Juntos Contra o Destino: Afonso e Ana
Introdução

Afonso Alencar, um nome de peso em Lisboa, sempre manteve Beatriz Moreira numa relação curiosa: ele pagava, ela ficava. No fundo, Afonso sonhava que um dia, ela sentiria algo mais por ele. Mas um simples acidente mudou tudo. Subitamente, Afonso viu a terrível verdade: ele era o "vilão" de uma história predefinida, condenado a uma morte trágica para que a sua "heroína" Beatriz pudesse ser feliz com o "herói" Rui Costa. O medo gelou-o. Cada passo, cada encontro, confirmava o seu papel. Preso numa narrativa impiedosa, Afonso decidiu o impensável: simular a sua própria morte. Abandonou tudo, deixou a sua família, a sua identidade. Tornou-se Miguel Santos e fugiu para uma pequena vila piscatória em Espanha, com a esperança de escapar àquele enredo cruel e à mulher que amava. Como podia um homem escapar ao seu próprio destino? A uma história que o queria ver destruído? A sua decisão, um ato de desespero máximo, era a sua única esperança de liberdade. Cinco anos de paz relativa se passaram, uma nova vida construída longe dos fantasmas de um passado "inexistente". Mas então, a sineta da sua tasca tocou, e a voz que ele pensou ter calado para sempre ecoou no silêncio do seu novo esconderijo: "Afonso Alencar, eu sei quem tu és." Beatriz não só o encontrou, como trouxe consigo uma revelação que viraria o seu mundo mais uma vez: "Eu amo-te." A narrativa estava longe de ser reescrita, e o verdadeiro confronto com o destino apenas começara.

Capítulo 1

Afonso Alencar entrou no escritório discreto, o cheiro a papel velho e desinfetante pairava no ar. "Dezessete dias," disse ele, a voz firme. "Preciso que a minha morte pareça um acidente convincente." O homem do outro lado da secretária, de fato cinzento e expressão neutra, acenou. "Temos experiência, Senhor Alencar. Afogamento no Tejo, talvez? Clássico, mas eficaz." Afonso anuiu. "Desde que o corpo seja encontrado e identificado corretamente." "Claro. Já temos um candidato para o 'cadáver'. Semelhança notável, asseguro-lhe." Pousou uma fotografia na mesa. Afonso olhou, um arrepio percorreu-lhe a espinha. Era perturbadoramente parecido. "Excelente." Discutiram os pormenores financeiros, uma quantia avultada trocou de mãos. "O pagamento final será feito no dia," disse Afonso, levantando-se. "Espero um serviço impecável." "Não se preocupe, Senhor Alencar. A sua 'morte' será uma obra-prima." Ao sair do prédio anónimo, o seu motorista, João, esperava-o com o Bentley. "Para casa, Senhor Afonso?" "Sim, João." O carro deslizou pelas ruas de Lisboa, em direção à vivenda imponente que partilhava com Beatriz Moreira. A casa era um símbolo da sua relação, fria e grandiosa. Beatriz estava na sala de estar quando ele entrou, desenhando numa grande prancheta. Era elegante, os cabelos escuros presos num coque desalinhado, a expressão concentrada. Levantou os olhos, e a frieza neles era habitual. Ela aproximou-se, o cheiro subtil do seu perfume a envolvê-lo. Os seus dedos tocaram-lhe o braço, um gesto que costumava ser um prelúdio. "Chegaste tarde," disse ela, a voz neutra. Tentou beijá-lo. Afonso recuou instintivamente. "Não hoje, Beatriz." Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa e um leve toque de irritação. "Algum problema? O nosso acordo ainda está de pé, ou o dinheiro para o tratamento do Tiago já não te compra a minha companhia?" A sua pergunta era uma faca, direta e sem rodeios, lembrando-o da natureza do seu laço. Afonso engoliu em seco. "Estou cansado. Só isso." Beatriz deu de ombros, a indiferença dela era palpável. "Como queiras. Tenho trabalho." Voltou para os seus desenhos. O telemóvel dela tocou. Ela atendeu, a voz a suavizar-se ligeiramente. "Rui? Sim, claro. Encontramo-nos aí." Desligou e agarrou na mala apressadamente. "Vou sair," anunciou, já a caminho da porta. A urgência era incomum, e Afonso sabia que era por causa de Rui Costa. "Beatriz, espera," Afonso começou, querendo dizer-lhe algo, qualquer coisa sobre a sua partida iminente, sobre a loucura que estava prestes a cometer. Ela parou, impaciente. "O quê? Estou com pressa." Ele olhou para o rosto dela, para a distância nos seus olhos. Desistiu. "Nada. Diverte-te." Ela saiu sem mais uma palavra. Afonso ficou sozinho na sala imensa, o eco da sua própria resignação a preencher o silêncio. "Vou-me embora, Beatriz," murmurou para o vazio. "Para sempre." Cinco anos antes, Afonso era um estudante universitário rico e influente. Beatriz era uma colega de arquitetura, talentosa mas pobre, lutando para pagar o tratamento contínuo do irmão mais novo, Tiago. Afonso viu uma oportunidade. Propôs-lhe um acordo: ele cobriria todas as despesas médicas de Tiago. Em troca, Beatriz seria sua namorada, viveria com ele, cumpriria as suas exigências. Até ele se cansar. Beatriz, desesperada, aceitou. Ele "comprou-a", movido por um desejo de posse que confundia com afeto. Durante cinco anos, a relação transacional persistiu. Afonso pagava, Beatriz cumpria. Ele, no entanto, alimentava a esperança secreta de que, um dia, ela o amaria de verdade. Até que, há poucas semanas, um acidente trivial – uma queda, uma pancada na cabeça – mudou tudo. Quando acordou, não era apenas Afonso Alencar. Era Afonso Alencar, o "personagem coadjuvante vilão" numa história. Uma história onde Beatriz era a heroína e Rui Costa, o seu amigo de infância, o herói predestinado. A trama era clara: Beatriz, após o sucesso de um grande projeto de arquitetura, deixá-lo-ia. As suas tentativas desesperadas e possessivas de a reconquistar, de prejudicar Rui, levariam-no a uma morte trágica e solitária. O medo gelou-o. A premonição era demasiado real, demasiado detalhada. Lutou contra isso, tentou ignorar. Mas a narrativa parecia puxá-lo, cada interação com Beatriz, cada olhar trocado com Rui, confirmava o seu papel. Finalmente, exausto e desesperado, tomou uma decisão drástica: simular a própria morte. Se não podia mudar a história, talvez pudesse escapar dela. E escapar de Beatriz.

