O Saldo Zero: O Dia Que Tudo Mudou
Introdução

O cheiro a café fresco enchia o ar. Hoje era o dia. O dia em que eu e o Lucas, o meu marido, íamos assinar os papéis da nossa primeira casa. Três anos de sacrifício, cada cêntimo poupado, tudo para este momento. Mas o Lucas ligou-me primeiro. Uma voz tensa. A Sofia, a "amiga de infância", tinha um problema. O filho dela estava doente. Ele não podia deixá-la sozinha. Disse-me para fazer a transferência do dinheiro para a imobiliária. Abri a aplicação do banco. A conta conjunta onde tínhamos os 150.000 reais para a entrada da casa. O saldo? Zero. Uma transferência de 150.000 reais. Para uma conta em nome de Sofia Mendes. O meu coração parou. Ele tinha roubado as nossas poupanças de três anos e dado-as à sua "amiga". Quando ele voltou a casa, a mentira desfez-se. Ele confessou ter "emprestado" o dinheiro para uma "cirurgia" de emergência. Gritou, chamou-me egoísta. A mãe dele ligou-me, disse que eu era "dramática" e que Lucas fez "o que era certo". 'Foi por uma boa causa! Tu não tens coração?' , ele perguntou. Eu era a vilã por querer a minha vida de volta? Mas a verdade apareceu. No Instagram da Sofia. Ela não precisava de dinheiro para uma cirurgia, mas sim para abrir uma luxuosa boutique. E depois, a ligação de uma amiga: o Lucas tinha-lhe comprado um anel de noivado. Com o meu dinheiro. Nosso casamento, nosso futuro, tudo descartado para o sonho deles. O jogo tinha mudado. A dor transformou-se em raiva, e a raiva em resolução. Eu ia ser fria. Cirúrgica. Precisávamos de nos encontrar, uma última vez. Para o divórcio. E eles não faziam ideia do que os esperava.

Capítulo 1

O cheiro a café fresco e papel novo enchia o ar do escritório da imobiliária. Eu segurava a caneta com força, os meus dedos estavam um pouco húmidos. Hoje era o dia. O dia em que eu e o Lucas, o meu marido, íamos assinar os papéis da nossa primeira casa. O agente imobiliário, um homem simpático chamado Sr. Alves, sorriu para mim. "A Sra. está ansiosa, Eva?" Eu assenti, um sorriso rasgava o meu rosto. "Muito. Esperámos por isto durante três anos." Três anos a poupar cada cêntimo, a dizer não a jantares fora, a férias, a tudo. Tudo para este momento. O Lucas estava atrasado, o que era estranho. Ele estava mais ansioso do que eu. Peguei no telemóvel para lhe ligar, mas ele ligou-me primeiro. "Eva, amor, desculpa. Vou demorar um pouco." A voz dele soava tensa, distante. "Aconteceu alguma coisa, Lucas? Estás bem?" "Estou, estou. É só que... a Sofia teve um problema. O filho dela, o Léo, ficou doente de repente, tive de a levar ao hospital." Sofia. A amiga de infância dele. A viúva com quem ele passava demasiado tempo a "ajudar". Uma sensação fria percorreu-me. "O Léo está bem? É grave?" "Não sei bem, parece ser uma febre alta. Ouve, eu sei que hoje é importante, mas eu não podia deixá-la sozinha. Vou assim que puder, ok? Faz a transferência do dinheiro para a conta da imobiliária, eu assino quando chegar." Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Respirei fundo. Era pela criança. Eu tinha de compreender. Abri a aplicação do banco no meu telemóvel, a conta conjunta onde guardávamos os 150.000 reais para a entrada da casa. O meu dedo pairou sobre o ecrã. Selecionei a conta. O saldo apareceu. Zero. Um zero grande e redondo. O meu coração parou. Atualizei a página. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Zero. Olhei para o extrato. Havia apenas uma transação, feita há duas horas. Uma transferência de 150.000 reais. Para uma conta em nome de Sofia Mendes. O telemóvel escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo. O Sr. Alves olhou para mim, preocupado. "Sra. Eva? Está tudo bem?" Eu não conseguia responder. O ar não entrava nos meus pulmões. O cheiro a café agora dava-me náuseas. A nossa casa. O nosso futuro. O nosso dinheiro. Tinha desaparecido. E o meu marido tinha-o dado à outra mulher. ---

