CAPÍTULO UM Era bom estar na estrada. É claro, pensou Chase Sullivan, que os limpadores de para-brisa mal faziam diferença sob a forte chuva daquela estranha tempestade de final de maio, mas já havia passado da hora de ele sair da festa de 70 anos da mãe. Todos os oito irmãos e irmãs juntos sob o mesmo teto eram sinônimo de muitas risadas, várias provocações... e pelo menos umas duas discussões sérias. Também não ajudara nem um pouco o fato de a acompanhante de Zach ter saído com Gabe al- guns meses antes. Junte seis irmãos com idades entre 27 e 36 e com certeza haverá confusão. Porém, como estava claro que nenhum dos dois irmãos queria um relacionamento sério com a garota, não 7/462 havia chance de eles se baterem por qualquer outro motivo que não fosse descarregar um pouco de energia com uns socos. Além disso, assim que Smith apareceu, a moça ficou tão ad- mirada que não deu atenção para mais ninguém. Chase sempre ria da maneira como as pessoas perdiam o controle com a presença do irmão que era astro do cinema. Smith era tão normal quanto todos os outros. Bem, talvez ter um iate de 45 metros frequentado por estrelas não fosse exata- mente normal. De qualquer forma, o motivo de a festa estar à beira de uma implosão era que suas irmãs gêmeas não estavam se falando. E elas não precisavam dizer uma palavra, bastava ver os olhares maldosos que uma lançava para a outra de cada lado da sala. Havia muito tempo, ele apelidara Lori e Sophie de Mazinha e Boazinha. Se não fosse pelo fato de serem cópias idênticas fis- icamente, Chase não acreditaria que faziam parte da mesma família. O estranho tinha sido que dessa vez na festa, Boazinha era quem parecia querer matar Mazinha. Se não estava en- ganado, Lori chegara até a se esconder de Sophie certa hora. 8/462 Ainda bem que tinha um motivo para sair de lá antes de elas começarem a puxar os cabelos uma da outra, Chase pensou ao fazer uma curva na estrada cada vez mais estreita que levava ao vinhedo Sullivan, na região vinícola de Napa Valley. Pelos quatro dias seguintes, faria uma sessão de fotos no vinhedo do irmão para a Jeanne & Annie, uma marca de roupas que vinha crescendo rapidamente e combinava a alta costura com o estilo caseiro. As modelos e a equipe ficariam na cidade, mas Chase iria para a casa de hóspedes de Marcus. Um raio iluminou o céu e, se houvesse acostamento sufi- ciente na estrada, Chase teria parado para tomar um pouco de chuva. Ele adorava a chuva. O tempo fechado mudava a aparên- cia do mundo, podia transformar um campo comum em um charco com milhares de pássaros em um pit stop improvisado. O clima que deixava a maioria dos fotógrafos em desespero — principalmente se dependiam do pôr do sol perfeito para ar- rasar nas fotos — era exatamente o que lhe dava energia. Era naqueles momentos, quando todo mundo estava com frio e nada “dava certo”, que a mágica acontecia. As modelos enfim baixavam a guarda e o deixavam enxergar para além da beleza maquiada e ver quem elas realmente eram. Chase 9/462 acreditava que era preciso existir uma verdadeira ligação emo- cional com a câmera para que a beleza real, emoldurada pelas roupas ou joias ou sapatos que as modelos usavam, aparecesse. É claro que, no começo da carreira, estar cercado de tanta beleza física fez de Chase um conquistador como todos os out- ros homens heterossexuais do mercado. No início, tinha sido um dos bônus do trabalho, mas, quando chegara aos 20 e tan- tos anos e percebera que o gosto da noite não durava muito, en- quanto suas fotografias seriam eternas, Chase diminuiu um pouco o ritmo. Por causa de suas viagens recentes de ida e volta da Ásia e também por não ter encontrado ninguém que o animasse, acabou mantendo a abstinência por cerca de um mês. Estava planejando sair do período de seca naquela noite com Ellen, uma das principais gerentes de Marcus, que Chase vira breve- mente enquanto definia os detalhes para a sessão de fotos. Uma noite de diversão e nudez sem compromisso era exatamente o remédio de que precisava. A ansiedade quase o impediu de notar a luz trêmula à direita da estrada. Nos últimos trinta minutos, não havia passado por nenhum carro, pois, em uma noite como aquela, a maioria dos 10/462 californianos lúcidos, que não tinham ideia de como dirigir com segurança com o clima ruim, ficava em casa. Chase diminuiu a velocidade e acendeu os faróis altos para enxergar melhor com tanta chuva. Não apenas havia um carro na vala, como uma pessoa caminhando sozinha no canto da es- trada cerca de 90 metros à frente. Ela provavelmente ouviu o carro se aproximar e virou-se para olhá-lo, e Chase pôde ver o movimento dos longos cabelos molhados em torno dos ombros da moça sob a luz dos faróis. Enquanto se perguntava por que ela não estava sentada den- tro do carro, seca e aquecida, ligando para o serviço de emer- gência da estrada e aguardando pelo socorro, ele parou o carro no canto da pista e saiu para tentar ajudá-la. Ela tremia en- quanto o observava se aproximar. — Você está ferida? Ela cobriu um lado do rosto com uma das mãos, mas bal- ançou a cabeça. — Não. 11/462 Ele teve de se aproximar mais para escutá-la com o barulho da água que atingia o asfalto e rapidamente estava se trans- formando em granizo. Embora tivesse desligado os faróis, já que seus olhos logo se acostumaram à escuridão, conseguiu ob- servar com atenção o rosto dela. Chase sentiu um aperto no peito. Apesar dos longos cabelos colados ao rosto e ao peito, e “rato molhado” fosse uma boa expressão para descrever-lhe a aparência, a beleza da mulher o impressionou. Em um instante, seus olhos de fotógrafo analisaram os traços dela. A boca era um pouco grande demais; os olhos, um pouco separados no