Uma noite de prazer
Capítulo 1 Uma noite de prazer

Hudson Grayland[2] — Texas Não perco o controle com facilidade. Sou famoso pelo mau humor, arrogância e paciência curta. Nenhum desses rótulos é exatamente lisonjeiro — tampouco inadequado — mas apesar disso, não me lembro de já ter partido para o confronto físico com alguém. Agora, no entanto, enquanto observo meu primo Callum, vestido apenas com uma cueca boxer e minha esposa completamente nua sobre ele, agradeço a Deus por não andar armado. Descobrir uma traição de Evelyn, incrivelmente, não me causa estranheza. Desde o início ela se mostrou insatisfeita com o casamento. Eu andava tão ocupado com o trabalho, que quando ela se aproximou, eu a analisei como faço com minhas transações financeiras e decidi que nossa união seria satisfatória o bastante. Ela vem de uma boa família, é sofisticada e bonita. Isso aliado a um sexo dentro da média, riscou outro item do meu plano de vida, mas eu nunca a amei. Assim, não chega sequer a me incomodar que tenha me traído. O problema é com quem ela me traiu. É tudo sobre ele. Meu sangue. O homem que cresceu ao meu lado e compartilhou dores e alegrias. Aquele em quem sempre confiei tanto quanto nos meus três irmãos. Por minha vontade, viro as costas e vou embora, mas de jeito nenhum sairei sem que saibam que os peguei em flagrante. Não tem nada a ver com ciúmes, mas tudo sobre a sensação de ser atraiçoado pelo meu melhor amigo. Bato palmas para lhes chamar a atenção. Evelyn desperta rapidamente, sentando-se na cama com a culpa estampada no rosto. Callum, demora um pouco mais. — Hudson, eu posso explicar — ela diz, ao mesmo tempo que meu primo pergunta. — O que diabos está acontecendo aqui? — Fodam-se os dois. Vocês se merecem — falo. Viro as costas para sair, enquanto ela ainda me chama uma última vez. — Hudson… — Nunca mais se aproxime de mim — interrompo, com gelo escapando de cada palavra. — Meus advogados entrarão em contato para tratarmos do divórcio. Capítulo 1 Hudson Dallas — Texas Dois anos depois — Ela finalmente assinou. — Quanto isso vai me custar? — Muito mais do que havíamos pensado a princípio, mas você ainda deu sorte que ela nem desconfia das suas intenções em se tornar governador. Eu não tenho dúvidas de que se soubesse, o preço subiria. Balanço a cabeça, concordando com a minha assistente e também única amiga, Dominika. Claro que tem razão. Estou há exatos dois anos tentando me livrar de Evelyn e ela não recua. Nesse meio tempo, muita coisa mudou, principalmente meus objetivos. Estava entediado com a carreira de CEO da indústria petroleira apenas. O que mais eu poderia querer? Sou o homem mais rico do Texas — daí o apelido que a mídia me deu de o dono do Texas — e um dos cinco mais dos Estados Unidos. Eu precisava de algo que realmente me estimulasse, assim, decidi focar em uma meta mais grandiosa: quero ser o próximo governador do estado. Como tudo em minha vida, criei um plano para atingir o alvo. Um que não inclui uma ex-esposa gananciosa perturbando minha assistente quase todos os dias. — Então finalmente acabou? Sou um homem livre? — Sim. Completamente. Vamos comemorar? Ao invés de responder, ergo uma sobrancelha. Ela me conhece bem demais para saber que não perco tempo com essas bobagens. Sua sugestão foi uma espécie de piada. Dominika tem um senso de humor estranho. — Tudo bem, vou beber uma garrafa inteira de champanhe francês e colocar na sua conta. Um brinde ao fim dos telefonemas com sua ex gritando no meu ouvido. — Faça isso. — Autorizo. Ela realmente merece por ser meu escudo contra Evelyn, durante o tempo em que ficamos separados até a assinatura do divórcio hoje. Depois que a flagrei na cama do meu primo, nunca mais fiquei em um mesmo ambiente com ela sem um advogado presente. No começo, minha agora ex-esposa tentou de tudo para conseguir uma reaproximação, mas quando percebeu que não teria mais volta, se dedicou ao que realmente a interessava: arrancar a maior quantidade de dinheiro possível com o fim do nosso casamento. — Ele telefonou novamente. — Dominika avisa e sei de quem está falando. Callum. — Não perguntou por você. Era sobre a propriedade ao norte do estado. Seu primo quer saber se aceitará sua oferta e lhe venderá sua parte. — Por que eu venderia? Não preciso de mais dinheiro do que já possuo. Ela suspira e sei que a irritei. É isso o que acontece quando você é amigo de alguém por tempo demais. Aprende a decifrar até seus suspiros. — Não seja irracional. Vocês precisam chegar a um acordo. Venda seu terreno ou compre o dele, mas se quer um conselho, venda. Você não precisa daquilo. — Não gosto de me desfazer dos meus bens. — Você está sendo intransigente. Não há sentido em estender a briga pessoal de vocês em uma disputa de negócios. Ele não é um concorrente qualquer, mas seu sangue. No seu lugar, eu também não sei se o perdoaria, mas essa guerra entre vocês está trazendo sofrimento para sua avó e irmãos também. Eles sentem sua falta. Ela sabe que acertou um nervo exposto. Até o incidente