O empresário
Capítulo 1 O empresário

PRÓLOGO Eduardo Cooper — Não ouse aparecer. — Digo secamente enquanto encaro a mulher que um dia me arrancou suspiros. — Fique tranquilo, com essa grana que estou levando nem sei quem são vocês. — Piscou um olho e sorriu vitoriosa. Fico paralisado vendo a mulher que tanto amei ir embora, literalmente bater à porta e sungando a última gota de esperança que eu tinha de manter o casamento vivo. Elle se rebelou contra a família. Quando você sabe que o amor do outro não é mais o suficiente? É como um piscar de olhos e pronto? Acabou? Porque eu não me sinto assim. Sinto o buraco se abrir em meu peito, é como se uma mão pegasse meu coração e o apertasse, espremesse, transformando-o em migalhas. Sento-me no sofá, desolado, meus olhos embaçam, estão marejados, nunca pensei que poderia ser deixado de lado, que seria apunhalado dessa forma. Olho para o teto e puxo o ar com força, o soltando aos poucos, a decoração de gesso nos cantos das paredes me relembram quando ela pediu minha permissão para acrescentar esse detalhe na decoração. Toda empolgada porque deixaria a sala mais sofisticada e eu quis deixa-la contente, concordei. Sempre tinha algo em mente, alguma surpresa, um jantar diferente, um passeio, tudo só para ver o sorriso dela, os olhos brilhando. Não se enganem quando dizem que homens não sentem na mesma intensidade que as mulheres, porque eu senti. Foi como assumir um papel de trouxa por demonstrar demais. Elle sempre teve tudo de mim, sempre teve minha total atenção, teve do bom e do melhor, o luxo, eventos marcantes na sociedade, um casamento exuberante e uma filha. A filha que um dia disse amar mais que a própria vida, mas que acabou de abandonar, apenas por ganância. Ela teve a coragem de exigir uma enorme quantia antes de levar sua última mala, diante dessa situação alarmante, meus advogados me aconselharam a entrar com o pedido da guarda de Zoe, para que a guarda integral seja minha. Elle deixou bem claro, várias e várias vezes, que nunca voltará, então ela não poderia mais chegar perto de nós. Amanhã assinaremos todos os papéis do divórcio e ela perderá qualquer direito relacionado a guarda da Zoe. Respiro fundo tentando controlar meus soluços. Dói tanto. Ergo meu olhar para a escada, lá no topo, atrás das grades de madeira rústica, minha garotinha de olhos castanhos me encara agarrada ao ursinho do Mickey. Ela viu a mãe sair carregando uma mala grande e dizer que nunca nos conheceu. Como vou cuidar sozinho de uma menina de três anos? Não tenho mais ninguém, meus pais já faleceram, Elle não mantinha contato com a família dela desde a faculdade, não tenho irmãos, tios, mais ninguém. Caralho! — Papai, posso descer? — Pede receosa e bufo frustrado em ver seus olhinhos vermelhos. — Claro meu bem, vem aqui. Ela desce correndo com cuidado para não cair vestida em sua fantasia da branca de neve, a pego no colo e a abraço. Não chora Eduardo, não chora. Ela só tem você agora. — Cadê a mamãe?! — Pergunta baixinho olhando para a porta branca de saída. — Ela foi morar em outro lugar. — E não vai voltar? — Arregala os olhos atentamente. — Não, agora somos só eu e você aqui. Tudo bem? — Claro papai, — Curva a mãozinha na boca como se estivesse contando um segredo — A mamãe estava chata mesmo. — Dou um sorriso. — Estava mesmo, nós vamos nos divertir muito. — Forço uma voz animada e toco no nariz dela. — Eba! Pula animada e a abraço com força, tão nova para entender o que realmente aconteceu. Elle simplesmente foi se afastando e agora deu a cartada final. Preciso ser forte, tenho uma filha e uma empresa para manter de pé. Meu Deus, preciso de ajuda. Muita ajuda! — Vamos trocar de roupa e passear um pouco? — Passo as mãos nos cabelos castanhos tentando arrumar, vou precisar aperfeiçoar mais algumas técnicas de cuidados com meninas. — Vai ter sorvete?! — Subitamente para no meio da escada enquanto subíamos e me olha esperançosa. — O que você quiser. Talvez se eu ficar ligado nos duzentos e vinte todos os dias não sobre espaço para sentir a dor. Pelo menos, não por enquanto. Estarei sem espaço para outra pessoa. CAPITULO 1 Natasha Damasceno Sinceramente espero conseguir esse trabalho na Associação Cooper, não que esteja desesperada por um emprego, afinal tenho minhas economias, mas honestamente, não aguento ficar mais parada. Até onde sei, tenho grandes chances de conseguir! — Quero que você experimente