Meu mercenário- Livro 4
Capítulo 1 Meu mercenário- Livro 4

Prólogo Continuo escondido atrás da sombra nebulosa do prédio que fica no beco. Inverno, em Paris, definitivamente não gosto do frio. Junto as mãos aproximando da boca para soprá-las. Encosto na pilastra, observando os casais supostamente apaixonados. Mãos dadas, abraçados, sorrindo com olhares carinhosos. Diria que é patético, mas como estamos em uma das cidades mais românticas do mundo “Vivre l'amour.’’ Aguardo o homem para matá-lo. É, meu caro amigo, não é nada pessoal, mas fazer lua de mel com a amante mais jovem que sua esposa, não foi uma boa ideia. Os homens não têm noção de como uma mulher traída, e pior, por uma mais jovem, pode se tornar perigosa e vingativa. Esse ano é o quarto trabalho que aceito, onde tenho que dar fim a vida do marido traidor. Homens, se querem tanto aproveitar a liberdade, porque se casam? Aprendam comigo, pego e não se apego. Quem sabe um dia crie um manual com dicas, o título será: como não ser assassinado por minha esposa. Confiro mais uma vez o relógio, completamente entediado. Quanto tempo essa porra leva para comer um prato com tão pouca comida? Se tiver que esperar muito mais, irei mudar a cláusula do contrato de morte limpa e rápida, para lentamente torturante. Bom, vamos às opções : Primeira opção: Usar o silenciador com um tiro certeiro na cabeça de ambos. Segunda opção: Usar o fio que está guardado no bolso da minha jaqueta para enforcá-los. Ou atirar na cabeça da vadia, e espancá-lo até ficar irreconhecível. Assim iria dificultar um pouco o lado da polícia. Qual é? Ninguém nunca me falou que nessa profissão tenho que ser complacente com a polícia. Como dizem, cada qual com seus problemas. Mudo o peso do corpo de uma perna para outra. Bato o pé impacientemente no chão. A ponta do meu nariz está congelando, junto com a pele do rosto. Juro que esse velhote safado irá pagar bem caro por isso. Ouço vozes de longe, escondo o corpo ainda mais para a escuridão. Como esperado o pacote caminha em minha direção tropeçando nos próprios pés. Alguém se excedeu na bebida. Então, opto por usar o primeiro método, só quero acabar logo e ir para o hotel degustar de uma boa taça de vinho à beira da lareira, antes de partir. Abro o casaco enfiando as mãos nos bolsos internos. Pego a pistola, juntamente com o silenciador. Encaixo-o na ponta, deixando o equipamento preparado. Essa é minha última encomenda do ano, preciso de férias. Quero um lugar quente, isolado, onde possa ouvir o som da minha própria respiração. Engulo em seco, ajeito o corpo na posição mais confortável, e aguardo que se aproximem ainda mais. Balanço a cabeça ao observar o casal sensação abraçados. A jovem não tem mais de vinte e quatro anos, e o adúltero cinquenta e cinco anos, o dobro da idade. Admiro a coragem dessa princesa, mas sinto muito, você entrou em um jogo perigoso demais. Repito, não é nada pessoal. Cubro a cabeça com a touca do casaco, escondendo ainda mais minha presença. Ergo o cano da arma, miro diretamente na testa da garota, e sem dó nem piedade, faço o primeiro disparo. Certeiro e limpo. Seu corpo magro cambaleia para trás, caindo no chão como se fosse uma boneca de pano. O porco bêbado, sem entender nada a encara. Após uns segundos, recobra sua consciência e percebe que a mulher está morta com sangue escorrendo da testa. Assustado, acelera os passos olhando para todos os lados. Tenho um recado da esposa que não posso esquecer de transmitir. Antes que ele possa se afastar demais, avanço alguns passos parando em sua frente. Não sei se dou risada da sua expressão, ou se meto logo a bala nesse filho da puta. Espera. Qual era o recado mesmo? Ah, lembrei. Você pensa demais com a cabeça de baixo, morre seu traidor desgraçado. Confesso que soou estranho, mas quem está pagando sempre tem razão. E em fração de segundos, finalizo o trabalho atirando na cabeça careca do meliante traidor. Guardo o equipamento de trabalho rapidamente. Afasto-me com passos rápidos saindo do beco indo em direção ao movimento. Abaixo a touca que cobria meu rosto para deixá-lo visível, e não levantar suspeitas. Enfio as mãos no bolso, enquanto caminho calmamente aproveitando a paisagem como qualquer turista. — Ei, você, ei... Ei... eu vi tudo. — Encaro a figura feminina que está atrapalhando meu caminho e apontando o dedo para mim. Olho de um lado para o outro para ter certeza de que essa maluca está falando comigo mesmo. Sua voz está estranha, falando enrolado como se estivesse bêbada. Será que ela me viu no beco. Porra, três cadávares na mesma noite. — Não sei do que está falando. — Disfarço, tentando desviar contornando o corpo por trás. De repente sou pego de surpresa, quando sua mão aperta firme meu braço, segurando-me no lugar. Claro que se quisesse poderia escapar, e ainda quebrar o braço dessa bêbada maluca. Mas bater em mulher é contra meus princípios, matá-las é diferente. — Senhorita, por favor, está me confundindo com alguém. — Respiro fundo, tentando manter a calma. — É você, estava de capuz, eu vi... Nossa, seus olhos são lindos. Tem umas pintinhas coloridas. — O quê? — questiono confuso. Reagindo rapidamente, seguro o corpo da mulher que despenca em direção ao chão. Além de bêbada, a criatura ainda fica inconsciente. Preciso ter certeza se ela realmente viu algo, ou foi só delírio alucinado. Suspendo-a no ar e a carrego nos braços. Não faço ideia do que fazer com esse fardo, já que não estava nos meus planos. Droga. A única opção é levá-la comigo para o hotel e tentar descobrir mais sobre essa estranha. E assim que estiver sóbria, decido o que realmente farei com sua vida.      