O perfume discreto de figo italiano e couro nobre permeava o hall monumental do Palazzo Galleria Milano, misturando-se à iluminação suave dos lustres de cristal de Murano. O som distante do tráfego elegante do centro de Milão e o eco sutil de passos sobre o mármore criavam a atmosfera refinada do hotel mais exclusivo da Europa. Eu passava a flanela sobre o balcão com movimentos firmes, mantendo o padrão impecável do lugar, até que o eco de passos ritmados no piso polido interrompeu minha concentração. Levantei os olhos devagar, e o ar na entrada principal pareceu densificar. Ele era alto, de pele morena, ombros largos e impecavelmente alinhado em um terno escuro sob medida, cortado por alfaiates italianos renomados. Os cabelos pretos, penteados com precisão, refletiam a luz quente do teto trabalhado em afrescos, contrastando de forma impressionante com seus olhos castanhos-claros - um olhar frio, analítico e acostumado a impor presença sem erguer a voz. Seu nome foi murmurado pela recepcionista ao meu lado em um tom contido, quase reverente: - Senhor Eduardo Monteiro. Meu peito reagiu com um sobressalto automático. Havia uma força intensa naquele homem, mas o meu orgulho falou mais alto no mesmo instante. Havia trabalhado duro para construir minha vida; homens ricos e acostumados a mandar passavam por ali todos os dias, e eu não me intimidaria por mais um. Enquanto a recepção organizava as credenciais de sua chegada, os olhos castanhos-claros dele cruzaram os meus. Um segundo. Dois. Três. O contato visual fez uma faísca elétrica percorrer minha espinha. Eduardo demorou o olhar sobre mim, varrendo com atenção detalhada meus longos cabelos loiros que estavam presos em um coque sobre o uniforme ajustado, o contorno do meu corpo escultural que a roupa de trabalho não conseguia ocultar e o tom vívido dos meus olhos azuis." Em vez de abaixar o olhar com timidez, sustentei a atenção dele sem recuar, alinhando a coluna e mantendo o queixo erguido. Percebi o canto dos lábios dele se curvar em um esboço de sorriso provocador. Ele sabia do impacto que causava, mas mal sabia com quem estava lidando. Mais tarde, o rádio no meu avental chiou com a chamada da governança. A suíte presidencial - o apartamento 507, na ala mais nobre do palácio - necessitava de uma inspeção final antes do check-in do hóspede VIP. Era ele. Eduardo Monteiro. Ajeitei o material no carrinho de serviço e segui pelo corredor reservado do último andar, onde os carpetes espessos abafavam cada passo. Minhas mãos apertavam a barra metálica do carrinho enquanto eu repetia a mim mesma que se tratava apenas de mais uma suíte luxuosa e mais um cliente exigente. Ao encostar o cartão magnético na porta e entrar, fui recepcionada por uma vista impressionante das cúpulas históricas de Milão através das janelas em arco. Móveis de carvalho, cortinas pesadas de veludo e uma cama king-size vestida com lençóis de linho impecáveis. Iniciei o trabalho com agilidade e método, alinhando os recipientes de porcelana, conferindo o polimento dos metais e ajustando os detalhes com o capricho de sempre. - Gosto de profissionais que prestam atenção aos detalhes - disse uma voz grave e profunda logo atrás de mim. Virei-me devagar, recusando-me a demonstrar qualquer sobressalto. Lá estava ele. Encostado no batente da passagem interna, sem a jaqueta do terno, as mãos nos bolsos da calça social e os primeiros botões da camisa de algodão abertos. Os cabelos pretos desalinhados com charme e os olhos castanhos-claros fixos em mim com uma intensidade devoradora. Eduardo me estudava da cabeça aos pés, abertamente fascinado pela curva da minha cintura, a postura ereta e a vivacidade dos meus olhos azuis. - Boa tarde, senhor. A governanta me informou que a suíte ainda estava desocupada durante o meu turno - respondi, mantendo o tom de voz calmo, profissional e firme. - Gosto de acompanhar os processos de perto. Isso revela muito sobre o nível do estabelecimento - ele deu dois passos lentos em minha direção. A presença física dele preenchia a sala com uma gravidade quase sufocante. - Você é nova na equipe? - Trabalho no Palazzo Galleria há dois anos, senhor Monteiro - respondi, encarando-o diretamente nos olhos, sem dar um passo para trás. - Hm... Nunca a notei nos corredores. E eu