Trabalho em dupla- tensão sexual
Capítulo 1 Trabalho em dupla- tensão sexual

Trabalho em dupla- tensão sexual — Perfeito! — falo pegando pão de forma, presunto e queijo da geladeira. — Acredito que eu ficaria sem jeito se tudo que comêssemos fosse diferente, sei lá. Tipo, uma come e a outra fica olhando e vice-versa. — Tento imaginar. — É péssimo — ela admite. — Com minha antiga colega de quarto era assim. — E onde ela está? — Se mudou para a Zeta Beta Tau. Seria maldade eu dizer que fiquei muito feliz com isso? — ela revela. — Não! — respondo de imediato e nós duas rimos. Mordo o sanduíche, soltando um gemido. — Um sanduíche nunca foi tão bom — falo com a mão na boca. Ela ri. — Você deve estar cansada. Quantas horas de viagem? — Em torno de nove horas — respondo após engolir. — Porra! Meu voo é de pouco mais de três horas e já acho muito. — É, estou mesmo cansada. Olho para a minha cama com lençol, um travesseiro e duas cobertas dobradas sobre ela. — O que acha de tomar um banho? — sugere. — Deita um pouco e mais tarde faço um macarrão com queijo delicioso para jantarmos. — Pisca. — Acho perfeito. Obrigada por me receber tão bem. — Estou com esperança de que seremos boas amigas — sorri, me fazendo retribuir o gesto. Decido seguir seu conselho e vou até a minha mala procurar uma roupa confortável. Amanhã arrumo tudo no pequeno closet. Tudo que preciso agora é de um banho e, quem sabe, dormir um pouco. Talvez a razão de Todas as portas estarem fechadas Era para você poder abrir uma Que te levasse para a estrada perfeita Firework — Katy Perry — Ei, Priscila? — Sinto mexerem em meu ombro. — Ei — chama de novo e eu abro os olhos, vendo Taylor de pé ao lado da cama. — Oi! — Me sento, ainda sonolenta. Esfrego os olhos, pegando o celular e vendo a hora, são oito e meia da manhã. — Nossa! Dormi tudo isso? — pergunto, me lembrando que quando me deitei ontem era perto dás seis da tarde. — Sim, você estava mesmo cansada. — Ela passa a escova por seu longo cabelo loiro. — Te acordei porque eu autorizei a entrada dos entregadores de uma loja e eu preciso ir trabalhar. Eles já devem estar subindo. — Tá, eu atendo, obrigada. Deve ser a televisão que a minha mãe disse que compraria. — Pelo que eu vi através da janela, é bem mais que uma televisão. — Ah... — respondo somente. Não duvido que minha mãe tenha comprado bem mais que apenas uma televisão. — Falando em compras… — ela fala agora, calçando suas sapatilhas —, entregaram mercado ontem e... nossa, é bastante coisa. E eu não sei como vamos fazer para guardar tudo... Suspiro alto. — Eu deixei um pouco no closet, chego perto dás 13hrs hoje. Posso te ajudar a arrumar tudo. — Você tem planos? — pergunto, sem jeito. — Podemos sair para comer algo ou... bom, se você não tiver planos. — Eu não tenho planos. Na verdade, tenho poucos amigos, você vai ver. Não tenho tempo de responder, pois, batem na porta. Taylor atende e eu logo me levanto, atendendo aos entregadores enquanto minha colega se despede. Quando eles deixam a televisão e um espelho, dizendo que já voltam, eu corro ao banheiro. Faço xixi, depois lavo as mãos e o rosto no lavabo. Quando acabo de secar o rosto, a porta volta a ser abrir com os entregadores. A porta volta a se abrir várias vezes, na verdade. Primeiro eu fico nervosa, porque eu não sei onde enfiar as várias coisas que a minha mãe mandou. Então, pego meu celular em meio ao desespero para ligar para ela, mas à essa hora eles já estão voando de volta para o Brasil e o celular está desligado. Vou no app mandar uma mensagem para ela, me deparando com várias suas. Ela pensou em tudo. Desenhos em uma folha de caderno indicam os lugares onde cada coisa deve ser colocada. A partir de seus esboços, começo a indicar onde tudo deve estar disposto aos homens e fico deslumbrada com o resultado. O frigobar dá lugar a uma geladeira de modelo menor que as usuais. Um novo armário com uma gaveta com porta talheres e um nicho para micro-ondas também de tamanho menor. Em cima, um fogão elétrico de duas bocas. Um móvel aéreo de três portas, que segundo a descrição da minha mãe, é para guardar as louças. Ela comprou o básico, tudo quatro peças, a não ser pelas panelas, que são apenas duas. Em frente à minha cama, onde só havia um suporte para TV ontem, quando cheguei, agora há uma televisão média e um armário estilo cômoda. Segundo ela, podemos usar umas duas gavetas para guardar comida e duas para produtos de higiene pessoal. No caso, uma gaveta para cada uma. Em cima da cômoda, uma cafeteira e uma sanduicheira. Um espelho grande, que agora está pendurado na porta do banheiro, um pequeno e estreito balcão para papel higiênico, toalhas de rosto e corpo. Isso, sem contar com dois jogos de roupa de cama que ela comprou e algumas toalhas. Os armários são todos em branco, a geladeira em estilo retro em um tom de azul. O micro-ondas, cafeteira e sanduicheira em tons de amarelo. Tal como as roupas de cama. Não preciso perguntar para saber de quem é quem. Eu amo amarelo. Então sei que o jogo de roupa de cama amarela é meu, o azul com certeza é de Taylor, já que tudo no seu lado é nesse tom. Dona Andreia não só pensou em mim, como em minha colega de quarto, e isso me faz a amar ainda mais. Em uma corrida contra o tempo, começo a arrumar tudo que consigo. Não mexo na cama da Taylor, só deixo a sacola com o presente em cima dela. Quando começo a arrumar minhas malas na minha parte do closet, a porta do quarto se abre e eu fico momentaneamente nervosa de ela ficar chateada pela “invasão” da minha mãe. — Porra — escuto. Respiro fundo e saio do mini closet. Olho para Taylor, que passa os olhos por tudo boquiaberta, e instantaneamente sinto minhas mãos suarem, com medo da repreensão ou até de sua rejeição. — Eu... — gaguejo — não sabia que ela faria essa revolução. Ela disse que já que substituiu a geladeira e o micro, você pode ficar com esses... Ela tira as roupas de cama azuis de dentro da sacola e fica por um tempo olhando, não vejo seu rosto, ela está de costas. — Olha, me desculpa... eu não sei, posso dar um jeito... — Ela se vira e vejo seus olhos marejados. Mordo o lábio, sem saber o que falar mais, então