EU FUI ABANDONADA pelos meus pais neste internato quando ainda era bebê. Pelo menos foi isso que a madame sempre me contou. Sei que todos têm uma história e suas origens, e apesar da minha ser desconhecida, isso não me impede de sonhar com algo maravilhoso que ainda pode estar por vir. Fui crescendo neste lugar, acostumando-me com a vida aqui, e conforme me tornava uma garota mais madura, passei, finalmente, a entender a verdade: vivo em um prostíbulo. No começo, eu não entendia o porquê de tratarem a gente como mercadoria, mas hoje sei que valemos muitos dólares e que há algumas transações milionárias envolvidas e gente grande, como multimilionários, políticos corruptos e até mesmo chefes de máfias. Nós somos preparadas desde cedo para ser esposas perfeitas em tudo, como o próprio nome da academia diz. Até a nossa alimentação é regrada para não engordarmos muito. Além disso, somos divididas por idade e cor da pele. Eu faço parte das loiras com 18 anos, olhos azuis e um metro e meio de altura. Costumo dizer que meu comprimento é bastante desproporcional à minha idade. Enquanto isso, a Chelsea, de apenas 15 anos, tem quase o dobro do meu tamanho. Bem... Exagero é uma das minhas características principais. Chelsea é a minha melhor amiga de todas, e é como uma irmã para mim. Somos inseparáveis. Eu sei que irei deixar este lugar um dia, e o motivo mais óbvio é: serei vendida para algum milionário que deseje ter uma mulher submissa para saciar todos os seus desejos. Faço parte da categoria de garotas inocentes e virgens que valem milhões de dólares para os desgraçados fúteis que só gastam com sapatos caros e roupas de grifes. É desumano a maneira como eles olham para nós, e a pior parte de tudo isso são os leilões que organizam uma vez por mês. Sinceramente, a minha vida nunca foi fácil, mas, mesmo assim, jamais perdi a esperança de que algo diferente possa acontecer. Quem sabe um príncipe encantado venha em seu cavalo branco me salvar? Eu não conheço o mundo lá fora, as pessoas de lá ou o amor; apenas a dor. A dor da rejeição. A dor do abandono. A dor da discriminação A dor da minha infelicidade. Por que nunca fugi? Porque é praticamente impossível fazer isso. O local é rodeado por seguranças armados que não têm receio de atirar contra qualquer uma de nós que tente escapar. Isso aconteceu com uma garota há dois dias. Foi lamentável a maneira como ela foi brutalmente assassinada. Essa é a nossa realidade. E na minha realidade, a fase de lamentações já passou, porque aprendi que não tenho como fugir do meu destino, por mais que ele seja horrível e completamente abominável. Essa sou eu: Laiza Nayara; Iza para os mais íntimos. Chelsea me deu esse apelido. Sou uma menina totalmente diferente das demais da minha idade, pois fui criada para obedecer fielmente àqueles que são superiores a mim. O direito de escolha nunca fez parte da minha vida, e nunca fará. Como destinos são incertos, a única coisa que tenho certeza é de que serei feliz algum dia, mesmo que leve anos para que isso aconteça. Capítulo Um CAMINHO O MAIS rápido que minhas pernas podem ir, sentindo minha respiração ofegante ecoar por todo o corredor. O sinal está tocando, fazendo um barulho imenso, e isso significa uma única coisa: reunião de última hora. Meus livros quase caíram no chão quando eu estava andando tranquilamente e o som começou a ecoar. Passo pelos corredores vazios, imaginando que serei a última a chegar no local. Com certeza levarei uma bronca daquelas na frente de todo mundo. Aqui, no “orfanato” sempre estamos estudando, pelo fato de haver homens que gostam de mulheres inteligentes aos seus lados. Ridículos! Nunca me acostumei com a ideia de que, algum dia, serei vendida para um verme maldito. Aos meus 18 anos de vida, a única coisa que aprendi, foi a me comportar diante de um homem e a obedecê-lo fielmente. Quanto a isso, já estou conformada. Prefiro ser de um só do que de vários diferentes a cada noite, como acontece com algumas meninas daqui. No meu caso, a senhora Cloe, a diretora-chefe, afeiçoou-se por mim. Tenho a sorte de ter o seu apoio. Segundo ela, eu terei um bom casamento e, um dia, serei feliz. Eu confesso que a madame alimentou essa esperança em mim ao longo dos anos, por estar sempre me dizendo o quanto tem algo grande à minha espera. Finalmente, chego no salão de reuniões com meu uniforme um pouco amassado. Isso deve ter acontecido na hora que eu quase caí no chão enquanto corria até aqui. Um dos instrutores está falando o quanto não tolera atrasos da nossa parte, e eu preciso ficar bem quietinha atrás de Chelsea, que me olha preocupada. Logo desvia sua atenção para a frente, para não levar bronca. Ela é a pessoa mais importante para mim, pois é como uma irmã. Lembro-me da sua chegada aqui, ainda bebê. A madame não gostava quando eu ficava perto dela, mas logo desistiu dessa ideia absurda. Ninguém nunca irá destruir o amor que sentimos uma pela outra; um sentimento puro, ingênuo e um dos mais verdadeiros que existe em todo o mundo. Percebo que a diretora mantém um olhar sério sobre mim, por não tolerar atrasos, mas a cobrança comigo parece maior em comparação às outras garotas. O meu cabelo deve estar sempre bem penteado, sem nenhum fio fora do lugar, meu uniforme impecável e