algumas roupas da minha nova coleção. — Ronrono enquanto ganho um delicioso carinho no cabelo. — Me usando como cobaia de novo Chris? — Como amo que mexam no meu cabelo. — Primeiro que você tem um corpo dos deuses e preciso ver essas maravilhas arrancarem suspiros e bem, sabe que pode ficar com algumas peças. — Tudo bem, tudo bem, eu vou. — Claro que eu não recusaria um pedido dele. — Ótimo, passa no Studio amanhã de tarde. Mas me diga, como foi a entrevista? Me sento no sofá para o encarar. Chris é tão lindo que desejaria me apaixonar perdidamente por ele, seus olhos castanho-claro rodeados por uma fina bolinha verde, o cabelo liso castanho claro todo bagunçado, um metro e oitenta de altura com músculos definidos e muito bem distribuídos pelo corpo. Ergo minha mão para bagunçar ainda mais seu cabelo macio. — A entrevista em se foi boa, quer dizer, respondi tudo o que a moça queria saber, consegui ficar calma até, ela foi muito simpática comigo, trabalha no RH, pelo que me disse estão em dúvida entre mim e mais duas quando leram os currículos. Entretanto, a decisão final é do Sr. Cooper. — Sr. Cooper, diz como se ele fosse um senhor de cinquenta anos. – Enruga o nariz em uma careta. — Talvez ele seja. — Rimos enquanto ele se estica para pegar o notebook na mesinha. — Vamos dar uma bisbilhotada na vida dele. — Diz todo empolgado. Amo Chris, ele é praticamente um irmão para mim, é estilista e está no auge com suas roupas. Na verdade, ele não é natural de Nova York, é europeu, mais precisamente de Doncaster. Nos conhecemos através de um intercâmbio que ele fez, ficou na casa dos meus pais em Nova Jersey, na época faltavam alguns meses para que eu terminasse a faculdade de contabilidade, quando não estava em aula, estava com ele, mostrando cada detalhe da cidade e o fazendo se apaixonar por cada detalhe assim como eu. Tenho saudade de quando saíamos pelas ruas principais, eu cumprimentava todos e às vezes ganhávamos alguma guloseima, ou ele ganhava uma flor para me dar, muitos achavam que estávamos namorando de tão unidos que éramos, mas claro, eu já tinha namorado. Quando teve que voltar, seis meses depois, não perdemos o contato. Chris sempre desenhou muito bem, quando possível vínhamos para Nova York, "a cidade onde os sonhos se realizam", ele se formou em moda e eu... Em contabilidade. Me mudei de vez para cá oito meses depois de terminar os estudos e já com a carteira de trabalho assinada e ele três meses depois já lançando algumas roupas. Claro que sofri um pouco para conseguir meu primeiro emprego, eu era uma garota de outra cidade e recém formada, foi complicado, fazia estágio no escritório do Sr. Jones de manhã e à noite trabalhava como garçonete, pelo menos conseguia pagar o aluguel do quartinho que fiquei no começo. Então o Sr. Jones demitiu um funcionário, claro que foi constrangedor, mas naquele momento eu consegui meu emprego. Claro que tive a ajuda de meus pais, mas prometi a mim mesma que seria independente e devolveria a eles tudo o que fizeram por mim. No começo Chris morava comigo, na verdade, depois que consegui achar um lugar melhor para morar, foi embora quando conseguiu tirar o próprio sustento, se manter razoavelmente, hoje ele é um puto de um amigo gato que tem de tudo e um pouco mais por causa do seu amor pelo que faz. Bem, no começo também não foi fácil, principalmente porque em Nova York a concorrência é grande e há muitos críticos de todas as formas e gostos, mas ele conseguiu captar cada ensinamento, crítica, conselhos que ganhava e fazer um trabalho fabuloso. Dou o último gole no vinho e me aproximo mais vendo a pesquisa dele, o dono, Eduardo Cooper, é um verdadeiro homão, porém uma pedra de gelo diante das câmeras. Até mesmo quando é pego de surpresa pelas câmeras está sempre sério. Eu não tinha me interessado em fazer uma pesquisa sobre ele, já que meu interesse está em papéis, mas como toda boa mulher que adora ver o corpo esbelto de um homem, sinto um leve comichão entre minhas pernas. Santa Pipoca, um verdadeiro deus grego. O que me deixaria enlouquecida nessa cidade, se eu não soubesse me controlar, meus desejos sexuais que se tornaram insaciáveis, os homens daqui são vaidosos e adoram uma pose de CEO. — Ok, ele não é um senhor de cinquenta anos. — Admito. — Bem que você queria um boy desses. — Me cutuca com o cotovelo. — Não sei, vai que ele joga no outro time, não tem nenhuma fotozinha, nem de