Sthefane Lima ♥ Por livre e espontânea pressão familiar, vai acontecer um casamento. Isabella e Mateus os convidam para esse momento de insanidade. Mateus — Inacreditável! Mais de uma hora de atraso, Mateus. O que eu faço com você? — papai indaga, forte. — Eu já estava sem desculpas para explicar a toda a família o porquê de o jantar não ter começado. Espero que você tenha uma justificativa digna! Assim que passo pelo umbral, dou de cara com o senhor Damião e vejo sua expressão fechada e tensa. Os olhos azuis, que herdei, não têm brilho algum e isso não é um bom sinal. Os cabelos pretos salpicados de fios brancos estão arrumados no costumeiro penteado contido, nenhum fio fora do lugar, enquanto a boca está retorcida em contrariedade e os punhos, fechados em cada lado do corpo. Sim, papai está irritado. — Damião.... — mamãe chama baixo, tentando livrar minha pele como sempre. — Basta, Marta! — Ele levanta a mão. — Ele precisa aprender que os compromissos assumidos devem ser cumpridos e que um homem tem que honrar sua palavra. Essas atitudes de moleque não podem continuar porque só sujam ainda mais o sobrenome que ele carrega e faz questão de menosprezar, dia após dia. — Papai, tive um imprevisto — Interrompo seu sermão. — Eu vou explicar e me desculpar com todos, se isso o fizer se sentir melhor. Agora vamos, senão nos atrasaremos ainda mais. Ele sacode a cabeça, abre e fecha a mão algumas vezes e respira fundo. É nítido que minhas desculpas não foram aceitas, mas, pela ocasião, ele vai encerrar a discussão. Conheço-o e sei que esse assunto não será esquecido, o que é uma pena, pois hoje eu não queria brigar com ele. Cansando de nossas brigas sem fim, desvio o olhar para a elegante figura ao lado dele, a senhora Marta Ávila, minha mãe. Ela não está irritada, mas tem a expressão frustrada e decepcionada. Sei bem que ela estava segurando a explosão do meu pai e tentando me defender a todo custo. Para ela, tudo era uma fase e brigas não me fariam mudar. E ela estava mais do que certa. Eu não mudaria, pois não estava fazendo nada de errado. Olho mais atentamente para a bela mulher que usa um vestido na cor bege e sapatos na mesma tonalidade. Ela jamais aparentou a idade que tem, e quem a ver ao meu lado, pensa que é minha irmã mais velha. Dou um passo, pego-a em meus braços e beijo seus cabelos castanhos, da mesma cor que os meus. Ela também me aperta forte, como se fosse uma reprimenda, mas logo alisa minhas costas, movendo suas mãos de cima a baixo, na linha da minha coluna. Esse gesto parece irritar ainda mais o senhor Ávila, que branda forte: — Fui um pai relapso. Não deveria ter fechado meus olhos para suas criancices. Deixei essa situação durar muito tempo, mas isso acaba hoje mesmo — o senhor Damião diz, forte. Olho-o tentando compreender o sentido de suas palavras, mas, antes que eu possa perguntar o que sua ameaça significa, ele sai a passos duros e decididos, rumo à sala de jantar. Nunca o vi tão irritado, mas eu desconfio que isso tudo é por causa da última fofoca que inventaram sobre mim, porém eu posso provar que é mentira, uma jogada de uma garota interesseira, daquelas que caçam a fortuna de homens ricos como eu para tentar ganhar a vida. Mas ela não sairá ganhando desta vez, pois vou mostrar a ela que comigo não se brinca. Ela vai aprender a nunca me enganar e, muito menos, me enfrentar. — Entenda o seu pai, ele só quer o seu bem — mamãe pede, ainda em meus braços. Apenas assinto com a cabeça. Sei o que ela quer dizer, afinal passei minha vida toda sobre essa pressão — uma consequência dura de ser filho único —, por isso, tenho a obrigação de ser o exemplo perfeito, afinal, sou o primeiro herdeiro, aquele que carrega sobre os ombros toda responsabilidade de dar continuidade ao nome da família. Contudo, sou jovem, e hoje é sábado. Eu poderia estar em uma balada ou encontrando alguma mulher da lista de excelentes para foda para ter uma movimentada noite, mas estou aqui, na casa da minha família, porque papai inventou um jantar de negócios misturado com um encontro familiar — o que aposto que será um porre. Até poderia ter inventado alguma desculpa, eu era bom nisso, mas é quase impossível dizer não para o velho Damião, ainda mais se ele estiver colado no seu pé, como um bom cão que fareja alguma mentira ou vexame. E por falar em escândalos, eu sou um colecionador deles. Não faço por onde, mas não consigo fugir deles Veja meu nome: Mateus (comum) Ávila (onde a porra pega). A família Ávila, tradicional e famosa em São Paulo, é dona da mais antiga e bem-sucedida construtora do país, a Classe A, que foi fundada pelo meu avô e tem passado de geração para geração. Agora está nas minhas mãos. Assumi a direção do negócio havia três anos e, durante todo esse