meus sapatos brilhando o tempo todo. Posso ver a face dela. A madame é rígida, não demonstra muitos sentimentos na maior parte do tempo e se chateia até se uma de minhas meias não estiver igual à outra. Sem contar que ela sempre me tratou como uma bonequinha de porcelana, como se sentisse medo de que eu quebrasse ou algo do tipo. Na sua opinião, minha beleza me levará a um lugar muito alto na vida. Tudo o que sei é que todos os seus cuidados só fazem eu me sentir muito protegida contra qualquer homem que vive aqui. Já ouvi relatos de garotas que são abusadas por seguranças e até mesmo por Rodolfo. Se eu continuo intocada, devo isso a ela. Rodolfo é o vice-diretor, um homem cruel. O seu cargo está bem abaixo do da madame, mas, ainda sim, ele se sente o dono desse lugar, pois está sempre impondo suas vontades quando ela não está. Ele é frio, perigoso, alto, com cabelos negros e uma barriga grande de tanto beber cerveja. Todos o temem, inclusive eu, porque os olhares que ele me lança, deixa-me preocupada. O homem não tem escrúpulos, muito menos respeito por nenhuma de nós. Somos suas “vadias”, como o próprio repete todos os dias. — Nesta semana iremos receber visitas de diversos homens. Devo instruí-las a se comportarem bem, da maneira como foram ensinadas. Não preciso dizer que se algo der errado ou se alguém resolver bancar a heroína, as consequências serão as mais severas possíveis. Nenhum homem jamais irá acreditar na palavra de vadias como vocês, pois nenhuma tem valor moral, muito menos caráter. — Rodolfo, sempre que pode, lembra-nos do quanto não somos valorizadas perante à sociedade. — Não pensem que porque algumas têm rostinhos bonitos e são intocadas, que merecem algum tipo de compaixão! Todas não passam de vadias. Fecho os olhos, com raiva. Esse cara me causa repúdio e nojo. Chelsea me olha de lado e resmunga baixinho: — Odeio ele! — Eu também. — Reviro os olhos. Eles nos passam as instruções finais e nos entregam algumas regras digitadas em uma folha de ofício. Regras essas que já decoramos. Depois, Chelsea e eu vamos para o nosso quarto, que é um ambiente decorado em cores brancas e possui alguns desenhos nossos pregados na parede, destacados. Minha amiga ruiva de olhos azuis adora pintar desde sempre e consegue enxergar um mundo mágico, mesmo em meio a toda escuridão em que vivemos. Nós conversamos sobre o quanto odiamos Rodolfo e todo seu jeito sarcástico. Ele é o rei do sarcasmo, sem dúvida alguma. Um ser desprezível como esse é capaz de fazer mal até mesmo a um bebê. — Odeio o Rodolfo! — ela disse, jogando uma almofada contra a porta. — Não mais do que eu odeio. — Bufo irritada. — Sério! Aquele homem fala como se todas nós estivéssemos aqui porque queremos. Na real, Iza, quem garante que fomos realmente abandonadas pelos nossos pais? E se eles tiverem matado toda a nossa família e nos sequestrado? Pensando bem, isso pode ser verdade. Chelsea tem uma imaginação muito forte, mas não parece estar viajando tanto como nas outras vezes e pode ter razão. O pessoal daqui é barra pesada, então não duvido de nada vindo deles. Se isso for mesmo verdade, estamos correndo perigo em dobro. — Chelsea, fale baixo! Se alguém ouvir a gente falando mal do Rodolfo, estaremos perdidas. — Sim. Tem razão. É melhor lermos isso. — Olha para o papel e logo demonstra sua insatisfação. — Fala sério! Nunca revelar que somos obrigadas a ficar aqui? Qualquer um em sã consciência consegue ver que isso é um lixo de vida. Até parece que estamos na Disney! — Revira os olhos. — Fique em silêncio, menina! — falei séria, mas morrendo de rir por dentro. Não gosto de ser dura, mas isso é necessário às vezes, para sua formação. Eu, como sua irmã mais velha, devo ser severa de vez em quando, já que ela fala demais. Neste momento, Mag entra no quarto com um semblante preocupado. Eu dou um salto da cama, preocupada, imaginando que ela ouviu alguma coisa da conversa. Se não é nossa amiga, o que faz aqui? Seu maior problema é ser mau-caráter e estar sempre disposta a fazer o mal. Prejudicar os outros é o seu hobby. Uma vez armou para mim e me fez ficar de castigo, por colocar um documento da sala da madame em minha gaveta do armário. Ela acreditou em mim, mas o Rodolfo não me perdoou por isso. — Preciso da ajuda de vocês. Chelsea e eu nos olhamos, sabendo que nada de bom poderá vir dessa garota. — Não queremos confusão, menina. Saia daqui! — a ruiva, como sempre, foi “educada”. Mag merece isso e muito mais. — Por favor, preciso de ajuda! — pediu aflita. Se esse é mais um de seus truques, ela está atuando muito bem. Tão bem, que parece ser uma grande atriz interpretando seu papel dramatúrgico. — Em que podemos ajudar? — perguntei. — Iza, não faça isso... — Tudo bem, Che. Eu sei me proteger dela. — Preciso que faça xixi aqui, para mim. Olho para o potinho em sua mão. — Para que isso? — Eu fui selecionada para o próximo leilão e não quero ficar de fora, mas estou com infecção urinária. Quero que me ajude. — Por mim, você pode se ferrar. — Chelsea deixou bem clara a sua opinião. — Eu faço. Ela me entrega o potinho, animada, e eu posso ver um certo alívio em seu rosto. Acho que está escondendo algo muito sério, só que por meio das dúvidas, resolvo ajudá-la. Urino dentro do recipiente e a entrego. Afinal