Copyright © 2023 de Elisa Bianchi. Trata-se de uma obra de ficção. Nomes, personagens, locais e eventos mencionados são fruto da criatividade da autora. Qualquer similaridade com nomes, datas, pessoas vivas ou falecidas e eventos reais é pura coincidência. Conteúdo para maiores de 18 anos. PLÁGIO É CRIME. Os direitos autorais foram garantidos. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Esta narrativa trata de assuntos sensíveis que podem provocar reações emocionais em alguns leitores, como: violência física e verbal, linguagem ofensiva, sexo explícito, relacionamento tóxico, abuso familiar, tortura, entre outros. No entanto, caso ainda opte por embarcar nessa aventura, desejo-lhe uma excelente leitura! Seja bem-vindo(a) ao meu universo. Um beijo, Elisa Bianchi. Capítulo um: Problemas no paraíso. Dois anos antes… BIANCA OLSEN A gente nunca esquece a dor do primeiro tapa. E não falo da dor física, mas sim da emocional. Aquela que se impregna em nossa alma e deixa uma ferida eterna no coração. — Nunca mais me cobre porra nenhuma! — brada James, me atingindo com força no rosto. Hoje completamos nosso primeiro ano de casados. Deveria ser uma noite feliz. Eu colocaria um lindo vestido, faria uma maquiagem caprichada e sairíamos para jantar. Imaginei ele me presenteando com uma joia, talvez flores, dizendo o quanto me ama. Pensei que teríamos um momento único, trocando juras de amor e planejando o bebê que pretendíamos ter em breve. Todavia, nada disso aconteceu. Minha vida perfeita era apenas uma fantasia que eu mesma havia criado. James, mais uma vez, chegou em casa bêbado, agressivo e com um cheiro doce — certamente perfume de outra mulher. Nas últimas semanas, venho notando suas mudanças de comportamento; está sempre nervoso e rude, tratando-me com grosseria e falta de respeito. Tem bebido muito e seu horário de chegada é cada vez mais tarde. Ele usa o cargo de delegado no departamento de homicídios do FBI como desculpa todas as vezes que chega em casa de madrugada, o que tem se tornado rotina. Nesta noite, ele se esqueceu por completo do nosso aniversário de casamento e de tudo o que eu havia planejado para nós. Foi a gota d'água que me fez transbordar. Explodi ao vê-lo nesse estado. Discutimos e, para minha surpresa e desespero, o homem que eu amo, o meu príncipe encantado, enfureceu-se e me agrediu. Sinto o gosto de sangue na boca; o golpe foi tão forte que rasgou meu lábio. Meu rosto arde e minha cabeça lateja, mas nada é pior do que a dor da decepção. Caída no chão, choro em agonia, sem querer acreditar que o homem lindo, carinhoso e gentil que conheci há pouco mais de um ano em um bar — aquele por quem me apaixonei perdidamente, entreguei meu coração e me casei um mês depois — seja, na verdade, um monstro. — Tive um dia infernal na delegacia. Acha que é fácil comandar a homicídios? — berra, andando até o bar e servindo uma dose de uísque para si mesmo. — Eu sou um homem importante, não tenho tempo para as suas frescuras, está me ouvindo? Você não faz nada da vida, não sabe o que é ter que trabalhar! Não passa de uma inútil! — Sua fala é carregada de arrogância. Aquelas ofensas inflamam meu ódio. Seco minhas lágrimas e o encaro. — Fico em casa porque você me pediu. Você não quer que eu trabalhe! Eu não sou inútil e quero voltar para a empresa, lá é o meu lugar! — Apesar do meu tom alterado, sinto medo por não saber do que ele é capaz. — Cale-se! — vocifera. Seus olhos azuis ficam vermelhos e ainda mais assustadores. Ele vira a dose e atira o copo com força contra a parede. — Quem manda nesse caralho sou eu! Mulher minha não trabalha! Você ficará em casa me servindo e ponto final! — Me solta! Socorro! — grito, ao ser agarrada pelos cabelos. — Você faz o que eu mandar, entendeu? — Está me machucando! Me solta, James! Por favor! — imploro, aos prantos. — Você precisa de um corretivo para aprender a respeitar o seu marido. Outro tapa arde em meu rosto. Ah, Deus, me proteja, Senhor! — clamo mentalmente. — Vagabunda! Quem você pensa que é para me desafiar? Cansei de você, cansei! — Tomado pela fúria, o homem me pega pelo pescoço e aperta, tirando meus pés do chão. — Ja... James, n... não, p... por favor... M... me des... culpe... — peço com dificuldade, tentando afastar as mãos dele do meu pescoço. Com um empurrão brusco, ele me joga no chão e se afasta. — Levante-se daí e pare de chorar. Vamos para o quarto, agora! — ordena ríspido, passando por mim e subindo as escadas de madeira que levam ao andar de cima. Sempre trabalhei. Desde muito nova, meus pais me inseriram nos negócios da família. A Tex Olsen International foi fundada pelo meu avô materno, Nicholas Olsen, há quarenta anos. Somos os maiores fabricantes de tecidos do país, além de possuirmos inúmeras lojas. Quando conheci