Capítulo 2

Levantei-me, as minhas pernas tremiam. "Peço desculpa, Sr. Alves. O meu marido... não vem. Temos de cancelar." Apanhei o meu telemóvel do chão, o ecrã estava estalado, como a minha vida naquele momento. Saí do escritório sem olhar para trás, ignorando as suas perguntas. O sol lá fora parecia demasiado brilhante, demasiado feliz. Eu sentia-me como se estivesse num pesadelo. Liguei ao Lucas. Uma, duas, cinco vezes. Caixa de correio. Ele estava a evitar-me. Ele sabia o que eu tinha descoberto. Fui para casa, para o nosso pequeno apartamento alugado que de repente pareceu uma prisão. Sentei-me no sofá e esperei. As horas passavam como se fossem anos. Quando a chave finalmente rodou na fechadura, já era noite. O Lucas entrou, o rosto cansado. Ele nem sequer olhou para mim. "O Léo está com uma infeção, vai ter de ficar no hospital uns dias. Foi um caos." Ele foi até à cozinha, abriu o frigorífico e pegou numa garrafa de água. Eu continuei em silêncio, a observá-lo. Ele finalmente virou-se para mim, e o seu sorriso falso desapareceu quando viu a minha expressão. "O que foi, Eva? Tive um dia terrível." A minha voz saiu como um sussurro, fria e sem vida. "Onde está o dinheiro, Lucas?" Ele franziu o sobrolho, fingindo confusão. "Que dinheiro? O da casa? Eu disse-te para transferires." "Não havia dinheiro para transferir. A conta está a zeros. Tu deste o nosso dinheiro à Sofia." O silêncio na sala era pesado, esmagador. Ele desviou o olhar. A culpa estava estampada no rosto dele. "Eva, eu posso explicar." "Explicar? Explicar como é que roubaste as nossas poupanças de três anos e as deste à tua amiga?" "Eu não roubei! Eu emprestei!", ele gritou, a sua voz a subir. "O Léo precisava de uma cirurgia de emergência, a Sofia não tinha como pagar! O que é que querias que eu fizesse? Deixasse o miúdo morrer?" Uma cirurgia. Há uma hora era uma febre. As mentiras dele eram tão fáceis, tão rápidas. "Uma cirurgia que custa exatamente 150.000 reais? O valor exato da entrada da nossa casa? Que coincidência, Lucas." "Tu não entendes! És tão egoísta! Só pensas em ti e na porcaria da casa!" "Eu penso na nossa vida! Na vida que tu destruíste hoje!" "Eu vou recuperar o dinheiro! A Sofia vai pagar-me de volta!" Eu ri, um som amargo e oco. "Claro que vai. E quando é que isso vai ser? Daqui a dez anos? Vinte?" Fui até ao quarto e peguei numa mala. Comecei a atirar as minhas roupas para dentro, sem cuidado, sem pensar. O Lucas seguiu-me, o pânico a começar a aparecer nos seus olhos. "O que é que estás a fazer? Eva, para com isso. Vamos conversar." "Não há mais nada para conversar. Acabou, Lucas." Fechei a mala e caminhei em direção à porta. Ele agarrou o meu braço. "Tu não podes ir embora por causa disto. Foi por uma boa causa! Tu não tens coração?" Puxei o meu braço com força. "A pessoa sem coração aqui és tu. Tu olhaste para mim esta manhã, sabendo que ias destruir o meu sonho, e não disseste nada." Abri a porta. "Fica com a tua boa causa. Eu quero o divórcio." Bati a porta atrás de mim, deixando-o no apartamento que já não era nosso. ---

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