paparazzi com mulher. — Olho foto por foto, ou ele está correndo na praça com fones de ouvido com o semblante fechado, ou correndo em uma esteira do lado da janela para todos verem seus músculos expostos pelas regatas, ou com uma garotinha pelo shopping, ou um jantar da alta sociedade usando ternos sob medida posando para as câmeras. — Segundo meus conhecimentos, cem por cento hétero. — Afirma e me olha com uma sobrancelha erguida. Reviro os olhos. Ele está sempre querendo saber quem fisguei ou se vou pegar. — Chris mudando de assunto, e quanto a você? — Ele fica sério e fecha a tela do notebook. — Sinceramente não sei. Aquilo... Aquela noite mexeu comigo, mas não tenho certeza se... Se sou gay ou bi. — Suspira com pesar. — Sabe que independente do que for, da escolha que fizer, estou com você, não é? Sou leiga sobre esse assunto, mas vou tentar entender melhor para te ajudar. — Sei e te amo por isso. — Seus olhos brilham como se eles sorrissem para mim. Suas mãos me puxam para seu colo me espremendo em seus braços. Me aconchego, isso nunca muda, mesmo que ele esteja para baixo eu que sou colocada no colo para ser ninada. Chris recentemente passou por uma redescoberta. Desde quando nos conhecemos ele sempre foi tímido para falar com alguma garota, mesmo quando eu pedia para elas serem espontâneas e terem paciência, Chris não conseguia agir da mesma forma que agia comigo, talvez porque estávamos na mesma casa. Recentemente, durante uma noitada entre amigos, um homem, muito gato por sinal, se aproximou do nosso grupo. Eu estava pronta para dar o bote, mas o bendito só deu atenção para o Chris, eu e as meninas percebemos na hora, mas para mim, foi uma surpresa, nunca imaginei que Chris pudesse se sentir atraído por homens. Nada contra, obviamente, mas ele mesmo ficou envergonhado quando desabafou comigo depois. Ele se sentia muito atraído em ficar admirando as curvas, tanto de homens quanto de mulheres. Já teve noites calorosas com algumas moças, claro, mas naquela noite viu que alguém se aproximou, bateram um bom papo e depois tiveram uma noite muito quente. Chris ficou ainda mais dividido. Não tem certeza se é apenas admiração pelos homens, só por curiosidade, ou se realmente é gay. Da mesma forma se é hétero. Eu não soube exatamente o que dizer, apenas disse para ele pesquisar mais, falar com alguns profissionais, não sei se agi certo, mas só sei que quero que ele descubra e seja feliz.

Capítulo 2 O empresário

CAPÍTULO 2 Eduardo Cooper — Confesso que fiquei ansioso para saber do que se trata esse almoço. — Ele diz. Encaro rapidamente o homem em minha frente se empanturrar com um pedaço de gordura da carne mal passada que ocupava todo seu prato. — Só preciso de informações sobre uma ex-funcionária. — Digo sem rodeios e impaciente. — Ah, certo! De quem quer saber? — Me olha curioso. — Natasha Damasceno. — Meu estômago vibra quando digo o nome da minha, possível, nova funcionária. — Ah! Como sinto falta dela. — Suspira pesadamente enquanto limpa o canto da boca com um guardanapo. — Por que a demitiu? Aquilo era suspeito, não? — A garota é um espetáculo no que faz. Sempre foi muito empenhada e nunca precisei chamar sua atenção ou fazer qualquer reclamação. O problema era que eu tinha alguns clientes com situações complicadas com o Conselho Federal de Contabilidade, então eu precisava achar uma forma de ajuda-los. Tínhamos duas opções: a dela e a minha. Eu segui a minha. — Penso que nunca escutei ninguém descrever tão animadamente sobre uma funcionária. — E o que aconteceu? — Vejo o medo tomar forma em seu rosto, havia algo bem errado. — Segui o caminho mais rápido, de certa forma, por de baixo dos panos, mas no fim não adiantou nada e tive que pagar uma multa absurda para o Conselho Federal. Só para não prejudicar meus clientes. — Mesmo ele se empanturrando e falando de boca cheia, consigo entender tudo o que diz. — E quanto a opção que ela deu? — Era o certo a se fazer, mas demoraria muito. Para ser sincero, alguns clientes não gostaram que uma simples funcionária desse tanto palpite. Bem, – Fez uma pausa para limpar novamente a boca e dar um gole em sua taça com água. — Ela percebeu o que estava acontecendo, me deixei ser influenciado por eles a demiti. No fim das contas tive que fazer da forma que ela havia proposto, era o caminho mais correto. Clientes podem agir erroneamente. — E por que não a chamou de volta? Isso deveria ser