de contas, todas merecemos uma segunda chance. E se esse leilão for mesmo acontecer, só de pensar na possibilidade de ela ser escolhida e me deixar em paz de uma vez por todas, fico contente. — Sobre o leilão...? — perguntei com receio. — Como eu sou a mais bonita de todas, fui avisada antes de vocês. Não se preocupem, vadias! Não serão escolhidas. — falou com maldade e deboche, como sempre. — Obrigada, trouxas! — Sai do quarto, batendo a porta com força. — Por que você ajudou essa ingrata? Eu falei para não fazer isso. — Todas merecemos ser felizes, inclusive ela. — Por mim, ela vai para o inferno. — resmungou. — É boa demais, irmã. Não deixe as pessoas pisarem em você assim! (...) Estou com minha aptidão em mãos, pois fui selecionada para uma grande avaliação que acontecerá amanhã à noite. Estou triste e abalada por isso, não conseguindo acreditar que fui escolhida. Não quero ir, mas não tenho escolha alguma e precisarei dar o meu melhor. Já ouvi falar que essas festas com leilões atraem um enorme público da alta sociedade nova iorquina. Somos expostas apenas de lingeries e, em alguns casos, ficamos até sem roupas. É uma situação humilhante. Não posso chamar isso de vida, porque, de fato, não é. A única coisa que me faz relaxar é ler um bom livro quando consigo roubar algum da biblioteca da madame Cloe. Se não temos autorização nem para ir lá, imagina para pegar um livro para ler. “Prostitutas” como nós, temos coisas mais importantes a fazer, segundo eles. São ridículos. Um dia, ainda verei todos presos.
— Consegui minha aptidão. — Chelsea disse sem a menor empolgação. Eu lhe mostro a minha, insatisfeita. — Vejo que você também não está nada feliz. — comentou. — A Mag fica feliz com isso, mas eu não consigo ficar contente com algo tão ridículo. Não somos mercadorias. Como mal toquei no café da manhã, estou me sentindo um pouco fraca, com uma pequena fraqueza nas pernas. — Você parece muito mais pálida do que o normal. — Não me alimentei bem. — Conheço você. Está com medo de ser escolhida por algum homem. — Não consigo esconder minha insatisfação em meu olhar. — Vamos para o nosso quarto! Eu consegui algo delicioso para comermos: uma barra de chocolate. Nós parecemos duas crianças correndo felizes pelos corredores, como se ninguém pudesse reclamar conosco. Por sorte, não está muito lotado por onde passamos. Eu e ela rimos alto enquanto corremos, pois chocolate move nossas vidas. Quando conseguimos roubar alguma coisa doce, é como uma festa para nós. Estamos passando próximas à sala da diretoria, quando ouço a voz da senhora Cloe me chamar. Paro imediatamente. Com certeza tomarei bronca porque estava correndo. Além disso, meu cabelo deve estar muito bagunçado. — Laiza Nayara! — seu tom de voz foi sério. Ouvindo passos atrás de mim e o barulho dos seus saltos altos, sinto calafrios. Chelsea também está assustada, com uma expressão horrível, como se tivesse visto um fantasma. Ela é covarde, e só não me abandonou porque eu a segurei pelo braço. — Laiza e Chelsea! — esbravejou. — Olá, senhora Cloe. Como vai? — minha amiga perguntou sem jeito. Ela continua séria, sem esboçar nenhuma reação diante da situação. — O que fazem pelos corredores feito duas loucas sem educação alguma? Não viram que estamos com visita? Não havia prestado muita atenção na face do homem de terno preto e postura alta que está na minha frente. — Perdão! Prometo que isso não irá se repetir. — falei. — Acredito que sim, Laiza. — Madame, quem é o homem que não tira os olhos da Iza? — Se tem algo que Chelsea sabe fazer como ninguém, é ser inconveniente. Mas ela tem razão: o homem não tira os olhos de mim. É muito bonito, atraente, e algo nele me causa calafrios de um jeito que nunca havia sentido antes. Dou uma cotovelada na ruiva, que sorri, disfarçando a dor. — Aquele senhor é um grande empresário. Não conheço seus motivos para ter vindo aqui, mas não devo satisfação a vocês, meninas. Vão para o quarto e se comportem! — Sim, madame! — Chelsea e eu respondemos ao mesmo tempo. Como ela parece bastante chateada, não iremos desobedecê-la. Não queremos sofrer nenhuma punição. A mulher ainda olha para o papel em nossas mãos, feliz por nós e um pouco... Não sei descrever seus sentimentos, por sempre tentar não demonstrar muitas emoções. — Vejo que as duas estão aptas para amanhã à noite. Quero que estejam lindas e perfumadas! Principalmente você, Laiza. — Quase sorri. Nunca havia lhe visto assim antes. Saímos caminhando em passos lentos e calmos, sem fazer barulho algum. Ao fechar a porta do nosso quarto, deparo-me com uma Chelsea divertida e, ao mesmo tempo, chateada. — “Principalmente você, Laiza”. — imitou a madame. — Ela nem sabe disfarçar que você é a preferida dela. — Não tem essa de preferida. Isso é coisa da sua imaginação. — Você sabe que ela sempre está te protegendo e nunca te deixa faltar nada. Além disso, é a única que tem permissão para ir até a sala dela sem ser chamada. É bonito ver que a diretora nutre sentimentos por você. — Sorri. — Tem sorte por ter a proteção dela. — Coloca uma mão sobre meu ombro. — E você tem a minha proteção. Sei que isso não é lá essas coisas todas, mas nunca irei permitir que alguém te faça mal. — Promete para mim que nunca iremos nos separar? — Seremos amigas