tempo, cuidei da empresa como se fosse minha vida. Não cometi erro algum e ela tem faturado como nunca, recentemente até fechamos um negócio de bilhões de reais, mas parece que minha vida profissional não é a parte que faz mais sucesso. O auge das revistas e programas de fofocas é minha vida pessoal e privada, as saídas rotineiras e o rodízio de mulheres que me acompanha. Já ameacei processar todas as mídias que estampavam minha cara para vender ou ter audiência, mas papai sempre foi contrário. O poderoso Ávila dizia que eu tinha que entrar nos eixos, andar na linha e construir outra reputação. E que eu não podia continuar manchando o nome da família assim. Mas o que eu estava fazendo de errado? Não estava matando ninguém, muito menos roubando. Só estava curtindo a vida e sendo feliz. Não é isso que devemos fazer? Buscar nossa própria felicidade sem prejudicar o próximo? Ranjo os dentes, contrariado. Com minha mãe segurando meu braço direito, caminhamos até a sala. Assim que chegamos, umas dez cabeças se viram em nossa direção. Toda minha família está com os olhos bem focados em mim. Mamãe logo vai para seu lugar na mesa, enquanto eu fico de pé, parado feito uma criança desobediente que precisa pedir desculpas por ter comido o doce antes do jantar. Porra! Eu não deveria ser forçado a fazer isso. Sou um homem adulto que me sustento com meu próprio suor, mas encaro meu pai, e seu olhar é quase uma ordem. Inferno! Respiro fundo, buscado calma para suportar os olhares especulativos do resto da família e, principalmente, o sorriso ordinário de Eduardo. Peço a Deus que me dê equilíbrio, pois, se ele abrir a boca para falar alguma de suas piadas, enfeito seu rosto com a marca de um soco meu. Arranho a garganta tentando tirar o bolo de ira que me entala, antes de começar a falar: — Oi, grande família. Peço perdão pelo atraso, mas tive um imprevisto que custei a resolver. — As palavras saem com um chiado. — Mas agora estou aqui e podemos ter nosso momento familiar. Ninguém fala nada. Melhor assim. Então, com passos pesados, vou até o meu lugar, à direita de papai. Mal me sento e já posso escutar a ladainha do meu primo antipático, que, por um milagre, ainda não comentou sobre o meu atraso ou sobre a última fofoca em que me meteram. Pratos e pratos sofisticados são servidos, enquanto conto cada volta dos ponteiros do meu Rolex, ansioso para levantar minha bunda da cadeira e correr para um lugar onde eu pudesse gritar. Quando, finalmente, o jantar termina, e eu acho que vou sair ileso e sem mais acusações, papai me intima: — Mateus, venha comigo até o escritório. — Levanta-se rápido e joga o guardanapo branco em cima da mesa. — Eduardo, também me acompanhe, pois o assunto a ser discutido é de seu interesse. Com fúria, me levanto, jogo o guardanapo na mesa e, com as narinas puxando o ar com força, sigo o ditador Ávila. Eduardo vem ao meu lado, ajeitando o terno e com o sorriso de imbecil bajulador. O cachorrinho perfeito, bem adestrado e que ganha todas os biscoitinhos e medalhas na coleira de ouro. Sabe aqueles momentos em que você pressente que algo de ruim está prestes a acontecer? Quando seu peito bate rápido, seu sangue ferve, e todo o seu corpo gela? Essas são todas as sensações que me invadem. Sei que algo terrível vai acontecer dentro desse escritório. E pior, sei que serei o alvo, por isso, com os punhos cerrados e a expressão dura, sento- me na cadeira de frente ao meu pai, que parece todo majestoso do outro lado. — Eu não vou fazer rodeios — papai dita, ajeitando-se melhor em seu assento de couro. — Estamos aqui reunidos, pois tenho um ultimato para você, Mateus. Você está ciente de que não aceito o seu modo de viver e nem a reputação que está criando. O nome da construtora não pode mais estar atrelado a escândalos e muito menos o sobrenome Ávila pode ser citado diariamente em revistas baratas ou programas de televisão. — Ou nas páginas policiais — Eduardo completa fazendo-me virar para ele imediatamente. — Não me olhe assim, primo. Não sou eu quem está sendo acusando de forçar sexo com uma mulher. — Cale a boca! Ordinário e puxa-saco. Não sou esse tipo de canalha e nunca precisei forçar mulher alguma a se deitar em minha cama. Tenho moral e caráter, coisa que você nunca vai ter. — Fixo bem meus olhos nos seus e levanto o dedo indicador longo, apontando-o em sua direção. — Não que isso seja da sua conta, mas vou lhe dizer mesmo assim: as mulheres matam e morrem para estar ao meu lado. Se tenho várias, é porque sei seduzir, ou melhor, sei satisfazê-las. — Já chega! — Papai esmurra a mesa, fazendo um som seco ecoar por todo ambiente. — Isso não muda o fato de que você está sendo acusado de abuso sexual. Muito menos tira nosso nome desse absurdo em que você