certamente registraria uma mulher como você. Esse cabelo, esses olhos... você não passa despercebida em lugar nenhum. As palavras vieram carregadas de uma intimidade calculada, o tipo de abordagem assertiva que ele costumava usar para testar limites e impor dominância. Ele reduziu a distância entre nós até que o perfume amadeirado, denso e sofisticado dele ficasse perceptível no ar. O calor da proximidade dele era real e fazia meu pulso acelerar, mas minha rejeição àquela postura de comando era incomparavelmente maior. - Qual o seu nome? - perguntou ele, baixando a voz para um tom áspero e insinuante. - Lívia - disse, sem hesitar. Eduardo ergueu a mão com calma, estendendo os dedos no gesto calculado de quem busca tocar meu queixo para erguer meu rosto. Um movimento automático de quem está habituado ao controle total. Antes que a ponta dos dedos dele me alcançasse, dei um passo firme para trás e ergui a mão, interrompendo a aproximação no ar. - Por favor, senhor Monteiro. Não me toque - declarei em tom claro, audível e categórico. Eduardo parou a mão no ar. A expressão dele mudou imediatamente. O choque cobriu suas feições. Ele claramente não esperava uma recusa, muito menos vinda de uma funcionária uniformizada no meio de seu ambiente de conforto. - Como disse? - ele franziu o cenho, avaliando a situação como quem tenta processar um imprevisto. - O senhor contratou os serviços de hospedagem do hotel, não a minha pessoa - mantive o olhar fixo no dele, sustentando a postura sem recuar. - Sou responsável pela higienização da sua suíte e por garantir seu conforto técnico aqui dentro. Meu trabalho é pautado no respeito, e o senhor não tem permissão para invadir meu espaço pessoal. A tensão dentro da sala tornou-se quase palpatória. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma eletricidade contida entre nós. Eduardo fechou o maxilar em uma linha rígida, e seus olhos castanhos-claros faíscaram com um misto de contrariedade e um fascínio absolutamente incontrolável por aquela loira de olhos azuis que o enfrentava sem medo. Ele não estava acostumado a ouvir um "não". - Você tem noção de com quem está falando, Lívia? - a voz dele saiu ainda mais baixa, áspera e perigosa, tentando usar a imponência da própria figura para me intimidar. - Sei exatamente. O senhor é o hóspede da suíte 507 - respondi com uma calma cortante, ajeitando o crachá no peito. - E eu sou a profissional encarregada de deixar seu quarto pronto. Se o senhor necessitar de mais toalhas, serviço de quarto ou apoio de copa, basta acionar a recepção pelo ramal interno. Ele deu mais um passo curto à frente, os olhos cravados nos meus, a respiração demonstrando o impacto que aquela reação causara. Contudo, manteve as mãos para trás, compreendendo que não extrairia qualquer sinal de submissão da minha parte. - Você é extremamente atrevida. Ninguém se dirige a mim dessa forma - murmurou ele com o maxilar tenso, mantendo a atenção completamente presa à minha figura, intrigado e obcecado pela minha audácia. - Então é um bom momento para o senhor compreender que limites precisam ser respeitados - respondi sem piscar, sentindo o peito acelerado pela carga de adrenalina, mas mantendo a postura impecável. Ajeitei meu material de trabalho, passei por ele sem demonstrar hesitação e segui em direção à saída principal da suíte, sentindo os olhos dele queimarem nas minhas costas, acompanhando o movimento das minhas curvas. Antes de atravessar a porta, inclinei o rosto levemente sobre o ombro. - Tenha um excelente final de tarde, senhor Monteiro. A suíte está entregue. Saí e fechei a porta de madeira nobre com um som seco e definitivo. Já no corredor reservado, encostei as costas contra a parede por alguns instantes, puxando o ar com força. Minhas mãos mantinham um leve tremor pela intensidade do confronto, mas um sorriso controlado surgiu em meu rosto. Ele podia ser o homem mais rico e poderoso de Milão, com sua pele clara, cabelos escuros e olhos dominadores, mas diante de mim ele acabara de aprender que poder nenhum comprava minha postura ou minha dignidade.
