava tentando fazer meu número, contar algumas piadas, arrancar umas gargalhadas, aquela coisa de sempre. Chamei-a para fazer uma rápida figuração e ela não hesitou. Então o restante do mundo desapareceu e só ficou ela. Não sei o que Lucy fez, mas de alguma forma conseguiu que eu saísse de trás do personagem que mostrava ao mundo e olhou para quem sou de verdade. E não titubeou. Quando a beijei, por pura diversão, e ela retribuiu, acho que a reconheci de um jeito cósmico, como uma parte perdida de mim mesmo que eu não sabia que tinha perdido. Não sei se esse tipo de coisa acontece com pessoas normais, mas para mim foi irrefutável. E para alguém situado bem aquém da bendita linha da normalidade, foi chocante a ponto de apavorar. Fiquei apavorado a ponto de me tornar um imbecil. Aquela garota deslumbrante me deu seu número de telefone e deixei que ela fosse embora. Conheci Mickey Chandler em 1998, quando eu estudava na Universidade Northeastern, em Boston. Lily me convenceu a passar meu aniversário de 21 anos em Brinley, onde organizou uma festa e convidou todos que conhecíamos. A desculpa para o evento foi o meu aniversário, mas eu sabia que minha irmã precisava de uma distração. Ela e o marido, Ron, tinham acabado de passar pela experiência terrível de uma adoção que dera errado. Achei que a pobrezinha jamais se recuperaria da longa espera por aquele filho precioso, que chamou de James Harrison Bates, em homenagem ao nosso pai e ao sogro. Todos nos apaixonamos pelo menino, um garotão saudável e encantador. Então nós o perdemos. A mãe, que tinha 15 anos, mudou de ideia. A menina – com a mãe, que era uma idiota, e o advogado – simplesmente bateu à porta de Lily e pediu o filho de volta. O termo jurídico é revogação de adoção e em Nova York, seu local de origem, a mãe tem 45 dias para ir à justiça cancelar seu consentimento. Ela fizera isso no último dia do prazo, o que abriu uma ferida profunda no coração de Lily que achei que nunca iria cicatrizar. Minha irmã jurou que jamais tentaria de novo. Não dava para culpá-la. Não depois de dois abortos espontâneos e procedimentos exaustivos para resolver o problema – incompetência istmo-cervical. E mais uma adoção fracassada. Da primeira vez, a mãe mudara de ideia antes de o bebê nascer e, apesar de ter sido um golpe para Lily, não doeu tanto quanto a perda de Jamie. Depois dele, o assunto “bebê” virou tabu. Mais tarde, tornou-se desnecessário – eu jurei jamais ter filhos e Priscilla se casou com sua carreira, insistindo que não estava interessada em constituir família. Mas na época em que Lily perdeu esse filho, Ron ficou tão desesperado para curar sua dor que comprou para ela uma mansão vitoriana dilapidada no centrinho histórico de Brinley, e a loja de antiguidades que os dois batizaram de Fantasmas no Sótão tornou-se seu filho. O contrato foi assinado na véspera do meu aniversário de 21 anos, o que fez com que a minha grande festa também fosse uma comemoração para eles. Lily fez de tudo para que o meu aniversário fosse fabuloso. Encontrou um lugar para a festa e contatou o proprietário para transformar a ocasião num grande evento. Convidou todos os meus amigos e até algumas das minhas mães postiças. Foram várias ao longo dos anos, já que eu tinha apenas 17 anos quando nossa mãe morreu – e aos olhos das mulheres de Brinley ainda não era adulta. Três mulheres em especial haviam representado esse papel, e todas estavam no Colby’s na noite da minha festa – Jan Bates, Lainy Withers e Charlotte Barbee. Das três, era de Jan que eu me sentia mais próxima. Artista talentosa, certa vez ela pintara um retrato de