James, meus pais estavam me preparando para sucedê-los no cargo de CEO. Porém, ele me convenceu de que eu era muito jovem. No auge dos meus vinte e um anos, ele achava muito cedo para eu assumir uma responsabilidade tão grande. Suas palavras me desencorajaram e me deixaram insegura. Com medo de decepcionar meus pais, decidi me afastar por um tempo da empresa. James, um homem experiente de trinta e cinco anos na época, quis assumir o cargo por mim, mas meus pais não concordaram. Deixaram claro que iriam esperar o tempo necessário até que eu me sentisse segura para assumir o lugar que me pertence por direito. Em suma, neste momento sou uma dona de casa frustrada que apanha do marido. Não posso aceitar isso. — Bianca, tenho que falar com você duas vezes? — escuto o berro de James vindo do quarto. — Já estou indo, James! — respondo, engolindo em seco. Ergo meu corpo do chão, tomo fôlego e subo as escadas. Dentro do quarto, evito olhar para ele. Caminho direto para o banheiro e, com o corpo ainda trêmulo, lavo a boca suja de sangue, sentindo a ardência da água contra a pele. Sigo para o closet, pego uma mala pequena e começo a enfiar minhas roupas dentro. Imediatamente, James surge na porta. — Mas o que é isso? Enlouqueceu? — indaga, entrando na minha frente e puxando a mala para si. — Você não pode me bater, não pode! Não vou aceitar isso, James! Acabou, voltarei para a casa dos meus pais! — aviso, tentando puxar a mala de volta. Ele joga a bagagem longe e me abraça forte. — Meu amor, não diga isso nem de brincadeira! Eu te amo, minha linda! Só fiz isso porque você me deixou nervoso. Me desculpa, por favor, amor! — explica com a voz suave, parecendo até mesmo outra pessoa. — James, eu... — Sou impedida de terminar minha fala pelos lábios dele, que invadem os meus com força. — Ai! — reclamo, me afastando. — Minha boca está machucada. Seus olhos azuis estão brilhantes. Ele sorri e acaricia meu rosto. — Perdão, meu amor! Perdão! Você me conhece, sabe que isso nunca mais irá se repetir. É assustador, mas, mesmo sentindo no fundo que aquela promessa era uma mentira, simplesmente não consegui ir embora. Eu o perdoei e, pouco tempo depois, tudo se repetiu, de novo e de novo. A cada vez, o pesadelo era ainda pior. Após as agressões e humilhações, eu recebia flores, joias e promessas falsas. Sendo gentil e amoroso, James conseguia me manipular. Eu sempre o absolvia, acreditando que daquela vez seria diferente, que ele mudaria e que nossa vida voltaria a ser perfeita como antes. Mas eles não mudam. Eles nunca mudam. Com seu ciúme possessivo e poder de manipulação, James me tirou tudo: o trabalho, os amigos, a independência, a força e até mesmo a presença da minha família. Mudei meu jeito de vestir, deixei de ir aos lugares que amava frequentar, alterei minha forma de falar... Mudei tudo. Deixei de ser eu mesma. Fui tomada por medo, insegurança e dependência emocional. James me ludibriou. Entretanto, mesmo que fingisse ser um bom marido, meus pais pareciam perceber que algo não estava certo. E isso o irritava profundamente; ele tinha ódio deles, óbvio, já que eram os únicos que poderiam me libertar daquele tormento. Mas eu não conseguia dizer a verdade. Sempre que me questionavam, eu mentia, dizia que estava tudo bem, que eu era feliz e que James era bom. Quando se está dentro de uma relação abusiva, o medo fala por você. O agressor confunde a sua cabeça e faz você duvidar da sua própria sanidade. Era como se eu estivesse presa em areia movediça, afundando mais a cada passo. E não importava para onde eu tentasse me mover, simplesmente não conseguia me libertar do domínio de James. Meses depois, meus pais, Carol e Connor, sofreram um grave acidente de carro. Houve uma falha nos freios, o veículo derrapou na pista coberta pelo gelo, capotou e despencou em uma ribanceira. O automóvel afundou e, presos aos cintos, ambos faleceram por afogamento. Achei que já havia sofrido o suficiente, mas a dor de perder as pessoas que mais se ama na vida é impossível de superar. Não existiam mais lágrimas para chorar; me sentia inerte, dominada pela tristeza. Em vez de me apoiar, James aproveitou meu pior momento para agir. Quinze dias após o enterro dos meus pais, desci as escadas e o encontrei sentado na sala de jantar. — James, chegou cedo! Vou mandar servirem o jantar. — Não quero comer. Temos que conversar. Sente-se! — ordena em um tom frio que já conheço muito bem. — Estou cansada, podemos falar depois? — argumento, porém em vão. — Sente-se aí, porra! Estou mandando! — esbraveja, batendo os punhos sobre o tampo de vidro escuro da mesa. Derrotada, faço o que ele manda. James deposita duas folhas brancas de papel e uma caneta na minha frente. — Assine! — impõe. — O que é isso? — pergunto, confusa. — Isto é um laudo médico! — Um