se enfiou. A moça que o denunciou disse que tem várias provas e testemunhas. — Papai, eu não fiz isso. É tudo armação — rosno. — Meus advogados já estão cuidando do caso. Victor já está em pose de algumas provas de minha inocência. Vou processar aquela vadia por calúnia. — Mas preciso lembrar, primo, que você já foi visto duas vezes com essa mulher — Eduardo fala, a voz coberta de cinismo. — Devo salientar que ela alega ter lhe dito não, pois não se sujeitaria a ser mais uma na sua cama, e você não reagiu bem a essa negativa. Enxergo tudo vermelho, quando me levanto e pego o infeliz pelo colarinho de sua camisa social. — Você está insinuando que eu abusei daquela infeliz? — pergunto, rangendo todos os dentes no processo. — Eu entendi direito? — Estou somente lembrando o depoimento dela — ele responde, as palavras soando baixo. — E como você sabe o conteúdo do depoimento daquela interesseira? — Desta vez minha pergunta parece ter um tom mortal, pois o som da minha voz veio do mais profundo canto da minha garganta. — Solte seu primo. — Sinto papai ao meu lado. — Atitudes de desiquilibrado não vão provar sua inocência e, muito menos, agredir seu primo, sangue de seu sangue. Isso só suja ainda mais sua péssima reputação. Solte-o, Mateus. Antes de largar o corpo do imbecil na cadeira, puxo ainda mais o tecido de sua camisa. Ele fica vermelho, mas tenho certeza de que ele consegue escutar minha ameaça: — Minha vida não é de seu interesse ou domínio, não se atreva a querer controlar tudo meu. Deixe sua inveja de lado e vá cuidar da sua própria vida medíocre. Então ele cai, desajeitado e fazendo barulho, como um grande saco de batata sendo jogando no chão do alto de um caminhão. Em seguida, tosse enquanto volto a ocupar minha cadeira. Olho para o senhor Damião Ávila, que voltou para seu assento de rei, e vejo sua expressão ainda mais dura do que quando me recebeu. Agora até seus fios de cabelos estão fora do lugar, os olhos azuis estão escuros, devido à fúria que o consome, e a boca é em linha fina, completando sua pose de dono do mundo. — Ouça o que vou lhe dizer, Mateus. — Até mesmo as palavras, ele consegue deixar frias. — A dignidade é uma virtude que requer um alto valor moral. Quem possui essa virtude, é coberto da coragem necessária para ser firme e seguro na formação de opiniões. Onde falta dignidade, não há honra. Sem honra, não somos ninguém diante da sociedade. Para conseguir respeito e confiança, é preciso trabalhar duro e batalhar todos os dias. Leva-se tempo para conquistar, mas, para perder, precisa apenas de uma atitude errada. É como diz o ditado: leva-se oito anos para erguer um prédio, mas basta apenas 8 segundos para derrubá-lo. Você, meu filho, vem se derrubando dia após dia. Eu simplesmente não posso deixar que você se destrua assim e nem vou permitir que acabe com a dignidade conquistada pelos seus avós. Assim, eu não vejo outra saída a não ser exigir que você limpe sua reputação e o nome da família, ou deixe a empresa nas mãos de alguém que tenha mais consideração e respeito pelo nome Ávila. O silêncio domina toda o escritório por um momento. Então olho na direção do meu primo, que já exibe um sorriso vitorioso, pois ele bem sabe que é o próximo na linha de sucessão. Mas não tenho muita chance para decidir qual dente arrancarei de Eduardo, pois as exigências e condições de Damião Ávila ainda não tinham acabado. — E a única alternativa que vejo para você ganhar novamente a credibilidade da sociedade é ter uma mulher respeitável ao seu lado. Digna, de boa fama, sem casos amorosos antigos para que a imprensa não encontre escândalos em seu passado que manchem o relacionamento de vocês. Uma moça casta, de preferência. Você precisa ter responsabilidade e que criar sua própria família, por isso, sua única opção é se casar. Você precisa de uma esposa. Uma esposa virgem. — O QUÊ?
Isabella Mais uma entrevista. Mais um não. — Desculpe, mas você não tem os requisitos para vaga em aberto, mas guardaremos seu currículo em nosso banco de dados para novas oportunidades. Escuto novamente a maldita frase que já tinha decorado e até mesmo passado a ouvir durante meus sonhos todas as noites. Sonhos não, pesadelos. Bom, o fato é que eu tinha perdido tempo tentando conseguir uma vaga como vendedora de uma loja chique no shopping. Mas até que a negativa foi justa desta vez, porque eu não sei nem diferenciar uma maldita seda de uma viscose. Para mim, é tudo o mesmo tecido ou pedaço de pano. Quem se importa com isso? Bem, pelo visto as grã-finas fresca se importam. Falando nas peruas, tenho certeza de que, quando fosse atendê-las, não conseguiria segurar minha língua e responderia suas futilidades. Por mais que eu saiba que não duraria muito tempo no emprego, saio