rosto. Ela não chegava nem perto da magreza das modelos, mas, pela maneira como a camiseta e o jeans colavam em sua pele, ele pôde perceber que ela apro- veitava bem suas tentadoras curvas. No escuro, não podia adivinhar-lhe a cor exata dos cabelos, mas pareciam de seda, perfeitamente macios e lisos no ponto em que lhe cobriam os seios. Foi apenas quando Chase a ouviu dizer “meu carro está bem danificado, no entanto” que ele percebeu que perdera por 12/462 completo a ideia do que pretendia fazer ao estacionar e ir ao en- contro dela. Como sabia que estivera bebendo a imagem daquela mulher como se morresse de sede, esforçou-se para recuperar o equilíbrio. Já podia ver que o carro dela levara a pior. Não era necessário um mecânico como seu irmão Zach para concluir que o horroroso carro hatch estava beirando a perda total. Mesmo se o para-choque dianteiro não estivesse quase aos ped- aços por ter batido na cerca branca de uma fazenda, os pneus carecas nunca conseguiriam tração na lama. Não naquela noite, de qualquer forma. Se o veículo estivesse em uma situação menos precária, ele provavelmente diria para ela permanecer dentro dele enquanto tentaria tirá-lo de lá. Porém, um dos pneus traseiros estava pendurado na borda da vala. Chase fez um movimento com o polegar na direção de seu automóvel. — Entre no meu carro. Podemos esperar lá por um guincho. 13/462 Teve a vaga sensação de que as palavras soaram como uma ordem, mas o granizo começava a machucar, maldição! Os dois precisavam sair da chuva antes que congelassem. Porém, a mulher não se mexeu. Em vez disso, lançou-lhe um olhar que parecia dizer que ele era completamente maluco. — Não vou entrar no seu carro. Ao perceber o quanto devia ser assustador, para uma mulh- er, ficar presa e sozinha no meio de uma estrada escura, Chase afastou-se um pouco dela. Tinha de falar alto para ela ouvi-lo em meio ao granizo. — Não vou atacá-la. Juro que não farei nada para machucá- la. Ela só faltou se encolher ao ouvir a palavra “atacá-la” e Chase ficou alerta. Ele nunca fora um ímã para mulheres prob- lemáticas, não era o tipo de homem que gostava de salvar pas- sarinhos feridos. Porém, como tinha vivido com duas irmãs por muito tempo, sempre podia adivinhar quando alguma coisa es- tava errada. 14/462 E alguma coisa com certeza estava errada com aquela mulh- er, além do fato de o carro dela estar praticamente preso em uma vala lamacenta. Como queria fazê-la se sentir segura, ele ergueu as mãos. — Juro pela alma do meu pai que não vou machucá-la. Pode entrar no meu carro. Ela não recusou imediatamente e ele aproveitou essa vant- agem, acrescentando: — Quero apenas ajudá-la. E ele queria mesmo. Queria mais do que seria normal com uma desconhecida. — Por favor — insistiu. — Deixe-me ajudá-la. Ela o observou por bastante tempo. O granizo caía entre eles, ao redor deles, sobre eles. Chase percebeu que prendia a respiração, esperando a decisão dela. Não deveria se importar com o que ela fizesse. No entanto, por algum estranho motivo, ele se importava. 15/462 Chloe Peterson nunca se sentira tão molhada, tão infeliz… nem tão desesperada. Tinha corrido acima do limite de velocid- ade pelas últimas duas horas, antes de a tempestade chegar com força total. Havia desacelerado bastante sobre o asfalto ex- tremamente escorregadio, mas os pneus do seu carro estavam velhos e carecas e, antes que percebesse, o automóvel deslizara para fora da pista. Direto para uma vala lamacenta. Talvez tivesse sido mais fácil (e inteligente também) ficar sentada dentro do carro e esperar a tempestade passar. Porém, estava agitada demais para ficar parada. Precisava continuar em movimento ou os pensamentos que rodeavam sua mente iriam alcançá-la; assim, jogou a mochila nos ombros e saiu para a chuva, no momento em que começou a cair o terrível granizo. As pedrinhas machucavam-lhe a pele, mas ela gostava do frio, da dor, pois lhe davam algo em que prestar atenção em vez do que lhe acontecera poucas horas antes. 16/462 Ela não tinha certeza de onde se encontrava — ou para onde estava indo —, mas esperava estar caminhando em direção à cidade. Durante toda a noite, as estradas se mantiveram estran- hamente vazias, porém, mal havia começado a andar, percebera luzes vindo atrás dela. O medo a assaltou novamente quando o carro estacionou, e ela precisou parar e se preparar para enfrentar a situação. Estava sozinha em uma estrada de interior escura e molhada. Não estava com o celular e, mesmo que estivesse, duvidava que houvesse sinal suficiente no meio daquela chuva. E, depois, um homem… Um homem grande… Havia saído de um carro e caminhado em sua direção, dizendo-lhe para entrar no automóvel dele. De jeito nenhum. Ele tentara convencê-la de que ficaria segura com ele. Tinha dito todas as palavras certas, mas Chloe tinha muita experiên- cia com pessoas assim, que diziam com facilidade uma coisa e, depois, faziam outra. 17/462 — Não o conheço — ela disse. Ele podia ser um assassino, podia ter um machado escon- dido no carro. Não, iria a pé. Caminharia e encontraria um lugar para se secar mais tarde. Pôde ver a frustração estampada no rosto dele, sabia que o homem iria tentar convencê-la de novo quando, de repente, o barulho de pneus derrapando chegou até os dois. Antes que en- tendesse o que estava acontecendo, ele a estava puxando para junto de si. Não teve tempo de pensar em lutar contra ele, nem cogitou isso quando percebeu uma motocicleta em alta velocid- ade quase em cima deles. Fechou os olhos, preparando-se para o impacto, quando o homem, sem esforço, levantou-a e pulou na vala, segurando-a com força. Ela abriu os olhos bem a tempo de ver o pneu traseiro da motocicleta deslizar e finalmente parar no mesmo ponto onde estiveram um momento antes. Seu coração, que quase tinha parado, começou a bater rapidamente de novo, enquanto via a moto se afastar com velocidade. 18/462 — Você está bem?