ela me surpreende vindo até mim e me abraçando. De início, fico surpresa, mas logo retribuo o abraço respirando fundo. — Obrigada — ela murmura e se afasta, limpando os olhos. — Porra, eu não costumo chorar — ri em seguida e eu faço o mesmo. — Já eu, sou bem chorona — admito. — Na verdade, isso me lembrou meus pais e o cuidado deles e... — Faz tempo que não vê seus pais? — Três anos e meio. — Nossa, então já está no quarto ano? Eu nem perguntei que... — Meus pais morreram um pouco antes de eu entrar na universidade — conta e fico sem saber o que falar. — Minha mãe morreu de câncer e meu pai... não aguentou..., tirou a própria vida. — Sinto muito — falo — nossa, sinto muito mesmo — ela apenas sorri fraco. — Você tem irmãos? — Não. Tenho uma tia, não somos próximas. De repente, sou eu quem sente a necessidade de a abraçar e é isso que faço. A aperto firme contra os meus braços, tentando mostrar através desse gesto o que não consigo expor em palavras. — Bom, nós temos uma à outra — falo e me afasto. — Você gostou? — Aponto com as mãos para tudo ao nosso redor, tentando afastar o momento melancólico. — Quê? Eu amei! Porra, eu amei tudo! — ela sorri. — Nosso dormitório é o auge do luxo! Me deu até vontade de fazer amigos só para mostrar isso tudo ao mundo. Gargalho alto. — Nós temos um fogão! Sabe o valor de poder comer um arroz com bife à noite? Menina, sua mãe é um gênio! — Então você vai comer meu arroz agora. Vou te mostrar como se faz um arroz com calabresa acebolada a lá brasileira! Ela volta a gargalhar. — Super topo. Só uma coisa — ela fala —, quando precisar lavar louça no lavabo, precisa tirar bem os resíduos de comida. Eu consegui a façanha de entupir isso ano passado e não foi nada legal. — Recado anotado! — respondo pegando o prato e a calabresa que minha rainha também fez o favor de enviar. — O entregador de comida entrou aqui, comigo dormindo? — me lembro de perguntar. — Sim, conversamos alto e nem assim você acordou. — Eu estava realmente cansada — admito. — Qual curso você faz? — Fisioterapia. Vou iniciar o quarto ano e você? — Produção Fonográfica, são dois anos só. — Então vamos nos formar juntas, já que tenho mais dois anos aqui. — É, nossa, isso é reconfortante — admito e ela ri concordando. — Pretende entrar em alguma fraternidade? — pergunta. — Talvez, fazer parte... me mudar para uma, não. Quer dizer, isso se você não me chutar ano que vem. — Não vou fazer isso. — Ela fecha a porta de acesso ao lavabo, banheiro e closet. — Só para garantir que nossas roupas não fiquem cheirando a cebola. Rimos juntas. — Será que alguém pode reclamar? — Ela nega com a cabeça. — Acho difícil. Muita gente faz comida aqui também e eu me perguntava como, já que tem o esquema do gás. Mas agora, vendo esse fogão elétrico pequeno, tive minha resposta. — Pois é..., você saiu para trabalhar? — pergunto. — Trabalho na Coffe Academics desde que me mudei para cá..., pretendo trabalhar ali durante esse ano letivo, já que no próximo vou estagiar e vai ser difícil achar algo remunerado. Penso em como deve ser complicado ser sozinha e trabalhar para se manter. Eu trabalho desde os dezesseis, mas na produtora com meus pais. Não é um serviço braçal e meu salário sempre foi para gastos supérfluos. — Tomara que consiga achar algo remunerado — digo, por fim. — Se não achar, tudo bem. — Dá de ombros. — Esses quatro anos na cafeteria me renderam uma boa reserva. Sou bolsista, alugo a casa dos meus pais… minha casa — se corrige — por um valor considerável e tenho o dinheiro do seguro guardado. Não tenho muitos gastos. — Volta a dar de ombros. — Você disse ter poucos amigos — comento, enquanto despejo as calabresas picadas sobre a cebola. — Eu não tenho. As vezes que saio é com o pessoal do café, ou para algum trabalho em dupla. — Ela me entrega o arroz já lavado e coberto de água para ser cozido. Eu ponho sal e coloco a panela sobre o segundo bico do fogão. — Eu também não tinha muitos amigos... Pelo menos, não amigos de verdade. Penso. — Nenhum namorado? — pergunta e eu suspiro. — Ex. — Faz tempo que terminaram? — Não. Faz quinze dias. — Sério? Então você está na merda. Não. Na verdade, nunca me senti tão bem. Penso comigo mesma. — Se não quiser falar sobre isso, tudo bem... — É bom falar sobre o assunto com alguém que não seja a minha mãe — admito. — Comecei a namorar Erick quando eu tinha quatorze anos. Estudamos juntos, amigos em comum. Eu sempre quis seguir os passos dos meus pais, eles vivem para a música. São produtores musicais. Erick não achou isso muito legal, então eu cedi e comecei administração com ele. Fiz um ano e meio. Eu não estava feliz. — Porra..., por que parece que ele é um babaca manipulador? — Porque ele é — respondo e é a minha vez de sorrir fraco. — Pela primeira vez na vida, me sinto livre. — Nossa, Pri — sorrio por me chamar pelo apelido. — Sinto muito. — Foram tantos episódios infelizes. Eu não sei como deixei as coisas chegarem ao ponto em que chegaram. Entrei em um limbo e... — Ei, tudo bem. Você não tem culpa. Não concordo com ela, mas prefiro evitar entrar nessa questão. Eu sou culpada. Me deixei manipular, me coloquei na posição de vítima e não fiz nada para mudar a situação. — Então, nem pensar achar um americano? — Nem pensar! Eu só quero viver. — Viver — ela repete o que eu disse para si mesma. — Talvez, possamos começar a desbravar esse mundo acadêmico juntas — sugiro, risonha. — É. Nós podemos — ela sorri. — Algumas festas de fraternidades? — ela fala e meche as sobrancelhas. Gargalho. — Podemos tentar. — Se você faz música, então... toca algo? — Violão. Porém, meu lance é cuidar do processo de gravação. — É o que seus pais fazem? — Também. Eles focam no uso correto de direitos autorais, na distribuição do material. — Ou seja, você pretende fazer a parte divertida e eles a burocrática. — Talvez — acabo rindo da sua conclusão. — E você? Quer ter uma clínica? — Sou fascinada por Fisioterapia Desportiva — faço uma expressão confusa e ela emenda —, é uma prática da medicina do esporte que identifica, trata e recupera lesões causadas pelo exercício físico. Seu objetivo é promover melhor desempenho e rendimento dos atletas