Capítulo 1 Mal conheço a mulher e já estou levando prejuízo. Desembolsei alguns euros para que a camareira me deixasse usar o elevador dos empregados. Seria arriscado subir com ela desmaiada em meus braços no elevador principal do hotel, sem contar o fato de atravessar o saguão repleto de câmeras de segurança, realizando vários closes da situação. Quando se está em um país onde milhares de turistas circulam todos os dias, os funcionários dos hotéis, estão acostumados com cenas como essas. Mulheres bêbadas, casais bêbados, o que importa é o quanto você paga para que possa receber ajuda. Salto para fora do elevador no quinto andar, chacoalho o corpo mole e desfalecido para ver se a maluca ressuscita, ou dê qualquer sinal de vida, mas nada. O que essa criatura bebeu? Por um momento sinto a fragrância exalando dos cabelos, cheiro adocicado de tutti frutti. Seus lábios são largos e grossos, em contraste com a estrutura óssea não muito delicada do rosto. O corpo é magro, esguio, mas confesso que a comissão de frente é bem satisfatória. Não tem o estereótipo de moça bêbada, drogada. Posso estar sendo precipitado em meu julgamento, mas arrisco dizer, que essa pessoa em meus braços totalmente inconsciente, é uma mulher cem por cento certinha. Com uma família grande e unida, deve ter no mínimo três gatos, isso se não tiver um cachorro com aqueles nomes fofinhos e cheios de frescura. Acelero os passos pelo corredor, evitando esbarrar com outros hóspedes. Em frente à porta, não consigo pegar a porra do cartão para abrir a fechadura. Posso deitá-la no chão por alguns segundos. Ah, qual é, Jhon? Você é um assassino frio e calculista, mas, ainda assim, é um cavalheiro. Respiro fundo, conto até três, suspendo-a no ar e jogo-a por cima do ombro como um grande saco de batatas. Se fosse batatas não daria tanto trabalho, já que não tem olhos, e muito menos podem ser testemunhas de um crime. Com uma mão apoio segurando sua bunda, e com a outra enfio dentro do casaco procurando o cartão nos bolsos internos. Sinto que estou começando suar com todo o esforço. Acho bom essa desgraçada valer de alguma coisa, senão, realmente ficarei muito bravo. Enfio o cartão na tranca, em seguida a luz verde ilumina o mini painel seguido do som da trava sendo liberada. Empurro com o corpo a porta, e entro no meu espaço seguro. Jogo o corpo da mulher no sofá rapidamente me livrando do peso morto. Estralo o pescoço para os dois lados balançando os braços alongando o corpo. Depois dessa precisarei de uma massagem. Quem diria que tão magra, poderia pesar tanto. Bom, costumam dizer que osso também pesa. Trocadilho idiota, mas nesse momento faz todo sentindo. Aproximo-me cuidadosamente, seguro seu pulso, checando os batimentos cardíacos. A infeliz está bem viva, e babando no lindo sofá do hotel. — Preciso de uma bebida — digo em voz alta. Sigo em direção à cozinha, abro a pequena geladeira e não encontro nada que me agrade. Ok. Serviço de quarto. Além da bebida, preciso de algo para comer, não tive tempo para jantar esperando aquele casal lindo. Se os desgraçados não tivessem demorado tanto naquela porra de restaurante. Pelo menos morreram de barriga cheia. Digito a senha no painel preso à parede. Claro, hotel de cinco estrelas no mínimo tem que ter conforto e tecnologia de primeira para satisfazer os clientes. Seleciono o cardápio na aba refeições. Percorro a lista procurando pratos que sejam simples sem muito requinte e nomes estranhos. Gosto do tradicional, comida típica. Não é como se eu não soubesse aproveitar uma vida luxuosa. É que, tudo que é demais uma hora cansa. Ouço um barulho alto vindo da sala, não consigo identificar o som. Em alerta, caminho nas pontas dos pés, e sou surpreendido ao perceber que a maluca rolou para fora do sofá, caindo em cima do tapete felpudo, virou para o lado e permaneceu dormindo. Mordo os lábios segurando a risada que tenta escapar por entre eles. Retorno para a cozinha e continuo na missão de encontrar algo para comer. A cena dela caída no chão, dormindo com a boca aberta, surge em meus pensamentos fazendo-me rir. Espero que consigamos ter uma conversa amigável quando recuperar a consciência. Não tenho a pretensão de matá-la, tudo vai depender de como será ao despertar do seu sono de branca de neve. Após uns minutos, enfim, decido qual prato irei pedir. Escolho Galettes Bretonnes é como se fossem crepes salgados com recheios de Fiambre, queijo e ovo. Agora, para beber, uma garrafa de vinho Château Lagrance 2008. O prazo para a refeição ficar pronta é de aproximadamente quarenta minutos. Ando pelo quarto de um lado para outro. Preciso de um banho quente para tirar o frio congelante dos ossos. Posso confiar que ela não irá acordar, enquanto estou no chuveiro e fugir? Posso levar o cartão de acesso comigo para o banheiro. Se mesmo assim ainda tentar fugir pela janela e cair do quinto andar do prédio, será lamentável, pobrezinha. Antes de sair da sala, cutuco-a sua perna com a ponta do pé, e nada. Sigo até o quarto, coloco o casaco em cima da cama, retiro a arma, e outros equipamentos para guardar no cofre. Digito a senha no pequeno quadrado de metal, abrindo-o e guardando-os. Respiro aliviado que enfim posso relaxar. Abro o botão da calça, desço-a levando junto a cueca