bem óbvio, se sente falta da ótima funcionária era simples. Chama de volta. — Tentei, mas ela recusou. — Ele revira os olhos e corta outro pedaço de gordura. Meu estômago embrulha só de observar isso. — Ofereceu aumento? — Um belo aumento, mas recusou. — Algum problema familiar? Já bastavam os meus. — Nunca deixou assuntos pessoais atrapalharem seu trabalho. Alguns colegas deram em cima, as coisinhas de sempre, ela é muito bela, mas nunca deu moral. Havia um homem, acredito que seja namorado dela, que quase todos os dias a buscava. — Era o que precisava saber, obrigado pelas informações Sr. Jonas. Deixo dinheiro suficiente para a conta e me despeço. Saí o mais rápido possível dali, mais um minuto e eu vomitaria em cima da mesa. Nem quero pensar na situação da saúde dele. Que homem sem decência! Aceita e concorda em fazer coisas ilegalmente. Farei uma denúncia anônima ao Conselho Federal, eles costumam investigar empresas que tem erros exorbitantes de contabilidade, com certeza vão adorar minha ligação. E claro, vou pedir mais um prazo para a minha, não que eu seja corrupto, ou roube minha própria empresa, é que eu não sou o melhor administrador do mundo. Sei que algo de errado está acontecendo e não sei em quem confiar. Mesmo minha empresa tendo quase quatro anos de atuação, ainda sou aprendiz no ramo. Não trabalho ativamente em cada detalhe, dedico boa parte do meu dia para Zoe, sou muito presente para que ela não se sinta menosprezada por mim, claro que nunca será. Mesmo assim, sei os lucros que minha empresa deveria ter, mesmo investindo em áreas diversificadas. Comecei minha empresa com Gael, Sarah e Dorothy, cada um formado em um ramo diferente. Aos poucos, fomos crescendo. E Caramba! Hoje somos uma associação. Associação Cooper. Encho meus pulmões de ar com satisfação, pois finalmente meu império está construído e está deslanchando. Já deveria estar entre as nuvens, se não fosse por um detalhe. Mas agora, depois desse breve momento com Sr. Jones, já tenho a escolhida para saber que merda está acontecendo na minha empresa e espero seriamente que a Srta. Damasceno faça jus a sua fama de boa moça. As outras duas selecionadas me decepcionaram logo de cara, quer dizer, no currículo. Natasha já fez alguns cursinhos extras relacionadas ao ramo da economia e administração, juntando isso com seu bom senso, certamente deve ser uma máquina de trabalho. Perfeição e ética. Preciso correr! Sarah precisa entrar em contato com ela o mais rápido possível. Já eu, preciso buscar Zoe na escola antes do horário, pois houve mais uma ligação da diretora, de novo. Foi outra briga com uma coleguinha. Não sei mais o que fazer, já conversei, deixei de castigo, tirei alguns brinquedos e a pestinha ainda bate nas coleguinhas. Até contrataram uma professora só para ficar com ela. Melhorou um pouco, mas quando chega o momento de brincar, sai de perto. A saúde está ótima, nenhum diagnóstico de bipolaridade ou transtorno de qualquer coisa. Já sabemos o problema, todos sabem. Faz dois anos que todos sabem. A falta da mãe. Ela quer uma mãe. E isso é algo que não posso dar. CAPÍTULO 3 Natasha Damasceno Respiro fundo após a série de abdominais, meu corpo todo dói por causa dos exercícios pesados de hoje. Pego minha garrafinha de água e dou um gole grande, no fone de ouvido está tocando Alok, mas logo para com a vibração de uma ligação. Resmungo atendendo, espero que não sejam problemas, hoje gostaria de um dia livre para cuidar de mim. — Alô? — Respiro fundo. — Natasha? — Reconheço a voz e sorrio. — Sim, eu mesma. — Banco a desentendida. — Bom dia, aqui é Sarah do RH da Associação Cooper. Foi eu quem fez sua entrevista. Eu sei amorzinho. — Ah! Olá, Sarah. Me desculpa, não reconheci sua voz. Mentir é feio, Natasha. — Você está bem? Está ofegante! — Estou sim, estou na academia. — Ah! Certo. Bem, estou entrando em contato para lhe informar que o Sr. Cooper a escolheu para ser nossa nova parceira. — Disse animada. — Uau! Isso é demais! — Podemos contar com você? — Indaga sugestiva. — Claro, quando começo? — Lhe encaminharei no e-mail os documentos que preciso que traga. Assim que estiver com todos, estamos no seu aguardo. — Estou feliz pela notícia, providenciarei tudo. — Aguardamos, até mais. — E desliga. Solto um gritinho de felicidade, mas logo disfarço quando algumas pessoas me olham curiosas. Santa Pipoca! Já posso jogar nas casas de jogos?! Com certeza