Between love and hate
Capítulo 1 Mia Coleman

Olhei para o meu reflexo no espelho e respirei fundo enquanto passava a mão pelo meu vestido, observando como aquele modelo favorecia cada curva do meu corpo. Era um vestido elegante e sexy, e segundo minha mãe, a escolha perfeita para a ocasião. O objetivo era impressionar meu futuro noivo com uma presença marcante e sofisticada, enquanto eu deixaria um toque sutil de sedução no ar. A peça foi confeccionada com um tecido de alta qualidade, uma cor de tom profundo de vinho. O decote era levemente em forma de V, destacando minha clavícula e colo, enquanto as alças finas conferiam um toque delicado aos ombros. O vestido abraçava elegantemente minha silhueta, delineando todas as minhas curvas. A parte superior da peça possuía um caimento justo até a cintura, que estava marcada por um cinto fino, decorado com detalhes elegantes, e uma fenda sensual que revelava parte da minha perna a cada passo. Detalhes delicados de renda preta contornavam as bordas do decote, das alças e da fenda, criando um intrigante contraste com a cor vinho; além de ter sido estrategicamente colocada em algumas áreas da saia, sugerindo transparência e aumentando a sensualidade da peça. Nos pés, usava sandálias pretas de salto, adornadas com pequenos cristais de Swarovski no tornozelo. Por último, mas não menos importante, olhei para o meu rosto, onde uma maquiagem suave cobria minha pele, destacando o batom em um tom muito semelhante ao do vestido. A imagem que via no espelho era a de uma mulher bonita, vestindo roupas elegantes com o objetivo de impressionar um homem. Meu futuro noivo. O líder da Blood Skull. Ouvi duas batidas na porta e vi minha mãe entrar, olhando-me de cima a baixo, como se estivesse avaliando uma mercadoria. Ela se aproximou e parou atrás de mim. Éramos muito parecidas, mas nossa semelhança se limitava à aparência física. Alejandra é natural da Turquia, filha dos poderosos donos de um cartel do país, se casou através de um arranjo vantajoso com meu pai e parecia satisfeita com sua vida. Não tive muito contato com meus avós, pais dela, então não posso presumir muito sobre a criação que teve. No entanto, sua falta de interesse em comparecer ao funeral deles me deu algumas pistas. Minha mãe sempre foi fria e impessoal, pelo menos comigo. Ela costumava ser diferente com Genevieve, minha irmã mais velha, e quando ela se foi... tudo ficou ainda pior para mim. Genevieve era a filha perfeita, que aceitava e seguia todas as ordens, era extremamente feminina e dedicada a ser a esposa ideal para um líder. Ela era pacífica, obediente, submissa, e a prometida do homem com quem ficaria noiva naquela noite. Ela era tudo o que eu não sou. Tudo mudou quando eu tinha apenas seis anos, em uma semana Genevieve estava noiva, e em menos de um mês foi expulsa da famiglia por trair o futuro marido com um dos membros do cartel. Foi quando soube que as coisas mudariam e que eu teria uma criação ainda mais diferente. Eu iria assumir o lugar dela, cumpriria o dever e honraria a promessa do meu pai. Com seis anos, soube que teria um casamento arranjado, esse seria meu papel como mulher da famiglia. — O vestido ficou perfeito — disse, tocando minha cintura. — Eu disse que emagrecer uns três quilos faria diferença. — Mantive minha respiração controlada enquanto ela falava para que não percebesse que menti. A verdade era que não tinha emagrecido, estava cursando medicina há seis meses em período integral, o que me custava uma rotina puxada, já que continuava treinando todas as noites. Não podia parar, precisava estar preparada para o casamento, sabendo me defender de uma possível agressão. — Obrigada. — Agradeci com um tom de voz sereno, mesmo desejando gritar e expressar o quanto me sentia usada e como uma impostora, vivendo para ser o que minha irmã não foi, para viver a vida que deveria ser dela, não minha. Olhei seu rosto pelo reflexo do espelho. Uma impostora. Uma farsante. Senti-me como se estivesse preenchendo o vazio que Genevieve deixou. Dio mio, iria transar com o homem que deveria ser dela! — Todos estão esperando por você, então desça e honre o nome de nossa famiglia. Entendeu, Mia? — Si, mamma — respondi e ela acenou em concordância, sorrindo levemente ao abrir a porta do quarto e estendendo a mão para que eu passasse na frente. Alejandra não costumava usar palavras em italiano, a língua nativa do meu pai, no entanto, ela fez questão de que seus filhos usassem a língua para manter a tradição da famiglia. Catarina, que todos chamavam Nanna, minha irmã, tinha apenas um ano e já estava tendo aulas de iniciação no idioma. Contive um suspiro ao sentir meu peito apertar quando me lembrei da minha irmã, ela não tinha contato com outras crianças e vivia isolada. Sentiame profundamente culpada por não ter dado a devida atenção a ela nos últimos meses, em função do caos em minha vida. Porém, pelo menos todas as noites dormíamos juntas, e Luigi e Alejandra não interferiam nisso. Acho que, no fundo, eles entendiam o tipo de pais que são e permitiam que nós duas encontrássemos amor uma na outra. Quando Luigi disse que eu só poderia estudar se fosse perto de casa, nem tentei contestar, pois não queria ficar longe de Nanna. Isso pode parecer um ato nobre da minha parte, mas a verdade é que eu precisava dela tanto quanto ela precisava de mim, já que passava o dia com babás e não recebia o amor materno que merecia. À medida que nos aproximávamos das escadas, respirei profundamente para me acalmar. — Mantenha a postura, Mia — Alejandra me repreendeu. Ergui o queixo, forçando uma expressão serena quando cheguei ao topo das escadas. Ignorei o fato de que praticamente todos interromperam suas conversas para me olhar. Procurei meu futuro noivo com os olhos e o encontrei ao lado de Luigi. Seus olhos estavam fixos em mim, afiados como os de uma águia. Devolvi seu olhar e, com muito cuidado, comecei a descer os degraus, permitindo que a fenda do vestido revelasse parte da minha coxa a cada passo. Dominic Walsh era alto e robusto, emanando uma aura de confiança em todo o ambiente, seus cabelos loiros brilhavam, contrastando com a pele levemente bronzeada. Seus olhos transmitiam determinação e certo