em treinos e competições, além de contribuir para redução dos riscos de lesões e dores. — Uau, doutora — brinco. — Isso é realmente surpreendente. — Ela rola os olhos, bem-humorada. — Preciso ser a melhor da turma — admite —, quero muito a vaga de estágio do ano que vem no time de futebol americano da universidade. — Tipo, lidar com os gostosões? Ela gargalha. — Tipo isso. Lidar com eles tudo bem, me render a algum? Jamais. — Você vai conseguir a vaga. — Que os anjos digam amém — ela brinca, implorando aos céus, fazendo nós duas rirmos. — Estou ansiosa para segunda. — Eu também. Tudo bem, não sou caloura..., mas fico ansiosa como no início. — Aqui existe aquele lance nerd/populares e toda essa coisa de filme? — Sim — suspira. — Não vamos dividir o mesmo campus, porque a área musical tem um prédio para isso, mas o refeitório onde vendem almoço é o mesmo para toda a universidade e lá você vai ter uma noção de quem é da elite. — Que saco. — Eu não me importo — dá de ombros —, sou invisível. Eu não incomodo ninguém, ninguém me incomoda. — Você? Invisível? Menina, se olhe no espelho enorme que temos na porta do banheiro, agora, por favor. Você é linda demais para ser invisível. — Obrigada. De qualquer forma, sou boa em afastar as pessoas. — Nem tente fazer isso comigo. — Não vou — ela sorri. Começo a servir nosso almoço perto das duas da tarde. Continuamos conversando e conhecendo um pouco mais uma da outra. No fim da tarde, assistimos um filme com direito a pipoca e brigadeiro. Sei que vou sentir saudades dos meus pais, mesmo assim, me sinto bem. Viva. Livre. Pela primeira vez, as decisões sobre o que fazer ou não fazer estão nas minhas mãos. O controle é meu e eu não poderia estar mais feliz por isso. Houve um tempo Em que me colocaram em várias direções e esqueci de qual queria Mas eu não desejaria Aqueles pensamentos para o meu pior inimigo Melon Cake — Demi Lovato

Capítulo 2 Trabalho em dupla- tensão sexual

— Por que você não estuda no mesmo prédio que eu? — pergunto para Taylor, enquanto penteio o cabelo. — Porque somos de áreas completamente diferentes — ela responde e logo toma um gole do seu café. — Essa máquina caiu do céu — se refere a máquina de café que a minha mãe comprou. — Até parece que você não está acostumada a beber qualquer tipo de café. — De manhã cedinho, não — ela retruca. — Geralmente, eu vou para aula sem tomar ou beber nada e no intervalo como algo. — Eu acredito que passaria mal no meio do primeiro período — faço drama e ela ri, fazendo um gesto de negação com a cabeça. — Vai demorar aí, branca de neve? — Se eu sou a branca de neve, você é o quê? Cinderela? — Pode ser — dá de ombros —, só falta o meu príncipe com cavalo branco aparecer. Passo um gloss nos lábios, ficando satisfeita com o resultado. Cabelos soltos, um pouco de rímel incolor e brilho labial, meus companheiros de sempre. — Menina, você é naturalmente linda. — Taylor me analisa. — Se não fossemos amigas, te pegava fácil. — Você... — deixo no ar, sem saber como terminar a pergunta. — Sou uma pessoa que gosta de pessoas. Gosto de meninos, mas já fiquei com meninas. É isso. — Tipo, bissexual? — pergunto, pegando minha bolsa. Ela também pega a dela e abre a porta do nosso quarto. Saio e logo ela fecha, enganchando no meu braço enquanto caminhamos no corredor em direção à escada. — Não sei. Sinceramente? Eu sei que existe esse lance de representatividade, por isso é importante dar nome. Em contrapartida, no meu caso, não acho que eu precise de um rótulo. Nem sei se estou pronta para ter um. — Entendi — respondo, refletindo sobre o que falei. — Como é? — Como é o quê? — ela pergunta. — Beijar outra mulher, transar com outra mulher... — É uma boca como qualquer outra. As meninas que eu beijei foram lances casuais. Foi bom. — dá de ombros. Já notei que esse gesto é uma mania dela. — Uma… mais que bom. Sobre sexo, não sei responder. Já rolou uns amassos, mas nunca o ato. — Mas você prefere homem ou mulher? Ela gargalha alto, jogando a cabeça para trás, até atrai uns olhares para nós. — Em geral, me sinto atraída por homens, com as meninas, sei lá. Acontece. Como disse antes, não sei explicar. — Eu sou curiosa mesmo, foi mal — acompanho-a nas risadas. — Meus pais dizem que eu sou tipo criança, querendo saber o porquê de tudo. — Tudo bem, amiga. — Ela solta o meu braço quando paramos em frente ao prédio de música, que é bem perto do nosso dormitório. — Não me importo. Você fica aqui — aponta para a construção de tijolos a vista. — Eu já vou, porque ainda tenho uns dez minutos de caminhada. Almoçamos juntas no refeitório? — Claro. Quando eu estiver livre, te mando mensagem — ela apenas acena, me dá um beijo no rosto e sai. Sozinha, olho para a construção em minha frente. É real, Priscila, você está mesmo aqui. Respiro fundo e entro no prédio. Alguns alunos seguram instrumentos musicais, perdidos em seus próprios mundos. Paro em frente a um mural, procurando minha sala, até que encontro depois de um bom tempo. Subo até o terceiro andar. Chego ofegante e quando dou um passo para dentro, sorrio feito boba. Sinto como se estivesse em um filme americano. A lousa do professor vai de uma lateral até a outra. Sua mesa fica posicionada em um canto estratégico, que da visão de toda a sala. E então as cadeiras dos alunos são posicionadas como em um cinema, ficando um lance por fileira. Todas as vezes em que estive no cinema do shopping da minha cidade, peguei um assento nas cadeiras do meio da sala, faço o mesmo hoje. Subo até chegar na fileira, que a meu ver, é a do meio. Me sento, respirando fundo e passando meu olhar sobre os alunos. Nossa! É tudo tão surreal, que mal posso acreditar que estou aqui! Caramba, eu estou mesmo aqui! Olho ao redor, vendo alguns universitários sentados, outros chegando e, de repente, me sinto nervosa, sozinha. Fecho os olhos em uma prece silenciosa, em agradecimento por ter me livrado da vida que eu tinha. Estou aqui por mim, para mim, é o meu sonho. Respiro fundo, como dona Marisa me ensinou, focalizando em um sentimento de gratidão por estar à frente das decisões da minha própria vida. Eu tomo as minhas iniciativas, não preciso