cabisbaixa da sala de entrevistas, pois preciso demais de um trabalho. As coisas lá em casa estão ficando feias, e me sinto na obrigação de ajudar minha mãe com as despesas domésticas. Ela vem segurando a barra nesse último ano, e quero dar um descanso para a mulher que sempre lutou sozinha. Saio da loja e vou caminhando lentamente até me deparar com a praça de alimentação que, como costume, está lotada e barulhenta. Olho para um lado e me deparo com um quiosque do McDonald’s, onde os sorvetes parecem criar vida e me chamam. Fazia tanto tempo que tinha comido essa delícia gelada que minha boca saliva, e meus olhos brilham, cobiçando os Mcflurry. Nunca me atrevi a pronunciar esse nome para não pagar um mico e, da vez que choveu na minha horta e pude me dar ao luxo de saborear um desses, tive que agradecer ao atendente que entendeu o meu pedido: um Mc de sonho de valsa, por favor. Sacudo a cabeça e virou meu pescoço para o outro lado, mas o capeta atenta, e me pego babando na propaganda de um hambúrguer com carne dupla, queijo cheddar triplo, camada bônus de bacon, molho barbecue, picles e alface americana. Tudo entre duas fatias de pão feito com grãos de trigo exclusivamente escolhidos. Uma frescura, mas uma prova de que, neste mundo, até o coitado de um grão pode ser rejeitado e descartado. É, estou na mesma situação do coitado do grão imperfeito. Respiro fundo, tentando esquecer as injustiças que tem acontecido em minha vida, mas é uma péssima ideia, porque todos os aromas atiçam as vermes que habitam o meu estômago e o coitado grita feito louco, em um ronco que deve ter ecoado por todo o ambiente. Então, fazendo a egípcia, abaixo a cabeça e saio correndo para o mais longe possível da praça de alimentação. Não posso perder tempo desejando o impossível, já estou atrasada para chegar à minha casa. Corro mais rápido e só paro quando não escuto mais o barulho infernal e nem sinto cheiro de comida. Só então, fecho meus olhos e tento respirar normalmente. Recuperada, olho ao redor para tentar me situar. Graças a Deus, vim parar diante dos elevadores e até me surpreendo que não tenha uma fila enorme para usá-los. Aciono um e, quando as portas se abrem, pulo para dentro, apertando o botão no painel rapidamente. A viagem é curta, logo as portas se abrem novamente e, quando dou um passo para fora, não sei onde estou. O local iluminado e cheio de carros me dá uma pista de aonde fui parar, mas não sei como cargas d’agua acabei no estacionamento do shopping, se eu não estou de carro, e o ponto de ônibus fica na outra extremidade. Droga! Por que tudo de errado tem que acontecer na minha vida? Só posso ter chutado a cruz de Cristo em outra vida! Olho para o relógio em meu pulso e percebo que perdi a tarde toda presa naquela sala. Cacete, agora, com certeza, vou passar mais de uma hora esperando o ônibus. Chegarei bem mais tarde em casa e não poderei ajudar minha mãe, sem falar que levarei novamente a notícia ruim de não ter passado na entrevista de emprego. Mas o que eu poderia fazer sem experiência e muito menos uma boa indicação? Nada! Nem chorar, eu podia, pois sabia que minhas lágrimas nada resolveriam, só me deixariam pior e agravariam ainda mais o estado angustiado de minha mãe. Sem opção, respiro fundo e começo a fazer meu caminho de volta. Contando com o atraso do motorista, torcendo para que ele tenha parado em todos os sinais vermelhos e acreditando em minha velocidade, eu ainda poderia pegar o ônibus das 18h, chegar cedo, ajudar nas tarefas de casa e descansar para amanhã começar mais cedo minha rotina de espalhar currículos pela cidade. Como o papa-léguas fugindo do coiote, cruzo o primeiro quarteirão do estacionamento, mas, quando estou quase alçando o próximo, escuto uma buzina alta que me ensurdece. Olho na direção do barulho e vejo um carro prata vim em minha direção. Não tenho tempo de reação, apenas fecho os olhos, rezando todas as ave-marias e os pais-nossos, clamando para que Deus possa me livrar da morte, pois ainda sou muito nova e tenho muito o que fazer neste mundo. Mas, apesar de todas as orações, sinto o impacto em minhas pernas, e logo sou jogada ao chão, caindo de bunda e batendo a cabeça no piso liso. — Está tudo bem? — Uma voz muito polida soa perto de mim, e sinto um toque suave em meus braços, mais precisamente no pulso. — Está sentido alguma dor? Você consegue se levantar? Minha cabeça gira, e tento abrir meus olhos, mas, ao invés das luzes do teto, enxergo vários vaga-lumes na minha frente. — O que aconteceu? — Fique calma — a voz bonita pede. — Vou precisar tocar em sua perna, mas não se assuste, é apenas para saber se quebrou algo. Então ele apalpa minhas pernas cobertas pela calça jeans e, mesmo com o tecido grosso, sou capaz de sentir