e irmãs para sempre. Nós dividimos a barra de chocolate que ela conseguiu roubar da cozinha hoje mais cedo. Definitivamente, essa é a melhor coisa que o homem já inventou. É saboroso e dá aquela sensação de prazer inexplicável. Não me importo se ficarei com dor de barriga ou se ganharei algumas gramas, pois só penso em comer a barra inteira. — Tenho até medo da madame resolver vim ao nosso quarto para ter certeza de que não estamos correndo por aí. — confessei. — Ela não virá agora. Está falando com o bonitão que não tirava os olhos de você. — Tem certeza que ele estava olhando para mim, em vez de ser para você ou para a senhora Cloe? — Claro que sim. Olhava para você assim. — Faz uma imitação. Ela é tão ótima nisso. Eu rolo de rir quando imita a madame e o Rodolfo. Além de fazer umas caretas engracadas, suas sarnas são o efeito especial de tudo. Agora, está fazendo uma expressão boba, com os olhos arregalados e a boca aberta de uma maneira exagerada. Tenho certeza que aquele homem não estava me olhando dessa forma. — Sua boba! — Sorrio sem jeito. — Iza, será que ele veio aqui atrás de você? — De mim? — Isso se você não for escolhida no leilão de amanhã. E se ele estiver lá? — Provavelmente, não. — Dou de ombros. Faço isso quando estou nervosa. — Não se preocupe! Ninguém vai olhar para mim. — Como não? Você é linda! Tudo bem que eu sou desprovida de beleza, mas você é a garota mais bonita daqui. É por isso que a Mag morre de inveja de você. — Chelsea! — Se o bonitão te comprar... Ai, meu Deus! E se ele te comprar, Iza? Ele é lindo! — Está empolgada. — Falando assim, até parece que deseja que eu vá embora. — Claro que não. Você não pode me abandonar, nunca. — Eu preciso tomar um pouco de ar. Costumo ficar ansiosa quando minha menstruação está perto de chegar e me sinto mais sensível. Às vezes sinto cólicas leves. (...) À noite, durante o jantar, Rodolfo sobe ao palco para fazer um comunicado. — Boa noite, vadias! — Não perde uma oportunidade de falar isso. — Quero aproveitar para dizer que todas devem dormir cedo para estarem descansadas amanhã à noite. Durante o dia, irão provar lingeries sexies e essas coisas básicas de mulheres. Eu tenho aqui, em mãos, o nome de cinco garotas que serão selecionadas para uma avaliação especial. Um comprador anônimo analisou todas vocês virtualmente, por fotos, e escolheram as cinco. Irão fazer mais algumas fotos amanhã, para ele poder escolher uma para ser dele. — Começa a chamar o nome das garotas. Elas se levantam da mesa e caminham até ele. — Aposto que foi o bonitão de hoje cedo. — Chelsea opinou baixinho. — Por último e não menos importante, Laiza Nayara. Meu corpo congelou quando ele falou o meu nome. Estou completamente estática e sem reação alguma. — Iza! Vá lá, antes que o Rodolfo venha buscar você! — Eu... — Você vai voltar. Somos inseparáveis. Caminho até onde ele está com as demais garotas. Encontro-me em estado de choque. O que será de mim? A vista daqui de cima é fora do comum e parece que todas olham para mim neste momento. Rodolfo dá mais alguns avisos e, por fim, diz que devemos segui-los. As meninas estão atentas e algumas parecem felizes por terem sido escolhidas. Respiro fundo para não acabar desmaiando e sinto medo do que pode acontecer. Não sei dizer o que é pior: ter que ir ao leilão ou precisar fazer as fotos para um cliente as analisar. Tudo que eu sei é que não quero me separar de Chelsea. Capítulo Dois A PORTA DE madeira se abre, fazendo um barulho um pouco desagradável. Fones de ouvidos seriam bem-vindos nesse exato momento. Nós entramos em uma sala, encontrando um lugar amplo e elegante. Eu nunca tinha vindo aqui antes, porque, pelo que me lembro, repetiram para nós inúmeras vezes que essa área era proibida. Rodolfo nos manda sentar. Aqui tem um sofá, algumas poltronas de couro no centro e uma grande mesa de escritório no canto, além dos muitos quadros, dos vasos sofisticados e do tapete que cobre quase todo o chão. Não demora muito e a senhora Cloe entra na sala, elegante como sempre. Ela caminha até a cadeira de escritório e se senta. — Bem-vindas, meninas, à ala proibida! Creio que estejam bastante curiosas para saberem o porquê de terem sido chamadas aqui. — Muito, senhora Cloe. Eu fiquei um tanto surpresa com essa convocação. Espero ser últil para alguma coisa. — uma das garotas disse, muito empolgada. — Não se preocupe! Logo irei revelar o motivo. Mas antes, quero dizer que vocês cinco foram selecionadas por serem as mais bonitas, segundo um cliente muito importante para nós. — E quem seria esse tal cliente? — a mesma garota perguntou, ainda mais empolgada. — Isso é o de menos, menina. Vocês irão fazer uma sessão de fotos que serão enviadas a ele, que irá escolher uma de vocês para ser sua esposa. Todas comemoram a possibilidade, menos eu. É claro que eu sonho em me casar e poder formar uma família, mas na situação em que vivo, casar com um desconhecido após ele me comprar como se eu fosse uma mercadoria, não me parece nada romântico. Porém, tenho certeza de que não serei escolhida. As meninas que estão ao meu lado são muito bonitas, então, se o tal homem tiver que escolher alguém, será alguma delas. Para a minha sorte, não serei eu. — Todas são lindas e cada uma tem sua beleza. O cliente