dele. Não preciso depender de ninguém. Discretamente, começo o exercício de respiração. Solto todo o ar que estava preso e eu nem percebi. Depois, inspiro pelo nariz e conto até quatro. Volto a segurar completamente a respiração e conto até sete, em seguida, solto novamente todo o ar, enquanto conto até oito. Repito todo o processo novamente. O certo seria repetir três vezes, mas paro no início da terceira, quando um rapaz se senta ao meu lado. — Oi — ele cumprimenta —, estou tão nervoso! Julgo que posso desmaiar a qualquer momento. — Puxa a gola da camisa, como se estivesse abafado. — A propósito, sou Andrew. — Ele estende a mão, mas não tenho tempo de apertar, pois ele puxa e a seca em sua calça. — Estou suando feito um porco. Esqueça o aperto de mão. Seguro uma risada. — Sou Priscila, e se serve de consolo, também estou nervosa. — Você tem um sotaque diferente — ele me analisa. — Sou brasileira — sorrio e então, sem pudor algum, ele me olha dos pés à cabeça. E ainda que eu esteja sentada, vejo que olha para o meu quadril. Pigarreio. — Foi mal — ele fala e ri —, foi uma inspeção sem maldade, bebê. Sou gay. — Ele pisca. Meu sorriso aumenta e agora, em vez de me sentir em um filme americano, sinto-me como se estivesse em um livro, onde tenho a melhor colega de quarto e um amigo gay para chamar de meu best. — Qual seu curso? — pergunto. — Produção fonográfica. — O meu também — respondo e vejo seus olhos brilharem da mesma forma que os meus devem estar. — Então estaremos juntos em todas as matérias! — Ele olha para o teto — obrigado senhor, por lembrar do seu filho, amém. Não contenho uma risada, ele é muito engraçado. — Para ficar perfeito — ele continua —, só falta entrar por aquela porta um professor gostosão, estiloso e cheio de tatuagens, estilo bad boy! — ele suspira. Não é o que acontece. Com um timing perfeito, entra um professor na sala. Ele deve ter a minha altura, tem um corpo normal e usa roupas formais. O que me chama atenção é o colete xadrez por cima da camisa social branca. O cabelo está perfeitamente alinhado com a ajuda de gel. Como a camisa, as calças e sapatos também são sociais. Ele segura uma maleta marrom e usa óculos com armação arredondada. — É a fanfic da minha vida — Andrew murmura ao meu lado, chamando minha atenção para si. Ele tem um braço apoiado sobre o encosto da cadeira e dos seus olhos só faltam sair aqueles coraçõezinhos, como nos desenhos animados. — Apaixonou? — brinco. — Ele é o meu número — declara. — Ele é seu professor, menino — falo, rindo baixinho com sua expressão fascinada. — Também é o meu novo crush e futuro amor da minha vida — fala de uma forma dramática, fazendo nós dois rirmos. — Bom dia, alunos! Sejam bem-vindos à nossa universidade. Aproveitem cada minuto do tempo que vão passar aqui, pois eles serão lembrados por vocês pelo resto de suas vidas. — Que voz é essa? Puta merda, acho que gozei nas calças — Andrew murmura e eu ponho a mão na boca, abafando um riso. — Como todos sabem, essa é a disciplina de comunicação. Nosso objetivo é; capacitar o aluno para interpretação, leitura e escrita de textos verbais e não-verbais, através do domínio de conceitos relativos à comunicação. Abram na página doze de suas apostilas, vamos começar com a introdução a comunicação e seus vários meios e formas. A aula foi demais! Tá! Ok. Talvez, não tenha sido tão legal como as demais disciplinas serão. Porém, estou tão empolgada com tudo, que achei a coisa mais interessante do mundo ver o professor falar, sem parar, por horas a fio. Assim que saí da sala com Andrew ao meu lado, mandei mensagem para Taylor, que ficou de nos encontrar no refeitório. De início, quando me viu acompanhada, ficou receosa. Mas bastou meu novo amigo abrir a boca para ela sorrir e gargalhar com as pérolas dele. — Existem algumas lanchonetes espalhadas pelo campus, mas almoço mesmo só aqui. Esse restaurante não é terceirizado, é da universidade, então acredito que é tipo uma regra sabe? Dessa forma, a maioria come por aqui. — Então, você já está aqui há algum tempo? — Sim, não sou caloura — ela diz e toma um gole do seu suco, limpa a boca com o guardanapo. — Sei das fofocas, quem anda com quem. Mas não se empolguem, eu não sou da elite. — Seremos a resistência! — Andrew diz e nós duas rimos. — Não que eu precise falar para vocês quem é quem — ela continua —, uma olhada em volta e saberão. — Vamos lá — ele responde —, vou tentar adivinhar. Nerds — aponta para uma mesa e então vai nomeando os vários “grupos” espalhados pelo Refeitório. Sim. O nome do restaurante da universidade é Refeitório, muito criativo. — Só não consegui distinguir aquele grupo ali. — Ele faz um gesto discreto com a cabeça. — Qual? — Taylor pergunta, se virando. — Ah..., eles são a elite. — Como assim? — Sou eu quem pergunta agora. — Ali temos alguns do time de futebol americano, líderes de torcida e o pessoal da banda. — Estreita os olhos. — Faltam dois ainda. — E por que elite? — Andrew se manifesta. — São os populares. Integrantes das duas fraternidades mais famosinhas, promovem as melhores festas. — Dá de ombros. — Quem é aquele todo de preto? — meu amigo pergunta. — O Kane. Vocalista da Radioactive. Os caras são bons, acho que tem futuro. Olho para o tal Kane, o cara é lindo. Tem um estilo desleixado sexy, bem aquele tipo que diz “sou lindo e foda-se o resto”. Agora, depois da Taylor falar por alto quem são, consigo distinguir quem faz parte do time de futebol americano, quem são os outros meninos da banda e as meninas que são todas, obviamente, líderes de torcida. — Quem são os dois que faltam? — São dois primos. Um deles teve uma overdose no início do ano letivo passado e ficou afastado durante o resto do ano. O primo dele fez apenas parte das disciplinas para poder apoiar o outro na clínica de reabilitação. — Caramba, que lindo isso — elogio e ela bufa. — Vai por mim, Brandon é um babaca egocêntrico. Kane vive com eles também, os três são bem próximos. — Eles devem ser ainda mais gatos que o tal Kane. Gente bonita atrai gente bonita. — Eles são. É engraçado ver os três juntos, porque ao mesmo tempo que são parecidos, são visivelmente tão diferentes. — Não