ganharia todos. Menos Natasha, menos. A que se dane! Eu estava com uma convicção muito forte que eu conseguiria esse trabalho. Saio saltitante da academia, atraindo muitos olhares. Associação Cooper se preparem, aqui vou eu! Entro no elevador depois de falar com as recepcionistas. Meu coração parece querer sair do peito, respiro fundo tentando manter a respiração normalizada. Essa empresa é um sonho! Alguém grita para que eu segure a porta e assim faço. Dou espaço para o rapaz que entra afobado, ele sorri largo agradecendo e terminando de arrumar a gravata. — Eu sou desastre para chegar no horário, obrigado. — Ele agradece. — Não foi nada. — Nunca te vi aqui, como se chama? — Ergue a sobrancelha direita me olhando curioso. — Sou Natasha Damasceno. — Uou! Minha nova colega de trabalho. Prazer, sou Gael Baker. — Diz todo animado me estendendo a mão. A pego sorrindo de volta. Sinto um frio na espinha. Opa! Terreno perigoso. — Então, quando vai começar? Preciso mesmo da sua ajuda, as coisas aqui são uma correria. —Talvez na quinta, só vim assinar alguns papéis. O elevador para e ele faz sinal para que eu saia na frente. — Então, seja muito bem-vinda. Ele me dá uma piscadinha enquanto as portas se fecham. Me viro na ponta dos saltos admirando o espaço enorme ao meu redor. Magnífico! Um balcão alto de mármore preto, as enormes janelas de vidro rodeando todo o espaço, poltronas brancas ao lado contrário do balcão, uma pequena mesinha com algumas revistas expostas, um aroma agradável no ambiente. Respiro fundo e sorrio. Ando até o balcão e sou recebida com um sorriso pela moça ruiva. — Boa tarde, posso te ajudar? — Sorri gentilmente. Estou adorando o atendimento daqui. — Oi, Sarah me chamou. — Natasha? Parece que estão à minha espera. — Isso! — Dou um enorme sorriso. — Siga o corredor, na última porta a esquerda. — Indicou. — Obrigada! Sigo até a porta mencionada e bato. Ignoro o nervosismo presente no meu estômago enquanto espero. A garota ruiva, que não consegui pronunciar o nome do pequeno crachá, está me encarando, o que só me faz ficar mais afobada. Logo escuto a voz de Sarah pedindo para que eu entre. Sarah sorri ao me ver, observo sua sala rapidamente: espaçosa, sem muitos armários, a roupa social um pouco frouxa em seu corpo, o coque quase se desfazendo. Percebo o cansaço em seu rosto pela falta de maquiagem. Fecho a porta e me sento à sua frente na cadeira almofadada. Confortável até demais, quase sumo nela quando meu corpo se afunda. Essa não era a sala em que fui entrevistada, a outra ficava no primeiro andar, olhando ao redor, aqui é bem mais aconchegante. — Animada? — Pergunta piscando repetidas vezes. — Muito. — Suspiro aliviada por ela estar tão receptiva. — Sr. Cooper espera que dê certo com você aqui. — Disse tão animadamente enquanto pegava uma pasta, então ela para do nada e seus olhos se arregalaram. — Falei demais. — Tudo bem, não escutei nada. Sarah entrega os papéis e repete algumas informações que deu na entrevista. Assino todas as páginas e consigo ver que a assinatura do meu novo chefe já está aqui também. Credo, que rabisco. Nem o melhor falsificador conseguiria copiar esse rabisco. — Me acompanhe, vou mostrar sua sala. A sigo até o elevador e quando as portas se fecham quase morro do coração — Mulher, você tem muita sorte! Vai trabalhar ao lado do Gael, aquele homem é lindo de morrer. — É mesmo. — Tento não parecer muito eufórica com a ideia enquanto ela só faltou pular no meu pescoço de tão animada. — Sabe quem é? — Estava no elevador comigo. As portas se abrem e saímos. Novamente o lugar é enorme, desconfio que todas as saídas do elevador para as salas devem ter um grande espaço vago até a mesa da atendente. A mesa muito bem desenhada em forma de "L" está cheia de papéis espalhados com uma garota concentrada mexendo no computador, mais ao fundo, duas portas, o espaço é branco e tem apenas um sofá com um vaso decorativo, nada mais. — Candice, essa é Natasha Damasceno. Candice é secretaria de Gael e agora, é sua também. Logo a mulher se vira para nós, se levanta vindo até mim. Ela é alta, loira, os olhos castanhos claros, pouca maquiagem, um gloss rosado e seus olhos descem e sobem por meu corpo reparando em minha roupa. Eu também faço isso. Sei lá, não curti essa calça social com essa jaqueta jeans que ela está usando. — Seja bem-vinda. — Diz ela. Trocamos rápidos beijos nas bochechas e sorrio de leve. — Ela te