mistério, enquanto sua mandíbula forte e expressão segura o tornavam imponente diante dos outros. Cada um de seus movimentos era seguro e firme; até mesmo o simples ato de levar o copo de uísque à boca irradiava uma sensação de controle sobre tudo ao seu redor. Além da sua postura ereta e controlada, como se estivesse permanentemente preparado para agir. Sua presença era magnética e inegavelmente atrativa. Ela era um desgraçado, mas um desgraçado muito bonito, e isso não era nada bom para mim. Eu era apenas uma jovem criada na máfia, que nunca sequer conseguiu beijar na boca devido aos pais controladores ao extremo. Não precisava que meu foco de sobrevivência mudasse para ficar babando pelo idiota parado à minha frente. — Figlia [1] — Luigi disse, tocando meu cotovelo — Estávamos esperando por você. Sorri levemente, mas meus olhos permaneceram fixos nos de Dominic. Os dele me avaliavam enquanto os meus o acusavam. Meu futuro marido percebeu. Ele percebeu que todo aquele espetáculo estava acontecendo contra a minha vontade. O vi estreitando os olhos ligeiramente e o ar ao redor pareceu ficar denso. Meu olhar era cortante, carregado de raiva e frustração. — Domin... — Saiam — o loiro disse, e tanto seu pai quanto o meu se entreolharam, confusos. — Quero conversar com ela. Sozinho. Talvez, naquele momento, ele tenha subido um pouco no meu conceito, pois havia acabado de ordenar que dois chefes de famílias se afastassem. Seu tom de voz deixou claro que não era um pedido, mas uma imposição. O boss da Blood Skull tocou o ombro de Luigi, fazendo alguma brincadeira idiota sobre precisarmos de um minuto antes da troca de alianças e isso fez meu estômago revirar em ânsia. Eu sabia que deveria manter a pose diante daquele homem, que não só iria liderar a máfia em que foi criado, mas também a minha famiglia. Dominic Walsh tinha muito a ganhar com a união, pois se tornaria um dos homens mais poderosos no submundo. No entanto, não consegui. Eu não iria ser a mulher obediente que todos esperavam, e talvez fosse melhor ele entender isso desde o início. — Você é muito parecida com sua irmã — disse com certo desprezo na voz, mas não foi o tom que me incomodou, mas sim a comparação. Genevieve novamente. O fantasma daquela mulher não me deixava em paz nem por um minuto. Suas sobrancelhas estavam franzidas e os lábios estavam firmemente pressionados, revelando seu descontentamento. Enquanto os meus, refletiam uma combinação de defensividade e irritação. Não havia palavras, mas o peso do descontentamento mútuo era claramente visível naquele encontro visual. Cada olhar parecia uma troca de acusações silenciosa, carregada de ressentimento e tensão não resolvida, embora nunca tenhamos trocado sequer uma palavra antes. O loiro tinha seus motivos, e eu os meus, o que nos tornava mártires um do outro. O noivado era como um sacrifício para ambas as partes e nenhum de nós fez questão de esconder isso, pelo menos não um do outro. — A partir do momento em que eu colocar a aliança em seu dedo, saiba que será constantemente vigiada. Esse noivado é importante para a fachada das empresas da minha família e também da sua, então nem pense em estragar tudo ou tentar me passar para trás, porque se o fizer, vou te caçar e te matar. — A partir do momento em que colocar a aliança no meu dedo, nunca mais me compare à Genevieve. Mesmo que o fardo dela tenha sido passado para mim, eu não sou ela. Um dia vou dormir ao seu lado, na sua cama, e será fácil para mim, transformar sua vida em um inferno. Então, sugiro a levar a sério esse aviso. Sem. Comparações. Ele sorriu, em um leve repuxar de canto de lábios seguido por um passo à frente. — Está me ameaçando, amore mio? — murmurou baixo, se inclinando, já que devia ter no mínimo 1,90 de altura. — Se acha que vai me assustar com ameaças vazias, está muito enganada, eu gosto de tortura. Daquela vez fui eu que dei um passo à frente, tocando seu ombro com uma das minhas mãos, um gesto despretensioso para todos à nossa volta, mas não para o homem à minha frente. — Eu também, vita mia. [2]Nesse momento, por exemplo, estou pensando em como seria satisfatório jogar água fervente no seu ouvido e ver você se debater de dor enquanto seus tímpanos queimam. Seus gritos se tornariam a minha canção favorita. — Você se acha tão esperta, porque certamente não me conhece. — Você se acha tão superior, porque nunca teve alguém desafiador o suficiente à sua altura. Ele estreitou os olhos, pegando minha mão livre e levando-a aos lábios, mantendo o teatro de casal perfeito. Ignorei o arrepio que sua boca contra minha pele causou em meu corpo. — Não teste minha paciência, garota insolente — murmurou baixinho. — Garota? Olhe para mim, Dominic. Eu sou a mulher mais desejada desse salão, então é bom que você não me deixe descontente. Insolente não está nem perto do que realmente posso ser. — Desgraçada! — Filho da puta! — Querido? — A mãe de Dominic se colocou ao seu lado. — Deixeme cumprimentar a minha nora. Você está monopolizando sua noiva. Daquela vez meu sorriso direcionado à senhora de cabelos loiros foi sincero. Ao longo dos anos, Dora me fez várias visitas e era uma das únicas pessoas em quem sentia sinceridade nesse mundo traiçoeiro em que vivemos. — Você está linda, Mia — disse, me abraçando de forma tão genuína, que me deixou desconfortável. Não estava acostumada a receber afeto, exceto da Nanna, é claro. — Você é um homem de sorte, meu filho. Ele me encarou, seus olhos penetrantes e frios, tão cortantes quanto uma lâmina afiada. — É — disse, sua voz soando como um trovão em meio a uma tempestade. — Eu sou. Então nossos pais se aproximaram. Permaneci ao lado de Dominic como sua sombra. — Feliz aniversário, amore mio! Foi o que ele disse quando colocou no meu dedo um anel de brilhante exageradamente grande. Depois disso, ele passou os braços pela minha cintura, deixando claro para qualquer homem naquele salão que eu estava fora dos limites. Por pouco não perguntei se ele não preferia marcar seu território em mim como um cachorro em um poste. Acontece que sabia quais batalhas deveria lutar, e aquela ainda não era uma delas. Dominic Walsh podia ser o vencedor daquela noite, mas aquela guerra estava apenas começando.