com Evelyn, eu não passava um fim de semana sem visitá-los. A cidade em que vivem, Grayland, pertence à minha família há gerações. Tanto eu quanto os meus irmãos e Callum temos propriedades rurais enormes lá e nos arredores. Apesar da minha vida sempre atribulada, eu gostava da sensação de voltar para casa aos fins de semana. Não importa o quão caras sejam as minhas roupas, eu sempre serei um cowboy. Agora, quase não volto mais para a minha terra. Eu falo com meus irmãos esporadicamente. Com vovó, há um contato diário por telefone ou mensagens, mas não é a mesma coisa. Minha avó criou meu primo junto com todos nós, já que no acidente de barco que vitimou meus pais, também estavam os dele. De uma hora para outra, vovó, que já era viúva, se viu sozinha com cinco rapazes. Eu, meus três irmãos e meu primo. Há cerca de cinco anos, ainda trouxe para juntos de nós Rebecca[3], a garotinha que foi encontrada vagando abandonada em nossa cidade. Apesar de não ser particularmente carinhoso, me fazia bem encontrar minha família com frequência. Atualmente, essas viagens se limitam ao almoço de Ação de Graças[4] e Natal e ainda assim, me mantenho o mais afastado possível do bastardo traidor. — Se há uma coisa em comum em todos os membros do clã Gray, é o orgulho. — Dominika continua, se mostrando mais impaciente. — Não é uma questão de orgulho somente. Ele era um irmão para mim. — Eu sei, mas aquela bruxa acabou separando a família, não percebe isso? Minha assistente não conhece os detalhes do que presenciei naquele dia no rancho de Callum, mas sabe o suficiente da traição de Evelyn e do meu primo. Sei que ela tem razão quando diz que houve perdas de todos os lados. Nós éramos muito unidos. Embora minha relação com meus irmãos estivesse longe de ser uma enseada calma, nos mantínhamos perto uns dos outros, para o bem ou para o mal. Desde a minha separação de Evelyn, Dallas, que sempre foi um lugar em que eu somente trabalhava durante a semana, acabou se tornando meu lar em definitivo. Meus parentes optaram por condenar Evelyn e acreditar na palavra de Callum, de que nunca houve nada entre os dois, mas eu sei o que vi. — Tudo pronto para minha viagem a Chicago? — Pergunto e ela comprime os lábios, sabendo que assim estou abortando qualquer tentativa de falar novamente sobre meu primo. — Sim. Já enviei para seu e-mail todo o cronograma das reuniões. Esses encontros serão fundamentais para que consolide as últimas alianças para a campanha. Com Evelyn fora da estrada, sua caminhada para o topo será limpa e reta. — Com ou sem Evelyn, eu não tenho nada a esconder. — Veremos, chefe. De qualquer modo, terei que revirar seu passado do avesso no decorrer dos próximos meses. — Isso não me agrada. — O que prefere: eu ou os democratas[5]? — Pelo amor de Deus, Dominika! Do jeito que você fala parece que fiz parte de um cartel de drogas na adolescência. Minha vida pode não ser um livro aberto porque não me agrada a ideia de bisbilhoteiros noticiando cada passo que dou, mas também não escondo segredos obscuros. — Não diga isso em voz alta, futuro governador. As mulheres preferem os bad boys, que atravessaram a juventude partindo o coração de uma conquista diferente em cada esquina. Apesar de que, nesse quesito, você não deixa nada a desejar. Minha irmã me contou a quantidade de namoradas e casinhos que teve na universidade. Dominika é a irmã caçula de uma colega de faculdade e quando precisei de uma assistente, me foi altamente recomendada, apesar de estar recém-formada. Trabalhamos juntos já há cerca de quatro anos e a admiração que tenho pela profissional que ela é, acabou se transformando em amizade. — Seu papel não é julgar o meu passado. Organize minha campanha e tente não meter esse nariz sardento onde não é chamada. Ela sorri e dá de ombros. Infelizmente, sei que vasculhará a minha vida amorosa inteira, incluindo ensino médio e faculdade. Se existe alguém comprometido com seu trabalho tanto quanto eu, é minha assistente. Seu dever no momento é me fazer vencer a campanha eleitoral e ela não desistirá até alcançar o objetivo. — Daqui a uns dias você oficializará sua candidatura ao governo. Eu gostaria muito de ver a cara da Evelyn quando perceber que poderia lucrar mais com o divórcio. — Ela não poderá me prejudicar. Meus advogados a fizeram assinar um acordo de confidencialidade[6]. Se abrir a boca em um site de fofoca ou para um repórter, haverá um desconto de vinte por cento na pensão a que tem direito. E se der mais entrevistas, trinta por cento e assim sucessivamente, além de uma substancial multa no valor total do acordo de divórcio. Na verdade, eu não queria qualquer tipo de arranjo com minha ex, mas acabei seguindo o conselho da banca jurídica que contratamos especialmente para a candidatura, mantendo essa possibilidade de punição contra Evelyn durante seis anos. Esse será o tempo necessário para que eu finalize minha campanha, cumpra meu mandato como governador e ainda tenha um tempo de descanso contra possíveis indiscrições dela.