laudo? De quem? — volto a questioná-lo, entendendo menos ainda. — Seu! Aqui você está sendo diagnosticada com depressão em estágio grave e alguns sinais de esquizofrenia — explica, sorrindo. — O quê? Mas eu não me consultei com nenhum médico, James! Isso é um erro! — digo, incrédula. — Não, Bianca, não é. E aqui está uma procuração em que você passará o controle total das empresas Olsen e de toda a sua herança para mim. — Aponta para o segundo documento e pega a caneta. — Sua doença te impedirá de assumir o cargo de CEO. Portanto, eu o farei. Assine! — exige. — Você só pode estar ficando maluco, não irei assinar nada! Esse é o legado da minha família, você não vai tirar isso de mim! — vocifero revoltada, tentando me levantar. Contudo, rapidamente ele se põe de pé e me impede, forçando meus ombros para baixo com violência. — Você está doente, meu amor! — debocha, apertando-me ainda mais forte, e continua: — Com esse laudo, consigo até mesmo te internar compulsoriamente. É isso o que você quer? — Seu tom é rude e ameaçador. — Eu não sou louca, James! Não estou doente e não vou assinar! Está me machucando, me solta! — exijo, aumentando meu tom de voz. Ele se enfurece. — Assine essa merda agora, Bianca! — berra, empurrando meu rosto para perto do papel sobre a mesa. — Assine, ou vai se arrepender, eu juro! Eu te interno, te enterro em um sanatório clandestino para o resto da sua vida! — ameaça, gritando no meu ouvido. — Você está desequilibrada. Somente eu sei o que é bom para a sua vida. Você não tem capacidade para administrar os negócios; isso é coisa de homem. James é um homem influente e respeitado. Conseguir esse laudo não deve ter sido difícil. E sei que suas promessas não são vazias. De qualquer forma, ele terá o que quer: se eu resistir, serei internada em algum buraco e nunca mais ninguém me achará. Mesmo sentindo meu peito rasgar, pego a caneta e assino a procuração. Não consigo nem ao menos ler o conteúdo antes que ele tome as folhas de mim. — Agora sim! Tudo em minhas mãos! — gargalha, diabolicamente. — E você ficará guardadinha em casa, como deve ser. Obedecendo e servindo ao seu marido. Ele segura meu queixo, forçando-me a lhe dar um beijo que me causa repulsa imediata. James se afasta sorrindo, vitorioso. Debruço-me sobre a mesa, chorando em completo desespero. Acabou, minha vida acabou. Agora serei prisioneira deste homem pelo resto dos meus dias.
BIANCA OLSEN: Dias atuais... — Está pronta, querida? — James se aproxima e me abraça por trás, em frente ao espelho do closet. — Sim. Só preciso calçar os sapatos — respondo, tentando me esquivar de seu braço. — Está linda, a maquiagem está perfeita! — Ele segura meu queixo e me dá um beijo rápido. — Desculpe-me por ontem, cheguei nervoso! — pede, e mais uma vez sei que é da boca para fora. — Tudo bem, James. Vamos logo com isso. — Finalmente me livro de seu aperto e termino de me calçar. Esse não foi, nem de longe, o destino que sonhei para mim. Sem nenhum controle sobre a minha própria vida, sou mantida em cárcere, como um animal. Saio apenas para ser exibida como esposa troféu para a sociedade de Nova York. Sou agredida, humilhada e abusada constantemente por aquele que deveria me amar e me proteger, como prometeu diante de Deus e dos homens. Nunca disse nada a ninguém. James ganhou muito mais credibilidade depois que assumiu as minhas empresas, além de ser um policial influente e respeitado. Como ele mesmo gosta de repetir: "Ninguém acreditaria em uma mulher desequilibrada, com um laudo de depressão grave e sinais de esquizofrenia." Não subestime o poder de um homem manipulador. Depois de um tempo nas mãos de um agressor, você passa a acreditar em tudo o que ele diz. E, por mais deplorável que seja, acaba se acostumando a viver dentro desse inferno. Eu não via outra saída a não ser aceitar meu maldito destino. ♡♡♡ Toda a alta sociedade nova-iorquina está reunida para homenagear os "homens do ano". James recebe uma medalha de honra pelos serviços prestados à comunidade e, mais uma vez, me exibe para todos, fingindo ser o marido perfeito na frente dos convidados. Passo a noite forçando sorrisos, posando para fotos e fingindo felicidade ao lado do meu algoz. Jantamos na mesa principal com mais alguns policiais e suas esposas. Tento parecer o mais normal possível, embora por dentro sinta um desejo desesperado de sair correndo daquela falsidade toda. James é ovacionado e cumprimentado por todos ao redor. Ele ama ser o centro das atenções. Próximo ao fim do evento, os casais se dirigem à pista para acompanhar o ritmo. Mantenho-me sentada enquanto James é paparicado. — Preciso falar com mais algumas pessoas e depois iremos embora. Fique aqui, não saia e não fale com ninguém! — Murmura com seu tom gelado de sempre. Permaneço no meu