Enquanto se perguntava por que ela não estava sentada den- tro do carro, seca e aquecida, ligando para o serviço de emer- gência da estrada e aguardando pelo socorro, ele parou o carro no canto da pista e saiu para tentar ajudá-la. Ela tremia en- quanto o observava se aproximar. — Você está ferida? Ela cobriu um lado do rosto com uma das mãos, mas bal- ançou a cabeça. — Não. 11/462 Ele teve de se aproximar mais para escutá-la com o barulho da água que atingia o asfalto e rapidamente estava se trans- formando em granizo. Embora tivesse desligado os faróis, já que seus olhos logo se acostumaram à escuridão, conseguiu ob- servar com atenção o rosto dela. Chase sentiu um aperto no peito. Apesar dos longos cabelos colados ao rosto e ao peito, e “rato molhado” fosse uma boa expressão para descrever-lhe a aparência, a beleza da mulher o impressionou. Em um instante, seus olhos de fotógrafo analisaram os traços dela. A boca era um pouco grande demais; os olhos, um pouco separados no rosto. Ela não chegava nem perto da magreza das modelos, mas, pela maneira como a camiseta e o jeans colavam em sua pele, ele pôde perceber que ela apro- veitava bem suas tentadoras curvas. No escuro, não podia adivinhar-lhe a cor exata dos cabelos, mas pareciam de seda, perfeitamente macios e lisos no ponto em que lhe cobriam os seios. Foi apenas quando Chase a ouviu dizer “meu carro está bem danificado, no entanto” que ele percebeu que perdera por 12/462 completo a ideia do que pretendia fazer ao estacionar e ir ao en- contro dela. Como sabia que estivera bebendo a imagem daquela mulher como se morresse de sede, esforçou-se para recuperar o equilíbrio. Já podia ver que o carro dela levara a pior. Não era necessário um mecânico como seu irmão Zach para concluir que o horroroso carro hatch estava beirando a perda total. Mesmo se o para-choque dianteiro não estivesse quase aos ped- aços por ter batido na cerca branca de uma fazenda, os pneus carecas nunca conseguiriam tração na lama. Não naquela noite, de qualquer forma. Se o veículo estivesse em uma situação menos precária, ele provavelmente diria para ela permanecer dentro dele enquanto tentaria tirá-lo de lá. Porém, um dos pneus traseiros estava pendurado na borda da vala. Chase fez um movimento com o polegar na direção de seu automóvel. — Entre no meu carro. Podemos esperar lá por um guincho. 13/462 Teve a vaga sensação de que as palavras soaram como uma ordem, mas o granizo começava a machucar, maldição! Os dois precisavam sair da chuva antes que congelassem. Porém, a mulher não se mexeu. Em vez disso, lançou-lhe um olhar que parecia dizer que ele era completamente maluco. — Não vou entrar no seu carro. Ao perceber o quanto devia ser assustador, para uma mulh- er, ficar presa e sozinha no meio de uma estrada escura, Chase afastou-se um pouco dela. Tinha de falar alto para ela ouvi-lo em meio ao granizo. — Não vou atacá-la. Juro que não farei nada para machucá- la. Ela só faltou se encolher ao ouvir a palavra “atacá-la” e Chase ficou alerta. Ele nunca fora um ímã para mulheres prob- lemáticas, não era o tipo de homem que gostava de salvar pas- sarinhos feridos. Porém, como tinha vivido com duas irmãs por muito tempo, sempre podia adivinhar quando alguma coisa es- tava errada. 14/462 E alguma coisa com certeza estava errada com aquela mulh- er, além do fato de o carro dela estar praticamente preso em uma vala lamacenta. Como queria fazê-la se sentir segura, ele ergueu as mãos. — Juro pela alma do meu pai que não vou machucá-la. Pode entrar no meu carro. Ela não recusou imediatamente e ele aproveitou essa vant- agem, acrescentando: — Quero apenas ajudá-la. E ele queria mesmo. Queria mais do que seria normal com uma desconhecida. — Por favor — insistiu. — Deixe-me ajudá-la. Ela o observou por bastante tempo. O granizo caía entre eles, ao redor deles, sobre eles. Chase percebeu que prendia a respiração, esperando a decisão dela. Não deveria se importar com o que ela fizesse. No entanto, por algum estranho motivo, ele se importava. 15/462 Chloe Peterson nunca se sentira tão molhada, tão infeliz… nem tão desesperada. Tinha corrido acima do limite de velocid- ade pelas últimas duas horas, antes de a tempestade chegar com força total. Havia desacelerado bastante sobre o asfalto ex- tremamente escorregadio, mas os pneus do seu carro estavam velhos e carecas e, antes que percebesse, o automóvel deslizara para fora da pista. Direto para uma vala lamacenta. Talvez tivesse sido mais fácil (e inteligente também) ficar sentada dentro do carro e esperar a tempestade passar. Porém, estava agitada demais para ficar parada. Precisava continuar em movimento ou os pensamentos que rodeavam sua mente iriam alcançá-la; assim, jogou a mochila nos ombros e saiu para a chuva, no momento em que começou a cair o terrível granizo. As pedrinhas machucavam-lhe a pele, mas ela gostava do frio, da dor, pois lhe davam algo em que prestar atenção em vez do que lhe acontecera poucas horas antes. 16/462 Ela não tinha certeza de onde se encontrava — ou para onde estava indo —, mas esperava estar caminhando em direção à cidade. Durante toda a noite, as estradas se mantiveram estran- hamente vazias, porém, mal havia começado a andar, percebera luzes vindo atrás dela. O medo a assaltou novamente quando o carro estacionou, e ela precisou parar e se preparar para enfrentar a situação. Estava sozinha em uma estrada de interior escura e molhada. Não estava com o celular e, mesmo que estivesse, duvidava que houvesse sinal suficiente no meio daquela chuva. E, depois, um homem… Um homem grande… Havia saído de um carro e caminhado em sua direção, dizendo-lhe para entrar no automóvel dele. De jeito nenhum. Ele tentara convencê-la de que ficaria segura com ele. Tinha dito todas as palavras certas, mas Chloe tinha muita experiên- cia com pessoas assim, que diziam com facilidade uma coisa e, depois, faziam outra. 