Capítulo 2 Uma noite de prazer

Capítulo 2 Antonella Boston — Massachusetts Dez meses depois — Você ao menos tem que tentar. — Não. Pode me pedir qualquer coisa, menos isso. — Por favor. Precisa experimentar. Sua vida é tão chata! — Você se lembra de que é a minha irmã mais velha? Deveria me dar bons conselhos e ficar feliz que meu programa favorito seja estar em casa nos fins de semana. Sou uma adolescente-modelo. — Primeiro, você já deveria saber que não sou uma irmã mais velha convencional. Até porque, nossa diferença de idade é de apenas três anos. Segundo, você não é mais uma adolescente. Acaba de se tornar uma adulta. — Ela pausa e olha o relógio em seu pulso fino. — Bem, tecnicamente se tornará uma adulta, daqui a vinte minutos. — Respondendo à sua afirmação anterior, minha vida não é chata. Ela é como eu gostaria que fosse, Luna. Sou feliz com pouco. No próximo outono iniciarei a faculdade e quando terminar, vou ficar rica. Até lá, sua saúde estará ótima e nós poderemos sair de férias pelo mundo. Ir à Itália, como você sempre sonhou. — No momento, eu me contentaria em poder ter meu emprego de volta. O trabalho de hostess[7] me agradava. Eu adorava ver as celebridades desfilando lá no restaurante. Seu olhar se perde por um instante, como se estivesse recordando algo que a fizesse sorrir. Ela estica a mão magrinha para mim. — Antonella, eu amo você e tenho certeza de que todos os seus sonhos vão se tornar realidade, mas só se tem dezoito anos uma vez. A comemoração é obrigatória. — Estamos juntas. É celebração suficiente. — Eu não acredito que disse isso. Por mais que me ame, precisa aproveitar um pouco. Você é tão linda. Faça por mim. Se eu pudesse, sairia com você e nos divertiríamos para valer, mas não acho que seria uma boa ideia. Tenho me sentido fraca. Então, você precisa ir. Ou vai querer estrear sua vida adulta tendo na memória uns poucos beijos babados daquele seu namoro relâmpago do ano passado? — Não eram tão babados. O problema maior era que eu não podia respirar, ele sempre tentava enfiar a língua na minha garganta. Ela joga a cabeça para trás e gargalha. Só de vê-la feliz já compensa ter aquela conversa incômoda. — Essa é a sua chance de se arriscar por uma noite. Saia, beije, converse, ria. Tudo o que eu gostaria de fazer no momento e não posso. — Você está jogando sujo. Além do mais, se aceitasse embarcar em sua loucura, eu nem saberia como conversar. Eu falo muito e os rapazes não gostam disso. — E quem disse alguma coisa sobre rapazes? Eu pensei em encontrarmos um homem de verdade. — Perdeu o juízo, Luna? Se não consigo manter uma conversa decente com um cara da minha idade, o que diria para um homem adulto? — Claro que consegue. Você é linda e inteligente. Eles é que são uns idiotas medrosos. Temem uma mulher que poderia superá-los. Olho para minha irmã, minha companheira e a pessoa por quem me levanto da cama todos os dias e fico tentada a brincar de Cinderela, só para fazê-la feliz. — Por favor, Antonella. Podemos marcar o encontro em um bar, assim você não correrá risco algum. — Nós não devemos gastar dinheiro com bobagens. O orçamento já é bem apertado sem fazermos extravagâncias. Além disso, não tenho idade para beber. Estou fazendo dezoito anos, esqueceu[8]? O que iria fazer em um bar? Ela revira os olhos. — Não precisa beber, irmã. Basta fingir. E ninguém pensará que tem somente dezoito. Você é um mulherão. — Vou tentar levar isso como um elogio — falo meio sorrindo, apesar de saber que ela tem razão. Com um metro e setenta e oito e mais curvas do que precisaria para ser feliz, ninguém me dá a minha idade real. — E foi mesmo. Queria ser como você. — Você é linda. — Tudo bem. Concordo que sou agradável de se olhar, mas do que adianta, se não posso me divertir? Enquanto eu não conseguir estabilizar a minha saúde, viverei presa nesse apartamento. Ando até onde está e seguro as mãozinhas frias. — Vai dar tudo certo. Você vai ficar boa em breve. Tenha fé em Deus. — Vou sim porque eu quero muito viver. Sonho com uma viagem pela Toscana há mais de dois anos. — Antes que eu consiga ficar triste com o que disse, completa. — Vamos lá, querida. Uma tentativa ao menos. Vai ser divertido encontrar um homem para ser seu príncipe por uma