Capítulo 2 Dominic Walsh

— O que você acha, Boss? — Ryan perguntou. — Oito homens são suficientes — respondi ao meu soldado. — Luigi disse que seria uma comemoração pequena e classifiquei esse pequena entre 30 a 50 pessoas. — Por isso acho melhor ter uns 15 de nós dentro do salão. — Não! — rebati sem dar brecha a sugestões, porém, expliquei meu ponto. — A famiglia de Nova York tem métodos ultrapassados, então além de mais treinamento, temos técnica e somos mais rápidos. — Entendi — foi o que meu soldado respondeu. Era o aniversário de 22 anos da Mia e eu estava mais ansioso para vêla do que gostaria de admitir. Nos anos anteriores algumas coisas aconteceram e me impediram de vir ao seu encontro e ela não fez a mínima questão de ir até a Pensilvânia me ver, e isso me deixou irritado e até desconfiado. Uma semana antes de a mulher fazer 19 anos, eu fui baleado. Estávamos em um confronto com outra máfia ou gangue. Sinceramente, ainda não entendo como aquela organização funcionava, porém os filhos da puta eram organizados e fui baleado pelo líder deles. Daemon Blackwood. Ou Quimera, ou Demônio. Para mim, Demônio soa bem melhor. O desgraçado me deu o tiro no banheiro de um salão em que acontecia um evento de caridade, como se não tivesse conversado comigo amigavelmente durante a hora anterior. Ele e sua esposa se sentaram à nossa mesa, dois advogados conceituados. Eu senti algo diferente neles, mas estava ansioso por notícias de um carregamento de armas que receberíamos e deixei meu sexto sentido de lado. O contrabando viria por contêiner, e estava preocupado, pois tinha consciência de que nosso esquema de fachada não era dos melhores, e perder aquela carga significava perder muito dinheiro, além de credibilidade com meu pai, já que seria eu a ocupar sua cadeira. O homem entrou na porra do banheiro e mal tive tempo de pensar antes de levar um tiro no ombro. Foi de raspão, intencionalmente, então ele se apresentou como líder dos Falcões da Noite do estado de Louisiana e tirou um isqueiro do bolso, se oferecendo para cauterizar a ferida, pois precisava conversar comigo. Foi ousado, porra. Precisava admitir, ele era louco, mas conseguiu minha atenção. Nós tivemos uma conversa interessante e por conta disso e de um negócio lucrativo para ambas as partes, não estive presente quando Mia fez 19 anos. O tempo passou e seus 20 anos chegaram. Eu estava em uma convenção de tecnologia. Para todos, estava lá como investidor de criptomoedas, mas a verdade é que precisava de um álibi público diante de um carregamento que roubaríamos dos russos, caso isso chegasse até a polícia. Tráfico humano. Essa porra ia contra o que pregamos. Temos cassinos e casas de entretenimento, porém todas as mulheres e homens que trabalham conosco o fazem por escolha própria. A Blood Skul repudiava todo e qualquer negócio que envolvia tráfico humano. Além disso esse tipo de negócio no mercado negro chamava atenção da organização nacional e isso não era nada bom para o submundo. Nossa operação teve êxito, porém arrumamos uma guerra com os russos que durou um ano, e então chegamos aos 21 anos de Mia. Quando enfim achávamos ter disseminado o problema, um infiltrado assassinou minha avó na clínica onde estava internada há dois anos. Ela tinha Alzheimer e foi uma crueldade do caralho matar uma pessoa que sequer tinha consciência do que estava acontecendo. Isso acionou um alarme na minha cabeça e precisei, por motivos de segurança, acabar com planos que eu mesmo havia sugerido para o aniversário de Mia. Como não a via há dois anos, pensei que poderíamos viajar juntos para nos conhecermos melhor, já que nosso noivado estava longe de ser normal. A garota aceitou e arrisco dizer que até gostou da ideia, conforme minha mãe me contou. Iríamos para as Maldivas, seriam apenas três dias, pois eu não poderia ficar ausente por muito tempo e ela tinha a faculdade. A viagem precisou ser cancelada nas vésperas e acho que isso a deixou irritada. Pela primeira vez tentei contatá-la, e quando percebeu que era eu ao telefone, desligou na minha cara. Não desisti e enviei mensagens que nunca foram respondidas. No dia seguinte, a garota faria 22 anos e esse era o motivo de eu estar no jatinho, voando para Nova York. Ryan não confiava na famiglia de Luigi e obviamente, eu também não. Porém, achava difícil que ele tentasse algo contra o futuro genro dentro da sua propriedade, o homem sabia das conexões que a Blood Skull possuía e seria muita burrice ferrar com nosso acordo e ainda tentar me ferir no processo. Por isso eu entraria em seu território mostrando o quanto me sentia seguro, mesmo com poucos homens. Eles deveriam temer a mim e não aos meus soldados, até porque, era muito pior que eles. Desbloqueei meu celular olhando novamente a rede social que Mia mais usava, ela era discreta, porém frequente em suas postagens. No feed, apenas poucas fotos, a grande maioria com a