até os pés. Empurro o conjunto para o canto. Puxo por cima da cabeça meu suéter de lã, ficando completamente nu. Avanço os passos até o banheiro, atravesso o box de vidro, abro a ducha deixando na temperatura mais quente. Entro embaixo d’água. Levanto a cabeça deixando que a água aqueça minha pele, levando quaisquer resquícios da noite. Não sinto remorso, nadinha, quando finalizo o trabalho para qual sou contratado. Meu pai diz que não tenho um coração batendo dentro do peito, eu diria que encaro minha profissão como qualquer outra. Não vejo pessoas, e sim, cifrões piscando como letreiros luminosos em suas testas. Agora, se pagam para matá-los, vos pergunto: Quem realmente é o criminoso? Esfrego as mãos nos cabelos, encharcando-os. Pego o frasco de sabonete líquido preso na parede, esborrifo na mão. Fecho os olhos, enquanto minha mão percorre o pescoço descendo para o peito nu, aprecio a sensação do toque, mantenho os olhos pressionados, pronto para descer a mão até tocar meu pau duro. — O QUE É ISSO? — Ouço uma voz feminina gritando dentro do banheiro. Abro os olhos rapidamente girando o corpo, através do vidro, vejo a maluca em pé segurando uma faca de cortar pão nas mãos trêmulas. O que ela pretende com essa faca? Passar manteiga na minha torrada? Assustada, desnorteada, encara-me. Os olhos castanhos nublados percorrem meu corpo até chegar a um local de suma importância, a porra do pau duro. Arregalando ainda mais os olhos como se fossem saltar da órbita craniana. A maluca joga a faca no chão, e sai do banheiro, gritando. Não tenho tempo para pensar em nada, somente reagir. Corro para fora, atrás dela. Antes que ela possa alcançar a porta do quarto, pulo sobre seu corpo, derrubando-a na cama. Pressiono o peso do corpo por cima do seu, impossibilitando que fuja. Mantenho a mão sobre sua boca para silenciá-la. Logo percebo que é do Brasil, conheço a língua portuguesa, digamos que, tenho alguns negócios naquele país tropical. — Eu não vou te machucar, okay? Se quisesse fazer isso, já teria feito há muito tempo.

Capítulo 2 Meu mercenário- Livro 4

Tento me comunicar adequadamente para não a deixar ainda mais em pânico. Contorcendo o corpo por baixo do meu, sinto o tecido do jeans roçando nas minhas bolas causando um atrito delicioso. Porra, ela vai pensar que sou um tarado pervertido. Respiro fundo. — Escuta aqui, se eu te soltar, promete não gritar e conversar civilizadamente? Caso contrário, serei obrigado a cortar sua língua. Se você entendeu, balance a cabeça. — Garota esperta, tiro a mão de cima da boca. — Por acaso isso esfregando na minha perna é seu membro ereto? Sabe? Aquilo? Oh, meu Deus você ia se masturbar, que pervertido — questiona com as bochechas ficando coradas. E não é que a maluca é realmente muito bonita, ou foi seu jeito tímido que a deixou mais encantadora. — Oh, perdão, eu vou pegar uma toalha. Você espera aqui, entendeu? — Sim. Puxo a porta do armário, opto por um roupão de seda preto. Como se fosse um cãozinho obedecendo ao dono, permanece deitada na cama. Definitivamente essa mulher ganhou minha atenção. Ando pelo quarto, coço o queixo, digamos ser um hábito que tenho quando estou com dúvidas. Poderia simplesmente interrogá-la, mas caso realmente não tenha visto nada no beco, irei somente alarmá-la despertando sua curiosidade. Seus olhos castanhos acompanham cada movimento do meu corpo. Confesso que a ver deitada na cama tão frágil e indefesa, desperta a fera adormecida dentro de mim. Recordo-me muito bem das curvas dos seios, a bunda. Talvez devesse seduzi-la, ter uma noite quente com muito sexo e depois despachá-la. Analisando a situação se realmente soubesse de algo já teria falado, e estaria tremendo de medo de levar um tiro no meio dos olhos. — Qual seu nome? — questiono por pura e simples curiosidade. — Meu... Meu... É... Maria Luiza — gagueja amedrontada. — Bonito nome. Você é brasileira? Estou certo? Balança a cabeça positivamente. O gato comeu a língua dessa mulher? Tem alguém doido para comer algo, e pode apostar que não é um gato. É um animal feroz, sedento de desejo. — Sim, como sabe? Je vais là-bas, ou como dizem os brasileiros, vou á lá. Até que enfim começou a fazer perguntas, o que pode significar duas coisas. Ou Maria Luiza está fingindo somente para arrancar informações sobre mim, ou estou ganhando sua simpatia e confiança. Vamos torcer para ser a segunda opção, caso contrário, irei desovar seu corpo em pedaços pela cidade de Paris.         Capítulo 2 Engulo em seco, os olhos desse homem me encaram sem ao menos piscar. Tenho a sensação de que se levantar dessa cama, irei ser apunhalada. Sabia que não devia ter usado as passagens que ganhamos de presente como lua de mel. Contudo, precisava fugir, pensar sobre como Mateus cancelou nosso casamento faltando somente três dias. Imagina como fiquei? A encalhada de vinte e cinco anos que perdeu o segundo noivo. Talvez o problema seja comigo. O primeiro noivo me trocou pela madrinha, que por acaso era minha melhor amiga, safada. Não posso nem a culpar, ele era lindo, rico e sensual demais para resistir. Agora o Mateus, esse sem- vergonha de pinto pequeno, ah, pequeno e torto. Parecia que estava fazendo sexo com o the flash, se durasse três minutos a minha sherolayne soltava fogos de artificio, comemorando. Okay, foco, Malu. Isso é passado, esse homem na sua frente é o presente. Sinto as bochechas arderem ao lembrar o que vi no banheiro através do box de