17/462 — Não o conheço — ela disse. Ele podia ser um assassino, podia ter um machado escon- dido no carro. Não, iria a pé. Caminharia e encontraria um lugar para se secar mais tarde. Pôde ver a frustração estampada no rosto dele, sabia que o homem iria tentar convencê-la de novo quando, de repente, o barulho de pneus derrapando chegou até os dois. Antes que en- tendesse o que estava acontecendo, ele a estava puxando para junto de si. Não teve tempo de pensar em lutar contra ele, nem cogitou isso quando percebeu uma motocicleta em alta velocid- ade quase em cima deles. Fechou os olhos, preparando-se para o impacto, quando o homem, sem esforço, levantou-a e pulou na vala, segurando-a com força. Ela abriu os olhos bem a tempo de ver o pneu traseiro da motocicleta deslizar e finalmente parar no mesmo ponto onde estiveram um momento antes. Seu coração, que quase tinha parado, começou a bater rapidamente de novo, enquanto via a moto se afastar com velocidade. 18/462 — Você está bem? Chloe olhou para o homem que a havia protegido do perigo com o próprio corpo e, pela primeira vez desde que ele saíra do carro, ficou impressionada ao perceber o quanto ele era bonito. Não, ela admitiu em silêncio para si mesma. “Bonito” era uma palavra insignificante para um homem como aquele. Mesmo na escuridão, podia ver que ele faria todos os outros ho- mens parecerem insignificantes. Tão alto quanto ela pensara no início, mesmo na chuva fria. Ele era absolutamente maravilhoso. E o corpo dela estava reagindo com um calor surpreendente. Ou, talvez, percebeu de repente, aquele calor viesse porque ele ainda a prendia entre seus braços fortes. A maneira como ele a havia tirado do caminho da moto- cicleta acabara com sua desconfiança. E, em qualquer outra noite, talvez tivesse sido o suficiente. Mas seria mesmo? Os dois estavam salpicados de lama por terem caído no barro. Ela se esforçou para se levantar, tentar organizar as idei- as e, assim, chegar a algum tipo de decisão racional. 19/462 — Espere um minuto — ele disse. — Deixe que tiro você daqui. Alguns momentos depois, ele a colocou na lateral da estrada. — Não é seguro ficar aqui. Para nenhum de nós. O bom senso lhe dizia que ele estava certo e, ainda assim, continuava cautelosa. Inacreditavelmente cautelosa. Porém, naquele momento, que outra escolha poderia ter? Pensando de novo na maneira como ele a tinha salvado do perigo, Chloe por fim concordou: — Certo. Vou com você. Esperava de verdade não se arrepender dessa escolha. CAPÍTULO DOIS Graças a Deus, pensou Chase quando ela finalmente concordou em ir com ele. Aquela motocicleta lhe dera um susto de parar o coração. Não tinha pensado, tinha apenas agido para salvar a moça. Salvar os dois. Seu instinto de cavalheiro o fez estender a mão para pegar a mochila dela. Ela logo deu um pulo para trás. — Por favor, não. — Disfarçou aquele rápido ataque de medo e moderou a voz: — Eu posso carregar minha mochila, obrigada. 21/462 A maneira como ela havia saltado para longe do alcance dele poderia ferir o ego de um homem. Ao mesmo tempo, Chase sabia que era apenas bom senso uma mulher manter a guarda diante de um cara estranho em uma situação como aquela. Infelizmente, enquanto ela andava até o carro, não con- seguiu desviar os olhos das suas doces curvas. Porém, qualquer homem com irmãs mais novas, em especial duas meninas bon- itas que se metiam em mais encrencas do que ele gostava de lembrar, presta muita atenção no modo como tratar as mul- heres. Ele e os irmãos podiam gostar de se divertir — e muito —, mas nenhum deles agarraria uma mulher à força. Não, preferiam que as mulheres implorassem por eles. E não era o momento de pensar em sexo. Não quando tinha uma mulher semiafogada nos braços... bem, no seu carro pelo menos, já que ele prometera que suas mãos não chegariam nem perto dela. Mesmo sabendo que os bancos de couro nunca mais seriam os mesmos depois de ficarem cheios de água e lama, Chase ab- riu a porta do lado do motorista e deslizou para dentro. O vapor subiu das roupas deles e condensou-se nas janelas, deixando o carro com um clima ainda mais íntimo. Chase não pôde deixar 22/462 de notar que a passageira-surpresa tinha um aroma muito bom, como o de chuva e flores recém-abertas. — Para onde estava indo? — ele perguntou. Em vez de responder a pergunta, ela pediu: — Se você pudesse me levar até o motel mais próximo, seria ótimo. — Fez uma pausa e, depois, acrescentou: — Um lugar barato seria melhor. Ao ver seus planos para aquela noite serem levados pela chuva minuto a minuto — e também ao tentar reprimir a forma como o aroma dela estava deixando seus sentidos malucos —, Chase acabou oferecendo, com uma voz mais áspera que de costume: — Olha, tenho um lugar grátis para você passar a noite. Poderemos ligar para o serviço de emergência da estrada de lá. Seria melhor esperar até que ela estivesse seca e aquecida para dar a notícia de que, mesmo que o serviço de emergência da estrada pudesse tirar o carro dela da vala, era provável que não conseguisse fazê-lo funcionar de novo. 23/462 — Obrigada pela oferta — ela respondeu, ainda com um tom de cautela, mas firme. — Um motel está ótimo, de verdade. — Encolheu os ombros, era uma sombra em movimento no interi- or escuro do carro. — E não se preocupe em ligar para o serviço de emergência. A esta altura, eu devia deixar meu carro na vala. A exaustão expressa na voz dela parecia brigar com uma in- crível disposição interior. Embora fosse óbvio que não tinha dinheiro para lidar com a situação, não ficou se lastimando. Chase sabia que deveria apenas levá-la a um motel, ela já tinha pedido isso mais de uma vez até aquele momento. No ent- anto, não iria deixá-la em um motel sujo, de jeito nenhum. Não se quisesse poder olhar para si mesmo no espelho pela manhã sem ver a palavra canalha escrita na testa. Além disso, seus in- stintos lhe diziam que ela precisava de mais ajuda do que uma carona até um motel. Chase aprendera cedo com a mãe e as irmãs que não deveria contrariar as vontades de uma mulher. Ele não tinha dúvidas, a moça ia ficar furiosa com o que estava prestes a fazer. 