irmã e nunca mostrando o rosto da pequena, que deveria ter uns quatro anos. Já nos stories ela postava às vezes o que estava comendo, algo sobre o que estava estudando ou até fotos com colegas de aula. Ela mantinha intacta sua fachada de garota rica, estudiosa e comprometida com a ética da nossa sociedade. Mia era linda. Conforme amadurecia, ficava ainda mais bonita e, porra, cada vez mais gostosa. Nossa única interação foi em nosso noivado e suas atitudes e até a falta delas, deixava claro que a mulher era o total oposto do que imaginava. E isso era bom, porra. Quer dizer... era bom até se tornar ruim. Meu sexto sentido dizia que Mia Coleman seria o maior blefe da minha vida. • — … e por isso decidi que o mais sensato seria acabar com nossos negócios. Arqueei apenas uma sobrancelha para um dos capos de Luigi. — Você foi impulsivo e burro — declarei, fazendo com que os homens à nossa volta me encarassem, surpresos com minha possível afronta. — Espero que esteja aposentado quando eu assumir a famiglia, porque se fizer algo do tipo quando eu estiver no comando, te mato. Dimitri, o capo desprovido de inteligência, me encarou sem saber o que responder. Levei o copo de uísque à boca, tirando os olhos do babaca e fitando seu filho que olhava fixamente além de nós. Mia. Disfarcei uma respiração profunda, precisando recuperar o fôlego ao vê-la em um vestido verde muito justo. Caralho! Ela estava ainda mais linda do que por foto e, porra... que corpo. Puta que pariu! Engoli a saliva e voltei meus olhos ao garoto, tocando seu ombro. Ele virou o rosto em minha direção e empalideceu um pouco quando percebeu que era eu a tocá-lo. — Nunca mais olhe para minha noiva como se quisesse fodê-la, moleque. — Minha expressão era controlada e a voz estava em uma altura normal, mas sei que todos sentiam que minha raiva não estava nada controlada. — Caso contrário, vou arrancar seus olhos com minhas próprias mãos e fazer você engolir seus globos oculares, e então, nunca mais vai poder cobiçar a minha mulher. — Devagar, tirei a mão do ombro dele e passei meus olhos por cada homem presente à minha volta. — Isso vale para todos vocês. Novamente, ninguém respondeu. Irritado, saí de perto deles. Tomei o restante do conteúdo do meu copo e o descartei sobre a bandeja de um dos garçons que passavam por mim. Troquei um olhar com Ryan, meu segurança pessoal, vendo que ele me observava e percebia minha tensão. Dei um leve aceno de cabeça demonstrando que estava tudo bem, e voltei minha atenção à Mia, que naquele momento estava acompanhada. Ela conversava muito alegremente com um idiota vestido em um terno malfeito azul-marinho. É, muitas pessoas estavam merecendo levar um tiro naquele dia! À medida que me aproximei, observei a mulher que em alguns anos iria se tornar a minha esposa, uma parte significativa da minha vida e isso gerava uma inquietação dentro de mim. Ela estava rindo com outro homem, compartilhando gestos que demonstravam proximidade entre os dois. Não disfarcei minha expressão, pois me sentia extremamente incomodado com a situação. Cada vez que via um sorriso genuíno cruzar o rosto dela enquanto conversava com ele, uma pontada de ciúmes passava por mim. Era como se uma pequena voz dentro do meu interior começasse a questionar se um dia seria capaz de ter um daqueles sorrisos direcionados a mim. Todos os sorrisos dela deveriam ser meus. Minha mente começou a criar histórias e cenários hipotéticos nos quais eles tinham uma conexão mais profunda do que eu estava vendo. Esses pensamentos eram como um turbilhão de emoções fodidas que me irritavam. À medida que avançava em sua direção, sentia a tensão irradiar pelos meus poros. — Mia — falei, atraindo sua atenção. Enquanto nossos olhares se encontravam, podia sentir a eletricidade no ar. Cada segundo que passava parecia carregado de antecipação, como se o mundo inteiro estivesse desaparecendo ao nosso redor e só restássemos nós dois. Perdi a compostura, enlaçando sua cintura e levando a outra mão à sua nuca. Um leve rubor coloriu suas bochechas enquanto apoiava suas mãos contra meu peito. Nossos lábios estavam a centímetros de distância e podia sentir a pulsação acelerada do meu coração reverberando em todo meu corpo. Minhas mãos instintivamente impunham mais força, mostrando uma pegada mais bruta, pouco me importando se parecia deselegante e até mesmo rude. Aquela mulher era minha e era bom que tal fato estivesse claro para todos os presentes. Quando finalmente nossos lábios se tocaram foi como se uma faísca tivesse sido acesa. A sensação era suave, quase hesitante no início, como se estivéssemos explorando a profundidade daquela conexão que compartilhávamos sem ao menos sabermos. Minha respiração se misturou com a dela, e aceitei de bom grado o calor do seu corpo contra o meu. Era apenas um simples toque de lábios, e quase me perdi ao sentir a textura suave da sua boca, porém aquele