vidro. Foi tudo tão rápido, mas não é como se não tivesse como notar o tamanho e a grossura. Toma juízo mulher, isso não é coisa de se pensar em um momento de crise. Provavelmente nem estará viva até amanhã. Droga, droga, droga. Vou gritar por socorro, não, espera. Ele me ameaçou cortar algo se gritasse, não lembro muito bem, já que só consegui focar no seu... Seu... Órgão genital esfregando na minha perna. Correr? Ah, claro, sou quase uma atleta de corrida 100km, acorda, Maria Luiza, ele te pegaria antes mesmo de chegar à porta. Só preciso descobrir o que quer comigo, e sair daqui o mais rápido possível. Lentamente, levanto o tronco, sentando-me na beira da cama. Limpo a garganta, passo as mãos nos cabelos ajeitando-os, para não ficar com a cara da maluca da faquinha de pão. — Então, é eu disse meu nome. E você não disse o seu. — Pierry. — Só pode ser brincadeira, eu imaginei um nome grande, que fizesse jus algumas partes do seu corpo, mas Pierry? — Pierry? — Parece que ficou decepcionada — questiona, sentando-se ao meu lado. Lentamente deslizo a bunda na colcha de cetim, afastando-me um pouco. Criando uma distância segura, como se isso fosse possível. — Imagina, eu? Jamais. — Abro um sorriso falso e amarelo. — Vamos direto ao ponto. Você me trouxe bêbada ao seu apartamento, ficou... Sabe... — Aponto para a parte baixa do roupão. — Ficou pelado na minha frente. Maluco? Estuprador? Sequestrador? Já aviso que minha família é pobre. Só estou aqui porque fui abandonada pelo meu ex-noivo. Sabe como é? Ele disse que eu era certinha demais, que homens gostam de mulheres picantes. — Droga, droga, repreendo-me mentalmente, sempre falo demais quando estou nervosa. — Desculpa, eu, só estou com medo. — Primeiramente, foi você que parou na minha frente alegando que tinha visto alguma coisa e me acusando. Sinceramente não entendi metade do que falava. Quando tentei desviar me segurou pelo braço e simplesmente desmaiou. Por isso está aqui. Não sou maluco, estuprador e muito menos sequestrador. É, faz sentido, mas estou em um país estrangeiro, com um desconhecido, e para piorar a situação ainda sinto que o álcool está percorrendo minhas veias. Já que resolvemos o mal-entendido, posso simplesmente ir embora para o meu hotel, e me esconder embaixo da cama de vergonha. Apoio as mãos em cima do colo, batendo os dedos, impaciente. Seu olhar me incomoda, parece que consegue ver a alma. Encarando-me desse jeito, estou começando achar que mentiu sobre ser maluco. Ouço o som da campainha tocando. É como melodia de Beethoven aos meus ouvidos. É a oportunidade que estava esperando para fugir desse homem. Levanto rapidamente, e acompanhando cada gesto como se estivesse me imitando, Pierry também se levanta. — A comida chegou, pedi para você também. Espero que não se incomode. — Na verdade, não estou com fome, muito gentil da sua parte, mas está na hora de ir embora. É minha bolsa, você...? — Não, não estava com você — respondi. — Oh, deve estar no hotel. Então, foi um prazer Pierry. Até mais. Disfarçando, sigo rapidamente em direção à porta de saída do quarto. Acelero os passos praticamente correndo, quando estou a centímetros de abrir a fechadura da minha liberdade. Sinto mãos fortes puxando-me para trás, pressionando-me contra a parede usando o corpo. Com uma de suas mãos cobre minha boca. Arregalo os olhos assustada. Aproximando a boca do meu ouvido, sussurra: — Esqueceu-se do nosso acordo? Se gritar, ou tentar sair por essa porta. Talvez, só talvez, me torne violento. Se entendeu, pisque os olhos duas vezes. Mafioso? Só pode. Serei protagonista de algum filme de mafioso? Não me importaria nem um pouco se o homem chamasse “Massimo”. Mas, não. Pierry. Nem tudo é perfeito. Faço o que pede, pisco os olhos repetidamente. — Boa garota. — Solta-me e sinto seus dentes mordiscando de leve o lóbulo da minha orelha. Estuprador, com certeza. Mas por que alguém como ele precisa fazer isso? Qual a lógica? Qualquer mulher gostaria de sentar em cima daquele monumento. Observo enquanto se afasta para atender o entregador. Continuo no mesmo lugar, paralisada na parede. A porta se abre mais para entrar um carrinho com comida e bebida no quarto. Esfrego as mãos trêmulas no rosto tentando aliviar a tensão que percorre meu corpo. O lado engraçado da minha vida, é que sempre sonhei em casar e construir uma família. Ter uma casa com um grande quintal para que as crianças pudessem brincar. Dois filhos, ser filha única não é bom, senti na pele o quanto é ruim. Em noites frias queria ter o homem que amo ao meu lado para aquecer meus pés, e conversarmos sobre assuntos aleatórios de trabalho, fofocas do círculo de amigos. Mas, acho que é somente um sonho que pode acabar essa noite através desse homem. Alguns me acham patética, outros dizem que tenho um grande coração, sei que no fundo sentem pena da pessoa deplorável que me tornei. Fecho os olhos, enquanto as lágrimas insistem em descer dos olhos umedecendo minha pele. Sou pega de surpresa quando suaves dedos tocam meu rosto, enxugando-o. Abro-os imediatamente, e então, ele está ali em pé na minha frente, usando seu roupão preto, observando-me. Não com piedade, pena, ou qualquer sentimento que faça me sentir pior do que estou. Pode ser somente o álcool tomando conta das minhas ações, ou sou eu Maria Luiza Cavalcante, quero nesse instante beijar a boca desse desconhecido. É como se Pierry lesse meus pensamentos. Em dois passos largos, seu corpo está