o calor que emana do seu toque. — Não quebrou. — É nítido o alívio que ele sente ao falar isso. — Você deve ter caído pelo susto. Tento abrir novamente meus olhos que, dessa vez, graças a Deus, não me deixam na mão. Então, busco o dono da voz cortês, e uma sombra muito grande e corpulenta surge na minha frente. Levanto minha cabeça e, quando consigo focar no rosto do homem que me ajudou, já não tenho certeza se estou viva ou se realmente fui atropelada e morri, pois vislumbro um anjo muito belo olhando-me de volta. Jesus, me abane! Que anjo! Paro meus pensamentos carnais quando concluo que ele só pode ser meu anjo guardião, embora não use nada daquelas roupas brancas, nem tenha asas ou caracóis loiros. Ele usa um terno escuro com uma gravata vermelha sangue e tem cabelo castanho-claro, jogado para cima, formando um topete leve. A única semelhança com a imagem dos anjos que já vi são os olhos azuis. Azuis da cor do céu para onde ele vai carregar minha alma. Analiso demoradamente seu rosto perfeito, coberto por uma barba escura. A expressão não é das mais calmas, mas eu posso entender. Ele deve estar cansando de cuidar de mim, pois sei que não sou uma das criaturas mais fáceis de proteger, já que vivo entrando em confusões. Então, com certeza, ele já não aguenta mais interceder por mim. Ele movimenta seus belos lábios vermelhos, e não consigo compreender bem suas palavras, mas posso chutar que ele está fazendo uma oração para que minha alma vá em paz, e eu não vire uma pagã sem rumo, por isso, fecho os olhos para receber minha bênção e partir em paz. — Vou chamar um médico. — A voz bonita soa novamente. — Só por precaução. — O quê? — pergunto, confusa, tentando me situar. — Se já tô morta, para que preciso de um hospital? Por que não faz logo seu trabalho direito e me leva para o paraíso? Prometo que vou me redimir junto a Deus e interceder para que sua próxima protegida não seja tão difícil quanto eu. — Do que está falando? — Ele franze o cenho. — Você não é meu anjo guardião? — Você está bêbada? — pergunta. Imediatamente abro meus olhos de novo, e então o vejo encarando-me com atenção. — Você não pode ser tão imprudente, garota — ele dita, e agora sua voz está firme. — Venha, vou levá-la para um hospital. — Não precisa — digo, fraca. — Eu quero me levantar, estou apressada, tenho que chegar à minha casa logo. — Venha, me deixe te ajudar. Sinto seu toque suave em meus braços, e então, como se eu não pesasse nada, ele me põe de pé e encostada na lataria do seu carro. Deixo meu corpo descansar no capô do automóvel, sentindo-me lerda, como se estivesse bêbada. Respiro fundo para tentar aliviar a sensação de peso na cabeça e, depois de cinco expirações fortes, já me sinto melhor. Mexo minhas pernas, até mesmo dou alguns passos, e realmente não tenho nenhuma dor. Em seguida, mexo os braços e eles também respondem normalmente. Ufa! A única exceção é minha bunda que dói quando volto a me encostar no carro. Bem, dos males os menores. — Está vendo o que causou? Uma confusão desnecessária. — Ele aponta seu dedo para mim. — Mas também pudera, não teve noção do perigo ao se jogar na frente do meu carro. Sorte sua que consegui frear a tempo. Só então encarro o homem com as sobrancelhas franzidas e, como uma fita sendo desfeita em minha mente, a situação se esclarece. — Espere — emito, sacudindo a cabeça. — Você não é meu anjo coisa nenhuma. Você tentou me matar — acuso. — Você quis passar por cima de mim com seu carro. Tenho certeza de que estava andando rápido demais e não percebeu que eu tinha a preferência por ser pedestre. — O quê? — ele rosna, duro. — Foi você quem entrou na frente do carro de uma vez. Eu até mesmo buzinei, mas você continuou. — Então era seu dever ter parado e me deixado passar. E não agir feito um imbecil, tentando tirar minha vida. — Olhe. — Ele aponta para um sinal. — Eu estava na minha vez, então era você quem deveria parar. Sem mencionar que não pode ser tão cega que não consiga ver um carro vindo em sua direção. Além disso, você estava correndo em um lugar inapropriado — fala e aponta para o estacionamento, como se isso explicasse alguma coisa. — Agora vai colocar a culpa em mim? — Por acaso você é louca? — questiona, sua voz grossa começa a denotar irritação, e vejo seus olhos azuis escurecerem. — Pelo estado insano em que corria, devo considerar que sim. Isso sem falar do jeito como quase se matou, com certeza, você é uma burra maluca. Quem esse idiota pensa que é? — Alto lá, seu cavalgadura — reclamo, em desafio às suas grosserias. — Eu não sou nenhuma louca. Foi você que veio do nada e deve ter sido devolvido por alguma nave espacial, ou então acha que isso aqui é uma pista de Fórmula 1. — Além de suicida, é doida. Era só o que me faltava — ele resmunga, retorcendo a boca em contrariedade. — Eu não queria te matar. Deveria reconhecer seu erro. E teve sorte por não ter arranhado ou amassado meu carro, do contrário, teria que arcar com o prejuízo. Ele se afasta e fica me encarando com fúria, sem piscar os olhos azuis, enquanto me queima viva. Então ele bufa, parecendo um cavalo selvagem prestes a sair dando coices em quem estiver por perto. Mas, com certeza, deve me faltar um parafuso a menos, pois me aproximo ainda mais do desconhecido, erguendo uma sobrancelha e encarando-o sem medo: — Você só pode estar de brincadeira — exclamo, sacudindo a cabeça. — Isso é inacreditável! Você quase me atropela e ainda quer colocar a culpa em mim por andar dirigindo feito um louco? Tá se achando o Ayrton Senna? Sinto muito te informar, mas estamos bem longe de Interlagos. — Escute, menina, você não vai me fazer sentir culpa pela sua falta de atenção e maluquice. Da próxima vez que decidir sair por aí correndo, certifique-se de que está em um local seguro ou então em um parque livre. — Sua voz até mesmo ecoa em todo ambiente, parecendo um trovão. — Exijo que se retrate agora mesmo de suas acusações sem cabimento — ele dita, cruzando os braços na frente do peito. — Quê? Ele respira profundamente, enquanto também cruzo meus braços na frente dos seios. Bem, se ele acha que vou assumir uma culpa que não é minha ou aguentar suas grosserias calada, ele está completamente enganado. — Peça desculpas, garota abusada! — Nem quando chover canivetes. Você que deveria pedir desculpas por dirigir em alta velocidade e querer me matar. — Sou estou perdendo meu tempo. Não vou mais discutir, pelo visto, não sofreu nada com a queda. Com certeza, é maluca de nascença — fala rudemente. — Agora, vou entrar no meu carro e, dessa vez, tente não se jogar na frente. Seu corpo elegante dá meia volta e, após poucos passos, ele abre a porta do motorista. Nem tinha reparado no modelo do seu carro. Ok, não é como se conhecesse todos, mas podia apostar que esse não é um dos mais baratos. Ele bate a porta com força e sai cantando os pneus pelo estacionamento. Imbecil! — Tomara que seus quatro pneus furem numa estrada vazia e chuvosa — grito minha maldição para o nada. Então volto a fazer meu caminho novamente, agora com a certeza de que só vou chegar à minha casa depois das 9h da noite. Bufo. Tudo culpa daquele cego idiota!
— Ainda vou desistir de ter você como cliente. Você é impossível! — ele diz e senta-se na cadeira em frente à minha mesa. — O bom é que vou poder ser exorbitante na cobrança dos honorários. — Pode adicionar quantos zeros quiser nessa conta. Dinheiro nunca foi um problema para mim — afirmo. — Só faça de tudo para me ajudar a sair deste furacão em que minha vida se tornou. Diga-me que encontrou as candidatas perfeitas. — Busquei as melhores do mercado. — Ele levanta uma sobrancelha num tom sugestivo. — Você poderá me agradecer depois. Tenho certeza de que, depois que as vir, não saberá escolher qual será a nova senhora Ávila. — E sobre o passado? Todas têm ficha limpa? — pergunto, não esquecendo a exigência mais exagerada. — E todas são virgens? — Completamente — Victor afirma. — Contratei uma agência de confiança e todas fizeram exames que serão apresentados antes da assinatura do contrato. Tudo sigiloso. Não desconfie do meu trabalho, mesmo que essa tenha sido uma das tarefas mais difíceis que você já me passou. — Então, onde estão? — pergunto, colocando o dedo indicador na boca e o polegar abaixo do queixo. — O que estamos esperando para começar o processo de seleção? — Precisei colocá-las em uma sala, antes que seu primo petulante desse de cara com elas. Achei adequado, senti que ele poderia fazer algo para te prejudicar, não confio em absoluto nele. Deveria manter os olhos mais abertos para não ser pego de surpresa. Eduardo não é peça boa. Não é de hoje que te aviso. — Eduardo não passa de um covarde. É como aqueles cães que latem, mas não mordem. Ele não é capaz de me atingir, é muito idiota para isso — emito, com desdém. Meu primo nunca foi páreo para minha inteligência, e não seria agora que perderia tempo com ele. — Bem, então vamos começar com a entrevista em busca da noiva perfeita. Vamos transformá-lo num homem de família. — Ele levanta-se e deixa sua pasta de couro na cadeira. — Acho conveniente ser individual, assim você pode conhecer melhor as particularidades de cada uma, contrapor as informações e depois optar por aquela que mais te agradou. — Certo. — Sou seco em minha concordância. — Traga uma a uma, até aqui. Não esqueça que todas elas precisam assinar um termo de confidencialidade. Isso não pode cair nas garras da mídia, em nenhuma hipótese. — Está tudo redigido nos conformes e com uma multa colossal