Senador
Capítulo 1 RICHARD WALKER

— Senador Walker? Uma palavrinha, por favor. Passei pelos repórteres como um furacão, sendo seguido por dois seguranças, que tentavam afastá-los a todo custo. De outro lado, meu assessor, Kenneth Bridges, surgiu, depois de saltar do carro correndo, como se precisasse me resgatar no meio de um furacão. Mas era mais ou menos isso. — Senador? Por favor, gostaríamos de uma posição sua a respeito da Sra. Walker. O uso do meu sobrenome em referência à minha ex-esposa me fez parar no meio do caminho e me girar na direção do repórter com o cenho franzido, quase transtornado. — Ela não é a Sra. Walker há mais de um ano — joguei com muito pouca paciência, porque eles sabiam disso. O que queriam era a minha reação. As câmeras apontadas na minha direção estavam prontas para pegar qualquer deslize que pudesse me comprometer. Tiana, minha ex-esposa, escolhera a pior hora para anunciar seu casamento exatamente com o homem com quem me traíra. De fato, ela provavelmente tinha feito tudo de caso pensado. Aquela mulher fora o maior erro da minha vida. Pior de tudo: Kenneth me avisara. Ele sempre tinha razão, mas na maior parte das vezes eu não o ouvia. Era teimoso, costumava me sentir o dono da verdade, e caí em muitas armadilhas por causa disso. As melhores coisas que tinham acontecido comigo foram sob orientações daquele cara. Minha promessa a partir do momento em que tudo virou de cabeça para baixo foi que iria ouvi-lo. Fora ele que me ajudara a me eleger e que iria, sem dúvidas, me levar à Casa Branca. — Seja mais polido. Lembre-se de quem você é — Ken sussurrou no meu ouvido, fazendo sua voz funcionar como uma corda que me puxava de volta à consciência. Respirando fundo, sabendo que precisaria engolir sapo, empertiguei-me e sorri, parando e acenando para os repórteres. — Gostaria de dizer que estou muito feliz por Tiana. Não há ressentimentos entre nós. — A política nos ensinava a arte de mentir. Claro que havia mágoas, claro que eu não queria ver aquela mulher nem pintada, mas para a imprensa, nosso término foi pacífico, porque era a melhor forma de abafar o escândalo. Na época, Tiana fora flagrada saindo de um evento ao qual ela participou, como ativista, acompanhada de um ator de Hollywood que se envolvia em todas essas causas. Sempre fora um bálsamo para a minha imagem que minha esposa fosse tão preocupada com meio ambiente e com as minorias, com trabalho voluntário. Tínhamos muita fé que ela se tornaria uma peça crucial para a minha candidatura à presidência, porque seria uma excelente primeira-dama. Modelo que largara a carreira para se dedicar às causas que eu defendia – embora nunca tivesse sido um pedido meu –, linda, um ícone fashion, além de uma pessoa que todos amavam. Só que a minha paixão por ela me fez ficar cego para seus problemas com bebidas e para o quanto isso também fora uma imagem criada para seduzir seu público. Eles eram tão apaixonados por ela, que chegaram a inventar mil fanfics em suas cabeças a respeito da traição, mesmo que houvesse filmagens de Tiana com o amante aos beijos, que saíram em diversos sites de fofocas, além de outras fotos comprometedoras deles dois em outros lugares, até mesmo em uma viagem que ela deveria ter feito sozinha, por causa de um trabalho. Eu me tornei literalmente o corno para a mídia, mas surpreendentemente isso também veio ao meu favor. Minha popularidade cresceu, principalmente pela forma como lidei com a situação. Era meio absurdo que achassem cavalheiresco da minha parte que eu não tivesse simplesmente partido para a agressão. Eu jamais faria isso. Se bem que talvez essa imagem fosse associada a mim por causa do meu pai, que não era nem um pouco lisonjeiro com sua esposa – minha madrasta, muitos anos mais jovem do que ele. — O senhor está feliz por ela, mesmo depois de ter sido traído? — uma jornalista mais ousada perguntou, e eu voltei minha cabeça na direção dela como um chicote, erguendo uma sobrancelha. Eu poderia ter dado um milhão