novamente me pressionando contra a parede. Sua boca vai de encontro à minha, devorando os lábios. A sua língua dança dentro da minha boca, provocando arrepios sobre a pele. Seu quadril roça no meu, esfregando o seu grande pau duro por cima do tecido. Sinto-me à vontade, devassa, tarada. Desço as mãos até o nó do roupão e o puxo, abrindo-o, caindo aos seus pés. As unhas marcam a pele das suas costas. Rapidamente abre o botão da calça, puxando-a para baixo junto com a calcinha. Pierry desce a mão até minha boceta úmida, acariciando o clitóris com sua palma. Gemo alto, mas enlouqueço quando de repente, enfia seus dedos no meu centro. — Oh, meu Deus — suplico desejosa Os movimentos de vai e vem, entrando e saindo. Esse homem com os dedos consegue me dar mais prazer que qualquer outro usando o pinto. Mordo os lábios, e pressiono ainda mais as unhas. Girando-me rapidamente, coloca meu rosto apoiado contra a parede. Ergue uma perna, segurando-a suspensa no seu braço apoiado na parede. — Você toma remédio? — questiona, fungando no meu pescoço. — Sim — respondo ofegante. Sem aviso, sinto seu pau entrando na minha boceta. Expandido, alargando-a. Um misto de dor com prazer. Segurando meu quadril com força, bate contra o seu diversas vezes. Entrando, saindo, entrando, saindo. Estou a ponto de gozar. — Não, ainda não. — Pierry enrola meu cabelo em sua mão, puxando a cabeça para trás. E com a outra mão agarra a nádega, dando-lhe um tapa. Ofego gemendo, enlouquecida de prazer, sentindo um grande vazio quando recua alguns passos para trás. Mas somente o tempo suficiente para ele me suspender no ar. Enrolo as pernas na sua cintura, sentando no seu pau. Puxando os botões da minha blusa com os dentes, ele consegue me deixar somente de sutiã. Enfiando o rosto entre meus seios, continua os movimentos entrando e saindo de mim. Sua língua entra no sutiã, lambendo o bico entumecido. Minhas costas batem forte contra a parede, meus gritos misturados com gemidos podem ser ouvidos por todo o corredor, mas não resisto a cada vez que o sinto entrando forte e duro. Mais, mais, mais, não resisto, minha boceta se contrai apertando o membro rígido, e atinjo o orgasmo. Os urros roucos e ofegantes de Pierry indicam que gozou logo em seguida. Apoio a testa na sua respirando fundo. Nossos olhos se encontram, a eletricidade percorre meu corpo, e tenho certeza de que por sua expressão aconteceu o mesmo com ele. Vejo que engole a saliva, e como sempre o sonho acabou. Rudemente, coloca-me no chão, pegando seu roupão. Faço o mesmo erguendo a calça sem ao menos limpar a bagunça. — Acho melhor você ir embora, agora. — Aponta para a saída como se eu fosse um cachorro. — Desgraçado — resmungo baixo. Sem olhar para trás, saio do apartamento. Seguro a frente da minha blusa, já que aquele cretino fez questão de estragá-la. Oh, droga, meu casaco ficou na sala. Mas prefiro morrer congelada em Paris, a encontrar aquele... Aquele... Não tenho nem palavras. Nunca me senti tão humilhada. Nunca mais quero encontrar esse nojento na minha vida.      Capítulo 3 Três anos depois... Sorvo um gole do meu drink servido pela aeromoça da primeira classe dentro do avião. Seus seios volumosos se destacam no tecido do uniforme. E essa saia, essas companhias áreas são inteligentes, sabem como manipular os clientes, fidelizando passageiros. Qual o homem que não quer viajar apreciando uma bela paisagem erótica? Disfarçando como se não tivesse notado que estou encarando-a, a morena sorri timidamente com os lábios fartos, provavelmente deliciosos. Há comentários que as mulheres brasileiras são as mais lindas do mundo, confesso que não nego que concordo. Curvas perfeitas, seios, pernas grossas, e aquela bunda saudosa com gingado latino. Cruzo as pernas, coçando os lábios com a ponta do dedo. Estou hipnotizado. Okay. Okay. Primeiro negócios, depois prazer. Minha viagem ao Brasil é devido ao contrato de trabalho milionário. Há muito tempo não surgia uma oportunidade tão lucrativa e perigosa. A melhor sensação do mundo é a adrenalina percorrendo o corpo, enquanto escapa, depois do dever cumprido. Decido ler novamente o e-mail do contratante conferindo os detalhes, será mais produtivo. Meu pai sempre me ensinou algo muito valioso. Primeiro pense com a cabeça de cima, e depois com a debaixo. Velho sábio, ensinou-me tudo que sei sobre minha profissão. É engraçado pensar que ele era um patriota que protegia seu país com a própria vida. Infiltrando-se em gangues de mafiosos, viajando para lugares perigosos, arriscando tudo que tinha para cumprir o seu dever. E então, o que ele recebeu em troca? Medalhas inúteis e uma esposa debaixo da terra. Esther, minha mãe. Assassinada diante dos olhos do seu filho com apenas seis anos de idade. Quando você é uma criança de olhos brilhantes e sorriso radiante, apaixonado pela mulher mais importante de sua vida, vê-la ser esfaqueada, e morrer sangrando no chão da cozinha, digamos, não é uma lembrança agradável. Fecho os olhos por um momento, engolindo o sabor amargo da saliva. Nunca conheci alguém com tamanha coragem como ela. Ainda me recordo de suas últimas palavras: — Seja forte, meu capitão tesouro — sussurrou. Capitão era como me chamava quando saíamos para velejar durante o verão. Suas mãos banhadas em sangue, acariciando meu rosto. Os olhos marejados em lágrimas, e nos lábios um fraco sorriso. Até mesmo em seu último suspiro tentou acalentar-me. É o esperado de uma verdadeira mãe.