entendi nada — Andrew conclui rindo. — Nem eu — concordo, também rindo. — É, isso foi complexo — Taylor admite, olhando a tela do seu celular. — Preciso ir para a cafeteria. Pri, o que acha de o Andrew ir ao alojamento ver um filme conosco hoje? — Por mim, tudo bem — concordo, feliz por ver que os dois já se tornaram amigos. — Aí gente, que demais! No primeiro dia de aula já arrumei duas amigas e vou dormir na casa delas! — Dormir? — pergunto. Taylor e eu nos olhamos e, como sempre, ela dá de ombros. — Então, tá! — digo, por fim, e ele bate palminhas, animado. Senhor, onde esse menino vai dormir? Balanço a cabeça, ignorando isso. Daríamos um jeito. Taylor se despede e sai apressada, para não chegar atrasada no trabalho. Ela me contou que a cafeteria em que trabalha fica a uns quinze minutos da universidade e funciona o ano inteiro. Meio que entrelinhas, me disse que foi apenas uma vez para sua casa em uma de suas férias. Minha amiga aluga a casa que era dos pais, mas mantém um sobrado vazio para caso precisar voltar. Nem posso imaginar o quão difícil deve ser perder os pais tão cedo. Se, ainda assim, ela tivesse uma família, mas ela não tem. Bom, a partir de agora ela tem a mim. Farei de tudo para sermos boas amigas e para que a nossa convivência seja a melhor possível. Eu também nunca tive amigos. Quer dizer, tive “amigos” através dele, eu era uma sombra dele. — Ei, bebê. — Olho para Andrew. — Você estava longe. — Estava... no Brasil, procurando as curvas latinas que você disse que eu não tenho — ele ri. — Menina, brasileiras tem fama de ter tudo ão. — Pois, eu tenho inho. Esqueci de passar na fila da bunda e dos peitos — brinco. — Você está ótima assim! Eu, mais do que ninguém, não deveria imaginar um biotipo apenas por conta da sua nacionalidade. Foi bem imprudente da minha parte. — Relaxa. — Me levanto. — Vamos? — Ele ajeita a mochila em um ombro e também se levanta. — Quero estudar um pouco o início da apostila da disciplina de amanhã por... — Sinto meu corpo colidir com algo e logo o líquido gelado escorre pelo meu braço e parte das costas. — Você está cega, garota? — a menina grita comigo e quando levanto os olhos, vejo uma das garotas da elite. — Desculpa, eu estava de costas, não vi... — Pretendia andar de costas? Você é caranguejo agora? — Caramba, Já pedi desculpas! — falo mais alto. — Eu me molhei bem mais que você — falo, vendo apenas seu antebraço manchado pelo líquido. — Essas coisas acontecem. — Saia do meu caminho! — ela grita como se fosse a abelha rainha e eu uma súdita. — Amber — olho para o cara que a chama. É o tal Kane, que parece ainda mais bonito de perto. — Acidentes acontecem, deixe a menina em paz. Ela me encara, em seguida olha para ele e acena em positivo, fazendo seu caminho porta afora. Suas duas amigas a seguem. — Desculpe por isso — Ele diz e eu volto a olhar para ele —, ela é exagerada na maioria das vezes. Sou Kane — ele se apresenta de uma forma direta. — Sou Priscila. — Sotaque diferente — não é uma pergunta, mesmo assim, respondo. — Brasileira. — Legal. A gente se vê. — E então, da mesma forma inusitada que chegou, ele se vai. — Esse garoto é sexy! — Andrew não tarda em dizer. — Se apaixonou também? — brinco. — Não, minha paixão e meu amor são apenas do nosso professor. Com o Kane é só fogo no rabo mesmo. Gargalho alto. Me sentindo à vontade em sua presença, faço como Taylor fez comigo mais cedo e engancho em seu ombro, enquanto saímos do refeitório. Me diga uma coisa, garota Você está feliz neste mundo moderno? Ou você precisa de mais? Existe algo mais que você está buscando? Shallow — Bradley Cooper, Lady Gaga. Já estou acordada e o despertador ainda nem tocou, estive esperando a semana toda para que o hoje chegasse. De todas as disciplinas do primeiro semestre, essa é a mais aguardada, pelo menos para mim. Mixagem e edição musical. Cresci indo para o estúdio com meus pais. Ficava fascinada com a forma que as músicas ganhavam vida e eram modificadas. As gravações eram feitas e refeitas até que o som ficasse perfeito. A paixão que os artistas pareciam ter ao expor sua arte, a entrega, o amor. Tudo bem, sou suspeita a falar, já que toda forma de arte me encanta. Mas a música... é quase inexplicável. Em meu ponto de vista, é uma das formas mais expressivas. As pessoas geralmente usam a música como auto terapia. É um ato inconsciente, mas quando não estamos bem procuramos músicas tristes, quando acordamos bem, queremos ouvir algo animado. Os mais reflexivos tendem a procurar melodias com letras que trazem sentido ao momento, a vida. Eu amo todo tipo de música. Porém, tenho um fraco, ok, um guindaste pela música eletrônica. Não existe forma de definir a música eletrônica. Ela vem evoluindo desde que alguém começou a brincar com os sons, isso há décadas. Um pouco de jazz aqui, uma batida mais acelerada ali, bases graves, repetições, vocais, samplers e temos infinitos resultados. Techno, house, trance, psy, minimal, progressivo, drum´n´bass os mais crus e, em simultâneo, os mais misturáveis estilos da cultura club. O experimentalismo cresce e a rotulação dos deejays por estilo começa a ficar cada vez mais complicada e dispensável de se fazer. Perceber os elementos característicos de cada vertente é essencial para identificá-las. O despertador toca e eu pego o celular, o desligando. Suspiro e sorrio por estar acordada antes do horário. Hoje é quinta-feira, estou há quase uma semana aqui em Boston e ainda parece mentira. É como se isso fosse um sonho, ou uma realidade paralela, e que a qualquer momento eu vou acordar e me transportar para a minha antiga vida em São Paulo. É só lembrar da minha vida dos últimos anos para voltar a fechar os olhos e suspirar novamente, mas dessa vez de frustração. Como eu pude me sujeitar a tudo que eu vivi? Como pude simplesmente viver uma vida que eu nitidamente não estava feliz só para agradar um homem? Melhor, um moleque. Balanço a cabeça, afastando esses pensamentos assim que ouço o despertador da Taylor tocando. Como sempre, ela demora alguns segundos, resmunga algo e então o desliga. — Pri — murmura quando se senta na cama e passa as mãos no rosto —, bom dia.