de respostas mal-educadas, embora não fosse chegar tão longe levando em consideração que se tratava de uma mulher. Ainda assim, eu ergui a cabeça, muito sério, pronto para responder. — Isso aconteceu há algum tempo. Estamos em paz um com o outro. Mentira novamente. Nunca mais tinha falado com Tiana, e nem queria. Não a amava mais, e talvez nunca tivesse amado, mas o que me doía era a deslealdade e o fato de ela ter deixado uma mancha nos meus sentimentos. Não me sentia pronto para confiar novamente e passei a ter pouquíssima tolerância para quem tentava me enganar. Tentei voltar a andar, mas outro jornalista se apressou e veio correndo ao meu lado, apontando o microfone para a minha boca, quase o batendo contra meus dentes. — Não acha que foi um pouco de falta de consideração ela ter anunciado esse casamento poucos dias depois do anúncio de sua candidatura à presidência? Talvez ela queira os holofotes para si mesma... Eu sabia que o que ele estava dizendo era verdade. Tiana não fazia nada que não fosse de caso pensado. Quando nosso relacionamento terminou, ela perdeu muito do status que conseguira, então fazia um enorme esforço para continuar na mídia. — Cada um de nós trilhou um caminho. Repito que quero que ela seja feliz, mas eu tenho mais coisas nas quais pensar. Agradeço a todos pelas perguntas. Essa era a minha deixa. Os seguranças se colocaram novamente ao meu lado, assim como Ken, que foi tentando acalmar os ânimos. Eu já tinha falado até de mais, sido o máximo simpático possível e sorri mais do que poderia aguentar. Aceleramos o passo e subimos as escadas que levavam ao prédio do meu gabinete, em Nova Iorque, estado para o qual eu tinha sido eleito senador. Normalmente eu passava bastante tempo em Washington, trabalhando no Congresso, especialmente depois que me divorciei, mas aquele assunto que iria tratar na reunião daquele dia requeria total descrição. — Rick, está tudo bem? — Kenneth perguntou, enquanto parávamos diante dos elevadores, esperando-os. — Por que não estaria? Por que não só o fato de eu ser corno foi divulgado para todo o país, mas também porque estou prestes a ter que escolher uma noiva que nem conheço? — Não fale isso em voz alta até estarmos em uma sala, fechados — Kenneth afirmou, novamente aos sussurros, olhando de um lado para o outro, como se estivéssemos fugindo da polícia. Fiquei quieto e só respirei fundo, pensando na merda em que estava me metendo. Quando me candidatei a senador, eu sabia que estar casado imporia um respeito que jamais conseguiria sendo solteiro. Mas naquela época foi fácil, porque eu estava namorando e completamente apaixonado. O pedido de casamento foi simples, e a cerimônia aconteceu alguns meses antes das eleições. O divórcio veio exatamente um ano depois, com o anúncio da traição. Aquela facada nas costas, com a notícia do casamento, surgira dias antes, pouco após o anúncio de que eu começaria minha campanha para a presidência. Não que eu tivesse qualquer esperança de que me deixassem escapar ileso, mas a relembrança de um casamento resgatara a questão de eu estar novamente solteiro. Para um presidente, isso era quase inconcebível. Eu poderia concorrer, mas nunca chegaria lá. Os eleitores eram conservadores a este ponto, por mais que eu fizesse parte de um partido – o Union Party – que tinha ideais modernas. Entramos na sala, na companhia de uma assessora de imprensa que tinha assinado um contrato de confidencialidade, e trancamos a porta, deixando um segurança do lado de fora. Ninguém poderia sequer se aproximar sem autorização. Eu e a assessora de imprensa, que se chamava Daisy, nos sentamos, e Ken jogou uma pasta à minha frente, porque aparentemente não tínhamos tempo a perder. — O que é isso? — perguntei, erguendo os olhos para ele, com o cenho franzido. — Abra a pasta e verá. Fiz o que ele pediu, mas tive um pouco de dificuldade para entender. Eram fotos e fichas de mulheres, como se eu fosse o dono de uma agência, pronto para escolher uma modelo para