Capítulo 3 Meu mercenário- Livro 4

Confesso que nunca havia presenciado o velho Charlie tão debilitado quanto com a morte de Esther. Eu acredito que nada é por acaso, cada pessoa nessa terra tem a oportunidade de traçar o próprio destino. O que você irá colher, depende do que plantar. Infelizmente, perdi o que mais amava por uma vingança idiota de um bando de traficante de merda. Desgraçado, estava nervosinho porque o FBI havia prendido a cabeça da quadrilha. Ou melhor, Charlie o prendeu. E como consequência, pagamos um alto preço. Ele abandonou seu trabalho oficial, aposentou-se indiretamente. A revolta, a mágoa, misturadas com a dor da perda o transformou. Simplesmente se tornou um dos melhores assassinos de aluguel, ou usando um termo mais apropriado, mercenário. A diferença entre nós, é que Charlie somente aceitava contratos onde deveria matar bandidos cruéis, corruptos. Agora eu? Indiferente. Acredito que se alguém contrata os meus serviços é porque tem um bom motivo, então, cada um com seus problemas. Ouço a voz do comandante comunicando sobre nossa chegada ao aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Não é a primeira vez que venho a trabalho para o Brasil. Domino com destreza o idioma português. E por sorte, tenho um grande amigo em quem posso confiar para me acomodar com segurança. Em alguns minutos, sinto a vibração das rodas na pista de pouso. Aguardo a saída dos passageiros apressados, não me importo em ficar por último apreciando a linda mulher que estava me servindo durante o voo, uma pena que não pode me servir de outro jeito. Sexo em banheiro de avião é adrenalina pura. Levanto-me da poltrona, caminhando lentamente em direção à aeromoça. Paro ao seu lado aproximando a boca da sua orelha, e sussurro: — Obrigado — digo com a voz rouca. Vejo que sua pele se arrepia, deixando-a com as bochechas coradas. Talvez devesse ter aproveitado melhor o serviço exclusivo da primeira classe. Sorrindo, enfio as mãos dentro dos bolsos na calça social. Engulo em seco limpando a garganta, e sigo em direção à saída. Faço os procedimentos necessários, e aguardo a retirada da mala com roupas e pertences pessoais. Puxo os óculos de sol que estavam dentro do bolso da camisa e o coloco no rosto. Arrasto a mala, andando no saguão principal, mais à frente vejo Marcelo acenando euforicamente. Balanço a cabeça negativamente. Aproximo-me rapidamente para acabar com o show de vergonha alheia. Cumprimentamo-nos, e seguimos direto para o estacionamento do aeroporto. Pedi que fosse cuidadoso ao alugar o carro, já que não quero chamar atenção. Mas quanto mais me aproximo do automóvel, tenho a certeza de que ele tem problemas com discrição. Andar pelas ruas de São Paulo dirigindo um Camaro Branco não é algo que se possa dizer que é discreto. Encaro-o, fuzilando com o olhar matador. Sorte que não estou armado, senão, seria uma morte a mais na minha conta. Sem graça e desajeitado, abre o minúsculo porta-malas, guardando a bagagem. Encosto na porta do motorista e estendo a mão pedindo a chave. Com certeza o iludido achou que ia ficar desfilando com esse carro, atraindo olhares curiosos. — Qual é, capitão, só mais uma vez — suplica juntando as mãos. Meu Deus, estou lidando com um homem ou uma criança? Enfim, opto por deixá-lo dirigir, mas só porque preciso me familiarizar com as ruas paulistanas novamente. Aproximadamente uma hora depois de sairmos do estacionamento, entramos em uma área rural, repleta de galpões abandonados. Sem casas, ou qualquer outro tipo de vizinhança. Marcelo para o carro em frente a uma grande porta de metal, e aperta o controle remoto, abrindo-a. Entramos, e o som do motor ressoa ecoando dentro do grande galpão. Desço do Camaro, analisando o local. Caixas pretas blindadas empilhadas ao lado da pilastra, e no centro, computadores com sistemas de localização. Não existe um programa que meu escandaloso amigo não consiga hackear. Ele me faz lembrar aquele amigo nerd do delegadinho da Camilly. Tenho certeza de que seriam grandes amigos, irmãos separados na maternidade. Enquanto Marcelo fala sem parar sobre o funcionamento geral, ando de um lado a outro observando todas as entradas e saídas, e possíveis rotas de fuga caso seja necessário. Do lado de fora várias câmeras de segurança. — Ali tem banheiro, e como pode ver, improvisei uma cozinha, e camas. Já que alguém não quis ir para o hotel. Por que dessa vez não? — questiona-me. — Prevenção. É um contrato milionário, e não tenho muitas informações sobre o cliente. Todo cuidado é pouco. Hoje à noite irei ao seu encontro, ou melhor, falso encontro. — E se ele cancelar o contrato? — Acredito que não, depois posso alegar que tive problemas por isso o atraso. — Cara, você pensa em tudo. — Hum... Agora quero comer alguma coisa e descansar um pouco — digo, abrindo a geladeira improvisada. Desço do táxi em frente ao restaurante combinado com o contratante. A atmosfera em volta do local é suspeita. Através da grande vidraça de luxo, consigo visualizar muitos clientes usando ternos, na cor preta. Qual a probabilidade de 70% desses homens usarem a mesma roupa em pleno sábado à noite? Eu digo, é zero. Óbvio que isso está cheirando a emboscada. Não sei se me sinto ofendido, ou se me considero importante levando em consideração o tanto de capangas que aguarda a minha chegada. Entrar ou não entrar, eis a questão? Talvez ele só queira garantir a sua segurança ao estar do meu lado. Qual é Jhon, quer enganar quem? Esse filho da puta acha que pode me pegar assim? Ah, qual é? Não está lidando com nenhum