Meu corpo ainda guardava a memória viva do nosso primeiro embate na suíte 507. Quando saí daquele quarto no dia anterior, minhas pernas pareciam instáveis, e o ar em meus pulmões custava a voltar ao ritmo normal. Eduardo Monteiro não era apenas um homem atraente ou poderoso; ele exalava uma autoridade magnética, um domínio natural e possessivo que parecia querer tomar conta de cada espaço por onde passava. A pele morena, os cabelos pretos cortados com precisão e os olhos castanhos-claros conferiam a ele um visual arrebatador, frio e profundamente perigoso. E, por mais que meu orgulho gritasse para me afastar, a eletricidade que faiscou entre nós quando seus olhos cravavam nos meus era impossível de ignorar. Aquele homem me olhava como quem estava acostumado a obter tudo o que desejava, sem pedir licença ou aceitar recusas. Ele achava que podia me marcar com a intensidade do seu olhar e com a promessa velada do seu toque. Ele olhara para mim como se já conhecesse cada contorno do meu corpo escultural debaixo do uniforme justo, fascinado pelos meus olhos azuis e pelo contraste dos meus longos cabelos loiros presos no coque regulamentar. Mal sabia ele que, se havia algo que eu preservava além da minha dignidade, era a minha independência. Voltei ao vestiário dos funcionários no final daquele primeiro turno, mas demorei a conseguir trocar de roupa. Fiquei ali, sentada no banco de madeira polida, tentando acalmar a aceleração do meu peito e a batedeira no meu peito. A lembrança do seu perfume amadeirado, da voz grave ressoando perto da minha orelha e da firmeza com que ele tentou segurar meu rosto fazia minha pele arder em um misto de afronta e desejo. Ele era um incêndio perigoso, e eu sabia perfeitamente do risco de me aproximar demais. Na manhã seguinte, tentei ignorar a tensão que ainda dominava meus pensamentos. Solicitei a alteração para o turno da tarde na governança, torcendo para que a rotina agitada do hotel mantivesse meu caminho longe do dele. Eu não sabia — e nem desconfiava — que Eduardo não era apenas um hóspede ilustre de passagem, mas o próprio proprietário do hotel, um homem acostumado a mover as peças do tabuleiro exatamente como queria. E o destino, sob o comando dele, traçara outros planos. Eram quase quinze horas quando o rádio do meu uniforme chiou com um chamado de emergência da governança. A ordem era direta: entrega imediata de toalhas extras e itens de banho na suíte presidencial. A suíte 507. Meu coração deu um baque involuntário contra as costelas. Ajeitei a bandeja de vime nos braços, respirei fundo, verifiquei se o meu coque estava perfeitamente alinhado e firme e entrei no elevador de serviço, mantendo a postura ereta e o queixo erguido. Ao chegar ao último andar, o silêncio do corredor parecia intenso, carregado de expectativa. Bati à porta duas vezes com a ponta dos dedos. Nenhuma resposta. Como a ordem era de entrega urgente, aproximei o cartão magnético do leitor e girei a maçaneta com cautela. A porta cedeu sem ruído. — Eu sabia que você viria — a voz grave e rouca ecoou do fundo da sala principal, cortando o silêncio de maneira quase física. Eduardo estava em pé junto à imensa parede de vidro que dava para a varanda. Vestia apenas uma calça social preta, com a camisa branca entreaberta, revelando o peito largo. Ele não carregava a jaqueta do terno, e a ausência do corte impecável o deixava ainda mais imponente, cru e perigosamente atraente. O contraste dos cabelos pretos com a pele morena e os olhos castanhos-claros dava a ele o aspecto de um predador elegante. Seu olhar penetrante pousou sobre mim no mesmo segundo em que cruzei o batente. — O chamado veio da governança, senhor Monteiro — respondi, mantendo a voz pausada e estritamente profissional, embora o calor sob minha pele traísse a agitação interna. — Vim apenas entregar o material solicitado. Deixei a bandeja de vime sobre o aparador de madeira nobre logo na entrada, fazendo menção de me virar para sair sem dar espaço para conversas. — Dê mais um passo em direção a essa porta e eu garanto que o seu turno termina agora mesmo — disse ele. Não era um grito, mas um comando baixo, tenso e repleto de uma autoridade que tentava me enquadrar e testar minha obediência. Lenta e deliberadamente, virei-me de frente para ele, ajustando a postura e cruzando os braços sobre o uniforme justo. — O senhor está me ameaçando com o meu emprego, Sr. Eduardo? — perguntei, encarando-o sem desviar os olhos azuis por um segundo