lugar, exatamente como ele ordenou. Porém, em dado momento, o delegado-geral e chefe de James, Bruce Parker, aproxima-se e me cumprimenta. — Boa noite, Bianca! Como vai? — pergunta, sorridente. É um homem de cabelos e barba grisalhos, muito elegante em seu smoking sob medida. — Boa noite, Sr. Parker. Vou bem, e o senhor? — ponho-me de pé para cumprimentá-lo e ele me dá um abraço cordial. — Melhor agora, querida. A Sra. Parker não pôde vir hoje. Me acompanha no salão? — Oh, Sr. Parker, estou esperando por James para irmos — reluto, sem jeito. — Acabei de vê-lo conversando com o prefeito, aposto que vai demorar. — Eu não sei, acho que ele virá logo... — insisto. — Ora, vamos lá, Bia! Não negue esta cortesia a este velho aqui. Seu marido é meu subordinado e amigo, não vai se importar — argumenta. Sem saber como recusar sem parecer rude, dou-me por vencida. — Tudo bem, então. Ele me lança um sorriso gentil e seguimos para a pista. Eu sabia que aquilo se voltaria contra mim mais tarde, mas o que eu poderia fazer? Dar as costas ao chefe do meu marido? Hoje eu sei que deveria ter aproveitado a oportunidade para pedir ajuda a ele. Mas, naquele momento, o medo me paralisou e eu nada fiz. Ao final da música, que até foi um momento leve e divertido, volto para a mesa. De longe, observo James virar um copo cheio de uísque puro enquanto me fuzila com o olhar. — Sua esposa tem muita leveza no salão, Benner! — elogia o Sr. Parker, ao se aproximar de James, cumprimentando-o com um aperto de mão. — Eu sei disso, senhor — James sorri falsamente e se vira para mim. — Vamos, querida? — Sim... — gaguejo, trêmula de nervosismo. — Mas já? Ainda temos muita festa pela frente — comenta Bruce. — Minha esposa precisa dormir cedo, senhor. Não é, querida? — mentiu James, forçando-me a concordar com um aperto discreto no meu braço. — Ah, sim. Já estou com bastante sono — sorrio fraco. — Sendo assim, até logo, Bianca. Foi um prazer revê-la. — Bruce se despede de nós. Assim que o homem se afasta, James me puxa para fora do salão de festas, em direção ao estacionamento. Entramos no carro e, mal ele dá a partida, o ataque começa. — Estava bom? Gostou de me fazer passar por corno na frente de todos? — questiona, furioso. — James, ele insistiu que eu o acompanhasse. Foi apenas um gesto de cortesia! — tento explicar. — É sempre isso! Você seduz os homens em todos os lugares e depois se faz de santinha. Você não passa de uma piranha! Quer trepar com o meu chefe, vagabunda? — me ofende, puxando meus cabelos com violência para trás. — Me solta, James! — grito, tentando me desvencilhar. — Cala a boca, sua puta! Hoje você vai me pagar! — vocifera, soltando meu cabelo apenas para pisar fundo no acelerador. James dirige de forma inteiramente imprudente, furando sinais vermelhos e quase atropelando pedestres nas ruas escuras de Nova York. — James, vai mais devagar! Você vai bater o carro! — imploro, apavorada. — NÃO ME DIGA O QUE FAZER, CARALHO! — ele berra. Encolho-me no banco, imaginando o que me aguarda quando chegarmos em casa. O medo toma conta de mim e as lágrimas escorrem pelos meus olhos. — Pare de chorar, que inferno! — grita, socando o volante. — Eu já estou cansada disso. Fique com tudo, com a herança, só me deixe ir embora! — digo, entre os soluços do pranto. — Eu quero descer, pare este carro! — Você nunca vai se livrar de mim! Você é minha, Bianca, só minha. Aceite isso! — Ele desvia os olhos possessivos da estrada para mim e ameaça: — E nem pense em fugir, porque eu te mato antes! Engulo em seco, pensando desesperadamente em alguma saída para escapar daquele cativeiro sem fim. ▲▲▲ Depois de mais gritos e ameaças, finalmente chegamos em casa. Assim que ele destrava as portas do carro, em um impulso de desespero puro, abro a minha e saio correndo em direção à calçada. — Filha da puta! — escuto-o berrar. Poucos metros à frente, acabo tropeçando nos sapatos de salto e caio de mau jeito no chão. James me alcança rapidamente e me ergue pelos cabelos. São duas horas da manhã; a rua está deserta. — Me solt... — Tento gritar, mas ele cala minha boca com a mão e me arrasta para dentro de casa. Sou puxada pelos cabelos escada acima. Grito, choro, imploro e me contorço, mas tudo é em vão. Ele é muito mais forte, muito mais ágil. Eu não tenho chance alguma de defesa física. Dentro do quarto, ele desconta em mim todo o ódio acumulado. Desta vez, ele evita o meu rosto para não deixar marcas visíveis. Agride-me com socos no abdômen e chutes nas pernas — partes que podem ser cobertas facilmente com roupas compridas. Ele calcula tudo friamente. Minha cabeça é batida com força contra a parede e a dor me faz perder a noção de espaço por alguns segundos. — Vagabunda! Eu deveria acabar com você! — Ele continua desferindo golpes e minhas forças