deixará a par de tudo e qualquer dúvida, recorra a ela. — Completa Sarah. Sarah se despede e quando as portas do elevador se fecham a secretária dá dois pulinhos animada. Estou começando a pensar que todos aqui tem esse problema. Santa Pipoca, espero que não seja contagioso. — Vem! — Me chamou completamente animada. Me puxou pelo braço, apresso meus passos para acompanha-la. Ela foi abrindo a sala do lado esquerdo e já entrando, entro logo em seguida. A sala é linda, uma mesa enorme, mais ao fundo com as bases de madeira rústica e o plano de vidro e a cadeira de couro preta. Me aproximo e encaro a enorme janela que me dá uma vista encantadora da cidade. Olho ao redor: dois enormes armários de arquivos, um frigobar, ar- condicionado e um aquecedor. As paredes todas brancas, o teto é de gesso desenhado com luminárias incríveis de cristal. — Linda, não é? — É sim! — Digo ainda admirada. — Como Gael ficou muito tempo sem uma parceira, eu acabei pegando um pouco do trabalho. Só que eu faço apenas o que realmente sei e ele revisa, mas assim que você começar a sua mesa estará cheia de papéis. Pela pilha que está na mesa dela, com certeza deve estar animada para se livrar da papelada. — Tudo bem. — Se quiser, pode fazer uma decoraçãozinha aqui para se sentir mais à vontade. O Sr. Cooper não liga muito, desde que não suje as paredes. — Bom saber... Candice, tem uniformes da empresa? — Até tem, mas muitos reclamam que não fica bom e quase não usam. Então a única exigência é estar sempre vestida formalmente. — Eu adorei. — Não contenho minha curiosidade e pergunto. — Por que Gael ficou tanto tempo sem uma ajudante? — Sr. Cooper é muito meticuloso em relação aos cargos mais complexos. O que vou te falar morre aqui, mas... Depois que o RH faz a entrevista e seleciona as mais aptas, ele mesmo vai atrás do último emprego da pessoa para saber mais. — Como é?! Calma aí sociedade! Que cara ousado. — Isso quer dizer que ele teve um almoço de negócios com seu último chefe e, dependendo do que eles conversaram, ele achou que você merecia. Por que ela está me olhando como se eu fosse um prêmio? — Tá legal... Isso é estranho. — Concordo. — Ela sorri sapeca e se aproxima. — Todo mundo aqui se ajuda, somos bem próximos. Sr. Cooper não tolera briguinhas e concorrências, então você se dará bem. — Isso é ótimo, mas meu foco é meu serviço, Candice. Pode parecer que eu seja antipática, mas... Só gosto das coisas corretas e isso acaba me isolando um pouco. — Entendo. — Percebo um pouco a decepção em sua voz. — Mas realmente essa vista é incrível! — Que bom que gostou! Ajuda a relaxar e preciso dos meus funcionários relaxados. — Uma voz masculina surge. Candice dá um pulinho de susto e logo assume uma pose mais séria. Me viro e na porta está um homem muito elegante.

Capítulo 3 O empresário

Eduardo Cooper. Usando um terno azul marinho sob medida, o cabelo castanho perfeitamente arrumado, a barba rala. Ele é alto, musculoso e assim como eu o avalio, ele faz o mesmo comigo. Nessas horas que super agradeço a amizade com Chris, ele me ensinou a me vestir muito bem. Meu vestido no modelo tubinho preto marca muito bem minhas curvas, mesmo ele sendo mais formal. — É um prazer conhece-la, senhorita Damasceno. — Sua é voz grave e sai de uma forma animada. — Igualmente Sr. Cooper. — Deixo minha voz sair no mesmo tom. — Candice, nos de um minuto por favor. — Pede olhando rapidamente para ela que se retira da sala. Dando alguns passos para frente ele me olha atentamente. Percebo a dureza em seu olhar castanho, com certeza é do tipo que não se relaciona com as funcionárias, mas não me deixo intimidar, mantenho meu olhar firme. — Espero que dê certo seu trabalho aqui, preciso de alguém de confiança. Acho que ganhei um ponto. — Não terá motivos nenhum para duvidar de minhas ações. — Respondo confiante e ele sorri. Dois pontos para mim! — Assim espero. Espero que a sala esteja de seu agrado e se quiser, pode dar um... Toque feminino. Sorrio rapidamente enquanto ele continua me olhando de cima a baixo com as mãos nos bolsos da frente da calça. Meu lado emocional já quer se mostrar e jogar com ele o jogo da sedução. Santa Pipoca! Me apresso em pegar minha bolsa na mesa. — Quinta estarei aqui, se me der licença, tenho outras coisas a fazer. Ele assente e se afasta. Quando me aproximo da porta consigo sentir seu perfume forte ao passar por ele. Candice me olha curiosa assim que