não era um beijo gentil ou uma demonstração de afeto, era a porra de uma marcação de território e foda-se se soou grosseiro. Mia percebeu meu showzinho e subiu uma das mãos para meu pescoço, fincando as unhas longas e afiadas em minha pele. Afastei um pouco nossos rostos apenas para puxar seu lábio inferior com os dentes e o morder com força ao ponto de ela resmungar. Então deixei um beijo casto, carinhoso em seus lábios e sorri. — Estava com saudades, amore mio [3] — falei e em resposta ela me devolveu um sorriso sarcástico. — Claro! Posso imaginar — ironizou. Ela forçou as mãos contra meu peito, claramente tentando me afastar e até permiti, mas meu braço continuou firme contra sua cintura, deixando nossos corpos lado a lado. — Esse é Johnnie, meu primo. Johnnie estendeu a mão em minha direção, mas não aceitei seu cumprimento, apenas acenei com a cabeça. Ele pigarreou sem jeito, levando a mão do gesto patético até seu bolso, visivelmente constrangido. Primo é o caralho, porra! Sei de vários primos que se comem e eu definitivamente queria o pau daquele filho da puta longe da boceta da minha noiva. — Venha. — Tirei a mão da cintura dela, segurando seu braço de leve e a empurrando em direção ao jardim. Podia sentir os olhares daquele bando de abutres em nossas costas, e ignorei a todos eles, inclusive de Luigi. O Don [4] da famiglia devia estar querendo me matar naquele momento por estar levando sua filha para um lugar privado, longe de todos os olhares. Quando já estávamos em um lugar afastado, Mia puxou seu braço com brusquidão. — Nunca mais me beije dessa forma! — Qual forma? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. Ela abriu a boca, então fechou. Abriu e fechou de novo, respirando fundo, buscando calma. Minha noiva aparentemente estava tão irritada e impaciente quanto eu, e isso me levou a uma pergunta. — Já imaginou como será nosso sexo com raiva? — questionei, e a expressão surpresa dela me fez sorrir. Caramba, que boca linda! Um dia eu ainda iria foder estes lábios e fazer esta mulher engasgar com meu gozo. — Tenho coisas melhores para imaginar do que o quão entediante seria transar com você. Balancei a cabeça em negação, meu sorriso se tornando ainda maior. — Mentir desse jeito é o mesmo que zombar do meu treinamento, Mia, e fui muito bem treinado. Ela empinou o nariz, a expressão séria tentando demonstrar uma indiferença que eu sabia que não existia. Queria transar com aquela mulher tanto quanto ela queria transar comigo. — Seu celular tem algum problema? — perguntei, mudando de assunto, e dessa vez foi ela quem arqueou uma sobrancelha. — Quando eu te enviar uma mensagem, você deve me responder — ordenei, e ela balançou a cabeça em negação. — Não sou um de seus soldados, vita mia [5] . — A voz transbordava ironia. — Aprenda a me responder ou vou colocar uma mulher de segurança na sua cola, te acompanhando até o banheiro! — Isso tudo é medo de levar um chifre? — zombou, e respirei fundo. — Vamos mesmo fingir que você não trepa com todas as garotas dos seus cassinos? — Não sou celibatário, mas sou discreto. — Eu também. Senti todo o sangue do meu corpo subir para minha cabeça, a raiva invadiu cada célula do meu ser e eu tinha vontade de jogar aquela mulher nos meus ombros e amarrá-la na minha cama para sempre. — Espero que isso não envolva transar com seu primo — esbravejei, e ela riu, balançando a cabeça em negação, como se fosse uma piada interna. Aproximei-me, segurando sua cintura e inclinando meu rosto, fazendo com que ela levantasse o pescoço para me encarar. — Seja discreta, não se relacione com conhecidos e jamais se envolva emocionalmente com ninguém. Quebre qualquer uma dessas regras e tenha em mente que alguém vai morrer, e vai ser por sua culpa. — Maldito... — É, eu sou mesmo um maldito. O pior de todos, Mia. Viva sua vida na medida do aceitável, porque o seu futuro é meu, e quando estiver dividindo a cama comigo, será só minha. Já é minha. — Presunçoso desgraçado... — Me elogiando? Você pode ser mais criativa. — Pisquei, sorrindo ao vê-la tremer de raiva. — Fique tranquila, delicinha. Vou te fazer gozar tão gostoso que vai se viciar em mim, e sua boceta vai esquecer qualquer outro. — Atrapalho? — Uma voz feminina soou atrás de nós e me virei. Alejandra, mãe da Mia. — Na verdade, atrapalha sim — respondi. Nunca fui com a cara daquela mulher que parecia tão traiçoeira quanto Genevieve era. Mia deu um risinho sem jeito. — Já estamos indo, mamma [6] . — Ótimo! Está na hora de assoprar as velinhas, querida. Ainda que usasse a palavra "querida", sua frase era rígida, fria, impessoal. A mulher não deu trégua, nos esperando, e Mia segurou a minha mão, me incentivando a caminhar. Me senti como um adolescente que foi flagrado se masturbando no banheiro. Enquanto caminhávamos de volta para casa, pensei se não deveríamos adiantar o casamento e fiz uma nota mental de amadurecer aquela ideia.