estrelar uma campanha de publicidade. — Isso não pode ser o que penso que seja... — cuspi as palavras. — Não vai querer que eu escolha minha futura esposa assim, vai? Kenneth não respondeu nada, o que me obrigou a dar uma risada de escárnio e fechar a pasta com raiva. — Isso é ridículo! — exclamei, me sentindo amargo. — Fazemos muitas coisas ridículas para chegar aonde queremos chegar. Rick. O que você teve que dizer lá fora também foi. Nossa vontade era xingar aquela traidora e não desejar felicidades em um casamento que está fadado ao fracasso. — Eu entendo, e já acho que essa história de casamento por conveniência é um absurdo, mas um arquivo com fotos das mulheres? Como se fosse só uma questão de aparência... Tiana era uma mulher lindíssima. O tipo perfeito de modelo, quase uma Barbie, mas isso não queria dizer nada. — Nenhuma delas foi escolhida só pela aparência, mas você há de convir que uma mulher bonita chama atenção. Pessoas gostam de coisas belas! — Kenneth sempre defendia suas opiniões com paixão. — Não coloquei apenas a foto delas. É quase um currículo, com atribuições, histórico, personalidade. — Vou me casar, Ken. Não jogar RPG. Daisy chegou a rir. Ela estava calada desde o início, e eu ainda não sabia se podia confiar cem por cento em sua discrição, mas Kenneth a tinha em alta conta. — Não importa a forma como elas estão sendo apresentadas, Rick. Infelizmente vai ser um casamento às cegas. Temos muito pouco tempo e uma história para contar. Temos que conversar com as moças ainda e convencê-las. Por isso precisamos que seja tudo feito em um piscar de olhos, inclusive a cerimônia. Você vai viajar semana que vem, não temos muito tempo. Tínhamos combinado que assim que encontrássemos a candidata ideal, o casamento seria feito logo em seguida, porque se ela desistisse, não poderíamos arriscar contar todo o plano para mais gente. Além disso, havia muito dinheiro em jogo e todo um público para convencer de que se tratava de uma história de amor inevitável, algo que só acontecia nos livros. Kenneth e Daisy pareciam ter tudo sob controle, só dependia de mim. E eu queria chegar à Casa Branca. Queria a qualquer custo o que meu pai um dia tivera. O fato de eu ser filho de um expresidente contava e muito, mas não era suficiente. Sabendo disso, bufei e abri a pasta, começando a folheá-la para escolher minha futura esposa. Se não era a coisa mais patética que já tinha feito na minha vida, eu não saberia qual poderia ser. O problema era que a política, para mim, era quase uma imposição. Era isso ou nada, porque cresci no meio dela e a respirei desde que me entendia por gente. Só que a cada jogo que eu entrava, eu queria sair como vencedor. Se fui arrastado àquele mundo, eu não iria ser só mais um. Se precisasse me casar para ser mais respeitado e ter mais chances de chegar ao topo, era isso que eu faria. Não importava que não soubesse o nome da noiva, que não conhecesse absolutamente nada sobre ela.

Capítulo 2 ISABELLE WAVERLY

— Belle, pode pegar a mesa oito para mim? Preciso comer alguma coisa, estou passando mal aqui! Minha gerente pediu, e eu só assenti. Como já tinha acabado de almoçar – só um sanduíche de frango, aliás –, não teria problema nenhum rendê-la. Claro que eu tinha direito a mais minutos de almoço, e queria ligar para casa para saber de Aurora, que estava um pouquinho febril quando eu saí, mas isso poderia esperar um pouco. Não era como se eu não precisasse desesperadamente do meu emprego. Ajeitando meus cabelos castanhos para dentro do rabo de cavalo, coloquei de volta o avental, peguei o bloquinho, um lápis e passei do balcão em direção à mesa oito. Claramente não eram os clientes usuais. Eram duas pessoas: um homem de meia idade e uma mulher de uns trinta anos, ambos muito elegantes. Definitivamente, o restaurante onde eu trabalhava não era do tipo que recebia pessoas como eles. Claro que Nova Iorque era diversificada o suficiente para que houvesse mil explicações plausíveis para o fato, mas eles