Acordo num hospital. A minha barriga, que por meses carregara vida, estava terrivelmente lisa. O meu bebé, devido numas semanas, desapareceu, levado pelo incêndio no nosso prédio. Liguei ao Miguel, o meu marido, mas ouvi irritação na sua voz. "O que foi, Clara? Estou ocupado." Ao fundo, a voz mimada da Sofia, preocupada com o gato dela, Tufas. "Miguel, perdi o bebé," disse, rouca. Ele prioritizou o gato medroso da Sofia a mim, presa no inferno. Mandou-me "resolver isso" e desligou. A tristeza deu lugar a uma clareza cortante. Os meus sogros ligaram, acusando-me de "drama", defendendo-o. Quando Miguel enfim veio, só viu a sua própria raiva sobre o divórcio, ignorando a minha dor. Eu enfrentei o inferno sozinha, perdi tudo. Como podiam esperar que eu perdoasse? Como fui tão cega, engolindo humilhações por amor? O lugar do meu amor por ele é um buraco vazio. "Vamos divorciar-nos," anunciei. Peguei na canja "simpática" da Sofia e atirei-a ao chão. "O meu problema são vocês os dois," revelei. O choque nos seus rostos valeu ouro quando mostrei as mensagens: o plano deles para me abandonar. "Agora, desapareçam da minha vida." Desta vez, eu renasceria das cinzas.
O cheiro a fumo e a desinfetante ainda estava no meu nariz quando acordei. A luz branca do quarto do hospital feria-me os olhos. A minha barriga estava lisa. Terrivelmente lisa. O meu bebé, que devia nascer dentro de duas semanas, tinha desaparecido. O incêndio no nosso prédio tinha levado tudo. Peguei no telemóvel com a mão a tremer. O ecrã estava estalado. Procurei o número do meu marido, Miguel. A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, a sua voz estava cheia de irritação. "O que foi, Clara? Estou ocupado." "Ocupado?", a minha voz saiu rouca. "Miguel, eu... eu perdi o bebé." Silêncio do outro lado. Depois, um suspiro. "Clara, agora não é uma boa altura." Ao fundo, ouvi uma voz feminina, chorosa e mimada. Era a Sofia, a sua amiga de infância que era mais como uma irmã para ele. "Miguel, o Tufas não quer comer. Acho que ele ainda está assustado com os fogos de artifício de ontem. Podes vir ver?" Fogos de artifício. O meu prédio ardeu até aos alicerces, eu quase morri sufocada, perdi o nosso filho, e a preocupação dele eram os "fogos de artifício" que assustaram o gato da Sofia. "Miguel," eu disse, com uma calma que nem eu sabia que tinha. "Onde estás?" "Estou com a Sofia. O gato dela está doente, já te disse." A sua impaciência era clara. Eu era um incómodo. "Vem para o hospital," pedi, uma última vez. "Não posso agora, Clara. A Sofia precisa de mim. Ela está muito abalada. Liga a um dos teus amigos. Resolve isso." Ele desligou. Olhei para o telemóvel na minha mão. "Resolve isso". As lágrimas que eu pensava que tinham secado começaram a escorrer pelo meu rosto. Não eram lágrimas de tristeza. Eram de clareza. Liguei-lhe de volta. Ele atendeu à segunda, ainda mais zangado. "Que queres agora? Já não te disse que estou ocupado?" "Miguel," eu disse, com a voz firme. "Vamos divorciar-nos."
Houve um silêncio de choque do outro lado da linha. Depois, a raiva explodiu. "Divorciar-te? Ficaste maluca? Só porque não pude ir a correr para o hospital? Tens alguma ideia do quão stressada a Sofia está?" "E eu, Miguel? Eu não estou stressada? O nosso filho morreu." "Foi um acidente, Clara! Acidentes acontecem! Não podes usar isso para me manipulares. Estás a ser egoísta." Egoísta. Eu, que passei nove meses a carregar o filho dele. Eu, que enfrentei um incêndio sozinha. Eu, que acordei numa cama de hospital para descobrir que o meu mundo tinha acabado. Eu era a egoísta. "Vou enviar-te os papéis," foi tudo o que consegui dizer antes de desligar e bloquear o número dele. Deixei o telemóvel cair na cama. Olhei para o teto branco. O incêndio. As imagens voltaram à minha mente sem serem convidadas. O alarme a tocar. O fumo a entrar por debaixo da porta. O pânico. Agarrei no telemóvel e liguei ao Miguel. A primeira chamada, foi para o voicemail. A segunda também. Na terceira, ele atendeu. "Miguel, o prédio está a arder! Estou presa!" "Calma, Clara. Deves estar a exagerar. Liga aos bombeiros." "Eu já liguei! Eles disseram para ficar quieta e esperar! Estou com medo, Miguel! Vem para cá!" "Não posso," ele disse, a voz distante. "Estou a resolver uma emergência." A emergência, eu sabia agora, era o gato da Sofia. O fumo ficou mais denso. Comecei a tossir. Sentei-me no chão, perto da janela, tentando respirar o ar menos poluído. A minha barriga estava pesada. O bebé mexia-se, agitado. "Calma, meu amor," sussurrei para a minha barriga. "O papá vai chegar." Ele nunca chegou. Foram os bombeiros que me encontraram, já inconsciente no chão. Acordei no hospital, com a notícia que me partiu em dois. Inalação de fumo, stress extremo... o meu corpo não aguentou. O meu filho não aguentou. O telemóvel da cama ao lado, que pertencia ao hospital, começou a tocar. Uma enfermeira entrou e atendeu. "É para a senhora," disse ela, estendendo-mo. "É o seu sogro." Hesitei. Mas atendi. "Clara," a voz do meu sogro, o Sr. Almeida, era fria como gelo. "O que é esta história de divórcio? O Miguel ligou-me, transtornado. Como te atreves a fazer-lhe uma coisa destas num momento tão difícil?"