sequer. Eduardo deu passos lentos e calculados em minha direção, eliminando a distância entre nós como quem encurrala seu alvo. O cheiro marcante do seu perfume amadeirado tomou conta do ambiente, envolvendo meus sentidos. Ele parou a poucos centímetros de mim, a altura e a largura dos seus ombros criando uma sombra imponente sobre meu corpo. — Não é uma ameaça, Lívia. É um fato — sussurrou ele, erguendo a mão. Desta vez, seus dedos tocaram suavemente a linha do meu maxilar, a pele quente dele contrastando com o tremor sutil da minha respiração. — Você me desafiou ontem. Ninguém me dá as costas neste lugar. Ninguém me diz 'não'. O toque dele enviou uma onda de choque eletrizante que desceu direto para o meu ventre. A atração entre nós era uma força física, crua e avassaladora, mas a tentativa de controle me fez erguer a cabeça com ainda mais firmeza. — Pois acostume-se — rebati, sustentando o olhar intenso dele, embora meu corpo se inclinasse involuntariamente para o calor da sua mão. — O seu dinheiro e o seu poder podem comprar o respeito e o silêncio de todo mundo neste hotel, mas não compram a minha submissão. Um brilho de fascínio sombrio e perigoso cruzou os olhos castanhos-claros de Eduardo. Ele aproximou o rosto do meu, a respiração quente roçando meus lábios, a outra mão descendo pela minha cintura e me puxando para junto de si com uma firmeza possessiva, mas sem violência. O contraste entre o seu domínio exigente e o carinho intenso do seu gesto fazia meu sangue arder. — Você me enlouquece desde o segundo em que colocou os pés nesta suíte — murmurou ele contra meus lábios, a voz rouca revelando a obsessão que o consumia. — Você tem esse ar de quem não pertence a ninguém. Mas quando você está no meu espaço, sob o meu teto, eu só consigo pensar em ter você por inteiro. — Eu não pertenço a homem nenhum, Eduardo — disse eu, a voz falhando ligeiramente pela proximidade dos seus lábios, mas mantendo a determinação inabalável no olhar. — Nem a você. Em resposta, Eduardo selou nossos lábios em um beijo profundo, intenso e dominador. Suas mãos seguravam minha cintura com devoção e posse, enquanto sua língua invadia minha boca com uma fome acumulada e avassaladora. A sensação era arrebatadora; o mundo lá fora parecia se desfazer diante do calor do seu corpo pressionado contra o meu. Meu peito arfava, minhas mãos subiram para os seus ombros largos, sentindo a firmeza dos seus músculos enquanto eu me entregava àquela tempestade de sensações. Ele me conduziu devagar até o sofá de couro da suíte, sem quebrar o contato dos nossos lábios, aprofundando o beijo com uma paixão que mesclava desejo, e urgência de me ter por perto. Quando suas mãos deslizaram pela minha cintura, acariciando meu corpo com um toque ardente e protetor, dei um gemido abafado contra a sua boca. O momento era puro fogo romântico e erotismo tenso, um encontro vibrante de duas forças que se recusavam a ceder. Eduardo se inclinou sobre mim, os olhos faiscando com um desejo quase desesperado enquanto depositava beijos quentes e lentos pelo meu pescoço e colo. — Você é minha, Lívia — sussurrou ele contra a minha pele, a voz carregada de um certeza inegociável. — Não quero outros olhos em você. Não quero ninguém tocando no que é meu. Aquelas palavras, proferidas com tanta intensidade e controle, trouxeram-me de volta à realidade instantaneamente. O prazer e a entrega que ele me proporcionava eram inexplicáveis, mas a tentativa de me prender em um quarto ativou todos os meus alertas de preservação. Com um movimento decidido e firme, pousei as mãos em seu peito e segurei seu rosto, afastando-nos o suficiente para que nossos olhares se cruzassem novamente. — Não passe dos limites, Eduardo — disse eu, arfando, o olhar faiscando com a mesma intensidade do dele. — O que acontece entre nós nesta suíte é fruto do meu desejo, não da sua posse. Eu continuo tendo a minha vida, meu trabalho, minha família e minha liberdade. Se você quer estar comigo, vai ter que aprender a respeitar quem eu sou. Eduardo travou o maxilar, os músculos do peito rígidos sob minhas mãos. A mente dele, habituada ao comando absoluto de empresas e pessoas, lutava visivelmente contra a barreira inabalável que eu representava. Mas ao observar a determinação nos meus olhos, a sombra de um