se esgotam. — James, pelo amor de Deus... — imploro, mas a minha voz mal passa de um sussurro fraco. — Eu te dou tudo e você quer me abandonar? Desgraçada! Você tem outro, não tem? É isso? — ele questiona, enquanto suas mãos se fecham com força em volta do meu pescoço. Luto com as unhas para tentar afastar suas mãos, mas o ar se esvai. Minha visão fica turva e meu corpo deixa de responder. Sem forças, começo a implorar mentalmente por um milagre. Deus, por favor, me ajude. Não deixe ele fazer isso... No momento em que sinto que vou desmaiar, ele me solta de repente. Desabo no chão frio e levo as mãos ao pescoço machucado, buscando ar em arquejos desesperados. — Isso é culpa sua! Eu quase te matei, porra! Por que você não se comporta, Bianca? Por que tem que ser uma vagabunda? — Ele chuta uma mesa de canto, fazendo meu vaso favorito se espatifar no chão. James perde o controle por completo e, tomado pela fúria, começa a quebrar o quarto inteiro. Encolho-me no chão, cobrindo a cabeça para proteger meu corpo dos móveis e objetos que ele arremessa de um lado para o outro. Ao erguer o olhar, noto a pistola de James sobre a mesa de cabeceira. O objeto com o qual ele já me ameaçou tantas vezes. Tomada por uma coragem que não sei de onde tirei, aproveito seu momento de surto, me levanto com rapidez e apanho a arma. Consigo destravar o metal frio da pistola e a aponto diretamente para James. Eu sabia atirar; meu pai me levava ao estande de tiro desde a adolescência. Determinada a acabar com aquele martírio de uma vez por todas, mantenho a mira firme. James paralisa ao perceber a situação. — Que merda é essa, Bianca? Me dá isso aqui! — exige, dando um passo à frente. — Não se aproxime, James! Eu estou falando sério! — grito, embora meu corpo inteiro trema. Com medo de que eu atire, ele ergue as mãos em sinal de rendição e tenta voltar a me manipular com aquela falsa doçura. — Amor, larga a arma. Você não pode fazer isso. Eu te amo, Bia. Nós só temos um ao outro. James sempre me dizia que não tinha família, que fora abandonado recém-nascido em um orfanato onde sofria abusos. Eu sentia pena dele por isso. E, após perder meus pais, caí ainda mais fácil em sua rede de mentiras, acreditando que dependia dele para viver. Todavia, agora me pego enxergando minha vida com clareza. Não é possível que eu mereça um destino tão miserável. — Eu prefiro morrer sozinha a continuar com você. Quem ama não machuca, não humilha. Esta foi a última vez que você encostou a mão em mim! — afirmo, sustentando seu olhar frio. — Amor, não podemos viver separados. Você sabe por tudo o que passei, e agora nós dois somos órfãos. Você precisa de mim, Bia! — Não, eu não preciso de você! Nem de você, nem de todo o inferno que você me faz passar! — Me perdoa, por favor! Eu prometo que vou mudar. É só que você me deixa louco de ciúmes, chama a atenção dos homens e eu perco a cabeça. Mas é por amor, tenho medo de te perder. Por favor, Bia, me dá essa arma — James pede, com a voz mansa. Mas eu já conheço o ciclo de abusos e não vou cair em suas mentiras. — Já chega de manipulações, James. Eu cansei. Estou indo embora e você não vai me impedir. Percebendo que a doçura fingida não surtiu efeito, ele muda de expressão instantaneamente, revelando a sua face mais monstruosa. — Você não sai desta casa viva, sua vadia! Eu vou te matar. Farei com você o mesmo que fiz com aqueles velhos desgraçados dos seus pais — confessa, cuspindo as palavras. O impacto da revelação me atinge como um soco físico no estômago. Minhas lágrimas de medo se transformam em puro ódio. — O quê? Repete o que você disse, seu desgraçado! — exijo, sentindo meu sangue ferver. — Sou um gênio, não sou? Paguei muito bem para sabotarem os freios daquele carro. Chorei feito criança no velório, merecia um prêmio — debocha, soltando uma risada sombria. — Maldito! Demônio! Como eu pude me enganar tanto? Você tirou tudo de mim! — grito, tomada pelo horror da verdade. Tudo faz sentido agora. Ele planejou cada detalhe. Eu me casei com o assassino dos meus pais. — Você está presa a mim, Bianca! Sua vida é minha! E eu jamais vou perder o controle sobre você e muito menos sobre a sua herança. — Você vai pagar caro por tudo isso. Nem que seja a última coisa que eu faça! — Reafirmo a mira da arma na direção de seu peito. — Já chega dessa palhaçada! Me dá essa arma ou eu acabo com você agora! — James me ameaça, avançando rápido na minha direção para tomar a pistola. Antes que ele me alcance, aperto o gatilho. O estampido ecoa no quarto fechado. A bala perfura o abdômen dele. A camisa branca de James começa a se manchar rapidamente de vermelho. Ele cai de joelhos, apertando a barriga e urrando de dor. Só consigo pensar em uma coisa: esta é a minha única chance de sobreviver. — Ah! Maldita! Você