24/462 Mas nada disso, nem as sirenes de alerta que soavam em sua mente, foi suficiente para demovê-lo da ideia de que precisava ajudá-la de alguma maneira. Girou a chave no contato e, enquanto voltava com cuidado para a estrada, deu-se conta de que não sabia o nome dela. Já que a estava levando para o calor e o conforto da grande casa de hóspedes do vinhedo do irmão (quisesse ela ou não), pensou que algumas formalidades não seriam má ideia. — Meu nome é Chase Sullivan. Nenhum som veio do banco do passageiro e, inexplicavel- mente, ele se viu tentando conter um sorriso malicioso. Quando fora a última vez que uma mulher não havia se jogado nos seus braços? Mas aquela não tinha lhe dado nem uma informação sequer, tinha? Nem seu nome, nem para onde estava indo. Algo grave com certeza estava acontecendo. Seria muito mel- hor se deixasse para lá e levasse a mulher a um motel para poder ter sua noite de sexo vazio com Ellen no vinhedo. Então, por que não fazia isso? 25/462 E por que sentia-se estranhamente atraído por essa com- pleta estranha? Deixou o silêncio pairar entre os dois, sabendo que ela só re- sponderia se estivesse confortável o suficiente com ele para fazê-lo. Por fim, ouviu-a falar: — Meu nome é Chloe.
Um nome bonito. Seria normal comentar, mas ela vinha se mostrando tão sensível que poderia entender errado. Também reparou que ela não havia dito o sobrenome. Ela esticou o pescoço para olhar pela janela para uma placa mal iluminada. — Aonde você está indo? — perguntou em pânico. — A cid- ade fica na direção contrária. Por sorte, naquele momento ele viu a placa do Vinhedo Sul- livan, apertou o botão do controle remoto para abrir os portões e começou a subir o estreito caminho. 26/462 — Chase. — A voz dela tinha um tom forte de alerta, mas isso não o impediu de gostar da maneira como seu nome soava em seus lábios. — Eu pedi para me levar a um motel. Ele pensou nas diferentes maneiras como poderia respon- der, se deveria pedir desculpas ou tentar acalmá-la. Porém, como percebeu que ela não engolia sua conversa como a maior- ia das mulheres, apenas disse: — A casa de hóspedes fica mais perto. E é mais agradável também. Ela fez um som mal disfarçado de irritação. — Você sempre ignora o que as pessoas querem e faz o que lhe dá na telha? Mais uma vez, havia várias respostas possíveis, mas apenas uma sincera. — Basicamente sim. — Sua mãe deve ficar muito orgulhosa — Chloe falou, com sarcasmo. 27/462 Ele gostava da forma como as palavras lhe escapavam, con- forme ela ficava um pouco mais confortável com a ideia de estar no carro dele, mas, um instante depois, a julgar pelo jeito como se mexia desconfortável no banco, percebeu que ela estava pre- ocupada com a resposta mal pensada que dera. Com o tom mais descontraído que conseguiu, ele comentou: — Por sorte, eu tenho cinco irmãos e duas irmãs bravas para distraí-la. Esperava que ela soltasse outra resposta espontânea ao ouvir aquela informação e ficou feliz quando ela se virou na direção dele e perguntou: — Você está brincando, não é? — Não. Oito no total. — Ele tirou os olhos da estrada por tempo suficiente para sorrir para ela. Ela balançou a cabeça. — Sua mãe deve ser uma santa. 28/462 Ótimo. Ele conseguira distraí-la por algum tempo, o bastante para estacionar atrás da casa de hóspedes. E, dessa vez, ela não parecia preocupada com o que havia dito... Ou com a reação que ele poderia ter. — Olhe — falou, com delicadeza —, eu sei que você preferia estar em outro lugar, mas meu irmão é o dono deste vinhedo e não acho que faça sentido pagar por um quarto porcaria em um motel barato à beira da estrada quando temos cinco quartos vazios aqui. — Eu não o conheço — ela repetiu. — Eu sei. E, acredite, se você fosse uma das minhas irmãs, eu não ia querer que você confiasse em um cara que encontrou na beira da estrada no meio de uma tempestade. Chase reparou que ela ficou surpresa com a maneira como ele concordava com sua desconfiança. — Por isso, vou acomodá-la aqui e, depois, vou para a casa do meu irmão do outro lado da propriedade. Esperou que ela dissesse “não” de novo. E a verdade era que, se ela insistisse em ir para um motel, em vez de jogá-la por 29/462 cima do ombro e acorrentá-la a uma das camas da casa de hós- pedes, teria de fazer como ela queria. Ele afastou a chama de desejo que tentou atravessá-lo com a imagem de amarrá-la à cabeceira da cama. Deus sabia que, se ela visse o efeito que causava nele naquele momento, começaria a arranhar a porta do carro para poder fugir correndo e grit- ando até a cidade. — Então — ela disse devagar, articulando bem a palavra, o que teve o resultado infeliz de atrair os olhos dele para seus lá- bios cheios e expressivos. Meu Deus, ela devia ser uma das mulheres mais lindas que ele vira em meses. Anos, talvez. E mulheres bonitas eram seu trabalho. — Você não vai ficar comigo? Ah, finalmente. Era a primeira vez que ela não discutia com ele ou dizia que não podia ficar ali. Para aproveitar o momento, Chase insistiu: — Vou apenas ajudá-la a se acomodar e irei para a outra casa passar o resto da noite. 