sorriso derrotado e fascinado surgiu no canto dos seus lábios. — Você é uma tentação perigosa, Lívia Oliveira — murmurou ele, ajeitando com uma delicadeza surpreendente uma mecha solta do meu cabelo loiro atrás da orelha. — Acha mesmo que consegue me enfrentar para sempre? — Tenho certeza absoluta — respondi, ajeitando meu uniforme e me levantando do sofá com elegância e postura, sem jamais abaixar a cabeça. — Agora, se me dá licença, o meu turno precisa continuar. Ajeitei o crachá no peito, conferi se o meu coque continuava impecável e caminhei até a saída. Antes de abrir a porta, olhei para trás e o vi em pé, observando-me com uma intensidade silenciosa e um respeito que raramente parecia conceder a alguém. Aquele homem achava que podia ditar as regras só por conta do seu poder e dinheiro, mas mal sabia ele que, naquele domínio de atração e limites, quem comandava os meus passos era apenas eu.
O dia seguinte em Milão amanheceu sob um céu cinzento e elegante, com a luz suave da manhã atravessando as altas janelas em arco do Palazzo Galleria Milano. A rotina da cidade lá fora já começava a se movimentar no ritmo cadenciado dos bondes históricos e do trânsito discreto da Lombardia, mas dentro do hotel o tempo parecia obedecer a uma lógica própria. No vestiário da governança, ajeitei os últimos fios do meu cabelo loiro no coque regulamentar, conferindo a firmeza do penteado diante do espelho. Ajustei a gola do meu uniforme e verifiquei o crachá no peito. Meu corpo ainda guardava a memória viva da eletricidade dos nossos primeiros embates na suíte 507, mas minha mente estava perfeitamente lúcida. Eduardo Monteiro era o tipo de homem que usava sua presença física, seu poder e sua posição como dono do hotel para impor uma autoridade absoluta sobre tudo e todos. Mas ele precisava entender de uma vez por todas que o seu império terminava onde começavam os meus limites. Quando o rádio do meu avental chiou convocando a entrega de um conjunto de pastas executivas e jornais internacionais na suíte presidencial, não hesitei. Peguei a pasta de couro sobre o balcão da governança e segui para o elevador de serviço, mantendo a postura ereta e o queixo erguido. Caminhei pelo corredor silencioso do último andar até a porta da 507. Bati duas vezes com a ponta dos dedos, mantendo a distância regulamentar. A porta foi aberta por Eduardo. Ele vestia uma camisa de algodão egípcio branca, ligeiramente desabotoada no colarinho, e calças sociais pretas. O contraste dos seus cabelos escuros com a pele morena e a intensidade dos seus olhos castanhos-claros dava a ele uma imponência fria, de um homem habituado ao comando. Ao me ver ali, um brilho de interesse direto e calculista cruzou o seu olhar. - A documentação solicitada pela recepção, senhor Monteiro - disse eu, mantendo a voz pausada, profissional e completamente firme enquanto estendia a pasta. Eduardo não pegou a pasta imediatamente. Em vez disso, deu um passo lento para fora da suíte, usando sua altura para preencher o espaço do corredor e encurtar a distância entre nós. O aroma intenso do seu perfume amadeirado envolveu o ar. - Você continua mantendo essa distância formal, Lívia - disse ele, a voz grave e baixa, num tom de provocação velada. - Mesmo depois de entender a atração que existe entre nós. - O meu trabalho neste hotel é estritamente profissional, Eduardo - respondi, sem dar um único passo para trás e sustentando o olhar dele com meus olhos. - A atração não muda o fato de que estou em horário de serviço e de que você é um hóspede neste estabelecimento. Eduardo curvou o canto dos lábios num sorriso contido, fascinado pela firmeza da minha postura. Ele ergueu a mão devagar, o olhar fixo no meu, e pegou a pasta de couro, deixando os dedos roçarem nos meus de propósito. O toque quente enviou uma faísca elétrica pela minha pele, mas mantive a expressão serena. - Você fala como se estivesse no controle absoluto da situação - murmurou ele, dando mais um passo sutil, inclinando o rosto para perto do meu. - Mas eu percebo o seu pulso acelerado toda vez que me aproximo. - O meu pulso acelera porque sou humana e a química entre nós é real - rebati com calma e inteligência, olhando diretamente nos olhos castanhos-claros dele. - Mas ter reação física não significa perder o