Lily, Priss e eu com nosso pai e o deu de surpresa a mamãe sem motivo algum. Jan chegara à imagem do quadro a partir de fotos tiradas quando éramos muito novas, mas ninguém seria capaz de dizer que nunca havíamos posado para ele. O quadro ficou pendurado no quarto de minha mãe até ela morrer e agora está em cima da lareira de Lily. Jan e Harrison Bates eram os amigos mais íntimos dos meus pais e não poderiam ter nos dado mais carinho e apoio, mesmo se fossem parentes. Lily me arrancou do abraço de Jan e me envolveu no seu, que retribuí. Minha irmã tinha emagrecido muito e havia uma tênue linha de sofrimento em torno de seus olhos, mas ela conseguiu esconder tudo isso, sobretudo ao ouvir Ron cantar “Parabéns para você”, desafinando a ponto de machucar nossos ouvidos. Priscilla – nossa joia reluzente – se retirara para um canto, onde flertava com um cara bonito, que dava a impressão de que precisava ser resgatado. Eu me aproximei dos dois e ela abriu seu sorriso alvo e brilhante. Minha irmã mais velha estava deslumbrante numa calça jeans justa e uma camiseta mais justa ainda. Flertava como uma cortesã, mas era a rainha dos contrastes. Quem a visse nesse momento, não diria que vinha obstinadamente galgando os degraus do direito empresarial e poderia fazer um oponente perder a capacidade de formar frases completas. Priss era casca-grossa e uma ameaça tripla: bonita, brilhante e determinada. Só que tinha um ponto vulnerável de cuja existência pouca gente, além de Lily e de mim, sequer suspeitava. – Oi – falei. – Oi – respondeu ela, tirando a mão do braço bem torneado do amigo por tempo suficiente para me dar um abraço. – Feliz aniversário, Lu – sussurrou depressa no meu ouvido. Em seguida voltou a seu lugar junto ao cara bonito, que agora me encarava. Sorri. – Meu nome é Lucy. Ele se levantou. Era alto, com ombros muito largos e cintura delgada. Eu, ao contrário, sou bem baixinha, meio moleca e precisei erguer os olhos para encontrar os dele. Ele estendeu a mão, que apertei. – Este é... Bom, para ser honesta – disse Priss com um sorriso –, nem sei o seu nome. – É Mickey. Ele abriu um sorriso bonito que deixava entrever um encanto extra por mim. Virei-me para Priss e seu olhar me avisou de que ela o vira primeiro. Uma pena, já que ele era muito interessante. Tinha um cabelo maravilhoso, escuro e anelado, com uma mecha grisalha que lhe caía na testa e tornava difícil calcular sua idade. Trinta anos, eu diria. A boca era fantástica e seus belos olhos escuros não se desviaram de mim um vez sequer enquanto eu o avaliava. Eu bem que podia me acostumar com isso, pensei. Só que eu jamais disputava homens com Priscilla e não estava disposta a começar agora. Por isso recolhi minha mão e disse apenas: – Muito prazer. Os olhos dele continuaram presos aos meus por tempo suficiente para eu saber que, se estivesse competindo com Priss, ela teria problemas. Minha irmã, porém, estava nitidamente à vontade e deixei-a assim enquanto circulava pelo salão e reencontrava meus amigos. Naquela noite, o Colby’s – uma casa noturna na cidade vizinha mais próxima a Brinley – fervilhava com música, cerveja e muita conversa. Eu estava botando o assunto em dia com Chad Withers, meu amigo desde o jardim de infância, que agora dirigia com o pai a única funerária de Brinley. Chad me contava sobre sua anêmica vida amorosa, quando alguém deu umas batidinhas num microfone estridente e falou: – Esse negócio está funcionando? Todos pararam e voltaram a atenção para o pequeno palco no canto do salão. Achei que Ron tivesse contado à gerência sobre o meu aniversário e que a certa altura isso