30/462 Antes de ela poder mudar de ideia, tentou pegar a mochila dela, mas ela se virou e abriu a porta do carro, saindo para a chuva sem que ele pudesse ajudá-la com aquela maldita coisa. Por algum motivo maluco, carregar a mochila tinha se tornado uma obsessão para ela. E ele queria que ela confiasse nele o su- ficiente para aceitar ajuda. Ela correu para a varanda coberta. A governanta do irmão dele tinha deixado a luz da frente acesa para a sua chegada e ele foi presenteado com a melhor imagem de Chloe até então. O ca- belo, que tinha começado a secar um pouco no carro, parecia mesmo de seda, tão brilhante que ela poderia ganhar muito dinheiro em comerciais de xampu. Ela tinha um corpo maravil- hoso. Não era magra demais, tinha lindas curvas que faziam os dedos dele coçarem de vontade de tocá-la. Que havia de errado com ele? Tinha de parar de pensar nela daquela maneira. Ele a levara até a casa do irmão para livrá-la de um problema, não para livrá-la das roupas. Enquanto ela o esperava na varanda, com uma das mãos se- gurando a mochila e outra tapando aquele ponto acima da bochecha direita de novo, Chase perguntou-se por que ela 31/462 sempre escondia o rosto daquele jeito. Tinha um mau pressentimento. Como sabia que ela não se sentiria mais confortável se a fi- casse encarando com as sobrancelhas franzidas, tentou se con- centrar na maneira como a luz da varanda a banhava com um brilho fraco. Decidiu tirar algumas fotos das modelos, na noite seguinte, bem naquele lugar. Subiu os degraus e caminhou na direção da porta da frente. — Vamos entrar e nos aquecer. Segurou a porta aberta para ela e ouviu-a murmurar “pelo menos sua mãe lhe ensinou alguma coisa”, ao passar. O aroma de Chloe envolveu-o novamente, em um golpe de sensualidade. O problema era que ela era uma mulher maravil- hosa e ele, um homem que adorava mulheres maravilhosas. Para piorar, a mochila bateu no batente da porta e empurrou seu quadril contra a virilha dele. Ele mal conseguiu reprimir um gemido. Minha nossa, se fosse menos esperto, e se ela fosse qualquer outra mulher, pensaria que ela fizera de propósito. No entanto, 32/462 vendo que só faltara ela correr em disparada para o outro lado da sala, teve certeza de que não havia nada de intencional no efeito que ela lhe provocava. Havia quase um mês que Chase não fazia sexo, mas o corpo dele reagia à presença de Chloe como se fizesse um ano, como se ele tivesse 14 anos de novo e estivesse escondido no vestiário feminino enquanto as líderes de torcida se trocavam. Ele sorriu, pensando naquela tarde. Ah, sim, tinha sido bom ser um garoto de 14 anos naquele dia. Com certeza aquilo fora uma das mel- hores ideias do Ryan. Uma rajada de vento soprou chuva na varanda e Chase fechou a porta e entrou na casa, onde Chloe estava parada, desconfortável, ao lado da cozinha. Ele andou devagar pelo aposento e concentrou-se para não devorá-la com os olhos. — Está com fome? Ela balançou a cabeça, com a mão ainda sobre o rosto. — Você está machucada. — Não era uma pergunta. — Deixe- me ver seu rosto. 33/462 Ela tentou dar um passo para trás, mas o balcão de granito impediu. — Não. Estou bem. Ele podia ver o quanto ela estava se esforçando para ser dur- ona e forte. Por que ela não entendia que ele estava bem ali, oferecendo ajuda? Sem se importar em não assustá-la, foi até ela e colocou sua mão sobre a dela. O primeiro toque fez os dois ofegarem e ele podia jurar que as pupilas dela se dilataram por um milésimo de segundo antes de ela se desvencilhar dele. — Eu sabia que não devia ter vindo para cá com você — ela exclamou quando começou a atravessar o aposento correndo. Porém Chase era mais rápido e a agarrou antes que ela pudesse fugir. Ainda estava experimentando o calor suave dela, a pressão dos seios amplos contra seu peito, o “v” quente entre as pernas dela que acomodava tão bem as partes íntimas dele, quando viu o que ela estivera escondendo. — Meu Deus, Chloe, isso aconteceu no carro? 34/462 Um lado do rosto dela tinha um enorme hematoma com to- das as cores do arco-íris e um longo arranhão no centro. Lágri- mas brilharam nos olhos dela, mas pareciam ser causadas mais pela frustração do que pela dor. — Esta não é a melhor noite da minha vida. Mais uma vez, ela não respondera à pergunta. No entanto, ao não dizer “sim”, ele pôde presumir que o ferimento não fora causado por uma batida no volante quando o carro caíra na vala. Qualquer outra mulher estaria chorando, mas não aquela, embora fosse claro que algo muito louco tinha lhe acontecido nas últimas horas. — Não mesmo — ele respondeu, com suavidade. Quanto mais olhava para ela, mais bravo ficava por causa do ferimento. Ele já brigara com os irmãos o bastante para saber o quanto aquilo doía, mas sabia que não devia fazer daquilo um escândalo. Não ia ferir o orgulho dela... Não quando alguém já havia feito um trabalho daqueles em seu rosto. — Você colocou gelo aí? 35/462 Ela balançou a cabeça e ele, relutante, soltou-a e foi para a cozinha. Depois de encher uma sacola plástica com gelo, envolveu tudo em um pano de prato limpo e macio. Ela não saíra do lugar onde ele a impedira de correr. Ele poderia facilmente levar o gelo para ela, mas sabia que era importante ela começar a confiar nele — pelo menos um pouco — para poder ajudá-la. Todos os instintos dele gritavam, desde o instante em que a vira pela primeira vez, que o problema dela era muito maior do que apenas a perda de controle do carro na chuva. Às vezes, era terrível estar certo. — Eu não mordo. Juro. A última coisa que ele esperava que ela fizesse era baixar o olhar na direção do seu membro ainda latejante, erguer as so- brancelhas e dizer: — Sério? 