noite. — Divertido para quem? Para mim tenho certeza de que não. Só de pensar em me inscrever nesse tal aplicativo de namoro, já fico enjoada de nervoso. — Será que dá para agir como uma garota da sua idade ao menos uma vez? Você não é um bebê. Não pense tanto. Aproveite. Faça por mim. Divirta-se sem medida. Eu nunca peço nada — a chantagista diz. — Mas hoje estou implorando para que você seja feliz no meu lugar. — Não. — Nego de uma maneira menos convicta dessa vez porque sei que acabarei cedendo. — Por favorzinho! — Ela implora de novo, já sorrindo e eu sacudo a cabeça. — Tudo bem. Vamos instalar o tal aplicativo e dar uma olhada, mas mesmo que encontremos alguém que valha a pena, darei a palavra final. Ela sorri muito excitada. — Você é a melhor irmã do mundo! No dia anterior ao encontro às escuras — E então? Martelo batido? É esse? — Sim — respondo, tentando mostrar segurança, enquanto olhamos juntas a tela do celular. Na verdade estou com vontade de sair correndo. — Ele é bonito. — É, mas parece muito sofisticado também. — Seu primeiro encontro na vida adulta será com um cara refinado, Antonella. O quão legal é isso? — Diz. — Foi uma pergunta retórica ou espera mesmo que eu elabore a respeito? — Não seja mala. Joguei o endereço que ele enviou no Google Maps. O cara a convidou para tomar um drinque no piano-bar do hotel mais chique da cidade. — Não achou estranho ele marcar em um restaurante de hotel? Tipo, parece meio sugestivo, até mesmo para mim que sou inexperiente. — Não acho. É inclusive mais seguro, já que o Caldwell- Oviedo Tower[9] é muito bem localizado. Além disso, por ser luxuoso, deve estar cheio de seguranças. Ele não se arriscaria a fazer algo contra a sua vontade. — Ela me dá um sorriso malicioso. — A não ser que você queira visitar a suíte dele. Pelo que colocou aqui, não é de Boston, mas de Nova Iorque. — Vamos esclarecer uma coisa: não pretendo conhecer a suíte dele e nem mesmo beijar esse cara. Só estou indo para satisfazer sua vontade. Prometo tentar me divertir, mas de verdade não acredito nesse encontro às escuras. — Eu tenho uma amiga que conheceu o amor da vida dela em uma sala de bate-papo. Seguro a vontade de revirar os olhos para não magoá-la. — Olha, não estou dizendo que seja impossível, mas para me fazer beijar um cara em um primeiro encontro ou ir em qualquer direção além de um beijo, ele teria que fazer meus joelhos tremerem, meu coração acelerar e meu cérebro virar manteiga de amendoim. Aquele tipo de homem que rouba o fôlego da mulher nos romances. — Então vamos torcer para que Aiden seja assim. Já passou da hora de você encontrar um amor. — Falou a experiente — digo e imediatamente me arrependo. — Luna, eu sinto muito. Não quis ser cruel. — Não se preocupe com isso. Você não foi. — Ela dá um sorriso enigmático. — Além do mais, quem disse que eu já não me apaixonei? Pode ser que meu coração já seja tomado há anos e ninguém desconfie. — Você não está falando sério. Ela não responde por alguns segundos, mas seu sorriso aumenta. — Chega de falar de mim — diz. — O foco agora é fazer da celebração dos seus dezoito anos inesquecível. Capítulo 3 Antonella Hotel Caldwell-Oviedo Tower Ai, meu Deus. Com o que fui concordar? Eu não deveria ter aceitado participar desse plano doido de Luna. Uma noite de Cinderela inesquecível — ela disse. Sim, sei. Por uma vez que seja, esquecer de todas as minhas responsabilidades, os planos para o nosso futuro meticulosamente alinhados e somente viver. Por mim, estaria em casa assistindo televisão e tomando sorvete. Eu não preciso de um encontro, mas não volto atrás com a minha palavra e também não quero desapontar minha irmã. O sorriso dela quando fui até seu quarto e mostrei o que estava usando, faz valer qualquer risco de passar vergonha. Tenho que reconhecer que o vestido preto de alcinhas valorizou meu corpo, apesar de que eu dispensaria as sandálias altas. A produção me deixou com um ar menos jovem. Acho que passaria tranquilamente por uns vinte e poucos anos. Ela estava tão feliz quando me entregou o envelope com o dinheiro que corresponderia ao meu presente de aniversário! Nele, havia um bilhete explicando o que eu deveria comprar — roupa e acessórios. Eu ri e perguntei por que somente não me disse