gostou muito das cinco, então espero que se comportem bem para que ele possa analisá-las e perceber o quanto são ainda mais bonitas do que aparentam. — Ouviram bem, vadias? Essa é uma ótima oportunidade de vazarem daqui. — Rodolfo disse sério. — Agora, prestem atenção: se alguém abrir a boca para falar qualquer coisa que seja, sofrerá as consequências. E não pensem que teremos pena de vocês! Porque não teremos. — Ele me olha de uma maneira estranha, como se seu olhar gritasse algo muito ruim para mim. Até sinto um calafrio com sua aproximação. — Pode até parecer sorte, mas não será. — Sorri diabolicamente. Se isso foi alguma espécie de aviso, não entendi bem o que ele falou. Na maioria das vezes, gosta de nos causar medo. — E, sobre o leilão de amanhã? Eu fui apta a ir. — a garota questionou. — Nenhuma de vocês irá participar e ficarão em seus quartos. — a madame avisou séria. — Agora, saiam daqui e relaxem bem para as fotos de amanhã! — Só mais uma pergunta, madame: o tal cliente virá conversar conosco? — Provavelmente, não. Ele é um homem muito ocupado. As fotos serão enviadas para ele as analisar e escolher uma de vocês para ser sua esposa. Nós começamos a sair da sala, quando ouço a voz dela novamente. — Laiza! — Viro-me. — Fique! Quero conversar com você. — Sim, senhora Cloe. — Sente-se! O Rodolfo já está de saída. — Olha para ele, que sorri de um jeito maldoso e se retira, fechando a porta. Eu me sento, como ela pediu, e fico a esperando se pronunciar. Ela termina de organizar alguns papéis em cima da mesa e vem até o sofá, caminhando lentamente, senta-se e cruza as pernas com elegância. — Postura, Laiza Nayara! — ordenou. Eu tenho estado meio desengonçada nos últimos dias, mas ela jamais permite que eu perca a postura, já que não admite que eu esteja feia ou algo do tipo. Devo estar perfeita o tempo todo, diante de seus olhos. — Diga-me: o que está achando de tudo isso? — perguntou curiosa. — Eu não sei o que dizer. — Ela me conhece muito bem, portanto sabe que estou mentindo. Por isso, resolvo lhe dizer a verdade sobre meus pensamentos. — Estou assustada. — Por que, minha querida? — Eu tenho medo de sair daqui, pois não conheço o mundo lá fora. E a Chelsea... — Quanto a isso, querida, é apenas um detalhe. Se for escolhida... E eu sei que será... Poderá ter uma família, como sempre desejou. Por acaso, esse não é o seu maior sonho? — É sim, madame, mas ainda tenho bastante medo. — Você é linda, Laiza Nayara, e uma menina encantadora. Quando o cliente bateu os olhos em você, não pensou duas vezes antes de escolhê-la. Diferentemente das demais meninas, as quais ele precisou olhar um pouco mais. Tenho certeza que será escolhida, e farei o possível para que isso aconteça. — Obrigada por se importar comigo! — Sabe que tenho um carinho muito especial por você. Se sair dessa academia, quero que tenha um futuro brilhante e muito feliz. — Obrigada, madame! Em seguida, vou descansar em meu quarto. Assim que Chelsea volta do jantar, eu lhe conto tudo que aconteceu. Não sei descrever sua reação, porque ao mesmo tempo que ela está demonstrando medo, demonstra felicidade. É um misto de emoções em uma única face. Se a conheço bem, ela está com medo de que eu possa ser escolhida. Assim, não restaria mais argumentos: eu deixaria este lugar e ficaria longe dela de uma vez por todas. E sua felicidade é por saber que poderei, finalmente, ter a chance de realizar meu sonho de formar uma família e ter filhos incríveis. — Isso significa que irei perder você? — Uma lágrima brota do seu rosto angelical. Ela é a imagem perfeita de um anjo. — Você não me perdeu. Eu ainda estou aqui e nem sei se serei escolhida. — Eu vi as demais meninas, Iza. Elas nem chegam aos seus pés. — Não vamos pensar em separação agora. Eu tenho certeza que não serei escolhida. — Sinto uma grande necessidade de abraçá-la. Ela me retribui um abraço singelo e cheio de sentimentos amorosos. Nós temos uma conexão inexplicável e sempre sabemos o momento certo de nos abraçar. A noite se torna longa para mim. Viro-me de um lado a outro da cama, sentindo-me nervosa. Não consigo controlar minha ansiedade. O que esperar de amanhã?
(...) Pela manhã, vou com as demais meninas para uma sessão de fotos. Algo que faz eu me sentir horrível, já que a maioria delas é feita conosco usando roupas íntimas. Mesmo que o fotógrafo seja bastante profissional, fico desconfortável. — Que tal mais algumas fotos? — Rodolfo sugeriu malicioso. — Não precisa. — A madame, sempre que pode, intervém por mim. — Pode ir se trocar, Laiza Nayara. — Os dois ficam conversando. Obedecendo sua ordem, troco-me em uma sala ao lado. Já vesti meu uniforme e estou amarrando meu cabelo com uma presilha. É quando ouço passos atrás de mim. Virando-me rapidamente, deparo-me com Rodolfo. — Algum problema? — Sobre as fotos... — Aproxima-se cada vez mais de mim. — O que têm as fotos? Preciso refazê-las? — Imagino que por eu ter me sentido um pouco desconfortável, elas não ficaram boas. — Acho que sim. — Olha para trás, para a porta entreaberta. — Que tal se eu fechar a porta e atuar como fotógrafo? Você pode pousar para mim? — Creio que isso não será necessário, Rodolfo. — Quem diz isso sou eu, menina. — afirmou raivoso. — Você cresceu, Laiza, e ficou muito