36/462 Feliz em ver que qualquer resíduo de lágrimas que estivesse dentro dela não sairia mais, ele abriu um sorriso com o comentário. — Eu devia ter dito “não mordo, a não ser que...”. Ela levantou uma das mãos para interrompê-lo e terminou a frase com voz sarcástica: — ... “a não ser que você queira” — ela completou, como se tivesse ouvido aquilo centenas de vezes antes. — Tanto faz. Não estou interessada em você. Nem agora, nem nunca. As palavras dela eram entediadas, duras, mas ela se aprox- imou dele. — Mas aceito o gelo. Ele entregou para ela e quando Chloe estava começando a agradecer, pressionou o gelo com força demais contra o rosto e ofegou de dor. — Aqui — ele disse —, deixe-me fazer isso. 37/462 Aproximando-se o suficiente para tocá-la de novo, deslizou os dedos da mão esquerda sob os dela enquanto lhe apoiava a cabeça com a mão direita. Chase não ficou surpreso ao perceber que o clima entre os dois por fim melhorou. Tudo por conta da ereção que não con- seguia controlar e dos comentários sarcásticos dela. Quem imaginaria que isso bastaria? Esperava que ela se afastasse dele, dissesse que podia se cuidar sozinha, insistisse que ele não a tocasse. Em vez disso, teve outra surpresa quando ela falou: — Você é bom nisso. A voz suave dela não ajudou a interromper o fluxo de sangue que descia pelo corpo dele até suas partes íntimas. — Cinco irmãos, lembra? — ele comentou, com um breve sorriso. — Embora minhas irmãs fossem geralmente as respon- sáveis pelos hematomas mais feios quando brincávamos. — Abriu mais o sorriso. — Fedelhas! 38/462 Ela o encarou e ele desistiu de controlar sua reação à onda de desejo que o abalou. Os olhos dela eram extraordinários, um verde vibrante ao redor da pupila, mas preenchido no restante pelo azul. — Você gosta muito dos seus irmãos e irmãs, não é? Os olhos dele percorreram sua boca enquanto ela falava, dando a chance de ele apreciar as curvas cheias do lábio inferi- or, o doce formato de coração do lábio superior. Não havia dúvidas, estava a caminho de perder total e com- pletamente a cabeça por aquela mulher. Uma mulher que clara- mente trazia um passado complicado. Ele nunca fora um homem interessado em lidar com o pas- sado. Parecia que o universo estava lhe pregando uma bela peça naquela noite. Porque ele estava interessado, com certeza. — Estou com alguma coisa na boca? — ela indagou, meio ir- ritada, meio divertida com o encantamento óbvio que ele demonstrava. Chase gostou. Preferia que ela risse dele a fugir dele. Recusava-se a pensar no depois, a deixar seus pensamentos 39/462 irem na direção em que estavam doidos para ir… A direção em que ele a imaginava nua e saboreava cada pedaço da sua linda pele. Em primeiro lugar, tinha de convencê-la a realmente pas- sar a noite lá. E não fugir ao nascer do dia. Alerta de que sua ereção estava aumentando ainda mais por trás do zíper do jeans, ele virou o quadril para longe do quadril dela antes de responder: — Não, sua boca está perfeita. Um rubor espalhou-se pelo lado do rosto dela, tomando a face que ele não cobria com a compressa. — E sim, meus irmãos são demais. Uma expressão determinada surgiu no rosto dela. Chloe virou a cabeça e baixou as pálpebras para que ele não pudesse mais fitar seus olhos impressionantes... e expressivos. — Está melhor agora, obrigada. Estou muito cansada. Pode me mostrar onde fica o quarto? 40/462 Ele queria mantê-la por perto e fazer perguntas até que ela dissesse quem a tinha machucado. Não era preciso ser um gênio para perceber que ela estava fugindo de alguém. Todas as células do corpo de Chase queriam protegê-la, mas, apesar de a barreira inicial ter sido quebrada, sabia que ela não estava nem perto de confiar nele ainda. — Os quartos ficam no final do corredor — ele disse, mas, embora já passasse da hora de deixá-la ir, não conseguia. O calor e as curvas suaves dela eram bons demais, certos de- mais, para que ele se afastasse. Chloe, infelizmente, não teve problemas para sair dos braços dele. Já que era provável que um homem tivesse feito o estrago no rosto dela, ele se perguntou se Chloe seria casada. Seria aquele o trabalho de um marido abusivo? Chase não costumava examinar os anéis das mulheres à pro- cura de uma aliança, mas, daquela vez, era importante. Não foi sutil ao olhar para a mão esquerda dela. Ele nem tentou ser sutil. Ora, ela já tinha visto a ereção que lhe provocara. E 41/462 sentido também. Havia prometido não tocar nela pelo restante da noite, mas não dissera nada sobre o futuro. E precisava saber se ela estava apanhando de um cara com quem era casada. Ela estava com a mão bem fechada, mas ele não viu um anel. Ótimo. Isso significava que, depois que descobrisse o que acontecera com ela, depois que ela começasse a confiar nele, não haveria uma única razão para ele não poder começar um trabalho de sedução lento e persistente. Quando por fim olhou para o rosto de Chloe, ela o estava en- carando com o mesmo ar de irritação de antes, mas sem nen- huma sombra de divertimento dessa vez. Pego no flagra. — O quarto? — Ela ergueu uma das sobrancelhas. Bem alto. — Você ia me mostrar onde fica. Ele colocou as mãos na mochila dela. — Por aqui. 42/462 Ela também esticou o braço para pegar a mochila e os dois jogaram uma ridícula partida de cabo de guerra com a bolsa de lona verde-pálido por alguns segundos. Chase sabia que devia deixá-la continuar carregando a mochila, mas ela não podia ter mais de 1,65 metro de altura, contra o 1,90 metro dele, e ele cal- culou que era uns 36 quilos mais pesado. Podia carregar a maldita mochila para ela. Ainda agarrada à bolsa com as duas mãos, ela comentou: — Você tem mesmo um desejo de carregar minha mochila, não é? Ele estava segurando com força o seu lado da lona quando respondeu: — Eu ia dizer o mesmo a seu respeito. Ela soltou a mochila tão rápido que ele cambaleou. Balançou a cabeça e murmurou: — Nunca entendi por que os homens acham que têm de ser tão machões. — Querer ajudá-la com a mochila não é ser machão. 