Capítulo 3 Trabalho em dupla- tensão sexual

— Bom dia, galega — respondo, me levantando. — Posso tomar banho primeiro? — Claro. — Ela faz um gesto com a mão, como se estivesse me dispensando. Como ela mesmo diz, demora alguns minutos para que sua alma volte para o corpo quando acorda. Faço um xixi rapidinho e vou para o banho. Isso facilita nosso convívio, pois, enquanto uma vai ao banheiro, a outra toma banho. Se bem que, Taylor bota o café a fazer antes mesmo de fazer xixi ou lavar o rosto. Ela e o café tem um caso sério de amor. Tiro a roupa e ligo o chuveiro, gemo ao sentir a água quentinha. Pego o shampoo e começo a lavar meus cabelos, ainda sinto falta do comprimento. Não diria falta, mas o costume de sempre ter os cabelos compridos faz com quem eu sinta falta de algo. Cortei dois dias antes de viajar. Meus cabelos batiam na cintura, agora batem no ombro. Eu quis fazer em minha aparência algo tão radical quanto a minha mudança de país. Sim, eu queria literalmente uma mudança. Para algumas pessoas, cortar o cabelo parece bem normalzinho, não para mim, que tenho cabelo comprido desde que me vejo por gente. Há alguns anos eu já vinha querendo cortar..., mas, como sempre, não tive coragem. Ensaboo o corpo e logo tiro a espuma. Desligo o chuveiro e me enxugo ainda dentro do box, me enrolo na toalha e quando saio Taylor está escovando os dentes encostada na parede.Quando me vê, se vira de costas sem jeito. — Vai ser sempre assim? — pergunto. Ela larga a escova na pia e põe água na boca, tirando o creme dental. — O quê? — ela pergunta, ainda de costas. — Toda vez que eu vou mudar de roupa ou saio de toalha do box, você fica desconfortável. Ela suspira alto e se vira para mim. — Eu não fico desconfortável — declara. — O que eu não quero é que você se sinta assim. Eu sei que o fato de eu ficar com meninas pode te deixar constrangida, sei lá. Não quero que fique um clima estranho. — Você quer ficar comigo? — pergunto, confusa. — Não — ela ri —, somos amigas. Tenho medo de você pensar que estou te tarando, te cantando... — Você tem medo que eu te julgue? Eu não sei o tipo de gente que está acostumada a lidar, mas não sou assim. Eu gosto de homem, porém, o fato de eu gostar do sexo masculino não faz com que eu sinta desejo por todos os homens na terra. — Sim — ela respira fundo. — É que o julgamento é tão grande, que eu já prefiro prevenir... — Não precisa ficar pisando em ovos comigo. Somos amigas, moramos juntas. — Tiro a toalha, ficando só de calcinha. Pego o sutiã e o coloco. — Sem climão então? — ela pergunta sorrindo. — Sem climão — respondo. — Aí, você é tão fofa. — Ela vem até mim e aperta a minha bochecha. — Ei, para — empurro ela rindo. Ela gargalha e vai para o box tomar banho. Escolho uma calça jeans simples e uma camiseta preta lisa de manga comprida. Pego meias, o all star branco, vou até à cama onde me sento para calçar. Bocejo e me espreguiço antes de voltar a me levantar, pegar minha escova e ir em frente ao espelho. Penteio meus cabelos. Nossa, se fosse há uma semana, teria mais trabalho, cabelo curto é vida. Taylor sai do banheiro ainda se enxugando e reprimo um sorriso por ver que após nossa breve conversa ela se sente à vontade de trocar de roupa perto de mim. — Hoje sou eu quem fecha a Coffe Academics. Você e o Andrew poderiam ir lá, né? Dás seis às sete a cafeteria é quase deserta. — Claro, desde que você guarde uma mil-folhas para mim. — Interesseira — diz, negando com a cabeça. — A interesseira aqui vai fazer um misto quente, você quer? — E eu lá sou de negar comida? — Bom dia, turma! — o professor fala bem-humorado, assim que entra na sala. — Bom dia só se for para você — Andrew murmura. Ele está em um dia ruim hoje. Segundo ele, precisou bancar o hétero para o pai, que só aparece uma vez por mês. Mas como ele paga as contas, meu amigo diz que vem se mantendo no armário em sua frente e eu nem posso imaginar o quanto deve ser horrível fingir ser algo que não é. Na verdade, posso ter uma noção, já que eu fiz muito isso. Claro que as situações são incomparáveis, ainda que a farsa presente nas duas seja a mesma. — Sou Nilman, professor de mixagem e edição musical. Minhas aulas serão voltadas à prática... Pela próxima hora ele fala sobre sua disciplina. Basicamente, o que é mixagem e em qual etapa do processo de produção fonográfica ela se encontra. Conta onde começou e como se desenvolveu pela história da música. — Vocês devem ter percebido que estamos em duas turmas aqui. — Ele olha em sua folha. — Sendo específico, trinta e seis alunos. Entre vocês, temos alunos do curso de Bacharel em Música e Produção Fonográfica. Olho em volta, para os rostos desconhecidos. — Por que não estou com um pressentimento bom? — Andrew murmura baixinho ao meu lado. — Eu decidi que nesse semestre eu tornaria tudo ainda mais prático. Por que não juntar o artista ao produtor? — ele fala como se conversasse com si próprio. — Pensando nisso, decide que faria duplas com um aluno de cada curso... — Ah, caralho... — Andrew reclama. Por mais que eu não verbalize, também não gosto da ideia. — Eu já separei as duplas. — Balança duas folhas no ar. — Conforme eu for falando, peço que levantem a mão e se sentem juntos, porque durante a próxima hora vocês poderão trocar ideias sobre o trabalho. Ah, eu não disse o principal. O trabalho de vocês será criar uma composição do zero. Usem a criatividade. Ela