para quem ousar pelo menos insinuar ou soltar o que vai acontecer nesse escritório. — Muito bem. Traga a primeira. Victor sai, enquanto fico estralando meus dedos — não por nervoso. Essa é uma mania que tenho quando estou irritado, e me vejo em um caminho sem saída, em uma situação que requer todo meu potencial e inteligência. Mas nunca imaginei que esta situação seria um casamento, o meu casamento. Não era isso que eu queria para minha vida. Nunca me vi preso em um casamento, não que eu desacredite o amor ou tenha qualquer tipo de trauma, na verdade, sequer tenho experiência com isso. Apenas acho essa coisa idiota e brega demais para mim. Sou adepto da liberdade e a favor de que um homem desfrute o máximo possível de sua jovialidade, fazendo da sua vida o que bem entender. Mas a sociedade é muito primitiva e tenho a porra de uma família conservadora. Sim, eu nasci em jaulas de ouros e, pelo visto, continuarei preso, desta vez, a uma esposa. Meu semblante fecha e penso que preciso escolher uma mulher que veja isso apenas como um negócio. Alguém que queira receber uma compensação generosa em dinheiro e seja capaz de sustentar esse casamento de fachada. Uma mulher que não seja emocional demais, não sinta ciúme e, principalmente, não invente de me amar. Escuto uma batida e sou tirado dos meus pensamentos. A porta se abre e me ajeito melhor na cadeira, colocando em meu rosto a expressão mais austera que consigo. Não quero dar nenhuma chance para que alguma delas ache que pode me levar na conversa. Hoje a escolhida terá de ser íntegra em cada resposta. Não é só minha vida que está em jogo, é minha competência, meu poder e meu próprio respeito. Uma moça esbelta, loira e vestida de vermelho sangue passa pelo o umbral. Anda temerosa em seu salto astronômico até ficar em frente à minha mesa. Meu olhar percorrer seu corpo de cima a baixo. Seu biótipo é daquelas modelos que passam fome e suas pernas são brancas, compridas e magras. Sua cintura é tão fina que se ela virar de lado, pode ser comparada a uma folha de papel. Os seios parecem duas melancias grandes, desproporcionais demais para seu corpo franzino. — Sente-se — rujo, não me esforço para esconder meu malgrado. — Como se chama? — Simone — diz, ao sentar-se, cruzando as pernas devagar, num gesto que não me causa nada. Muito patético para o meu gosto. — Victor, me traga o documento — peço para meu advogado, que ainda está inerte, segurando a porta. Ele parece acordar e vem até a sua bolsa, jogada na outra cadeira. De dentro, retira uma certa quantidade de papéis e me entrega. Em seguida, ele também se senta, pois eu tinha pedido para que ele me acompanhasse, já que não tinha certeza se conseguiria sobreviver a essa droga. Então ele seria mais como um bote salva-vidas, lembrando-me de que aquilo era o melhor a ser feito e pedindo-me para respirar antes de insultar ou ofender qualquer uma das mulheres que passariam por aqui. — Simone, preciso que assine esse termo. — Coleto uma folha das que me foram entregues. — É um termo de confidencialidade, de caráter sigiloso, assegurando que as informações ditas nessa sala não poderão ser divulgadas sob qualquer hipótese. Em caso de descumprimento, as ações cabíveis e multas descritas serão aplicadas. A mulher pega o papel, apenas passa o olho rápido pelo conteúdo, coloca sua rubrica enfeitada no final da página e me entrega, sorrindo — Bem, Simone. Eu preciso de uma esposa. — Vou direto ao ponto. Certas coisas precisam ser objetivas. — E eu estou fazendo uma seleção para achar a mulher perfeita para essa função. Gostaria que me dissesse o que a tornar a candidata ideal. Me faça te escolher. A Barbie ambulante abre bem os olhos e parece muito assustada. Não é todo dia que um homem faz uma proposta dessa. Ah, a quem estou querendo enganar? Ninguém nunca teve que se sujeitar a essa humilhação. Sou o único fodido que estava se submetendo a isso. A mulher abre diversas vezes a boca, mas logo se recompõe. Seus olhos agora brilham, e tenho quase certeza de que ela deve ter me conhecido. Mais certeza tenho de que ela conhece minha fama e fortuna. Sou a galinha de ovos de ouro de São Paulo. O solteiro mais cobiçado do Brasil. O homem perfeito, segundo algumas revistas. Não são coisas que invento. — Posso dizer que sou a mulher perfeita, pois tenho classe e educação, então saberei me comportar nos jantares da alta sociedade. — Ajeita o decote, deixando suas melancias ainda mais em evidência. — Sem falar que posso agradá-lo muito no quesito sexual... — Espere — Interrompo-a. — Quais são as suas experiências sexuais? — Tive um namorado que me ensinou muitas coisas. Uma delas foi como fazer um homem ir à loucura apenas com minha... — Saia! — brando, impossibilitando-a de continuar. — Não