o que eu deveria usar ao invés de escrever e ela respondeu que eu adoro um manual de instruções, então, que decidiu agir de acordo. Realmente amo. Montar e instalar coisas é comigo mesmo. De aparelhos eletrônicos a móveis, se tem um manual, estou dentro. A alegria de Luna foi tanta que parecia que o encontro era dela. Vibrou quando nós finalmente escolhemos o tal Aiden no aplicativo e eu fiquei com vontade de usar uma câmera escondida para mostrar os detalhes da minha noite — apesar de não acreditar que ela resultará em um namoro, como minha irmã sonha. Costumo assustar os homens por saber conversar um pouco de tudo. Luna até ensaiou comigo que eu não deveria demonstrar entender alguns assuntos que ele tocasse. Acho que vou tentar falar o menos possível. É a única maneira de não meter os pés pelas mãos. Dou passos incertos para dentro do saguão do hotel luxuoso. Aos meus próprios ouvidos, as sandálias de salto alto ecoam no chão de mármore, atraindo atenção. Jesus, que vontade de sair correndo. Repasso mentalmente todas as dicas que Luna me deu de como me comportar. Como ela pode saber tanto da vida? Nunca saiu muito ou namorou a sério. Quando estava entrando na fase de poder se divertir como uma adulta, adoeceu. Afasto o pensamento, caso contrário a noite estará perdida e eu só vim a esse encontro por causa dela. Deus, eu não deveria estar aqui. Mesmo que tenha sido um presente dado de coração, não podemos desperdiçar dinheiro. Paro na entrada do bar com as pernas bambas. O lugar é sofisticado demais. Não tenho condições de frequentar um dos hotéis da rede Oviedo. Na verdade, nem passar na calçada. Puxo algumas respirações para acalmar o mini ataque de pânico que ameaça me dominar. Um drinque. Isso não deverá fazer um rombo tão grande em nossas economias. Beberei um coquetel sem álcool e não pedirei nada para comer. De qualquer modo, não acredito que esse encontro durará mais do que uma hora. Algumas das perguntas do homem quando conversamos pelo aplicativo me irritaram — e acreditem, ele era o menos pior. Um chegou até a me pedir uma foto nua. Agora que estou aqui, é torcer para que a noite passe rápido para que eu possa voltar para o meu quarto. Piano-bar do Hotel Caldwell-Oviedo Tower Uma hora depois

Capítulo 3 Uma noite de prazer

Deus, foi um erro ter vindo. Ele nem disfarça. Desde que me cumprimentou, nem por uma vez olhou acima do meu pescoço. Parece hipnotizado pelos meus seios. Sou inexperiente, mas isso não faz de mim uma imbecil. Não preciso ser um gênio para perceber que a única coisa que o homem quer é sexo. Não que eu ache algo de errado em as pessoas quererem fazer sexo. Sou virgem por falta de oportunidade. Ainda não encontrei um cara que me fizesse desejar eliminar esse problema. Observo mais criticamente o meu encontro. Ele foi bem mais sutil pela internet. A ideia era me divertir, mas não há nada de divertido em ficar desviando da mão boba de um homem que não me atrai e que parece não conseguir ficar mais do que dois minutos sem tocar alguma parte do meu corpo. Ele disfarçadamente já acariciou meu rosto, pescoço e perna. Estou há algum tempo controlando a vontade de jogar o drinque nele — com direito ao guarda-chuvinha azul do coquetel de brinde. Ele não fez nada até agora que a boa etiqueta chamaria de indecente, mas ainda assim, está me deixando desconfortável. — Eu tenho que ir. Devo acordar cedo para o trabalho amanhã — minto parcialmente. Quero dizer, não a parte de acordar cedo. Eu geralmente faço isso para o dia render mais. Não é uma obrigação, mas uma escolha. A mentira engloba a parte do trabalho. Meu turno no restaurante só começa ao meio-dia. É muito melhor ficar em casa planejando meu futuro do que aguentar a conversa chata desse cara. O pensamento me faz sorrir e o homem parece entender errado. — Tudo bem, não precisa passar a noite inteira, baby. Posso chamar um Uber para levá-la em casa depois — diz com a voz rouca. O quê? Ele acha que o estou convidando para prolongar a noite? Tudo bem que não contei a minha idade real e talvez ele ache que sou mais experiente por causa da minha aparência, mas não houve nada em nosso papo que o levasse a crer que eu gostaria de terminar nosso encontro em um quarto. Finjo mexer na minha bolsa