será gravada e apresentada para a banca da universidade. Depois disso, ele começa a ler os nomes e segue formando duplas. O meu nome é chamado e, para a minha infelicidade, o meu parceiro não veio para a aula. Sério, quem falta na primeira semana de aulas? Devo ter jogado pedra na cruz, porque provavelmente deve ser um idiota, irresponsável. — Hoje quero que foquem nas etapas de produção; como produzir timbres, criar arranjos. Vai depender muito do estilo musical escolhido. Volto a olhar à minha volta, desanimada. Caramba, sou péssima com a parte da criação. Sem muita escolha, me levanto da minha cadeira e vou até o professor, que agora está sentado atrás de sua mesa. — Senhor Nilman — ele levanta os olhos para mim —, a minha dupla não veio... e não sou muito boa com a parte da criação. — Você é? — ele pergunta, falo meu nome e ele volta os olhos para suas folhas com as duplas. — Justin Davis — abro um pequeno sorriso. — A matrícula dele está ativa, temos cinco meses pela frente. Após mais algumas palavras, volto para o meu lugar e fico viajando durante a próxima hora, me sentindo deslocada por todos estarem entrosados e trabalhando enquanto estou sozinha. — Ele é meio entojado — Andrew dá de ombros. — Pelo menos, não é homofóbico, bom, julgo que não é. — A menina do trabalho de anatomia é querida. Acredito que vamos no dar bem. Fico escutando Andrew e Taylor divagarem sobre seus colegas, dupla de trabalho. Isso só me deixa ainda mais triste pelo fato de o menino que vai fazer trabalho comigo ter faltado. Caramba, esperei tanto por hoje, por essa disciplina, para logo no início já levar um toco desses. — Desfaz essa carinha, Pri — meu amigo fala. — Semana que vem ele não vai furar. — Não sei de quem estão falando. — Um loiro alto se senta ao meu lado no balcão. — Seja quem for, é um babaca por furar com você. — Ele me encara. — Eu jamais faria isso. Sinto minhas bochechas esquentarem na hora. Ele está flertando comigo? Eu, definitivamente, não sou boa nisso. Não sei o que dizer. — Deixa de ser abusado, Jamie! Deixou a menina com vergonha — Taylor o repreende. Ele sorri e eu, idiota, solto um riso nervoso. — Jamie — ele se apresenta e me surpreende ao se inclinar e beijar meu rosto. — Você é? — pergunta diante do meu silêncio. — Priscila — falo e ele sorri. — Que sotaque bonito, é natural de onde? Taylor bufa do outro lado do balcão. — Brasil. — Vai querer algo, Jamie? — minha amiga pergunta. — Quero um mocaccino[7] para a viagem. — Não cai no papo dele, amiga — ela fala enquanto prepara a bebida — ele é da Khapa Alfa e além de fazer parte da elite, é um dos mais mulherengos de lá. — Não queima meu filme, loirinha — Jamie a responde rindo, voltando a me olhar. — Todos sossegam um dia — fala olhando em meus olhos e, então, pisca. Novamente, sinto o sangue do meu corpo ser todo direcionado ao meu rosto. — Seu café. — Taylor entrega a bebida. — Pare de deixar a garota constrangida. Ele apenas ri, pisca para mim e sai do estabelecimento. — Você não cobrou — Andrew a lembra. — Ele é filho do dono — dá de ombros —, come aqui em várias refeições. — O mundo é muito injusto mesmo. Ele come esse monte de comida boa e é aquela parede de músculos? A barriga dele deve ser tipo a do Ken. — Ken? — pergunto. — Você não teve infância, menina? O marido da Barbie, né — fala como se fosse óbvio, fazendo Taylor e eu darmos risadas. — Ele é capitão do time de futebol americano. — Hum, ele é um dos gostosões que você vai cuidar ano que vem então? — pergunto só para provocar. — Credo! Não, é o último ano dele. Provavelmente, o próximo capitão vai ser o Brandon. — Faz uma cara de desgosto. — Não vai com a cara desse aí também? — Andrew pergunta. — Não. Ele também é da elite e é meio abobado. — Dá de ombros. — Pri, você já percebeu que a Taylor é antissocial? — ele me pergunta, ganhando um tapa da nossa amiga. — Só tem minha atenção as pessoas que merecem. — Ela pisca. Ela brinca e partir daí, são conversas em meio aos risos, até irmos para o alojamento. Com os dois, me sinto mais amada do que em meio aos vários “amigos” que tinha em São Paulo. Enquanto estamos sentados sobre o tapete, tomando uma long neck, faço uma prece silenciosa me sentindo abençoada, agradecendo por eles terem aparecido em minha vida. Isso não é para você A foto que eu postei, eu queria dizer, sim, "Adeus" Para o bem ou para o mal Não é pessoal, não há nada o que explicar, adeus Adiós — Selena Gomez — Não sei se é uma boa ideia — Taylor fala assim que engole a comida. — Por quê? — Andrew retruca. — Eu só tenho dois anos aqui, quero viver intensamente cada momento. Sorrio, negando com a cabeça. — O que você acha, Pri? — Taylor pergunta. — Por mim… — Dou de ombros. — Ela ainda está chateada por causa daquele trabalho. — Ele revira os olhos e Taylor bufa. Ok. Talvez, eu esteja só um pouquinho repetitiva com esse assunto. Ou muito. Sim, muito. Era para ser a minha matéria preferida e o garoto, minha dupla, já faltou duas aulas! DUAS! Fui novamente questionar o professor e ele me garantiu que o garoto está matriculado e virá em breve. Em breve. Será que esse breve é quando para ele? Pergunto-me se é semana que vem, mês que vem... — Ei! — Minha amiga estala os dedos em frente ao meu rosto. — Para de ficar se martirizando. Se seu colega não aparecer na próxima, você volta a se preocupar, agora esqueça isso. — Ela vira o rosto para