está morta, eu vou te caçar até o inferno! — berra, contorcendo-se no chão. Evitando me aproximar do seu corpo, subo na cama e atravesso para o outro lado do quarto. Abro a gaveta da cômoda e pego meu passaporte. — Bianca, não ouse sair desta casa! — grita ele, tossindo de dor. — Adeus, James. Saio do quarto e desço as escadas correndo. Consigo ouvir seus gritos arrastados no andar de cima. — Sua filha da puta, vai me deixar morrer? Eu vou te achar, desgraçada! No andar térreo, procuro desesperadamente pelas chaves do meu carro nos móveis da entrada, mas James provavelmente as escondeu. De repente, escuto um barulho alto nas escadas. James tenta descer se arrastando, mas perde o equilíbrio no próprio sangue e rola os degraus de madeira. Ouve-se um estalo seco quando sua cabeça bate contra a quina do degrau inferior. Ele para de se mover imediatamente, desacordado. Desistindo das chaves, abandono a casa apenas com o passaporte em mãos. Corro para fora sob a garoa fina e fria, sem olhar para trás, temendo que ele se levante a qualquer momento para me pegar. Caminho e corro sem rumo por horas, a mente em total colapso de angústia, medo e culpa. Eu trouxe o assassino dos meus pais para dentro de casa. A culpa é toda minha. Meus pulmões ardem e minhas pernas latejam de dor física, mas não paro de correr. Se James sobreviver, usará a força do FBI para me caçar. Se morrer, serei procurada por homicídio. Minha única saída é desaparecer do mapa. Saio do meu estado de choque ao esbarrar violentamente com um pedestre que corre na direção oposta. O impacto me joga de mau jeito no chão úmido. — Meu Deus, me perdoe! Está escuro, eu não te vi — desculpa-se o homem. Ele é alto, forte, veste roupas esportivas de corrida e um capuz que oculta seu rosto. Ele segura meus braços com firmeza para me ajudar a levantar. Eu estava descalça, de vestido de gala sujo de terra, chorando e trêmula no meio da madrugada. — Está tudo bem, moça? O que aconteceu? Te assaltaram? — Ele tenta verificar se me machuquei, mas me afasto assustada com seu toque. — Não... não foi nada. Me desculpe. Com licença — murmuro, apressando os passos para longe dele. — Espere! Eu posso te ajudar! — grita, mas continuo andando sem olhar para trás. Não consigo confiar em mais ninguém. Deus, para onde vou agora? O que eu faço?
JOHN COOPER No quarto de hotel, reviro na cama de um lado para o outro. Tentei de tudo, mas simplesmente não consigo dormir. Vim a Nova York para um congresso de tecnologia. O evento foi um sucesso e amanhã retorno logo cedo para Sydney. Fazia tempo que não vinha para cá e o fuso horário está me matando; mesmo cansado, não preguei o olho a noite toda. Ao meu lado, na cama king size, Camilla dorme tranquilamente. Ela insistiu para vir comigo e concordei; afinal, eu iria querer transar uma hora ou outra. Camilla é uma mulher jovem, bonita e boa de cama. É modelo, a conheci por amigos em comum e, desde então, temos saído. Recentemente, começou a me exigir um relacionamento sério, quer casar, mas já deixei claro que não estou disposto. Eu gosto dela, mas não a amo, nem sou apaixonado. Não consigo mais me relacionar dessa forma com ninguém. Estamos juntos há cerca de seis meses e, nesse período, me relacionei com várias outras mulheres, inclusive garotas de programa. Não me orgulho disso, mas foi a forma que encontrei para não ser destruído novamente. Atualmente vivo em modo automático, descontando no trabalho todas as minhas frustrações. Tenho mais dinheiro do que preciso, tenho poder e posso conseguir a mulher que eu desejar, mas nada disso é capaz de suprir o vazio que sinto. Minha única alegria na vida é Lívia e, mesmo assim, não sou o pai que ela merece. Estou sempre ausente, permitindo que minha filha seja criada por babás. Sei que preciso dar um jeito na minha vida; não posso ficar eternamente de luto. Eu não mereço isso, e muito menos a Lilly. Ela é só uma criança, não tem que pagar pelos erros das pessoas que a geraram. Mesmo contra a minha vontade, minha mente viaja para um dos momentos mais dolorosos da minha vida. ♤♤♤ Quatro anos atrás… Fiquei uma semana em Madri para fechar um negócio importante que me traria muitos frutos futuramente. Todavia, apesar de a empresa estar crescendo cada vez mais, na minha vida pessoal as coisas estavam indo de mal a pior. Depois que Lilly nasceu, passei a sentir Sarah estranha, distante e sempre nervosa. Eu a amava e não estava confortável em vê-la daquela forma. Eu trabalhava feito um condenado para que não faltasse nada nem a ela e muito menos à nossa filha. Mas a minha ausência estava fazendo Sarah se afastar de mim. Pensando em melhorar a nossa situação, decidi fazer uma surpresa para minha esposa e cheguei um dia antes da viagem. Antes de encontrá-la, passei no quarto de