e disfarçadamente, observo o homem com quem passei a última hora. Não fui só eu quem deu a entender uma idade que não tinha. Tenho certeza de que ele é bem mais velho do que os vinte e seis anos que apontavam no aplicativo. Jesus, como saio dessa enrascada agora? Olho em volta do bar, tentando encontrar uma forma educada de fugir. O cara bebeu três doses de uísque e não parece disposto a me deixar ir sem fazer uma cena. Pense rápido, Antonella. Estou começando a suar frio, quando de repente a solução aparece bem diante dos meus olhos. Se tem algo que sou boa na vida, é em improvisar. — Huh… eu adoraria acabar a noite desse jeito que você está falando aí, mas infelizmente meu namorado do Wyoming[10] acaba de chegar — digo, já me levantando. — Namorado? Como assim? Não houve conversa sobre namorado. Lembro que disse que era solteira. O meu acompanhante parece confuso e irritado, mas vou agarrar com unhas e dentes a oportunidade de fugir. Sem mais explicações, ando na direção do namorado de mentirinha. Seu rosto é tudo, menos amigável. Está sentado, mas parece uma montanha, mesmo que seus músculos estejam ocultos por um terno escuro. Ele também não parece ser o namorado de alguém. Dono. Possuidor. Chefe. Rei. Feitor de escravos. Nunca namorado. Bom, acho que até combina com o papel que inventei para ele. Cowboys não devem ser simpáticos ou metade do charme desapareceria. A parte de deduzir que é cowboy e de morar no Wyoming fica por conta do chapéu que descansa em cima da mesa — lembre-se do que eu falei sobre ser boa em improvisar — porque em todo o resto, sua aparência é a de um bilionário. É, talvez eu tenha errado feio na escolha do meu alvo para namorado fictício. A chance de que ele vá me ajudar a sair dessa encrenca é mínima. O homem é lindo de morrer, mas também parece arrogante. Um queixo firme e orgulhoso. Nenhuma das características que me servem agora. Apesar disso, não tenho alternativa. Meu encontro não se mostra disposto a desistir, andando ao meu lado e a intuição diz que ele não será cavalheiro o suficiente para simplesmente deixar para lá e me desejar uma boa noite sem tentar nada. Obrigada por isso, Luna. — Penso, mas imediatamente me arrependo. Ela só queria me proporcionar uma noite feliz. Internamente, torço para que a minha encenação não precise ir tão longe e que Aiden se manque e vá embora, mas pelo canto do olho percebo que ainda me segue. Merda. Agora não tem mais jeito. Estou parada na frente da mesa do cowboy. — Não sabia que ainda estava na cidade, amor. Minha irmã lhe disse onde poderia me encontrar? Deixe-me apresentá-lo ao meu amigo — falo, me aproximando do homem sexy, mas sem fazer contato visual com ele, no entanto. Não tenho dúvidas de que meu encontro não deve estar nada satisfeito, enquanto o ricaço deve me achar doida de pedra. — Aiden, esse é o meu namorado. Na verdade, tecnicamente falando, é ex, mas a gente fica indo e voltando, sabe como é… — Solto, sem sequer respirar. — Toda vez que ele vem a Boston, temos uma recaída. Eu havia me esquecido de que combinamos de tomar um drinque antes que ele volte para suas vacas, touros e todas as coisas que os homens do Wyoming costumam lidar. — Continuo, gesticulando, nervosa para caramba. Nos meus momentos de estresse, meu sangue italiano aflora, então meus braços e mãos são usados sem qualquer vergonha. Dou mais um passo para perto dele, mas acho que Aiden ainda não está convencido do meu teatro. Droga. O cara parece um cachorro que não quer largar o osso. O desconhecido se levanta e não acho que seja porque está disposto a me ajudar, mas por mera educação. Nada em sua postura demonstra simpatia. Já não sei mais o que fazer para me livrar dessa situação e espero com os dedos cruzados que o cowboy bilionário não me desmascare. Ergo a cabeça, me obrigando a encará-lo e imploro com o olhar para que ele não me desminta. — Que bom que conseguiu ficar em Boston por mais um dia. Como anda sua tia Mary Beth? — Invento o primeiro nome duplo que vem à minha mente. — Espero que todos estejam animados com a festa anual da vaca leiteira. — Continuo firme na encenação. Jesus, cale a boca Antonella. Não exagere. Tentando impedi-lo de negar nossa relação, fico na ponta dos pés e dou um beijo na