Andrew. — Vamos nessa festa! — Ah! — ele grita comemorando, fazendo nós duas gargalharmos. — Que roupa vocês vão? — E o que você tem a ver com isso? — pergunto, arqueando a sobrancelha. — Bebê, não aceito menos que muita pele à mostra! Vai ser tipo triteto fantástico. — Triteto? — a galega pergunta, mordendo o lábio. — Sim! Se a Marvel criou o quarteto fantástico, acabo de criar o triteto. — Empina o nariz. — Eles que lutem. Kane entra no refeitório com a sua pose de “foda-se, eu sou lindo”. Usa uma calça jeans preta skiny rasgada, camisa preta, coturnos pretos. Tem uma jaqueta jeans amarrada na cintura e ostenta um cabelo despenteado que o deixa ainda mais gato. Quantas tatuagens será que ele tem? — Ele é muito gostoso — Andrew fala. Não preciso olhar para ele para saber que também se refere a Kane. — Quando vocês virem o trio juntos, vão atualizar com sucesso o significado de beleza em seus dicionários. — Os primos? — pergunto. — Sim — Taylor afirma. — Ele está vindo! — Andrew fala e logo disfarça, pegando o copo de suco e tomando. Kane se senta no banco da minha frente. — Oi, bebê — ele fala para mim, pisca para Andrew, que suspira, e então se vira para Taylor. Ele se sentou sim no banco em minha frente, porém, com uma perna de cada lado, ficando de frente para Taylor, que está ao seu lado. — Oi, loirinha — ele sorri e pega uma batata do prato dela. Ela o encara, estreitando os olhos quando ele novamente pega uma batata. — Por que não pega uma folha de alface em vez da batata? Ele gargalha alto. — Eu não mantenho uma alimentação saudável, linda. — Ele faz uma careta. — Se bem que isso muda com a chegada de Brandon. — Ele chega quando? — ela pergunta, surpreendendo a todos nós. Kane sorri de lado. — Interessada no meu irmão? — Claro que não! — afirma, para logo questionar. — Vocês são irmãos? — Meio irmãos. — Sério? — Arregala os olhos. — Meu pai se casou com a mãe dele quando éramos crianças. — Ela apenas move a cabeça em resposta que entendeu. — Então, posso deduzir que o Honey bun[8] também estará de volta — pergunta. Ele abre um sorriso lindo. — Como sabe que chamo ele assim? — Kane questiona. — E quem não sabe? — ela devolve. — Amanhã é a primeira festa da Khapa Alfa. Não sei se já foram convidados... — Não fomos — Andrew fala rápido e Kane sorri de lado por sua afobação. — Em que festa nós iriamos, então? — Taylor pergunta, franzindo a sobrancelha. — Quem se importa? — Andrew responde, fazendo todos nós rirmos. — Vou esperar vocês lá. — Então se vira para Taylor. — Eu pediria seu número, mas tá na cara que tem uma quedinha pelo meu Teddy Bear[9]. E quer saber? Ele se deitaria para você rolar por cima. — Não quero nada com seu irmão. Foi só uma curiosidade — ela fala séria. — Sei — fala, já se levantando. — A gente se vê. Fala para todos nós, dá duas batidinhas na mesa e vai em direção a onde costumam ficar, como diz Taylor, a elite. — Esse boy é muito quente — Andrew diz, puxando a gola da sua camisa. — Sabe, amiga — Taylor me olha. — Acredito que esse ódio pelo tal Brandon é... — Tesão incubado — Andy decreta e eu confirmo com um mover de cabeça. — Eu já falei, ele é um babaca egocêntrico — ela responde e emenda, desconversando. — Sobre as roupas, não sei se tenho algo decente. Não costumo sair. — Tudo que eu trouxe é bem normal... — Vamos às compras! — Andrew rebate, animado. — Eu trabalho hoje à tarde, amigo — Taylor fala desanimada, mas logo sorri. — Porém, amanhã de manhã é minha folga. — Resolvido! Amanhã vamos às compras, depois vamos para o meu apartamento. Passamos o dia lá e à noite vamos juntos a festa. Taylor e eu nos olhamos, ela apenas dá de ombros e eu suspiro, sabendo que questionar Andrew nem sempre é a melhor saída. Lembro de minha mãe dizendo para eu viver todas as experiências. É isso que vou fazer. — Essa blusa é muito chamativa. — Estendo o pedaço de pano no ar. — Isso mal vai cobrir meus seios. — Essa blusa é ótima — Andy rebate. — Mas… — Penso que não vou ter coragem de usar essa roupa — Taylor murmura do provador, parecendo tão aterrorizada quanto eu. Andy caminha até onde ela está e abre a cortina sem cerimônia alguma. — Caralho! — exclama, surpreso. — Eu sabia que ficaria bem em você, mas nossa… Vou até o encontro dos dois e a primeira coisa que vejo é a bunda muito bem desenhada de Taylor em uma calça jeans. Ela tem uma senhora bunda. Levanto os olhos por suas costas, vendo um body rendado preto para encontrar seu reflexo pelo espelho, notando seus seios moldados em um decote generoso. O resto da renda se agarra em sua cintura, deixando pontos estratégicos expostos pelo tecido fino. A calça jeans parece ainda mais perfeita em suas coxas grossas do que na parte traseira. — Você está gostosa, amiga! — exclamo e ela ri sem jeito. — Não sou acostumada a mostrar tanto… — Sorte sua que agora me tem em sua vida! — Andy diz orgulhoso. — Vou passar frio… — ela tenta. — Não vai. Aquele lugar vai estar lotado, calor humano, galega. — Pisca para ela, que revira os olhos. — Quem sabe o tal Brandon aparece? — Jogo no ar. — Pelo amor de Deus, eu já disse que não quero nada com esse menino! — Ela empurra Andy e eu para fora e fecha a cortina. Nós nos entreolhamos em um claro “aí tem”. — Agora é sua vez, princesa. — Ele segura minha cintura, me empurrando até o provador. — Vamos, não enrole. E eu não enrolo.

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