amador. Sei que dentro desses carros estacionados do outro lado da rua, está repleto de homens armados só esperando o sinal para atirar. E que em cima dos prédios provavelmente também têm atiradores de elite com seus rifles de mira noturna. Patético. Esgueirando-me através das sombras da noite. Ajeito o capuz sobre a minha cabeça, passo direto pelo restaurante, avançando alguns quarteirões. Logo à frente, encontro uma cabine telefônica. Entro, fecho a porta, insiro algumas moedas, e digito o número do celular do contratante. — Sou eu. Achou mesmo que eu fosse idiota o suficiente de encontrar você com essa cambada armada? Ah, qual é? Não, vingança? Porra, já falei que não tenho nada a ver com isso? Matar- me? Tente a sorte, seu porco. Cuidado para não acabar com uma bala no meio da testa. Coloco o telefone no gancho encerrando a chamada. Desgraçado, chamou-me até o Brasil só para me matar. Caralho, já expliquei que não estou envolvido na morte do seu filho, mas o infeliz quer achar um culpado de qualquer jeito para superar o luto. E o bode expiatório da vez, sou eu.         Capítulo 4 Com a cabeça escondida debaixo do travesseiro, procuro com uma mão o despertador que está em cima da mesinha de cabeceira. Bato os dedos em todos os lugares, menos no botão para acabar com aquele som torturante. Bufando, tateio mais algumas vezes até encontrá-lo, bato com força quase quebrando o meu pequeno objeto de tortura matinal. Rolo o corpo na cama ficando de barriga para cima. Encaro o teto branco e sem graça do quarto. O final de semana passou muito rápido. Ainda não acredito que meus pais insistem em fazer inspeção quinzenal. Bem, na verdade, eles trazem alimentos abastecendo o armário e geladeira, mamãe com sua mania de limpeza, é como se eu fosse uma criança irresponsável que não pode cuidar de si própria. Divido o apartamento com Diego há mais de dois anos, ele não reclama dos mimos dos meus “Dadys” como ele faz questão de chamá-los. Depois daquela maldita viagem, criei coragem para enfrentar a vida, e entendi que posso andar com minhas próprias pernas, não preciso de marido, ou homem, para seguir em frente rumo ao futuro. Para alguma coisa serviu ser sequestrada, e usada como um objeto sexual descartável por um desconhecido. Sherolayne aproveitou cada segundo, mas quando relembro que fui expulsa praticamente com a calça nos pés, ainda tenho vontade de gritar. Sorte daquele Don Juan do Paraguai, não nos encontrarmos mais, senão, iria falar tudo que ficou entalado na garganta. Paris, quem precisa disso? Bocejando, levanto lentamente, arrasto o corpo cansado para fora da cama em direção ao banheiro. Lavo o rosto, escovo os dentes e prendo o cabelo em um coque alto. Lidar com vinte e cinco crianças na idade de cinco anos é um grande risco para cabelos compridos e soltos. Glitter, cola, por vezes piolhos, com tudo que uma professora do jardim de infância tem direito. Mas não troco meus “pimpolhos” por nenhum outro tipo de trabalho, amo o que faço. Ouço o som da porta da frente sendo aberta. Diego passou novamente à noite fora trabalhando como barman em uma boate. É um clube de público misto, constantemente insiste para que eu vá à caça como costuma dizer, e colocar a Sherolayne para malhar, mas ela está sedentária, contentando-se com exercícios leves em casa. — Diego? — chamo seu nome. — Sim, honey. Oh, meu Deus, estou mortinha — responde. Escolho um jeans e uma regata, calço o par de sapatos, e abro a porta do quarto, indo direto até a cozinha/sala. Encosto no batente e fico admirando a beleza do grande homem jogado no sofá. Não consigo definir sua beleza. Droga. Homens de sorte. Aproximo- me nas pontas dos pés, e puxo os tênis, jogando-os no chão. Por trás do seu 1,80m de altura, e lindos olhos castanhos tem uma história de vida muito triste. Preconceito, decepção, tortura física e psicológica. Quando vejo meus pais o tratando como filho, sinto um aperto no peito. Ainda não acredito que as pessoas que lhe deram a vida o torturaram durante anos, só por sua opção sexual. Faltou amor? E sobrou preconceito, incompreensão. Seu peito sobe e desce acompanhando o ressonar da sua respiração regular, indicando que já está dormindo. Continuo andando nas pontas dos pés até a geladeira. Pego uma fruta, e a bolsa de cima da cadeira, e saio sorrateiramente para não o acordar. Aperto o botão do elevador e aguardo. Logo os vizinhos do nosso andar também aguardam a chegada da caixa de metal. É como se combinássemos, mas aparentemente todos cumprimos a mesma carga horária. Ansiosa, confiro o relógio no pulso mais uma vez. Quando a porta dupla se abre, revelando uma grande quantidade de pessoas, considero a hipótese de esperar o próximo ou até mesmo descer de escada, mas quando vejo o sorriso do nosso querido condômino, Caio, não resisto e entro na lata de sardinha suportando o aperto. Droga, droga, não aprende mesmo. É só um homem bonito sorrir que a Sherolayne bate palmas empolgada. Oh, meu Deus, sinto como se faltasse o ar, além das fragrâncias misturadas dos perfumes das pessoas. Recuo alguns passos no pequeno confinamento para me afastar de uma senhora que provavelmente exagerou no perfume, e esbarro em algo duro, sólido, mas ao mesmo tempo macio, aconchegante. Estou dentro dos braços de Caio. Abaixo a cabeça envergonhada sem coragem para encará-lo. Algumas partes do meu corpo comemoram com gritos, palmas e confesso que até mesmo rojões barulhentos, porém a parte racional, aquela que me faz querer sair correndo e nunca mais encontrá-lo, no momento é quem controla a