seria lembrado. Porém, fiquei surpresa ao ver o amigo bonitão de Priscilla assumir o posto de mestre de cerimônias com um grande sorriso no rosto. – Sejam bem-vindos ao Colby’s! É um grande prazer tê-los aqui. Estão se divertindo? Vocês todos são de Brinley, certo? – perguntou ele. Chad assoviou por entre os dedos. – Ótimo, ótimo. Dizem que Brinley tem fama de ser divertida. Sei que isto aqui deve ser o equivalente ao bingo no auditório da prefeitura, mas... – Mickey riu e depois pôs a mão no coração fingindo pedir desculpas. – Brincadeirinha. Adoro Brinley. O pessoal de lá é muito legal. E rico, pelo que ouvi dizer, o que é ainda melhor, então... bem, fiquem à vontade para gastar muito dinheiro. O Howie, ali no bar, faz drinques especiais e esta noite está criando um chamado “A maioridade de Lucy”, em homenagem à nossa convidada especial. As gargalhadas ecoaram pela boate e senti meu rosto corar. – É. A dose custa 21 pratas, então bebam. Estou atrasado com o pagamento da hipoteca. – Ele estalou a língua e depois enfiou a mão no bolso e a tirou de lá. – Muuuuito bem, meu nome é Mickey Chandler e adoramos comemorações especiais aqui no Colby’s, principalmente aniversários. Esta noite estamos festejando Lucy Houston. – Ele deu um tapinha no bolso e pegou um pedaço de papel dentro dele. – Quero agradecer à irmã da aniversariante, Lily, por me fornecer todos os detalhes sórdidos sobre Lucy, se é que me entendem. Aliás, onde ela está? Alguém viu a aniversariante? No ambiente pouco iluminado, um holofote me encontrou e eu fiz uma reverência exagerada enquanto meus amigos me saudavam com gritos e aplausos. Mickey aplaudiu duas ou três vezes. – Ali está ela. Lucy tem agora 21 anos, tomem cuidado. Vejamos... Você estuda, certo? Assenti. – Faz faculdade em Boston, aproveitando a vida com as colegas de quarto, suponho. Vou lhe fazer uma pergunta: a geladeira tem cantinhos individuais para você e suas amigas? Acertei, não foi? E aposto que botou seu nome no queijo e em cada um dos ovos, certo? Admita, Lucy. – Mickey deu uma risada. – Com os homens não é assim. É tudo propriedade coletiva, certo, pessoal? Comida, cerveja, garotas. É de quem chegar primeiro. Não é verdade? Chad assoviou, como se soubesse bem do que Mickey estava falando, e eu ri, só porque ele era muito lindo! O mais importante foi que Lily riu, e ela precisava desesperadamente disso, o que me transformou em uma fã instantânea de Mickey. – Lucy, suba aqui – disse ele. – Me dê uma ajuda antes que eu estrague tudo e todo mundo volte correndo para o bingo. Nunca fui tímida e, antes mesmo que ele terminasse o convite, eu já estava passando por Priscilla a caminho do palco. Ela pareceu um pouco aborrecida, mas não havia nada que eu pudesse fazer. No palco, o lindo sorriso de Mickey voltou – aquele de quando nos vimos pela primeira vez – e, sem minha irmã para impedir, eu me deixei aquecer pelo calor dele. Minhas irmãs são louras bonitas, mas o cabelo bom mesmo é o meu – grosso e castanho-acobreado –, herdado de nosso pai. Naquela noite eu o deixara solto e Mickey estendeu o braço e correu as mãos por entre os fios, aproximando-se para examiná-lo. Que cheiro bom ele tinha! – Por que você não é loura como suas irmãs? – indagou ele longe do microfone, esfregando uma mecha entre os dedos. Então, se deu conta do gesto e a soltou. – E aí, Lucy? Vinte e um anos. O que vocês, as garotas de 21, fazem para se divertir? – Bom, Sr. Chandler, garanto que deve ser a mesma coisa que os velhos pervertidos fazem para se divertir. – Por acaso essa é uma piada de velho? – retorquiu Mickey, fingindo-se ofendido. – Está