Lilly, que dormia feito um anjinho. Ela continuou dormindo tranquilamente enquanto a peguei no colo, beijei sua cabecinha e a coloquei de volta no berço. Havia acabado de completar seu primeiro aninho de vida. Lilly é meu sopro de vida, a força que me mantém de pé. Ao sair do quarto de Lilly, ouvi ruídos altos vindos do meu. Corri e abri a porta rapidamente, imaginando que algo poderia estar acontecendo com Sarah. Entretanto, para a minha desgraça, encontrei minha esposa nua e de quatro, gemendo alucinada enquanto era fodida pelo meu sócio e melhor amigo. — Mas que porra é essa? — gritei, sentindo como se meus olhos fossem explodir a qualquer momento. — Seu filho da puta! — berrei ainda mais alto, puxando o desgraçado pelado pelo pescoço. — Calma, irmão! — pediu ele em tom assustado, tentando subir as calças. — Calma, irmão? Você tem coragem de me chamar de irmão, seu desgraçado? — bradei, jogando o homem com força no chão. Naquele momento, eu saí de mim. Soquei seu rosto com toda a minha força. Não enxerguei mais nada além de ódio. Descontei nele toda a minha ira e decepção. Ouvi os gritos desesperados de Sarah chamando pelos seguranças e, de repente, fui agarrado por eles. — Me solta, porra! Eu vou matar esse desgraçado! — esbravejei, tentando me soltar dos quatro homens que me imobilizaram com dificuldade. Após me acalmar um pouco, eles me soltaram e removeram o corpo desmaiado e sangrando do meu grande amigo traidor. Encarei Sarah, que agora estava coberta com um roupão, chorando copiosamente. — John, não é nada dis... — ela tentou falar, mas a interrompi. — Não ouse continuar essa frase! — Amor, não! Pelo amor de Deus, me ouça... — implorou, vindo em minha direção. — Não chegue perto de mim, porra! Saia daqui agora, antes que eu perca o controle, Sarah! — exigi, fazendo todo o esforço possível para não descontar minha ira sobre ela. Senti como se meu coração tivesse sido arrancado do peito. O ódio me queimou por dentro e por fora. A dor da traição foi o sentimento mais amargo que já tive o desprazer de conhecer. — Se for embora, levarei Lívia comigo! Vai conseguir viver sem a sua filhinha? — ameaçou ela em tom de deboche, saindo por completo de seu personagem. — Dê-se por satisfeita em sair levando as suas roupas. A minha filha, você só tira daqui por cima do meu cadáver — adverti. — Christina! Christina! — Na porta do quarto, berrei alto, chamando pela minha governanta. — Isso não é justo! Somos casados, eu tenho direitos. Se pensa que vou sair com as mãos abanando, está muito enganado! — ela berrava, e foi apenas nesse momento que entendi tudo. Sarah não se importava nem um pouco comigo e muito menos com a filha. Sua única razão de permanecer nesse casamento era o meu dinheiro. — É somente isso que te interessa, não é? Dinheiro! Saiba que nos casamos com separação total de bens, portanto, você não tem direito a porra nenhuma — esclareci. Ela arregalou os olhos. — Senhor, já estou aqui! Do que precisa? — A governanta de meia-idade, com a pele parda e cabelos cor de ébano, me questionou assustada ao chegar à porta do quarto. — Por favor, Chris, faça as malas dessa mulher! — ordenei, e ela me encarou com espanto. — Ela está indo embora daqui! — pontuei. — Não ouse, Christina! — Sarah advertiu. — Não sairei desta casa! — Pode ter certeza de que você sairá. Nem que eu mesmo tenha que te colocar para fora — afirmei, furioso. — Faça o que pedi, Chris, por favor! — A mulher assentiu e se encaminhou para o closet. — Você não pode fazer isso comigo por causa de um erro, John! — Novamente, tentou se aproximar de mim. — Não encoste em mim, caralho, já disse! Um erro, sua filha da puta? Há quanto tempo, Sarah? Há quanto tempo você trepa com o meu melhor amigo na nossa cama, com a minha filha dormindo ao lado? — bradei, avançando na direção dela. — Foi a primeira vez, eu juro! — disse ela, aos prantos. Mas é claro que não acreditei. — Maldita, mentirosa! Esqueça que a minha filha e eu existimos; eu nunca mais quero te ver na minha vida. — Mas... — ela tentou argumentar, mas a impedi. — Ah, é claro, o dinheiro. É isso que te preocupa? Fique tranquila, não irei te deixar morrer de fome. Apesar de ser exatamente o que você merece — meu tom era frio e cruel. Dentro de mim, havia apenas raiva e mágoa. — Você receberá o suficiente pelo acordo de divórcio, mas que fique bem claro: se chegar perto de mim ou de Lívia, eu acabo com você, Sarah. E você sabe que tenho poder o suficiente para cumprir o que digo — prometi. E ela sabia que era verdade. — John, não faça isso conosco! Eu te amo! Me perdoa, por favor! — mentiu. Seria digna de um Oscar, já que se debulhava em lágrimas. Caiu de joelhos aos meus pés e agarrou as minhas pernas, implorando por perdão. Não senti pena, apenas asco. — Tudo o que sai dessa