Capítulo 3 Mia Coleman

Dominic: Eu não vou conseguir ir na data combinada. Dominic: Me atende! Dominic: ???? Dominic: Porra, Mia, para de agir feito uma criança! Olhei a mensagem dele mais uma vez e respirei fundo. É claro que ele não viria. A verdade era que precisei de pouco tempo para perceber que minha relação com Dominic, caso eu permitisse, seria semelhante à da minha mãe com meu pai, ela nunca seria a prioridade dele, e ainda assim, ele tinha um poder absurdo sobre ela. Walsh não iria exercer esse poder sobre mim. Eu não iria permitir que isso acontecesse, não sem lutar pelo lugar que me era de direito. Esse lugar era ao seu lado, e não abaixo dele. Estaríamos ambos no comando, de igual para igual. Iria exigir participar de cada negócio e estar a par de todas as situações. Exigi que fosse assim e se o bonitão de dois metros de altura pensava que não seria dessa forma, ele estava muito enganado. Eu iria dar muito trabalho a ele se não fosse aceita conforme o esperado. Se ele era a pólvora, eu era o fogo, e nós dois explodiríamos juntos. — Problemas no paraíso? — Anny perguntou assim que entrou no vestiário onde estavam os armários. — É... — Respondi sem dar detalhes. Como sempre. Ela bufou em resposta. — O que adianta ser noiva de um gostoso daquele se ele é tão ausente? — disse sem filtro algum, arrancando um sorrisinho de mim. — Ter um playground zerado, e nunca brincar nele é um pecado. — Dom é muito ocupado, Anny. E por causa da faculdade e da residência, não consigo ir para Pensilvânia com frequência. — Usei o apelido como estratégia para validar uma proximidade que não existia. — Certo — respondeu contrariada. — O que acha de ir a um barzinho comigo e com o pessoal hoje? — Respirei fundo em resposta e ela cruzou os braços. — Mia, você não tem vida, nunca faz nada, vive dentro desse hospital ou em parques com sua irmã mais nova. Eu treinava, e muito, fazia artes marciais, tiro, manuseio de qualquer instrumento que possuísse uma lâmina, mas Anny não podia saber disso. — Eu gosto de parques — respondi. — Você precisa se divertir! Sair, curtir! — Arqueei a sobrancelha. — Eu sou noiva. — Foda-se o gostosão de terno, você merece um orgasmo além dos que alcança sozinha. Gargalhei alto diante de sua fala. Se ela soubesse que nunca sequer havia transado, se soubesse o quanto era controlada e que esse controle ia muito além dos seguranças que as pessoas viam. Todos achavam que os quatro seguranças que eu tinha era devido aos negócios do meu pai e aos investimentos de Dominic. — Não vou trair o meu noivo, Anny. Porque se o fizesse, meu pai me mataria. Ainda que Walsh tenha demonstrado que não se importava com o tradicionalismo da virgindade, que é uma tradição da minha famiglia, meu pai se importava. Além do mais, eu não queria correr o risco de ser descoberta, se algo relacionado a qualquer possível escapadinha minha vazasse na mídia, estaria morta. Luigi me disse claramente que me mataria, e uma ameaça do meu pai nunca era feita em vão. — Se você quer manter as teias de aranha, tudo bem. Porém, não vou aceitar um não como resposta para vir dormir na minha casa. Vou convidar a galera... bebidas, pizza. Vamos? — Anny... — Nem tente, Mia. Seus pais estão viajando, então não pode usar Nanna como desculpa. Isso é verdade. Me cortou o coração, porque pela primeira vez Luigi e Alejandra foram viajar e decidiram levar Nanna junto. Meu peito doía de saudade daquela criança. Apertei o celular em minha mão enquanto pensava que era só uma bebida na casa da Anny. Que mal poderia haver? — Tudo bem. — Não! Chega de desculpas e... — Ela parou de falar, me encarando enquanto sorria. — Você disse tudo bem? — Sim. — Ah! Que máximo! — Ela abriu seu armário e pegou a bolsa, tirando de lá o celular. — Vou mandar mensagem para o pessoal! Ainda sorrindo, balancei a cabeça em negação, com a certeza de que iria beber pouco para não correr o risco de fazer alguma besteira. Algumas pessoas não podem se dar ao luxo de errar, e eu com certeza era uma dessas. • Minha cabeça estava explodindo. Como combinado, havia passado a noite na casa da Anny. A casa dela estava lotada e realmente foi muito legal. Eu maneirei na bebida e nem foi porque precisava ir para o hospital no dia seguinte, mas porque não estava disposta a passar dos limites. Eu jamais daria motivos para que validassem as comparações que me eram feitas em relação à Genevieve. Eu não sou igual à minha irmã mais velha e morreria provando isso e calando a boca de qualquer filho da mãe que pensasse o contrário. Passei o dia inteiro com dor de cabeça, pois ainda que não tenha bebido muito, o pouco de álcool que ingeri foi o suficiente para ficar com a cabeça explodindo o tempo todo. Contei os minutos até meu intervalo, e assim que consegui sair para o meu horário de descanso, comi e então tomei um analgésico. Estava no jardim do hospital, procurando algum local afastado para me sentar e ficar no silêncio, esperando que isso ajudasse a aliviar as badaladas na minha cabeça. — Mia? — Me virei diante do chamado, reconhecendo a voz do Dr. Mark. — Doutor — respondi. — Precisa de ajuda? Ele sorriu, e era fofo ver o quanto estava sem jeito. Fazia algum tempo que vinha percebendo o jeito que me olhava e até mesmo que ficava nervoso perto de mim. Mark foi efetivado no hospital no ano anterior, era comprometido com os pacientes, atencioso, bonito e... normal. Extremamente normal. Ele não era o tipo de cara que chamaria minha atenção, o doutor era um mocinho e só