realmente pareciam dois peixes fora d’água. Eu me aproximei, com cautela, e ouvi parte da conversa, sem querer. — Não é possível que ele não tenha gostado de nenhuma delas. Eu escolhi a dedo! — a mulher exclamou, um pouco indignada. Eles já estavam com suas bebidas, provavelmente servidas pela gerente. Nós estávamos com redução de funcionários, porque Amy, uma das garçonetes e minha melhor amiga, havia encontrado outro emprego e se afastado há alguns dias, e nenhum outro funcionário fora contratado. Sendo assim, a gerente estava se virando como podia. — Richard tenta fingir que é governado pela razão, mas ainda usa muito o coração. Essa é a melhor alternativa que temos, mas ele ainda está relutante. Logo vai entender que sem isso, adeus Casa Branca. Preocupada com o que eu poderia estar ouvindo e não querendo receber nenhuma informação que pudesse me comprometer, coloquei um sorriso no rosto e me aproximei. — Boa tarde, senhores. Meu nome é Isabelle e vou atendêlos hoje. O homem se remexeu na cadeira, buscando uma posição, e eu quase me encolhi com o olhar malicioso que me lançou. — Olha só se não é uma coisinha bem mais interessante do que a outra que começou nos servindo antes. — Retesei-me imediatamente, um pouco incomodada, tanto que não lhe respondi. — Seu rostinho me é familiar. Será que já nos conhecemos antes? Dei um sorriso sem graça, irritada por precisar fingir simpatia. — Não sei, senhor. Talvez seja daqui mesmo. — Duvido muito. É minha primeira vez aqui. Só escolhemos este lugar porque queremos conversar sobre coisas confidenciais. Trabalhamos para um político importante, sabe? Queremos privacidade, e imaginamos que não haveria nenhum paparazzo a nos caçar por aqui. Será que ele tinha me visto ouvindo a conversa? Nem fora por mal, mas aquele tipo de gente interpretava o que queria e poderia me prejudicar só por esporte. Sobre ele conhecer o meu rosto... nunca tinha acontecido antes, mas eu imaginava que algum dia alguém surgiria que me conhecesse. Não era como se o meu sobrenome fosse só mais um no meio da multidão. Eu era filha de Anson Waverly. Filha bastarda, é claro, mas fui adotada pela família aos dezessete, três anos antes. Desde então, eu deixei de ser uma total desconhecida para alguém que tinha algum tipo de relevância para a mídia. Antes de tudo desandar na minha vida, eu era a garota de ouro, com notas excelentes, com possibilidades de ir para a faculdade que escolhesse, de acordo com meus professores. Participava de ações filantrópicas com o colégio, criei um projeto social desde que descobri o problema cardíaco da minha irmãzinha e consegui muita visibilidade. Só que minha mãe e meu padrasto – que sempre foi um pai para mim – morreram em um acidente, e eu precisei morar com meu pai biológico e sua esposa, que simplesmente me odiava. Acabei parando tudo o que construí para cuidar de Aurora. Ela era a razão de tudo, e eu não me arrependia de nada. Tanto que eu tinha decidido me esconder naquele fim de mundo, em um emprego medíocre, porque temia que as pessoas acabassem me reconhecendo. Tarde demais. O cara fixou os olhos na plaquinha presa ao meu avental, com meu nome. — Isabelle Waverly! — ele exclamou, surpreso. — Claro, claro! A filha bastarda de Anson! Abaixei a cabeça, soltando um suspiro. Não que o fato de ser uma bastarda me envergonhasse ou me fizesse mal, mas eu já tinha ouvido tantas vezes aquela palavra que ela passara a ter um peso muito desagradável. Parecia que ela moldava a minha vida inteira. Desde quem eu era até quem poderia ser. Tanto que fora por causa dela, usada da forma mais desdenhosa possível pela minha madrasta, que o meu futuro fora todo destruído. Eu era fruto de uma traição e meu pai se envergonhava tanto disso, que eu era um constante lembrete. Sem contar o quanto a Sra. Waverly usava isso como uma arma; como manipulava o meu pai ao seu bel-prazer, jogando a infidelidade na cara o tempo todo. — Senhor, eu... — Tinha pretensão de lhe pedir que não contasse a