gostosa. Putz! Nem parece mais aquela menina que vivia chorando por tudo. Tornou-se uma bela mulher. — Obrigada pelo elogio! Agora, preciso ir. Tento passar por ele, mas sou segurada pelo braço. Ele o aperta com muita força, como se desejasse arrancá- lo. Encaro seus olhos, sabendo o que isso quer dizer. Seu olhar é de luxúria sobre mim, devorando-me como se eu fosse um pedaço de carne. Há alguns dias venho notando esses olhares. — Aonde você pensa que vai, menina? Mandei ficar. — O que você quer comigo? — Sinto medo dele tentar fazer alguma coisa contra mim. — Calma, menina! Não precisa gaguejar. Eu só quero fazer com você umas coisinhas que desejo há muito tempo. Meu Deus! — Q-quais c-coisinhas? — Não pense em gritar! Senão, não irei responder por mim. — Mantém seu olhar malicioso sobre meu corpo. Eu sempre convivi com tudo isso, então não é nenhuma novidade para mim receber olhares como esse. Contudo, homem nenhum jamais tentou tocar em mim, como ele está tentando. Sua mão desce pela minha coxa, fazendo-me querer gritar. Mas ele coloca a mão sobre minha boca, impossibilitando-me de pedir ajuda. — Eu falei para não gritar, vadia. Meus olhos se enchem de lágrimas. Quero sair daqui. Seus toques me causam nojo e repugnância. Ele é um homem de meia-idade, sua aparência não é uma das melhores e seu mau hálito me deixa com uma enorme vontade de vomitar todo o meu café da manhã. Até perdi o movimento das pernas, pois o medo me paralisou. É sempre assim. — Rodolfo, por favor, deixe-me ir! — Se você não fosse exclusivamente do senhor Campbell, nós iríamos ter um longo dia juntos, docinho. Agora, saia daqui, antes que eu mude de ideia! Saio correndo o mais rápido que posso, sem saber dizer se foi sorte eu ter conseguido sair ilesa dele. Sinto calafrios ao fechar os olhos e o imaginar me tocando. O que mais me assustou, foi ele ter afirmado que eu pertenço a um homem. Como pode ter tanta certeza disso? Essa dúvida me deixa completamente intrigada. Capítulo Três APÓS SAIR praticamente correndo da sala, onde estava presa com o Rodolfo, sinto que meu coração está prestes a sair pela boca. A minha pulsação acelerada me dá uma vasta sensação de que vou desmaiar. Só de imaginar que quase fui violentada por aquele ser medíocre que não sabe respeitar nem a própria mãe... Se bem que um ser repugnante como esse, não merece ter uma mãe. Ele me dá nojo. Tudo aqui me causa nojo. Pensando bem, até que não seria tão ruim ir embora daqui para sempre. Se, pelo menos, eu pudesse levar a Chelsea comigo, poderíamos reconstruir nossas vidas longe desse lugar sufocante e aprisionante. — Suas fotos devem ter ficado o máximo. Você fica bonita em qualquer situação. Não é mesmo, Iza? — Estamos sentados em um banco, no jardim. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupada. — Não. Estou bem. Suas mãos tocam em minha face, erguendo meu olhar até o seu. Seu semblante é o de alguém assustada. Ela é só uma garotinha insegura. — Estou com medo. — confessou o óbvio. — O leilão de hoje à noite está me fazendo sentir calafrios. — Pense comigo! Imagine se um bom homem comprar você e estiver disposto a te dar uma vida boa! Em alguns anos, poderemos nos encontrar em alguma festa. — A madame falou que irei ajudar a servir. — Ela está fazendo isso para te proteger. — Sou grata a ela por isso, mas, ainda assim, não gostei da sua ideia. Não quero me separar de você, nunca. — Bufa irritada. — Se a gente conseguisse fugir daqui e ir até a polícia pelo menos, poderíamos ter uma vida melhor. Essa possibilidade é praticamente impossível. É por isso que não penso em tentar fugir daqui. Isso significa morrer. — Eu ouvi bem, meninas? As princesas querem deixar a torre para sempre? — Mag apareceu do nada, dando um pequeno susto na gente. Olho para minha amiga e lhe peço calma. Ela odeia essa garota em todos os sentidos, mas não podemos perder a calma com ela neste momento tão delicado. Mag é uma adolescente quase comum e, assim como a gente, foi criada presa, por trás das muralhas, sem escolha. Não julgo seu comportamento rebelde e maldoso, porque, talvez, se não estivéssemos nessa nossa realidade, ela poderia ser boa. — Vocês sabem que isso é impossível, suas idiotas. Vejam o tamanho destes muros e toda a segurança! — Tem razão. — Eu poderia contar ao Rodolfo ou à madame tudo que vocês conversaram aqui, mas não estou a fim. — O que você ganha com tudo isso, Mag? — perguntei. — Ver vocês preocupadas e tristes é a minha maior satisfação. — É bom ficar de boca fechada, menina. Não quero discutir com você. — Chelsea já está chateada. — Hoje pode ser a última vez que estou olhando para as caras e roupas de vocês, porque há a chance de eu ser a mais nova milionária do país. E vocês ainda vão continuar aqui, mofando, pois ninguém vai querer comprar as duas meninas mais feias de todo o “orfanato”. — Vaze daqui, garota! — a ruiva mandou. Ela está prestes a se levantar para ir, mas eu a seguro. — Mag, nós te ajudamos com o exame de urina. Será que pode ficar e fingir que não nos ouviu conversando besteiras? — Vou pensar no caso de vocês. Beijos, vadias! — Sai rebolando sua bela bunda. Ela adora falar sobre suas qualidades. Garota mais irritante do que essa, está para nascer. Odeio a maneira como ela gosta de manipular as pessoas