isso já fazia com que fossemos extremamente opostos e, no meu caso em específico, não rolava aquele lance de que opostos se atraem. — É... — Pigarreou. — Foi muito legal ter você ontem conosco. Você não costuma aparecer muito, e... — Mark — chamei, mostrando que ali era a Mia mulher, e não uma das residentes. — Eu sou noiva. — É… — Ele deu um riso nervoso. — Eu sei. Todos sabem. — Pois é — respondi e ficou um clima desconfortável. Então ele suspirou e tocou meu ombro. — Se um dia estiver disponível, gostaria muito de jantar com você, Mia. Eu... esse seu noivado é bem estranho, e... — No seu lugar, eu não terminaria essa frase. — Senti um arrepio ao ouvir a voz dele. Dominic Walsh estava parado a poucos passos com cara de poucos amigos, encarando fixamente Mark. Era simplesmente impossível não olhar para ele como um todo. Meu noivo estava com o tom de pele um pouco mais bronzeado do que da última vez que o tinha visto, e podia jurar que seus cabelos claros brilhavam sob a luz do sol. Sua estatura imponente ia muito além da altura, que facilmente já o destacava. Sua presença era dominante e ele exalava confiança em cada gesto, os olhos expressando uma intensidade magnética, ao mesmo tempo em que transbordavam insatisfação. A constituição física dele era robusta e atlética. Para a minha total infelicidade, ele era muito gostoso, e o desgraçado sabia disso. É sério, a cada ano que passava, aquele cara ficava ainda maior. A camisa social branca deixava evidente o contorno dos seus bíceps e eu nem precisava olhar em volta para saber que todas as mulheres presentes estavam olhando para ele. Dominic transmitia com sua postura e segurança, uma aura de autoridade natural. Em resumo, ele era um homem notável pela aparência atraente e confiança. Exalava poder e isso, infelizmente, era muito sexy. — Acho que esse é um bom momento para tirar a mão da minha noiva — disse, descendo os olhos para o crachá do moreno ao meu lado. — Mark. O doutor tirou a mão de mim e abriu a boca para falar algo, porém tornou a olhar para o loiro que se aproximava com passos decididos. Senti-me instantaneamente nervosa. Meu coração acelerou e minhas mãos ficaram trêmulas. Encarei-o, praguejando mentalmente por sentir minhas bochechas ficando coradas. Mantive minha linguagem corporal neutra para não denunciar a mistura de excitação e ansiedade que me invadiu. — Amore mio — ele disse, tocando minha cintura e se abaixando para ficar com o rosto na altura do meu. Senti um misto de emoção e principalmente antecipação. Meu coração batia ainda mais rápido à medida que ele se aproximava. Notei os pequenos detalhes, como a textura dos seus lábios, a maneira como estreitava os olhos lentamente, o cheiro suave de sua pele. Quando a boca dele tocou a minha, as borboletas no meu estômago pareceram ganhar vida e o tempo pareceu desacelerar. O beijo reafirmou a conexão invisível que existia todas as vezes que nos aproximávamos. Cada segundo era memorável e eu sentia como se estivesse flutuando em um momento de puro encantamento. Era como se Dominic me enfeitiçasse e isso era uma droga, pois deveria ser o contrário, eu que deveria causar esse efeito nele. Era apaixonada por ele desde a minha adolescência e talvez esse fosse um dos maiores motivos que eu afastava todos os homens que tentavam se aproximar, o motivo por eu negar a mim mesma as chances de experimentar e viver experiências. Eu o acompanhei durante todos esses anos pelos tablóides, sabendo cada passo seu, cada novo feito ou conquista. — Você fica mais linda a cada dia que passa — disse quando afastou os lábios, tirando a mão da minha cintura só para entrelaçar seus dedos nos meus. — Sou Dominic Walsh, o noivo... estranho. Mark ficou sem saber o que responder, tanto que apenas pigarreou e pediu licença, como o bom homem educado que era, se afastando de nós dois. — Sinto que estão nos observando, então se tiver um lugar mais discreto... — Nem deixei que ele terminasse de falar, o puxando pela mão. Caminhamos em silêncio até um canto afastado, Dominic olhou em volta e vi que ele respirou tranquilo quando percebeu os seguranças à distância. — Você está aqui — disse, ainda surpresa. — Você não respondeu às minhas mensagens e não atendeu às ligações. — Você disse que não viria... — Eu disse que não conseguiria vir no dia do seu aniversário, não que não viria. Você agiu como uma criança, me ignorando. Na verdade, a única coisa que sempre faz é me ignorar, Mia. Eu te procurei, tentei vir até você... fiz o que nenhum outro em minha posição faria, e mesmo assim você acha pouco, porra! Arqueei as duas sobrancelhas, perplexa. — Está jogando na minha cara por ter vindo me ver duas vezes nos últimos quatro anos? — Outro colocaria uma aliança no seu dedo e só apareceria no dia do casamento. — Então faça isso! — esbravejei percebendo que era impossível manter um diálogo pacífico com Dominic. — Seja como os outros. — Você entendeu mal. — Não, eu entendi muito bem. Ele balançou a cabeça impacientemente. — Mia, eu tenho tentado, mas você simplesmente não se importa! Caralho, as pessoas estão desconfiando por não termos fotos juntos, e... — Claro, isso não é bom para a sua imagem — ironizei. — Puta que pariu, eu tento, porra! Eu tento ter o mínimo de contato com você, mas minhas conversas são monólogos porque sempre me ignora. — Eu sou só um contrato para você. — Não! Você será a minha mulher! Cacete... — Passou a mão pelos fios loiros, desalinhando-os e ficando ainda mais bonito. Desgraçado. — Você