ninguém, e já ia começar a me justificar, usando a desculpa que sempre estava pronta, na ponta da língua caso me descobrissem ali, sobre querer ter novas experiências e me aproximar de pessoas diferentes, como a herdeira desocupada que eu deveria ser, mas o cara soltou uma gargalhada que eu não esperava. — Eu não acredito. Se isso não é destino, não faço ideia do que mais pode ser. Fiquei completamente perdida, olhando para ele e percebendo que a moça que o acompanhava também não entendia nada. — Senhor, me perdoa... eu não... Fiquei surpresa quando sua mão foi parar sobre a minha, em cima da mesa. — Não se preocupe, menina. Só faça seu trabalho. Eu e minha amiga vamos fazer o pedido, tudo bem? Hesitei um pouco antes de assentir, mas não tinha outro jeito. Era, de fato, o meu trabalho. Cada um dos dois fez o seu pedido, e eu me afastei o mais rápido possível, retornando à cozinha para deixar o papel com o cozinheiro. Aproveitei esses breves segundos para me recuperar e decidir que o homem, fosse quem fosse, só poderia ser um pouco louco. Não merecia a minha atenção. O fato de ter reconhecido quem eu era, de ter até me chamado de bastarda, não poderia prejudicar meu dia de trabalho. E eu tinha muita coisa a fazer. Tive que voltar à mesa deles algum tempo depois, para servir os pratos, e depois para a sobremesa. Eu sentia os olhos do cara em mim o tempo todo, com o sorriso malicioso, e não pude deixar de perceber que passara boa parte da refeição no celular, tanto digitando ferozmente quanto falando com alguém. Queria desviar minha atenção, focar em outras coisas, mas eu estava com a sensação de que toda aquela comoção tinha a ver comigo. Esse pensamento se tornou real pouco antes de eles irem embora. Eu estava recolhendo o pagamento na mesa, e quando lhe entreguei o comprovante de pagamento, o homem segurou a minha mão de um jeito tão súbito que cheguei a me sobressaltar. — Posso conversar um minuto com você? Em um local mais privado? Que tipo de proposta era aquela? — Senhor, me desculpa, mas não. Eu nem te conheço. — Não seja por isso, meu nome é Kenneth Bridges. — Ele balançou a mão que ainda segurava a minha, com firmeza. Meio atordoada, cumprimentei-o de volta. — Não tem nenhum local aqui dentro mesmo do restaurante que possamos usar? Minha amiga, Daisy, estará presente o tempo todo. — Ele apontou para a mulher, como se isso pudesse ser uma segurança para mim. Não era. Eu também nem a conhecia. — Senhor, eu realmente não posso... — Por favor, Isabelle. Eu tenho uma proposta para você. Uma proposta que pode ajudá-la a cuidar da sua irmã. Ao ouvir a menção a Aurora, soltei a minha mão da dele, dando um pulo para trás. — O que você sabe sobre ela? — quase rosnei. Para defender a minha irmãzinha eu era capaz de tudo. E eu nem sabia que esse seria o meu maior problema. — O suficiente para saber que você precisa desesperadamente de dinheiro, que seu pai não está assim tão bem das pernas e que a proposta que eu tenho para te fazer pode te beneficiar e muito. — Não! — respondi em um sobressalto, mais alto do que deveria. Dei uma olhada ao redor, e as pessoas estavam nos encarando, como se não entendessem o meu comportamento com um cliente. — Não quero ouvir proposta nenhuma, a não ser que seja de um trabalho honesto — reafirmei. Ele abriu um sorriso malicioso. — Não seria nada comigo, querida, mas também não poderia dizer que é algo honesto. Só que foi bom você negar. Acho que tenho uma maneira melhor de resolver isso. Ele pegou as coisas que tinha deixado em cima da mesa e começou a se afastar. Corri atrás, porque um calafrio percorreu minha espinha. Algo me dizia que aquele homem ainda se tornaria uma pedra no meu sapato, se eu permitisse. — O que o senhor quer comigo? Por que eu? Ele ergueu uma sobrancelha, por cima da armação dos óculos, ainda com aquela expressão debochada. — Porque ele vai gostar de você, eu tenho certeza. Novamente o homem começou a se afastar, enquanto eu ficava com a pergunta na cabeça: quem é ele?

