Estava grávida de oito meses, mas a minha paz era constantemente perturbada pela presença da amiga de infância do meu marido, Sofia. Miguel, o meu marido, colocava sempre as "emergências" dela acima de tudo, ignorando-me. Quando as dores de parto prematuro começaram, ele ignorou os meus apelos. Escolheu ir ajudar Sofia por uma chave partida na fechadura, um falso alarme. Cheguei ao hospital sozinha, com a alma em pedaços e o coração a gritar por um divórcio. O médico avisou que o stress poderia induzir outro parto prematuro, mas Sofia não parou. Uma semana depois, um telefonema dela, cheio de malícia, provocou as segundas e verdadeiras contrações. Miguel novamente me abandonou, correndo para um suposto incêndio no prédio de Sofia. Dei à luz sozinha, apenas com a minha mãe ao meu lado, a dor maior era a da sua ausência. Quando Miguel finalmente chegou ao hospital, a enfermeira desmascarou a sua mentira. O "incêndio dramático" não passava de uma torrada queimada. Ali, com o nosso filho nos meus braços, a sua completa falta de caráter ficou exposta. Foi o ponto final. Eu não queria mais um homem que escolhia as fantasias de uma amiga em vez da sua família. Decidi que era a altura de levantar-me das cinzas, proteger o meu filho, Tiago, e a mim mesma. O divórcio não seria o fim, mas sim um novo começo, uma catarse.
O cheiro a assado enchia a pequena sala de jantar, mas eu não conseguia comer. A minha sogra, Sónia, empurrou o prato na minha direção. "Come, Clara, tens de comer por dois." A sua voz era falsamente doce, o sorriso não chegava aos olhos. Eu estava grávida de oito meses, e a minha barriga parecia um balão prestes a rebentar, sentia-me desconfortável na cadeira dura. O meu marido, Miguel, estava a olhar para o telemóvel, a sorrir. Eu sabia para quem ele estava a sorrir. "A Sofia mandou uma foto do gato dela," disse ele, mostrando o ecrã. "Ele entalou a cabeça num frasco de maionese." Sónia riu, um som agudo. "Essa Sofia, sempre tão distraída. Ainda bem que te tem a ti, meu filho." Senti uma pontada na parte inferior das costas, uma dor familiar que me tinha vindo a incomodar durante toda a semana. Tentei mudar de posição na cadeira. "Miguel," comecei eu, com a voz baixa. "Não me estou a sentir muito bem." Ele nem sequer levantou a cabeça. "É só azia, Clara. Bebe um pouco de água." Nesse momento, o telemóvel dele tocou. O nome "Sofia" iluminou o ecrã. Ele atendeu instantaneamente. "Sofia? O que se passa? Estás bem?" A voz dele estava cheia de uma preocupação que ele nunca usava comigo. Houve uma pausa enquanto ele ouvia. O seu rosto ficou tenso. "O quê? Estás presa? Como assim, a chave partiu na fechadura?" Ele levantou-se de um salto, a cadeira arrastou-se ruidosamente no chão. "Não te preocupes, eu vou já para aí. Não saias de casa." Ele desligou a chamada e começou a procurar as chaves do carro. Olhei para ele, incrédula. "Vais sair? Agora?" "A Sofia precisa de mim," disse ele, sem me olhar nos olhos. "A chave dela partiu-se na porta, ela não consegue sair nem entrar. Está em pânico." "Mas eu não me sinto bem, Miguel. A dor está a piorar." Ele finalmente olhou para mim, mas com impaciência. "Clara, por amor de Deus, não comeces. A tua mãe está a caminho para te vir buscar, não está? A Sofia está sozinha e assustada. É uma emergência." "Uma chave partida é uma emergência?" A minha voz tremeu. "Eu estou grávida de oito meses e com dores." Sónia interveio, colocando uma mão no braço do filho. "Vai, querido. A Clara está só a ser dramática. As grávidas são assim. A Sofia precisa de um homem para a ajudar." Miguel deu um beijo rápido na testa da mãe e correu para a porta. "Eu volto logo," gritou ele por cima do ombro. E depois, ele desapareceu. O silêncio na sala era pesado. Sónia sentou-se novamente, olhando para mim com desaprovação. "Devias ter mais compreensão," disse ela. "A Sofia não tem ninguém. O Miguel tem um bom coração." Eu não respondi. Apenas coloquei as mãos sobre a minha barriga, onde o nosso filho se mexia inquieto. A dor nas minhas costas intensificou-se. Naquele momento, eu percebi que para o meu marido e a sua família, eu e o meu filho por nascer seríamos sempre menos importantes do que os dramas de uma amiga de infância. A ideia do divórcio, que antes era um pensamento distante e assustador, começou a tomar forma na minha mente.