juízo ou me curvar ao seu estilo de comando. Você pode estar acostumado a gerenciar pessoas e empresas, mas da minha vida e das minhas decisões cuido eu. Eduardo travou o maxilar por um instante, a mente acostumada à obediência tentando processar a audácia da mulher à sua frente. Havia uma tensão densa e romântica entre nós, uma chama viva que ameaçava incendiar o ambiente a qualquer momento, mas ele percebeu que qualquer tentativa de imponência esbarraria na minha independência inabalável. - Você é a primeira mulher que não se deixa impressionar pelo meu nome ou pelo que posso oferecer - disse ele, a voz descendo para um tom mais íntimo e honesto. - Porque o seu dinheiro não muda quem eu sou, Eduardo - disse eu, ajeitando o meu avental com elegância. - Eu gosto da minha vida em Milão, do meu trabalho, do meu apartamento e da minha liberdade. Se você quiser um espaço no meu caminho, vai ter que aprender a me respeitar como igual, e não como alguém que você pode simplesmente controlar. Eduardo observou-me em silêncio por alguns segundos. A postura rígida do magnata deu lugar a um olhar carregado de um fascínio verdadeiro. Ele deu um passo para trás, abrindo espaço no corredor e acenando levemente com a cabeça. - O recado foi dado, Lívia - declarou ele, a voz carregada de uma promessa velada. - Mas não ache que vou desistir de você tão facilmente. - Eu não espero nada menos do seu empenho, senhor Monteiro - respondi com um sorriso controlado e provocante. - Tenha um bom dia de trabalho. Girei sobre os calcanhares e caminhei em direção ao elevador com passos firmes e decididos. Eduardo permaneceu na porta da suíte, acompanhando meus movimentos até que as portas metálicas se fechassem. Ao descer para o térreo, terminei o meu turno com a sensação de dever cumprido. Troquei o uniforme pelas minhas roupas casuais no vestiário - um jeans bem cortado e uma blusa leve -, soltei os longos cabelos loiros e saí do Palazzo Galleria Milano para aproveitar o meu final de tarde na cidade. Caminhei até o charmoso bairro de Isola, onde morava com minha mãe e minha irmã num apartamento aconchegante e organizado. O salário que eu recebia no hotel de alto padrão, somado ao trabalho da minha família, nos garantia uma vida confortável, digna e independente. Encontrei minha mãe, Dona Lourdes, preparando o jantar na cozinha enquanto o aroma de molho de tomate fresco e ervas tomava conta do ambiente. - Chegou cedo hoje, minha filha - disse minha mãe, sorrindo e me abraçando carinhosamente. - Como foi o movimento no palácio? - Bastante tranquilo, mãe - respondi, pegando uma xícara de café quente e sentando-me à mesa. - Apenas os hóspedes VIPs de sempre achando que o mundo gira ao redor deles. - E você colocou algum deles no lugar dele hoje? - brincou minha irmã Mariana, entrando na cozinha com os livros da faculdade de design debaixo do braço. - Sempre, Mari - rir, balançando a cabeça. - Ninguém pisca duro perto de mim sem ouvir um bom 'não'. Nós três rimos juntas, dividindo as novidades do dia entre histórias e gargalhadas. Aquela era a minha verdadeira força: a minha casa, a minha família e a certeza de que a minha dignidade não tinha preço. Mais tarde, saí com minhas amigas Camila e Jéssica para um aperitivo tradicional no bairro de Navigli. Sentadas em uma mesa ao ar livre à beira do canal, com taças de vinho e aperitivos italianos, nós conversávamos e ríamos alto sob as luzes quentes dos bares da orla. - Você precisa ver o rosto do novo hóspede da suíte 507 toda vez que eu respondo à altura - comentei com Camila, tomando um gole de vinho. - Cuidado, Lívia - brincou Jéssica, rindo. - Homens poderosos assim não estão acostumados a levar fora. Ele vai acabar ficando obcecado só para tentar provar que consegue te dobrar. - Que tente - respondi, com o olhar firme e um sorriso confiante nos lábios, enquanto a brisa suave da noite de Milão tocava meus cabelos. - Ele pode ser o dono de metade dos negócios desta cidade, mas o meu coração e a minha liberdade não estão à venda. Eu amava a intensidade do que sentia quando estava perto de Eduardo, mas sabia exatamente o valor da minha caminhada. Ele podia tentar me conquistar com todo o seu charme e poder, mas na minha vida, quem escrevia as regras do meu próprio destino continuava sendo eu.