Capítulo 3 RICHARD WALKER

A televisão proporcionava um som ambiente, dentro do meu gabinete. Ela só estava ligada, porque eu gostava de ficar a par das notícias, mas não tinha muito tempo para ler jornais. Ainda assim, era de manhã, e sem dúvidas o telejornal matinal não era a melhor fonte, mas o dia estava repleto de reuniões e eu ainda precisaria viajar para Washington para uma Comissão de Parlamento, da qual eu precisaria participar. — E não se fala de outra coisa no momento! — a voz animada da âncora exclamou. Não importava que tivesse acabado de conversar com um correspondente que anunciara um assalto a um banco no Brooklyn, seu humor mudava conforme o tom da notícia. Naquele momento, eles iam entrar na rodada de fofocas sem relevância. Comecei a procurar o controle remoto, mas o nome falado me impediu. — A bela Tiana Hilton, ex-senhora Walker, como vocês bem sabem, está compartilhando cada detalhe da preparação de seu casamento. Nós estamos encantados com o bom gosto, não estamos, Werner? Ela jogou a deixa para seu companheiro de tela. — Sim, mas uma mulher de bom gosto nunca iria nos decepcionar, é claro. Ficamos um pouco curiosos, porque ontem o Senador Walker foi bem ríspido com alguns jornalistas em uma breve abordagem em frente ao prédio do gabinete. Será que ainda tem uma dor de cotovelo em meio àquela figura fria e pragmática? Fechei a mão em punho ao mesmo tempo que ouvia a porta se abrindo. Já sabia quem era. Só uma única pessoa tinha autorização – e audácia – para entrar no meu gabinete daquela forma. Assim que passou pela porta, ele ia falar alguma coisa, mas parou diante da TV, prestando atenção no mesmo que eu. — Não sabemos, meu amigo. Até porque desde então Richard Walker nunca mais foi visto com outra mulher. E, não vamos ser hipócritas, ele é um cara lindo e sexy, deve haver uma fila de garotas ansiosas para... A mulher mal terminou de falar e Ken simplesmente desligou a televisão, pegando o controle em cima da minha mesa. — Por que você insiste em ver esse tipo de bosta? — Ele jogou o controle de volta na mesa e se apoiou nela, cruzando os braços. — O meu nome estava sendo mencionado. É um pouco difícil fingir que nada está acontecendo. — Ao menos te chamaram de lindo e sexy. — Foi uma tentativa de piada, é claro, mas eu só revirei os olhos. — Relaxa um pouco, Rick. Fofocas são fofocas. Na pior das hipóteses o seu nome permanece na boca do povo. — Quero que fique, mas por uma boa gestão. Que as pessoas queiram votar em mim pelo meu trabalho — quase rosnei, mas Ken balançou a cabeça, como se eu fosse uma criança que não sabe nada da vida. — Você quer que as pessoas votem em você. Ponto. Não importa o motivo. Depois que chegar lá, você prova o seu valor. — Se fosse assim, eu estaria usando o meu pai na campanha inteira. — Deveria ter usado, mas é orgulhoso demais para isso. Não era só uma questão de orgulho. O problema era que eu e meu pai não tínhamos uma relação muito boa. Para a mídia, éramos unidos e um complementava o trabalho do outro, mas nos bastidores a verdade era outra. Não gostava da forma como meu pai seguiu com sua vida na política. Não gostava de como se aliou a pessoas perigosas, nem durante a candidatura e nem depois. Tornara-se amigo de famílias da máfia, como os Ungaretti e os Caccini – coisa que ninguém sonhava em saber –, e eu podia jurar que ainda lhes devia favores. Volta e meia eu recebia propostas muito discretas para reuniões com os atuais chefes da Cosa Nostra, mas sempre recusei. Por muito tempo achei que isso iria me prejudicar, mas eles não insistiram e não me colocaram em sua lista de inimigos. Ao menos não que eu soubesse. — Seja como for, você sabe que quando anunciar o casamento, essas fofocas vão diminuir, não sabe? — ele continuou falando, e eu me recostei na cadeira, levando os dedos às têmporas. — Tenho minhas dúvidas. — Confia em mim, garoto. Quantas vezes te decepcionei? O problema era esse: eu confiava demais. Mesmo quando chamava um homem de trinta e cinco anos de garoto. Mesmo quando, no fundo, eu pensava que era perigoso estar tão nas mãos de alguém. Eu gostava de ter o controle, de manter minha vida nas pontas dos meus dedos, mas às vezes tudo isso desandava. As questões com Tiana foram como um balde de água fria, que me deixaram um pouco desorientado, mas consegui me reerguer. Mesmo que me sentindo, eventualmente, na corda bamba, como no dia do anúncio do casamento dela e depois daquela maldita menção