bochecha do lindo. O homem primeiro congela ao sentir meus lábios contra sua pele, mas graças a Nossa Senhora da Percepção Rápida, ele parece finalmente compreender que estou em uma enrascada. — Oi, boneca. As vacas e touros mandam lembranças. Assim como minha avó, Mary Grace, claro. Ele enfatiza a palavra avó, talvez tentando me confundir, mas se pensa que vai me fazer recuar, está enganado. — Claro, amor. Sua avó. É que ela é tão conservada que ninguém acreditaria que já tem um neto tão… tão… adulto. — Você está atrasada para o nosso jantar. — Ele me corta, parecendo totalmente dentro do papel agora. Quase sofro um ataque do coração quando sinto seu braço envolvendo minha cintura e me puxando ao encontro do seu corpo musculoso. Por um instante, eu me esqueço do porquê ter me aproximado dele. O homem é cheiroso, o que está me deixando quente e um pouco tonta. Apesar da vergonha por tanta intimidade com um estranho, minhas mãos se agarram aos ombros largos. Não posso voltar atrás no teatro agora, certo? Rá! Pior desculpa da vida. Até parece que meu corpo inteiro não está formigando pelo contato com o dele. — Sua irmã disse ao seu ex onde estava, sabendo que tinha um compromisso comigo? — Aiden quase grita. — Aham, mas acho que talvez ela tenha esquecido. Sua memória é péssima. Ela tem até tomado umas vitaminas. Sinto muito. Foi ótimo conhecê-lo, Aiden, mas agora você já pode ir. — Sua pira… Em um segundo, a mão livre do cowboy segura meu encontro embuste pelo colarinho. — Cuidado. É da minha garota que está falando. Jesus Cristo, seu sotaque é sexy demais! Deveria ser proibido alguém com essa aparência ainda ter uma voz capaz de fazer minha pele se arrepiar. Na hora em que ele disse minha garota, tudo o que eu pensei foi: é isso mesmo. Sou sua. Pode pegar. Tenho que confessar que ele fica lindo com esse lado macho alfa aflorado. A cena é meio bizarra — eu praticamente imprensada entre dois homens — mas o bar já está vazio então não há ninguém prestando atenção em nós, além do pianista e alguns garçons. Prendo a respiração, torcendo para que não haja um escândalo. Não quero que a única vez na vida que venho a um lugar chique acabe parando nos jornais não na coluna de celebridades, mas pelas páginas policiais. Depois do que parece uma eternidade, Aiden finalmente desiste. — Não acredito que viajei para Boston só para passar por isso. Tanto trabalho para inventar uma desculpa para minha esposa e saio sem sequer uns amassos. Inferno de noite! Ele vai embora pisando duro, mas antes que eu tenha tempo de ficar chocada pela palavra esposa, o meu namorado de mentirinha segura meu queixo e me faz encará-lo. — Acho que agora mereço meu beijo de boas-vidas, namorada. E então, como se uma Antonella totalmente diferente da que eu fui até hoje surgisse, meus braços vão para o seu pescoço e ergo a cabeça, colando nossos lábios. Eu quero muito provar sua boca. Talvez a comemoração do meu aniversário não esteja perdida, no fim das contas. Capítulo 4 Hudson Piano-bar do Hotel Caldwell-Oviedo Tower Observo o líquido âmbar dentro do copo em minha mão, recostado em uma cadeira de encosto alto, no piano-bar do hotel em que estou hospedado. Não sou muito chegado a hotéis, mas tenho que admitir que meu amigo Guillermo[11] conseguiu fazer um excelente trabalho com a rede de luxo de sua família ao redor do mundo. O lugar está praticamente vazio, mas mesmo que não fosse o caso, não sentiria vontade de olhar em volta. Seres humanos me cansam rapidamente. A música é agradável, suave, o que combinado ao uísque de excelente qualidade, serve para melhorar um pouco o meu estado de espírito de merda. Passei o dia todo em reunião com elementos-chave do meu partido e posso dizer sem medo de errar que essa é a parte desagradável de me tornar um político — fazer política. Eu sabia que a caminhada para o poder seria relativamente irritante porque tenho prazo de validade para lidar com gente, mas nunca recuei diante do que quero e não começarei agora. Pego um movimento pela minha visão periférica e quando viro a cabeça para olhar, há uma mulher e um homem vindo em minha direção. Sim, isso mesmo. Uma mulher e um homem, porque eles nem de longe parecem um casal. Primeiro acho que estão me confundindo com