sua boca são mentiras. Não quero mais ouvir a sua voz; junte suas coisas e suma. — Afastei-me, fazendo-a soltar as minhas pernas. Ouvi o choro de Lilly de seu quarto e meu peito se apertou. — Irei sair com a minha filha e, quando retornar, não quero mais te ver aqui — avisei. Abandonei o cômodo, deixando aquela mulher mentirosa para trás. Sarah nasceu em uma família rica, mas seu pai perdeu tudo em jogos de azar. Quando a conheci, ela estava sozinha e falida. Dançando em uma boate, segundo ela, para pagar as dívidas do pai. Ela era doce, cativante e ingênua. Compadeci-me de sua situação e resolvi ajudá-la. Eu e a minha mania de bancar o super-herói. Aos poucos fomos nos envolvendo e, quando percebi, já estava perdidamente apaixonado. Contudo, tudo não passava de um personagem. A mulher que um dia achei amar, na verdade, nunca existiu. Era tudo uma mentira que eu mesmo havia criado. Senti-me a criatura mais ingênua desta Terra por ter acreditado tanto nela. ♤♤♤ Dias atuais… Decidido a sair do torpor em que minha mente se encontra e esquecer aquelas lembranças infelizes, coloco-me de pé. Apanho o celular e ligo a tela para conferir as horas: são exatamente quatro horas da manhã. Boa hora para uma corrida, John. — Aonde vai, amor? — Camilla pergunta, se espreguiçando com os olhos semicerrados. — Vou sair um pouco. Volte a dormir — respondo. Ela faz o que digo. Visto uma calça e um casaco pretos de moletom. Apanho meus tênis de corrida na mala e, após calçá-los, saio do quarto. Meus fones de ouvido tocam "Bad Liar", do Imagine Dragons. Cubro a cabeça com o capuz do casaco e caminho por um tempo, até encontrar um parque próximo ao hotel. Após fazer alguns alongamentos, aproveito a pista vazia e corro em ritmo acelerado, na tentativa de esgotar o corpo e conseguir dormir um pouco mais tarde. Subitamente, esbarro com força em alguém que cai de imediato no chão úmido da pista. Ainda está escuro, de modo que não consigo vê-la com nitidez. — Meu Deus, me perdoe! Está escuro, eu não te vi — peço, ajudando-a a se levantar com o máximo de delicadeza que consigo. A garota está assustada e não diz nada, o que me deixa aflito. Ao segurá-la pelos braços, percebo seu estado e meu coração se aperta. Está descalça, usando um vestido longo e fino, azul-claro, que agora está sujo de terra. O cabelo está solto e desgrenhado, e a maquiagem dos olhos está borrada por lágrimas recentes. E posso jurar que, mesmo sob a penumbra, vejo marcas roxas de hematomas em seus braços. Ela está ofegante, suada e parece em pânico, como se estivesse fugindo de algo. O que houve com essa garota? — Está tudo bem, moça? O que aconteceu com você? Te assaltaram? — questiono com preocupação, mas ela me ignora e tenta seguir caminho. Tento tocá-la de leve no ombro para contê-la, mas ela se esquiva rapidamente. — N... não foi nada, me desculpe. Com licença! — ela finalmente fala. Sinto a angústia em sua voz. Aquilo parece rasgar meu peito. Preciso fazer algo. — Espere, eu posso te ajudar! — grito, mas ela nem olha para trás. Corro ao seu encontro e seguro firme em seu braço, fazendo-a parar. — Espere, não posso te deixar nesse estado sozinha! Você precisa ir a um hospital ou à polícia. Vamos, eu te levo — sugiro. Ela puxa o braço com força e nega. — Polícia? Não, eu não... — ela pausa, parecendo pensar nas palavras. — Olha, agradeço, mas não preciso da sua ajuda. — Mas... — tento argumentar, porém ela me interrompe. — Não preciso ser ajudada por nenhum homem! Me deixe em paz, por favor! — pede, aos prantos. Decido não insistir para não deixá-la ainda mais assustada. Apenas assisto enquanto ela corre para longe de mim, sumindo na escuridão do parque. Pobre garota... Por que ela está com tanto medo? Terá sido abusada ou agredida? Sem ter outra opção, mesmo com o peito apertado de angústia, volto a correr em direção ao hotel. Dentro do quarto, passo direto para o banheiro, me livro das roupas e entro debaixo do chuveiro. A água quente cai, limpando meu corpo suado, mas infelizmente não é capaz de limpar a minha mente. Os olhos grandes e assustados daquela garota não saem por um minuto da minha cabeça. "Polícia? Não, eu não... Lembro-me da sua expressão de pânico quando mencionei a polícia. Por que ela se assustou? Será que ela cometeu algum crime? Me espanto comigo mesmo por ficar tão afetado com a situação de uma desconhecida. Não sou de confiar em ninguém; depois do que Sarah fez, me tornei um homem frio e cético. Todavia, a situação daquela garota e a forma como ela reagiu me deixaram intrigado. Ela deve ter passado por algo terrível para recusar ajuda com tanto pânico. E eu a entendo. O que Sarah me fez partiu meu coração em pedaços impossíveis de colar. Isso mudou por completo o homem que eu era. E nunca mais consegui consertar os danos.