tem os requisitos que procuro. — Como? — ela pergunta, numa tentativa ridícula de parecer amuada, mas sua cara franzida e olhos pidões só aumentam minha impaciência. — Eu disse para sair. Fecho minha expressão e olho duro para a mulher. Ela é sábia, levanta-se rápido e, dessa vez, sai quase tropeçando nos saltos. — Mateus, respire — Victor, pede. — Você foi severo com a garota. — Você me disse que tinha feito um trabalho inquestionável, mas a primeira mulher que me traz já não está dentro do requisito primordial cobrado pelo general Ávila. Sem falar que ela não me agradou em nada. Muito vulgar e obtusa. — Algum erro aconteceu. Vou entrar em contato com a agência assim que terminarmos — ele responde, sério. Já sei que ele arrancará algum tipo de multa ou processo daquela espelunca. — Posso trazer a próxima? — Fazer o quê? — Reviro os olhos. — Pode sim. Uma a uma, as mulheres vão entrando, assinando o termo e sendo dispensadas por mim. Todas são muito vulgares e sem atrativos. Quando não são assanhadas e ambiciosas, são muito tímidas e íntegras demais. Com nenhuma delas, meu pau deu sinal de vida, parecia que ele estava no Polo Norte. É de suma importância que a escolhida seja capaz de me excitar, pois, se tem alguma coisa boa que isso vai me trazer, é o sexo. Se eu não tiver tesão e desejo pela minha esposa, esse inferno poderá ficar bem pior. — Essas eram as melhores do mercado? — pergunto para Victor que parece tão cansado quanto eu. Não foi fácil passar duas horas ouvindo barbaridades e o choro de algumas mulheres. — Não acredito que perdi tanto tempo com isso. — Sinto como se tivesse feito uma maratona em um minuto — expressa e respira fundo. — E não quero nem imaginar que terei que buscar outras pretendentes, mas antes eu precisarei dar um jeito para que essa agência nunca mais abra as portas. — Agora precisamos correr contra o tempo. — Bufo e atiro uma caneta longe. — Papai não me deu um prazo, mas sinto que ele está prestes a vir aqui e cobrar o cumprimento de sua sentença maldita. Ele nunca foi de ficar muito quieto e, desde aquela fatídica noite, não apareceu mais. Então quando ele surgir, vai ser igual a um tornado de obrigações e sermões. — Não quero estar perto. Não respondo, apenas enfio as duas mãos em meus fios de cabelos e os puxos. Minha cabeça parece prestes a explodir a qualquer momento. Estou à beira de um surto. Tinha colocado muitas expectativas e certezas no dia de hoje e fui frustrado em todas elas. — Porra! — urro e puxo meus cabelos mais uma vez. Fecho as mãos em punhos e soco a mesa fazendo alguns objetos decorativos caírem e rolarem até o chão. Antes que eu tenha tempo de me preocupar com a organização dos objetos caídos, meu telefone toca e atendo. — Que seja algo importante, Sara — digo, rangendo os dentes. — Senhor, tem uma moça que o aguarda para o processo seletivo. — A voz firme da minha assistente, nada abalada pelo meu excesso de fúria, soa em meus ouvidos. Sempre fico impressionado com a capacidade que ela tem de não absorver nada, mas posso entender, afinal, alguns anos de experiência e um salário gordo no final mês são excelentes motivadores. — Mande-a entrar — digo, seco e bato o telefone, já prendendo os olhos no meu amigo. — Ainda tinha mais uma pretendente? — Não fazia ideia, mas acredito que seja uma atrasada. — Ele junta as sobrancelhas. — Vamos atendê-la, talvez seja a noiva perfeita. — Ou mais uma perda de tempo. Um toque e a porta é aberta. Na frente, Sara aparece, sua expressão é profissional e séria, e logo uma garota surge pela porta branca. Ela parece muito pequena em comparação à minha assistente — aposto que ela não passa dos 1,60 de altura. A princípio, não enxergo seu rosto direito, pois ela está de cabeça baixa e seus cabelos longos e castanho-claros impossibilitam minha visão. Então olho com o cenho franzido para seu corpo e imagino que a menina deve ter pegado a primeira roupa que viu, pois sua calça jeans parece desgastada e a camisa está amassada, além de ser muito grande para ela. Nos pés, uma simples sapatilha preta, sem detalhe algum. Ela não parece confortável em seu lugar, pois muda o pé de apoio várias vezes em poucos segundos. E não pareço nada satisfeito, pois tenho a convicção de que ela me fará perder mais tempo ainda. — Como é seu nome? — pergunto, duro. A garota levanta sua cabeça, o queixo erguido e o peito inflado. Com passo decididos e confiantes, se aproxima, e seu rosto angelical é a primeira coisa que me chama a atenção. Seus olhos em um tom esverdeado ou azul, não consigo definir, parecem duas bolas de luz, brilhantes e expressivos. A boca em linha reta não denota nenhum resquício de felicidade, ainda mais quando dita, firme e forte: — Isabella. Eu me chamo Isabella Oliveira.