no telejornal. — Eu tenho uma solução para os seus problemas. Ken jogou outra pasta parecida com a do dia anterior sobre a mesa à minha frente, e eu respirei fundo, meio sem paciência. — Não estou a fim de ficar selecionando mulheres em um cardápio, Ken. Ontem já foi o suficiente. Você me trouxe seis garotas que eram a cara de Tiana. Todas elas completamente parecidas em personalidade. Não sei o que te deu, mas eu não tenho um tipo. Não é porque me apaixonei por ela que tenho algum tipo de preferência. — Só olha, Rick. Dá uma olhada. Essa garota é diferente. Mesmo a contragosto, abri a merda da pasta e logo me deparei com uma foto impressa. Parecia um print de uma postagem de instagram. Tratava-se de uma garota muito, muito bonita. Não, eu estava sendo econômico. A garota era mais do que isso. Ela era... linda de um jeito que chegava a incomodar. Os olhos eram de um azul-turquesa que poderia ser confundido com um tom mais acinzentado. Os lábios eram cheios, sendo o inferior pouca coisa mais fino do que o superior – e este tinha um formato marcado, com uma curva acentuada. Os cabelos eram castanhos, quase mel, e caíam muito lisos sobre seus ombros. De acordo com a ficha que Ken preparara, ela tinha vinte anos. Uma menina. Havia mais folhas com informações, mas eu não estava com muita paciência para ler. E nem tempo. — O que tem essa garota? — Sem contar o fato de que ela é linda? — Todas as outras também eram. — Eu estava sendo hipócrita. As outras eram muito bonitas, sem dúvidas, mas aquela ali era diferente, de fato. De um jeito inocente, puro. — Mas todas as outras eram bonequinhas e filhinhas de papai. Dei uma olhada no nome da garota e o reconheci. — Isabelle Waverly? Filha de Anson Waverly? Não é como se ela fosse uma pobretona. — Ah, mas é aí que a história fica mais interessante... — Ken deu a volta e se sentou em uma das cadeiras à frente da minha. — Ela é bastarda e precisou morar com o pai, levando uma irmãzinha pequena, que tem uma condição cardíaca. Pelo que apurei, ela não se deu muito bem com a nova família, e eles não a tratam muito bem. Tanto que a encontrei em um restaurante de péssima qualidade, trabalhando como garçonete. — Garçonete? Uma Waverly? — Foi o que chamou a minha atenção também. Minhas pesquisas me levaram a esse cenário: ela precisa de dinheiro para largar a família, conseguir a tutela legal da irmã e se libertar. Um casamento com um homem influente como você viria em boa hora. Ao menos seria uma causa nobre. Isso me fez ao menos hesitar. — E o que eu ganharia? Claro que Kenneth abriu um sorriso. Ele sabia que estava começando a ganhar aquela breve batalha. — Além de uma esposa jovem e linda? — Ele se inclinou e folheou algumas páginas da pasta. Havia uma parte destacada com um amarelo forte, como se fosse mesmo um dossiê. — Uma ativista, engajada em causas sociais. Uma garota inteligente, que não teve oportunidade de estudar. Uma entusiasta de Ciências Políticas. Sem contar uma garota que precisa de ajuda e que pode topar essa loucura que estamos criando, por estar desesperada o suficiente para isso. — Então nós vamos usar o desespero da moça? É isso? — E ela vai usar você também. Seu dinheiro, seu prestígio, sua posição. Não vai ser uma exploração de uma garota inocente, Richard. Desde o início deixaremos tudo muito claro. Ela vai entrar no acordo por livre e espontânea vontade e vai usufruir disso. Não só para proteger a irmã, mas também para se tornar esposa do Senador Walker e, quem sabe, primeira-dama. Dei mais uma olhada para a foto dela, ainda um pouco relutante. Não era a garota em si. Com certeza de todas as opções que me foram apresentadas, ela era disparada a que mais me atraía. O problema era que tudo aquilo me parecia muito absurdo, muito louco. — Mas e então, Ken? Por quanto tempo vamos ter que manter essa farsa? — Até você chegar à presidência. Depois disso, eles terão que te engolir por quatro anos. — E então vai tudo se repetir. Eu serei eleito e vou me divorciar logo depois. — Faremos de um jeito que seja convincente. Na pior das hipóteses, se vocês se tornarem ao menos amigos, ela fica até o fim do mandado. Podemos avaliar a situação. — Mas teremos que colocar isso em contrato. Dois anos, pelo menos. Sigilo total. — Confia em mim, Rick. Vai dar tudo certo. É a melhor escolha, acredite. Até poderia ser, mas eu ainda sentia como se estivesse entrando em uma enorme cilada.

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