saio. Não estou fugindo dele... Tá, talvez um pouco. — Onde vejo sobre os uniformes? Só eu que acho atraente usar uniformes? — Terceiro andar, fale com a Janaina. — Obrigada! — Ah! Você pode usar o elevador privado. Aponta para uma porta que eu não tinha visto, escondida. Percebo que o Sr. Cooper está na porta de minha futura sala. Com a mesma pose, atento a cada ação minha. — Nos vemos na quinta. — Digo. Ele abre um grande sorriso amistoso e faço o mesmo. Ando para o elevador comum, acho que ainda não tenho necessidade de usar o privativo. Respiro fundo movimentando meus ombros quando as portas se fecham. Ele é intimidador! Deve ter o que? Uns trinta e cinco anos, talvez? Não havia procurado por essa informação. E aqueles os olhos castanhos? São bem calculistas. Pela sua forma de andar de ser super nariz em pé. Logo acho a Janaina e ela me leva a sala de uniformes. Primeiro: a cor não é muito linda. Um verde musgo. Gostaria de apresentar a pessoa que escolheu essa cor para Chris, com certeza ele teria ótimas ideias. Retiro minha opinião sobre achar uniformes atraentes. Experimento outras peças e só consigo imaginar que apenas Chris saberia o que fazer com aquilo. — Ficou bom em você. Não sei de onde ela tirou essa ideia, tive que colocar por cima do vestido. — Ainda bem. — Murmuro ainda em dúvida. Nada que um toque de Natasha não resolva. — Quantas camisetas? — Só duas. Qual o custo? — Nenhum, a empresa fornece. Quem pagaria por isso?! Ela empacota duas peças e as pego agradecendo enquanto volto para o elevador. Essa tarde está sendo inovadora, porém bem também cansativa. Esse sobe e desce de elevador, sorrisos e apertos de mãos. Claro que estou muito empolgada, mega ansiosa para começar logo. Me despeço das meninas da recepção e ando até o meu carro. Na segurança do meu carro solto um gritinho quando fecho a porta. Preciso contar tudo para as meninas! Chris com certeza vai querer me fazer visitinhas aqui. Esse lugar é incrível! Hoje é dia de comemoração! CAPÍTULO 4 Natasha Damasceno Me olho no espelho e sorrio. Apenas uma calça jeans com alguns centímetros acima do tornozelo e um pouco de rasgos nos joelhos, para deixar meu look mais despojado, uma sandália de salto fino com tiras entrelaçadas, uma mini blusinha rendada por de baixo do uniforme com os dois primeiro botões abertos e as mangas com duas dobras, um coque frouxo, uma leve maquiagem destacando meus olhos castanho, meus acessórios e uma bolsa de tira fina preta. Nunca, nem mesmo nos meus melhores sonhos, imaginei que teria tanta roupa como tenho hoje. Claro que devo isso ao Chris. Se dona Esther visse meu closet agora com certeza eu levaria um puxão de orelha. Dou um sorriso por pensar em mamãe. Sinto saudade dela e de papai, aposto que ele deve estar aproveitando o tempo de pesca. Sr. Raul tem os melhores salmões da região e as mais lindas árvores de maçãs, desde pequena sempre gostei de subir nelas e comer o máximo que eu conseguia e depois ficava de castigo. — Caralho, você é uma gata! — Digo a mim mesma. Falo isso todos os dias de manhã, nada melhor que sua autoestima nas nuvens, nada melhor do que você se amar. Pego minha bolsa com o que preciso e vou para a sala de estar. Lá encontro minha caixa com alguns pertences para colocar na minha sala. Quando voltei para casa depois de ter conhecido a empresa, não tive sossego de Chris. Ele queria saber cada detalhe da empresa e do meu chefe, na verdade nem tive muito o que falar dele, ele só foi me dar as boas-vindas e deixar sua presença muito bem marcada na minha mente. Depois, chamamos as garotas e fomos para nosso cantinho de sempre. Costumamos nos reunir na Vinícola San Jhosua, aprendi a gostar de vinho com a garotas e quando queremos descontrair e colocar os assuntos em dia, lá é o primeiro lugar que vamos. Chego ao trabalho e estaciono meu Toyota Camry preto em uma das vagas na garagem do prédio. Ainda tenho muito o que aprender sobre a empresa, a história, as filiais, os objetivos. Com certeza somos mais do que simples contadores de outras empresas, se não esse escritório não seria tudo isso. — Oi Candice! — Cumprimento animada. — Oi! E então, pronta para começar? — Diz ela sorrindo. Vejo que a mesa dela sem nenhum papel. — Com certeza. Ai, que friozinho na barriga. Com um sorriso no rosto eu entro em minha sala, agora é hora de deixar o meu gosto aflorar. No frigobar deixo uma xícara, uma taça, um copo simples