querendo acabar comigo? Mas vou lhe dar um pouco de corda, já que você é uma aniversariante tão sexy. – Puxa, obrigada. Você também não é de se jogar fora – retruquei, estendendo a mão para dar um tapinha em seu peito. Foi aí que ele me olhou de um jeito que eu não trocaria por dinheiro algum. Ele logo se recompôs. – Vocês adoram universitárias, não é? Mulheres jovens e deslumbrantes? Mas temos que agir na hora certa, quando estão em pleno desabrochar mas ainda são bobinhas a ponto de nos darem uma chance. Depois que começam a levar a vida a sério, acabou. Caras como nós não têm mais a menor chance, certo, Lucy? – Você está falando especificamente de mim? Mickey olhou em torno com uma expressão teatral. – Não estou vendo mais ninguém aqui no palco. – Então pegou mais um punhado do meu cabelo. – Acho melhor checar se não é louro. Sim, estou falando de você – respondeu, bem perto de mim. – Bom, eu garanto que você teria uma chance comigo. Mais uma vez, ele ficou desconcertado e meus amigos passaram a provocá-lo. Abri um sorriso largo. – É por pena. Acertei? – perguntou ele. – Você é uma aluna exemplar que sente pena de um cara que se formou magna-cum-nada e acabou como comediante de uma pequena casa noturna. – Está brincando? – entoei. – Um comediante formado? Gamei! Seus olhos risonhos não largaram os meus enquanto ele decidia o que dizer em seguida. – Então, está ótimo! – falou. – Vamos lá! Mickey Chandler me puxou para perto dele e, com um grande floreio, se inclinou para dar um beijo de aniversário na universitária. Acho que a ideia era que fosse um selinho inofensivo, mas eu mergulhei fundo – afinal, era meu aniversário –, e para ser honesta, ele também. Alguma coisa no jeito como nossas línguas dançaram e nossos dentes se chocaram pareceu quase familiar. Foi delicioso e não seria eu que daria um fim àquilo. Quando enfim nos afastamos, eu estava sem fôlego e meio envergonhada. A máscara de Mickey caíra de novo e ele deu a impressão de não acreditar no que acabara de acontecer. Ri e saí do palco aos tropeços, sob a execução de “Parabéns para você”. Para os presentes, a coisa toda não passou de uma grande diversão. Exceto para Priss, que parecia meio chateada. Mas não me arrependi. Era a minha noite e o número de Mickey. Ele continuava a me olhar, tentando demonstrar indiferença. Isso me deixou feliz. Ao voltar para junto do bar, Priss me deteve: – O que foi aquilo? – Nada. Só brincadeira. – Tive a impressão de que foi mais que isso – disse ela, mordida. Eu ri, olhando para o palco, onde Mickey Chandler continuava com os olhos fixos em mim enquanto contava uma história engraçada sobre dois cachorros e um caixa eletrônico. Tentei imaginar o que ele via. Priscilla, alta, loura e deslumbrante, com toda aquela volúpia siliconada vazando do bustiê, repreendendo a irmã caçula, mais baixa e bem menos voluptuosa – porém bastante atraente de saia e botas –, que não aceitava o puxão de orelha. Mickey se preparava para descer do palco e falei: – Esta é a sua chance, Priss. Minha irmã levou um segundo para ponderar a sugestão, mas depois olhou por cima do meu ombro: – Tenho uns assuntos para resolver. Considere o cara divertido meu presente de aniversário. Virei-me e vi Trent Rosenberg olhando minha irmã como se ela fosse um filé e como se ele não comesse havia mais de um ano. Trent tinha sido seu namorado no ensino médio, e ele e Priss eram o boato mais antigo que circulava em Brinley. Eu queria acreditar que minha irmã estivesse acima dos padrões dele. Sobretudo porque Trent tinha mulher e filhos.

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