A porta bateu, e eu fiquei sozinha com a minha sogra e o cheiro a comida fria. A dor nas minhas costas transformou-se numa cãibra forte que se espalhou pela minha barriga. Prendi a respiração. "Vês? Estás bem," disse Sónia, começando a levantar a mesa. "É só o bebé a mexer-se." Tentei levantar-me, mas a dor fez-me sentar de novo com um gemido. "Acho que não é só o bebé," disse eu, com a voz trémula. "Isto é diferente." Ela suspirou, irritada. "Não sejas tão queixinhas, Clara. Eu tive três filhos, sei do que falo." Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e marquei o número do Miguel. Caixa de correio de voz. "Miguel, sou eu. A dor está muito forte. Por favor, volta para casa." Tentei outra vez. Caixa de correio de voz. E outra. E outra. Ele não atendeu. Provavelmente tinha silenciado o telemóvel para dar toda a sua atenção à "emergência" da Sofia. Uma nova contração atingiu-me, mais forte do que a anterior. Dobrei-me sobre a mesa, a respiração ofegante. Sónia olhou para mim, e pela primeira vez, vi um vislumbre de preocupação no seu rosto. "Talvez devesses ligar para a tua mãe," sugeriu ela, mas não se moveu para me ajudar. A minha mãe vivia a uma hora de distância. Ela não chegaria a tempo. Senti uma humidade quente entre as pernas. Olhei para baixo. Uma pequena poça estava a formar-se no chão de madeira. As minhas águas tinham rebentado. "Oh meu Deus," sussurrei. O pânico finalmente apoderou-se de mim. O bebé estava a chegar, com um mês de antecedência, e o meu marido estava a consertar uma fechadura. Sónia ficou pálida. "Eu... eu vou chamar uma ambulância." Ela pegou no telefone, os seus dedos gordos a atrapalharem-se nos botões. Eu marquei o número de Miguel mais uma vez, uma última tentativa desesperada. Desta vez, ele atendeu. "Clara, o que foi? Estou ocupado!" A voz dele era áspera, irritada. Ao fundo, ouvi a risada da Sofia. "Miguel," consegui dizer entre as dores. "As minhas águas rebentaram. Eu estou a entrar em trabalho de parto." Houve um silêncio do outro lado da linha. Um silêncio que durou uma eternidade. "Não pode ser," disse ele finalmente, a sua voz desprovida de qualquer emoção. "O médico disse que ainda faltava um mês." "Eu sei o que sinto!" gritei. "Preciso de ti! Vem para casa!" "Ok, ok, calma," disse ele. "A ambulância já está a caminho?" "A Sónia está a ligar agora," ofeguei, enquanto outra contração me percorria o corpo. "Certo. Ouve, eu não posso sair daqui já. O serralheiro ainda não chegou, e a Sofia está em pânico. Encontramo-nos no hospital, está bem?" E antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse gritar ou chorar, ele desligou. O telemóvel caiu da minha mão. O som do plástico a bater no chão ecoou na sala silenciosa. Ele não vinha. Ele escolheu ficar com ela.