situação. Respiro fundo, controlando a respiração para não parecer a louca tarada do sétimo andar. — Está tudo bem — sussurra próximo à minha orelha. Fecho os olhos, lutando internamente contra a Sherolayne que insiste que devo aproveitar o momento e tirar uma casquinha do vizinho bonitão. Mas, não posso fazer isso, ou posso? — Não, você não pode — penso alto deixando as palavras escaparem da boca. — O quê? — questiona confuso, encarando-me. Droga... Droga... Nossa senhora das calcinhas molhadas, como resistir à tentação? Porque me colocais à prova logo pela manhã, ainda mais quando sonhei com aquele... Aquele... Sabe... Tenho raiva só de lembrar seu nome, ou melhor, eu não lembro. Como era mesmo? Pietro? Pablo? Quem quer saber o nome de uma criatura desprezível. — Desculpe, estou pensando alto. — Sorrio envergonhada. Só mais duas paradas, aguenta firme, Malu. Flashes de três anos atrás, naquele quarto contra a parede invadem meus pensamentos. Mesmo tão próxima do Caio, não sinto aquela eletricidade que percorreu meu corpo naquela noite. Foi inexplicável, incomparável. Esquece, Malu, esquece, foca no Caio. Não sei de onde, e como, mas um odor fedorento exala dentro do elevador, dificultando respirar. Fala sério, meu dia começou maravilhosamente bem. Prendo a respiração. Credo, alguém anda comendo muitos ovos nesse prédio. Graças a Deus, em fração de segundos chegamos ao térreo, como se tivesse uma bomba prestes a explodir, todos saem correndo, desesperados por ar puro. Agradeço gentilmente o vizinho por ter me acolhido mesmo sem ser sua intenção. Despeço-me indo na direção contrária a dele. Acelero os passos por alguns quarteirões até o ponto de ônibus. Sento no banco da pequena casa azul aguardando a condução. Pego o celular do bolso, e percorro o Facebook procurando algo útil, então, quando ergo a cabeça sou atingida com uma bomba pior do que a que soltaram no elevador. Em plena avenida, dirigindo um Camaro branco, com o braço apoiado na janela, e uma mão no volante, está Pierry. Não pode ser meus olhos são traiçoeiros e estão tentando me enganar, deve ser alguém muito parecido, impossível que depois de todos esses anos, iremos nos encontrar no Brasil, na minha cidade. Meu coração bate acelerado como se fosse saltar do peito, a sensação é de borboletas no estômago causando náuseas. Levanto rapidamente, deixando o celular cair no chão. Perplexa, em choque, permaneço encarando o homem sentado atrás do volante. E se for ele? Por que estou agindo assim? Não é da sua conta, ele não é importante, não é ninguém para você. Como se notasse minha presença, Pierry vira a cabeça, levando seus olhos diretamente até onde estou. Pela expressão no rosto com o olhar surpreso, confirmo o que suspeitava. É ele, esse homem, o Don Juan falsificado. Faço menção de abrir a boca, mas a fecho imediatamente. Lanço um último olhar em sua direção, e viro de costas para não o ver. Infantilidade? Talvez. Qual mulher madura nunca teve uma noite de sexo quente e casual? Só não quero ter contato nunca mais, nunca mais, repito mentalmente. Desço do ônibus em frente à escola. As crianças correm na calçada, despedindo-se dos pais, outros encontrando os amigos para entrar na sala de aula. Sorrio ao ver o quanto é lindo o gesto de uma criança, sempre sincero e puro, ao contrário de uns e outros que acha que pode... Ahhgrrrr... Resmungo comigo mesma. Esqueça isso, passou, foi só sexo, só sexo. Só sexo, nada. Espero que esse cretino nunca mais cruze meu caminho. Respiro fundo, e lembro dos braços de Caio. Caio, nada, Pierry contra a parede, quente, selvagem... Cala a boca, Sherolayne, você não opta por nada sua assanhada. É o vizinho sim, nada de parede ou quente. Não tem amor-próprio, eu, hein, se controla mulher.         Capítulo 5 Como diabos pude encontrar essa mulher depois de todo esse tempo? Ela tinha que morar logo na cidade de São Paulo. Ah, qual é, e sua reação como se não me reconhecesse. Duvido que não me reconheça, por isso virou de costas, fazendo-se de difícil. Ela não estava nada difícil naquela noite no hotel, enquanto a fodia contra a parede. Piso fundo no acelerador na marginal, ultrapassando os carros mais lentos. O som do motor ronca alto atraindo olhares curiosos. Sinto como se estivesse com algo entalado na garganta. Em três anos, Maria Luiza não mudou em nada. Continua linda, e sensual com seus seios fartos de prender atenção de qualquer homem com sangue quente. Ingrata. Salvei sua vida em Paris, tirando-a das ruas, já que estava bêbada igual um gambá, colocando-se em perigo. E se eu fosse um psicopata, estuprador ou qualquer coisa assim? Hoje, ela estaria enterrada em qualquer lugar, morta. Tudo bem, que também a teria matado se fosse necessário, mas não quer dizer que não sentiria remorso. Okay... Okay... Não sentiria remorso. O que posso fazer? É minha profissão, ganho a vida basicamente arrancando a de outras pessoas. Agradeçam ao meu querido pai, responsável por envolver o filho nesse mundo sombrio e solitário. Desde pequenos aprendemos que devemos seguir os passos dos pais. É considerado que são responsáveis pela criação e futuro. Mas, acho que Charlie ficou cego de raiva e dor depois do que aconteceu com a esposa. Quem pode culpá-lo, não é? Talvez fosse melhor se tivessem acabado o serviço, mas, os desgraçados queriam deixar uma testemunha para contar em detalhes. E adivinhem quem foi o sortudo. Eu. Enfim, isso ficou no passado, e hoje, sou forte graças às feridas que com o tempo cicatrizaram.

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