alguém, mas rapidamente enxergo a determinação nos olhos da beleza curvilínea que se aproxima. Linda não chega nem perto de descrevê-la. Ela é um espetáculo de se olhar. Alta, corpo delicioso, cintura fina que passa por quadris largos e segue em pernas infinitas. O vestido preto que usa se agarra como se tivesse sido moldado nela. Seus seios são cheios e para completar, tem um rosto de traços perfeitos. Quase perfeito demais, se não fosse a boca carnuda. Aqueles lábios são um convite para o pecado. Os cabelos abundantes, caem soltos pelas costas. Gostaria que o bar fosse mais iluminado para poder observar melhor seus olhos. Ela está bem perto agora e ainda assim não consigo identificar completamente a cor. Algo entre o avelã e o verde. Acho que eu precisaria de algumas horas para conseguir absorver sua beleza completamente. Antes que eu tenha oportunidade de continuar meu exame, no entanto, ela, agora já parada à minha frente, diz. — Não sabia que ainda estava na cidade, amor. Minha irmã lhe disse onde poderia me encontrar? Deixe-me apresentá-lo ao meu amigo. Em um primeiro momento, volto a considerar se não está me confundindo com outra pessoa, mas então ela completa e sua voz soa muito nervosa. — Aiden, esse é o meu namorado. Na verdade, ex, tecnicamente falando, mas a gente fica indo e voltando, sabe como é… — O quê? — Toda vez que ele vem a Boston, temos uma recaída. Eu havia me esquecido de que combinamos de tomar um drinque antes que ele volte para suas vacas, touros e todas as coisas que os homens do Wyoming costumam lidar. Levanto-me e olho para ela, tentando avaliar se está alcoolizada ou sob o efeito de algum tipo de droga, mas seu olhar é firme e um tanto desesperado. Vacas do Wyoming? Ah, o chapéu. Sim, ela deve estar tentando se livrar do seu acompanhante. A mulher é criativa e quase me faz sorrir, o que é raro em mim. Ela se aproxima e continua falando sem parar. — Que bom que conseguiu ficar em Boston por mais um dia. Como anda sua tia Mary Beth? Espero que todos estejam animados com a festa anual da vaca leiteira. Agora meu esforço para evitar que o canto da minha boca se erga em um sorriso se torna um pouco maior. Mas qualquer graça desaparece quando ela cola nossos corpos e me dá um beijo na bochecha. Sentir seus lábios contra a minha pele faz com que uma espécie de choque elétrico atravesse meu corpo, despertando meu tesão imediatamente. Olho para ela e a proximidade de sua boca é muito tentadora. Agora, tudo o que eu quero, é que o idiota que parece estar incomodando-a suma para ficarmos sozinhos, então faço seu jogo. — Oi, boneca. As vacas e touros mandam lembranças. Assim como minha avó, Mary Grace, claro. — Não resisto a provocá-la, corrigindo ao usar o avó ao invés de tia. — Claro, amor. Sua avó. É que ela é tão conservada que ninguém acreditaria que já tem um neto tão… tão… adulto. Porra, ela é uma graça. Quantos anos terá? Parece jovem, mas se estava em um bar a essa hora não pode ser tão nova assim. — Você está atrasada para o nosso jantar. — Continuo. Tentando apressar o processo de nos livrar do bastardo, puxo-a pela cintura, não deixando qualquer espaço entre nós. Merda! Jogada errada. Minha perna agora está praticamente entre suas coxas e percebo que está tão afetada pelo contato quanto eu. Para minha surpresa, ela não só não tenta me afastar, como ambas as mãos pousam em meus ombros. — Sua irmã disse ao seu ex onde estava, sabendo que tinha um compromisso comigo? — O homem fala e só então eu lembro que não estamos sozinhos. Dominika teria um ataque do coração se soubesse que estou agarrado a uma estranha em público. Além de poder ser prejudicial para a campanha, isso não é quem eu sou. — Aham, mas acho que talvez tenha esquecido. A memória dela é péssima. Ela tem até tomado umas vitaminas. Sinto muito. Foi ótimo conhecê-lo, Aiden, mas agora você já pode ir. — Tenta dispensá-lo mais uma vez. — Sua pira… Imediatamente seguro-o pela camisa e conforme aperto, vejo seu rosto se transmutar em um vermelho intenso. — Cuidado. É da minha garota que está falando. Alguns garçons passam discretamente, observando a cena, mas eu só solto o homem quando ele ergue as mãos em sinal de rendição.

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