Capítulo 2

Afonso passou a noite em claro. O quarto estava escuro, silencioso. Beatriz não tinha voltado, o que não era surpreendente. Provavelmente estava com Rui, seguindo o guião que ele agora conhecia tão bem. Levantou-se ao amanhecer, a decisão firme. Reuniu os empregados da casa na sala de estar. Eram poucos, discretos, eficientes. "Estão todos dispensados," anunciou, a voz sem emoção. "Receberão uma generosa indemnização." Houve um murmúrio de surpresa, mas ninguém questionou. Estavam habituados às suas excentricidades. Depois, chamou João, o seu motorista e homem de confiança. Entregou-lhe uma carta selada. "Entrega isto aos meus pais," disse. "Apenas a eles, em mãos. E só depois de... depois de ouvires as notícias." João olhou para ele, preocupado. "Senhor Afonso, está tudo bem?" Afonso forçou um sorriso. "Tudo ficará bem, João. A carta explica tudo." A carta detalhava o seu plano de simular a morte, a sua intenção de recomeçar noutro país, sob uma nova identidade. Pedia-lhes que não o procurassem, que compreendessem. Não podia levá-los consigo. Eram demasiado idosos para uma mudança tão drástica, para uma vida de subterfúgios. E a sua revelação sobre ser uma personagem numa história soaria a loucura. Se Beatriz suspeitasse que os seus pais sabiam de algo, poderia investigar, e o seu plano ruiria. Era um sacrifício necessário. Mais tarde, nesse dia, Afonso foi ao hospital. Não para ver Tiago, embora o fizesse regularmente. Desta vez, ia visitar a avó de Beatriz. Mas a avó, uma senhora idosa e frágil, existia, e Afonso tinha desenvolvido um afeto genuíno por ela ao longo dos anos. Beatriz raramente a visitava, a relação tensa e os estudos consumiam-na. Encontrou-a no pequeno quarto, a olhar pela janela. "Afonso, meu querido!" disse ela, os olhos a brilharem. "Que surpresa boa." Ele sentou-se ao lado dela, segurando-lhe a mão enrugada. "Então, quando é que tu e a Beatriz me dão a notícia do casamento?" perguntou ela, com um piscar de olho. Afonso sentiu uma pontada de amargura. Casamento. Impossível. "Ainda é cedo, Avó Matilde," respondeu, tentando manter a voz leve. Matilde suspirou. "Ela é uma boa rapariga, Afonso. Só é um bocado cabeça dura. Aquela história de vocês terem começado por causa do dinheiro para o Tiago... isso magoa uma mulher. Mas ela gosta de ti, tenho a certeza." Afonso sorriu tristemente. Se ao menos fosse verdade. Antes de sair, entregou um pequeno envelope à enfermeira-chefe, uma conhecida da família de Beatriz. Dentro, um cartão bancário com uma quantia significativa. "Para a Dona Matilde, para as suas despesas," disse ele. "E isto," acrescentou, entregando outro envelope, mais grosso, "é para a Beatriz. Entregue-lhe no momento certo. Quando... quando eu já não estiver por cá." A enfermeira olhou-o, confusa, mas acenou. O envelope para Beatriz continha dinheiro, suficiente para o futuro de Tiago e para o seu projeto de arquitetura. Uma última tentativa de compensação, talvez de gerar alguma boa vontade. A avó Matilde percebeu a sua melancolia. "Estás zangado com a Beatriz, Afonso?" Ele abanou a cabeça. "Não, Avó. Vou fazer uma viagem longa. Para um sítio distante." Estava prestes a tentar explicar mais, a despedir-se adequadamente, quando a porta do quarto se abriu. Beatriz entrou. E não vinha sozinha.

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