43/462 — Tem certeza? — Talvez seja apenas porque minha mãe me educou bem — ele retrucou, jogando as palavras dela contra ela mesma. Ele não esperou que ela argumentasse mais… Não quando ele estava chegando tão perto de dar um beijo naquela boca linda e esperta, quisesse ela ou não. Ele a guiou pelo corredor até a suíte principal, onde tinha planejado dormir. Os outros quartos tinham colchões de alta qualidade, mas ele queria que Chloe ficasse com o melhor. Chase abriu a porta e estava prestes a tocar no interruptor quando percebeu que a luz já estava acesa. Seu cérebro enchar- cado demorou mais do que deveria para perceber que a cama não estava vazia. E uma mulher nua esperava por ele. Ele se esquecera completamente de Ellen, mas estava claro que ela não se esquecera dele. Se a noite tivesse sido diferente — bem diferente —, ele teria ficado muito animado ao encontrá-la despida e pronta. Porém, depois de conhecer Chloe, 44/462 Chase estava tão desanimado com a presença nua de Ellen na casa quanto era possível. Antes que pudesse pensar rápido e tirá-la dali, Chloe saiu de trás dele. Ele esperou que ela perdesse o fôlego com aquela afronta, que fizesse o inevitável: agarrasse a mochila e saísse correndo de volta para a chuva. Mas tudo que ela fez foi rir. — Talvez — ela disse, sem disfarçar a risada — tenha outro quarto para mim? — Riu de novo. — De onde não dê para ouvir nada do que acontece aqui, se for possível, por favor. Ele lançou-lhe um olhar que dizia que ela era louca. Chloe não podia pensar que ele transaria com Ellen enquanto ela es- tava na casa, podia? Mas, então, perdeu noção do problema conforme a risada constante dela envolvia seus sentidos. Meu Deus, adorava aquele som. Tão fácil. Direto da alma. E o sorriso dela era muito bonito. Lindo. 45/462 Ellen ainda estava inteiramente nua na cama, mas ele não conseguia parar de olhar para Chloe. Tivera vontade de beijá-la quase desde o momento em que a conhecera. Agora queria beijá-la até que ela desmaiasse e fazê-la sorrir, ouvir sua doce risada, com a mesma força. — Chase, quem é ela? Ellen ainda não tinha se mexido para se cobrir e ele reparou que ela não era mesmo o tipo dele, no final das contas. Ele preferia as curvas de Chloe aos músculos tesos de Ellen. E cachos tingidos de loiro não eram nada comparados aos cabelos castanho-claros que refletiam a luz enquanto balançavam sobre os ombros e as costas de Chloe sempre que ela se mexia. Ela parecia animada demais para a situação quando re- spondeu por ele: — Meu nome é Chloe. — Outro sorriso maldoso. — Chase me pegou hoje. — Balançou a cabeça na direção dele e acrescentou: — Você sabe como é. Garota com problemas na beira da estrada conhece um cara com uma BMW. 46/462 Ellen parecia mais confusa do que brava. Ela olhou para Chase e pareceu decidir algo antes de falar: — Como você é fotógrafo e anda com um pessoal modern- inho, eu devia ter imaginado que gosta desse tipo de coisa. Com a sensação de que tinha entrado em uma cena surreal sendo gravada para um filme, Chase teve de perguntar: — De que tipo de coisa você acha que eu gosto? — Você sabe, ménage e tal — Ellen respondeu ao se sentar de pernas cruzadas na cama, dando aos dois uma visão direta de suas partes íntimas; totalmente depiladas. “Minha nossa”, ele pensou, com uma careta, “ela precisa se cobrir.” Ele abriu o guarda-roupa e tirou um roupão, jogando-o para ela do outro lado do quarto. — Faz um tempo que não fico com outra mulher — Ellen afirmou —, mas tenho certeza de que não esqueci o que fazer. Ela voltou sua atenção de Chase para Chloe. 47/462 — É um prazer conhecê-la, Chloe, mesmo sendo um pouquinho inesperado. Meu nome é Ellen, a propósito. — Ela mal parou para respirar. — Você é muito bonita. Acho que não será nada difícil entrar no clima. Chloe parecia muito confusa com a maneira como Ellen ol- hava para ela, claramente analisando como ela se sairia na cama. — Obrigada — ela acabou dizendo —, mas acho que não es- tou a fim de um ménage esta noite. A maneira calma como ela disse aquilo provocou em Chase pensamentos malucos. Ela já tinha feito um ménage antes? A simples ideia de um homem e uma mulher tocando nela ao mesmo tempo o deixou furioso. Não podia nem se permitir pensar em dois homens ou romperia uma veia. Ele nunca havia procurado relacionamentos sérios, estivera muito feliz com seus encontros casuais dos últimos 32 anos. Como estava sempre na estrada, deixar as coisas claras e simples era o melhor para seu estilo de vida. Nunca invejara os colegas que tinham esposa e filhos esperando em casa por eles. 48/462 Porém, desde o momento em que vira Chloe pela primeira vez, ele quisera protegê-la... e mais. — Ai, meu Deus! — Ellen disse, de repente, quando final- mente viu o horroroso hematoma de Chloe. — O que aconteceu com o seu rosto? Chase odiou ver todos os traços da risada fugirem do rosto de Chloe. — Vou encontrar outro quarto sozinha. Boa noite. Ele queria ir atrás dela, mas tinha de lidar com Ellen antes. — Ela está bem? — Ellen perguntou depois de Chloe ter fechado a porta do quarto. Ele passou a mão pelo cabelo molhado. — Ela vai ficar bem — ele garantiu. — Olha, hoje não vai mais acontecer. — Por causa dela? Chase balançou a cabeça.