acha que minha vida é fácil? Que vivo para ir a festas ou trepar com todas as mulheres que encontro pelo caminho? Você está muito enganada, Mia. Fiquei em silêncio, sem saber o que responder. Observei-o com mais atenção, ele era um homem muito bonito mesmo, com traços definidos que realçavam sua aparência. Seus olhos, embora tivessem aquele brilho sombrio, também revelavam certo cansaço, com olheiras sutis que sugeriam noites mal dormidas. Sua postura era elegante, mas havia algo em seus traços que indicava uma fadiga subjacente. — Eu queria te conhecer, queria ser seu amigo antes de te levar para a cama, porque isso vai acontecer, Mia. Nós vamos trepar e eu vou querer te comer feito louco, porém, antes disso, queria saber seus gostos. Queria poder te respeitar, quem sabe até admirar, mas você vive numa defensiva do caralho e isso já está me irritando. — Você não sabe o que eu passo. — Eu poderia saber se você me desse abertura. — Você ia se casar com a minha irmã, Dominic. Acha que é fácil para mim, lidar com o fato de que estou nessa posição como o estepe de um carro? Eu sou o pneu reserva, e isso obviamente não me deixa confortável. — Entendi — respondeu, me olhando de uma forma tão analítica que me remexi, desconfortável. — Se quer saber, você é a única aqui que se lembra que aquela mulher existiu, Mia. — Ele riu, balançando a cabeça em negação. — Você precisa amadurecer. — Como é? — perguntei, me sentindo insultada. — É isso mesmo que ouviu, você precisa amadurecer e lidar com suas próprias questões. Eu nem me lembro mais da Genevieve. Dei uma risada amarga. — Eu sou lembrada diariamente dos meus deveres como substituta dela, Dominic. Não venha bancar o moralista, bom moço, porque você não é. — Estou longe de ser bom, mas não sou seu inimigo, Mia. — Ele franziu as sobrancelhas levemente e respirou fundo. — Venha comigo. — Como? — perguntei, confusa. — Venha comigo para a Pensilvânia. Você... — Não. — Nem ouviu o que eu tenho a dizer, caralho! — esbravejou, ainda mais irritado. — Nanna é muito pequena e ela precisa de mim. — Essa menina é sua filha, Mia? — perguntou e nem me deixou responder. — Se for, esse é o momento de me dizer a verdade. — Ela é minha irmã, Dominic. Todos viram minha mãe grávida! — Então deixe seus pais cuidarem da filha deles — disse, e eu abaixei a cabeça. Eu não podia. Não iria deixar Nanna, ela era muito pequena e..., eu ainda não estava pronta. Precisava de mais treinamento, precisava de mais soldados dispostos a me seguir. Precisava estar preparada para ser a mulher fatal que carrega todos na palma da mão, não o contrário. Dominic voltou a respirar fundo e quando olhei para ele, a única coisa que vi foi cansaço, exaustão. — Eu tentei, Mia. Eu realmente tentei. Não espere mais minhas visitas em seus aniversários ou até mesmo as mensagens aleatórias que costumo mandar. A verdade é que não importa o que eu faça, você vai continuar na defensiva. — Então se endireitou, aprumando a postura. — Quando eu disse para ser discreta caso... tivesse algo com alguém, não estava brincando. Se eu tiver a confirmação de que esteve com alguém, essa pessoa vai morrer e se você se envolver emocionalmente… — Ele estalou a língua. — Vai presenciar um massacre. — Você precisa decidir. Uma hora diz para eu ser discreta e em outra fala que se descobrir, pessoas vão morrer. — O meu lado racional me elucida para o fato de que você é jovem e que não deve fidelidade a mim até que estejamos realmente juntos. Porém, o Boss da Blood Skull, o homem que eu sou de verdade, jamais deixaria passar se soubesse de algo. Nem um homem que te tocar intimamente vai viver para ter a oportunidade de se lembrar como foi estar entre as suas pernas, não se eu descobrir. Você é minha, caralho! O único que vai se lembrar do seu cheiro, gosto e até mesmo dos seus gemidos serei eu. Disfarcei a inquietação que tomou conta do meu peito e não respondi. Aquele tipo de atitude possessiva já era esperada de homens como ele, porém o convite para morar em sua cidade antes do casamento para nos conhecermos foi bem inusitado. Inesperado. — Acho que essa conversa acabou com o clima do jantar que planejei — murmurou, tirando um envelope do bolso e me entregando. — Feliz aniversário adiantado! Franzi a sobrancelha, abrindo o envelope e ficando perplexa ao ler o conteúdo. — O que é isso, Dominic? — Seu presente de aniversário. — Dominic... você comprou um hospital para mim? — perguntei, perplexa. — Acredito que quando nos casarmos você vai querer uma ocupação, e sua interação nas redes sociais deixa claro que ama a medicina. Este hospital fica a menos de 15 minutos da minha cobertura, que também será a sua casa. Está em seu nome, porém a administração estará a cargo de pessoas da minha confiança até o nosso casamento. Depois, vamos ajustando tudo. Fiquei em silêncio, sem saber o que falar, minha voz pareceu entalar na garganta e... uau! — Nunca se esqueça que mesmo de longe, estou de olho em você. Se cuida, Mia. — Ele deu um passo à frente, deixando um beijo em minha testa e então se virou e caminhou para longe de mim. Olhei para ele se afastando mais a cada passo que dava e somente quando o perdi de vista, voltei a olhar a folha de ofício em minhas mãos. Medland. Um hospital. Meu hospital. A junção das suas palavras ao seu gesto, me deixou atordoada, perdida. Eu não sabia o que ele pretendia com isso, mas se sua intenção era me desestabilizar, ele conseguiu.

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