e alguns lanchinhos. Em cima do frigobar, dois copos de whisky, apenas para enfeite, bem óbvio que não posso beber álcool em serviço. Na minha mesa meu troféu da faculdade que gosto de exibir com orgulho, algumas canetas diferentes, marcadores de texto, papéis de lembrete que me ajudam muito e um aromatizante. Vamos combinar que toda mulher, gosta de algumas coisinhas só para enfeite. Lembro que na escola eu comprava várias canetas diferentes só para deixar meu caderno todo colorido. Sorrio dando uma espiada na janela atrás de mim, o sol está longe e os tons de laranja e vermelho vão sumindo aos poucos. Aproveito para tirar uma foto dessa paisagem. Ligo o computador. Uau! Que tela gigante! Coloco uma foto minha de fundo e senha. Segurança é muito importante e percebo que uma das gavetas tem fechadura, isso é ótimo. Providencio minha playlist, deixo tocando baixinho e começo a olhar os papéis a minha frente. Coitado do Gael. Uma empresa desse porte e só ele para cuidar de algo importante, Cooper obviamente teve motivos importantes para ele ficar tanto tempo sem outra pessoa no cargo. Para minha felicidade e das borboletas do meu estômago, amo o que faço. Resolvi fazer contabilidade porque sempre tive facilidade em matemática. Meus colegas do ensino fundamental me achavam uma alienígena porque conseguia fazer tudo certo, na verdade o que facilitava tudo era meu pai. Desde pequena eu sempre o acompanhava nas entregas de suas mercadorias, nas vendas de peixes, de maçãs, verduras. Papai sempre foi muito cuidadoso e carinhoso com a plantação dele e isso resultou em bons clientes, eu ficava escutando atenta a cada coisa que ele dizia, cada negociação, sonhava em ser como ele quando adulta. No ensino médio ele me ensinava por conta própria as matérias mais complexas e eu, com minha curiosidade, pegava os livros da biblioteca municipal e ia estudar. Passava um bom tempo nas estufas escondidas estudando. Até quando entrei na faculdade isso nunca mudou, tínhamos nossa dinâmica para estudarmos juntos. Mesmo com Bruno em minha vida, nunca deixei minha relação com meu pai de lado, sempre fomos unidos. Eu também tinha uma ligação com mamãe, mas ela preferia mais cuidar da casa e de nós. Ela sempre me ensinou a ter as melhores qualidades, me ensinou a ser uma pessoa carinhosa, gentil com o próximo. Eu roubava os bolinhos de limão que ela fazia e deixava na janela para esfriar. Por Deus! Eu sofria tanto com dores de barriga. Com Chris morando lá por um tempo, induzi ele a fazer o mesmo, coisa que Bruno nunca teve o prazer de querer tentar. Claro que era uma coisa besta, mas eram pequenas coisas que eu nunca quis deixar de lado. Não tenho irmãos. Meus pais até tentaram, mas por obra do acaso, ou do destino, ou até de Deus, sou filha única e, sinceramente, levando em consideração da forma que fui criada, acho que eu não conseguiria dividir meus pais com um possível irmão. Entretanto eu os dividi com uma prima. Suelen, irmã de mamãe e minha tia, casada com o tio Travis, tiveram minha “querida” prima, Meghan. A safada era uma invejosa. Como não temos outros irmãos, eu e ela sempre fomos unidas, mas por obra do capeta, se é que posso dizer assim, ela me traiu. Quase no fim do meu ensino médio, conheci Bruno. Bruno Cegatto. Eu estava passeando pela faculdade, só para matar minha curiosidade e para não me perder no primeiro dia como caloura, e ele estava ajudando alguns novatos, no caso, me ajudou. Desde então sempre esteve por perto, nos intervalos das aulas nos esbarrávamos pelos corredores. Santa Pipoca! No trote ele me pegou distraída. Os outros não nos deram nenhum aviso ou dica sobre o trote e, de repente, só senti jatos de tintas em mim. Na hora eu fiquei brava, mas só até perceber que era o trote e que, além de mim, vários outros calouros estavam sendo atingidos na saída da faculdade. Quando vi que ele estava entre os bagunceiros, não contive minha risada e ele foi o primeiro a se aproximar para me dar boas-vindas. Limpou meu rosto com todo cuidado do mundo, sorrindo largo para mim. Fiquei tão vidrada naqueles olhos castanhos brilhando ao me olhar. Ainda foi gentil e me levou à minha casa. Depois daquilo ele nunca mais se afastou. Tivemos alguns encontros, algumas saidinhas, cineminha e por fim, namoro sério. Claro que tive alguns peguetes, mas ele, de alguma forma, sempre estava por perto.

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