à sua volta, sempre tentando ser superior, como se humilhar o próximo fosse seu maior objetivo. — Da próxima vez, eu juro que... — Chelsea começou a falar. — Não jure nada, amiga! Vamos para a nossa aula! — Só você mesmo para chamar aquilo de aula. Odeio ter que ver aquelas pessoas ensinando sobre sexo para nós. Se eu pudesse, mataria todos eles. — Você não vai matar ninguém. Agora, vamos! — Você não sabe, Iza, mas eu sei que um belo príncipe virá me salvar daqui um dia. (...) O vestido que Chelsea usará hoje à noite, no leilão, está pendurado sobre o cabide. É um lindo em tom de vinho, perfeito para ela. Não sei o motivo, mas estou preocupada por saber que ela estará sozinha nessa festa, sem mim. A minha amiga tem a cabeça quente, portanto temo que faça alguma besteira. Mesmo que vá somente servir algumas bebidas, tenho medo de que se envolva em confusão. — Prometa para mim que não vai perder a cabeça hoje! Ela cruza os braços e sorri. — Se eu morrer, prometo proteger você para sempre. Vou ser aquele tipo de fantasma que vai assustar todo mundo que tentar te fazer algum mal. — Você é maluca. A noite logo cai e ela começa a se arrumar, assim como a maioria das meninas. Ainda lhe ajudo com a maquiagem, porque sei fazer umas das melhores daqui. Algumas garotas me procuram para as maquiar quase sempre. Como somos muitas, às vezes as maquiadoras disponíveis não conseguem dar conta do serviço. Um segurança vem buscar minha amiga. Quando a levam, sinto a necessidade de abraçá-la e começo a chorar. Tenho uma sensação horrível em meu peito de que ela não vai voltar, nunca mais. Mas essa pode ser uma reação normal da minha mente, por causa da pressão envolvendo toda essa situação. É apenas nervosismo. Espero que seja. Deito em minha cama e, depois de chorar horrores, finalmente adormeço. (...) Acordo, sentindo mãos quentes tocarem em mim. O que está me machucando para dedéu. O quarto está escuro, mas posso ver Rodolfo sentado na beira da cama, com uma mão em minha coxa. Não faço ideia de quanto tempo faz que ele já está aqui. Tudo que quero fazer é gritar, mas quem irá me ouvir? — Rodolfo? O que você está fazendo aqui? — Levanto-me da cama em um pulo e ascendo a luz. É mesmo ele. — Estou fazendo a ronda, menina. — respondeu cinicamente. — Por que insiste em me tocar? Sabe que não pode fazer isso. Estou sendo negociada para um cliente e... — Calma, menina! Não vou tirar sua virgindade à força, porque sei o tanto que ela vale para nossos bolsos. Mas não me custa nada ficar observando você no meio das noites. — Então, hoje não foi a primeira vez? Meu Deus! Esse homem está obcecado por mim. — Não precisa ficar nervosa. Já estou indo para o leilão. Espero que fique feliz pela sua amiga, porque ela está valendo muito para o nosso mercado. Mesmo sendo tão jovem, chamou a atenção de um grande empresário. — informou, divertindo- se. Se ele queria me perturbar, conseguiu roubar todo o meu sono. Eu o vejo sair do quarto e, em seguida, arrasto uma poltrona até a porta. Como se isso fosse impedir a entrada dele caso queira vir aqui novamente! O cara é louco. O que ele disse da minha amiga, é mesmo verdade? Chelsea foi à festa para servir, não para ser vendida. Certamente, falou isso para me deixar pensativa. Não posso passar a noite inteira imaginando a possibilidade de não a ter comigo amanhã de manhã. Como irei dormir agora? Só quero chorar. Não consigo pregar os olhos, literalmente, depois daquele asqueroso ter falado aquelas besteiras. Seus assédios estão ficando sérios, então penso que talvez seja melhor comunicar sobre eles à senhora Cloe. Ele está ficando incontrolável. Como pôde vir ao meu quarto no meio da noite e me tocar daquela maneira? Isso não é certo. Ninguém daqui tem autorização alguma para tocar em alguma de nós. Como não tenho noção da confusão que isso poderia causar, fico com um pé atrás todas as vezes que penso em ir até a sala da madame. O dia logo amanhece, e nada de Chelsea voltar. Isso está me deixando aflita. Não quero perder minha amiga assim, sem ao menos ter uma chance de me despedir dela e dizer o quanto a amo. Encontro-me com algumas das selecionadas e ninguém sabe me dizer como ela está. Aflição e nervosismo me tomam neste momento. Como isso pode estar acontecendo? Estou prestes a ir até a sala da diretora para perguntar pela minha amiga, quando a vejo chegar gritando e correndo na minha direção, feito uma louca. Na verdade, ela é muito maluquinha. Vou matá-la por ter me dado um susto. Retribuo seu abraço e tento lhe dizer algo, mas ela me interrompe, falando de uma maneira ofegante. — Não sabe dos babados que aconteceram ontem à noite. — questionou de maneira divertida. — Venha comigo! Vamos para o jardim! — Não podemos. Tenho aula agora. Eu amo o seu jeito maluquinho. Seu jeito Chelsea de ser é único. A minha irmã é doidinha, porém não sei mais viver sem suas travessuras. Vou para a aula de Conhecimentos Gerais. Dessa vez, não é uma sobre sexo. Durante a semana, ensinam para nós essa matéria e Matemática, duas ou três vezes. Precisamos ter conhecimento para alguma coisa nesta vida. Isso parece que nunca terá fim, só que conto cada segundo para acabar. Estou curiosa para saber o que a ruivinha descobriu de tão emocionante. Aposto que não é nada demais, que ela apenas quer me dizer besteiras e fofocas, mas me remexo de curiosidade para saber o que é. Quando a aula acaba, recolho meus cadernos e livros, encontro-me com ela no corredor e corremos em direção ao banheiro, entusiasmadas com a tal revelação. Ela entra em uma cabine e a fecha. É muito maluquinha. Encaro minha face no espelho, notando que estou um pouco abatida. Mas não é nada que um pouco de pó compacto não resolva. Também estou com algumas espinhas quase no ponto de espremer. Normal para uma adolescente como eu. De repente, ouço um barulho horrível de alguém vomitando como se estivesse colocando as tripas para fora. O som é tão feio, que chego a pensar que Chelsea está morrendo. Preocupada, bato na cabine em que ela está e a peço para abrir a porta imediatamente. — Chelsea! Está tudo bem? Ela sai da cabine parecendo super bem, sem nenhuma expressão de dor ou algo do tipo. Se não foi ela, quem foi? Não imaginei nada disso, pois não sou louca e sei o que ouvi — Pensei que você estava passando mal. — dissemos ao mesmo tempo, ficando surpresas uma com a outra. Algo de errado está acontecendo neste banheiro. Eu estranho e ela franze o cenho. — Se não foi você, muito menos eu, quem foi? — questionou. — Não sei. Ouvimos o barulho novamente, vindo da cabine ao lado de onde Chelsea estava. Realmente, acho que alguém está morrendo ali dentro. A pessoa parece estar passando muito mal. Olhamos uma para outra, preocupadas com o que pode estar acontecendo. — Calma! — falei baixo. Bato na porta e posso notar que ela está aberta. Depois de empurrá-la, tomo um susto ao ver a Mag. Ela está sentada no chão, pálida como a neve. Há vômito seu espalhado por todo chão e muito sangue. O odor é forte. — Meu Deus! Ela está morrendo! — afirmei nervosa. — Vou chamar alguém para ajudar. — Chelsea falou. — Não! — a voz dela saiu por um fio. Está chorando por causa da dor. — Pelo amor de Deus! Eles vão me matar. Vendo-a caída no chão, sangrando e vomitando, posso perceber do que se trata. Não posso acreditar que ela foi capaz de cometer tal ato, sabendo das consequências. — Vou chamar alguém. — Chelsea insistiu. Eu a seguro pelo braço e ela me olha sem entender. Está tão preocupada quanto eu. — Não! — pedi firmemente. Sua inocência é algo lindo de ver. Ela não entendeu o que está acontecendo. Estou um pouco surpresa, porque não havia percebido nenhuma alteração no corpo da Mag, nenhuma grama a mais. Ela estava grávida e acabou de cometer o pior erro. Ainda colocou sua vida em risco. — Por que não? — Ela está abortando. — Estou petrificada. — Mag está abortando o filho. Chelsea a olha horrorizada. Não temos o que fazer, pois mesmo sentindo bastante dor, ela não nos deixa chamar ninguém. E tem razão, porque se alguém a ver, irá matá-la por ter engravidado. Não penso em outra coisa além da dúvida: quem era o pai dessa criança? Ela não tem juízo algum. Como pôde se entregar a um homem sem se cuidar? — Vá buscar água para ela tomar e não fale nada a ninguém! — pedi. Ela sai correndo e eu me aproximo mais da Mag, encarando seu rosto pálido e suado. — Não me denuncie, Laiza! — implorou. Como ela é capaz de pensar algo assim de mim? Eu jamais lhe faria algum mal. Sei dos riscos que estou correndo por ajudá-la, mas, ainda assim, não irei deixá-la morrer sozinha neste banheiro fedido. — Eu nunca iria te prejudicar, Mag. — Mas... deveria fazer isso. Eu te humilhei durante anos e você está me ajudando. Essa é sua chance de ferrar comigo. — Não fale muito! De quanto tempo você estava grávida? — Quatro semanas, eu acho. — Por que fez isso? — Não foi minha culpa. Eu não queria. Fui violentada. Fico em choque com sua revelação. Como assim? Aqui dentro, alguém teve a audácia de violentar uma virgem? Ela faz parte do grupo das virgens, das conservadas. — Por que não comunicou à senhora Cloe? — Nem todas têm proteção, como você. Acha que iriam acreditar em mim? — Quem te fez isso? — Não importa. Só não me deixe morrer sozinha! — Segure a minha mão, por favor! E ela faz isso firmemente. Eu nunca a vi assim, tão frágil e amedrontada. Ela sempre foi alguém de personalidade forte, de postura ereta, e rígida com todos; estava sempre me humilhando. Veja como o mundo dá voltas! Agora me encontro a ajudando. Ela desfalece algumas vezes e demora a voltar. Em um momento, até pensei que morreu, porque passou quase uma hora desmaiada. Chelsea também traz álcool e remédios para dor. Damos bastante pílulas para ela beber. Não me importo com todo o sangue, que já sujou boa parte da minha saia, pois quero apenas ajudá-la. Até faço uma oração para ela não morrer e peço para que tudo dê certo. Eu poderia abandoná-la aqui, entretanto não sou capaz de deixar ninguém na mão, muito menos alguém que já foi minha melhor amiga no passado. — Tem certeza que ninguém te viu? — perguntei. — Absoluta. Passe mais álcool no nariz dela! Faço isso e vejo Mag despertar novamente. Parece estar recuperando suas forças. — Como se sente? — Eu quero comer. — Você é maluca. Onde conseguiu as drogas? — Chelsea questionou irritada. Eu olho feio para ela. Esse é um momento delicado, não propício para brigas. — Tenho meus contatos, sua burra. — Veja só, Iza! Não vou ajudar mais. — Calma! — pedi. — Meninas, não façam isso! Mag! — repreendi.