Não Voltes a Casa, Ricardo
Introdução

Durante cinco anos, dediquei a minha vida a Ricardo, o artista dos meus sonhos. Ele vivia da minha generosidade, eu acreditava no seu 'talento' e nas suas promessas de futuro. Até que, numa madrugada, o meu mundo ruiu. O meu pai sofreu um ataque cardíaco fatal em Coimbra. Desesperada, liguei a Ricardo para me levar ao hospital, pois o meu carro estava na oficina. Mas, do outro lado da linha, só ouvi música, risos e a voz da sua 'musa', Clara. Ele recusou-se, alegando que a sua carreira era 'demasiado importante', e que eu era 'dramática' por querer estar ao lado do meu pai. Mandou-me apanhar um Uber às duas da manhã. Naquela noite, a caminho do hospital, chocada, descobri a sua verdadeira face. Ao regressar a casa, encontrei um recibo: um colar caríssimo comprado para Clara, na mesma hora em que o meu pai lutava pela vida numa unidade de cuidados intensivos. Cinco anos de sacrifício, ilusões e humilhações transformaram-se num nojo profundo. Como pude ser tão cega? Ele amava apenas o meu dinheiro, a minha estabilidade, nunca a mim. A calma fria que me invadiu foi assustadora. Mandei-lhe uma mensagem: 'Não voltes a casa.' E quando ele, furioso, tentou manipular-me e destruir as minhas coisas, fui buscar o meu contrato de arrendamento e chamei a polícia. Era hora de expulsar o parasita da minha vida e da minha casa.

Capítulo 1

O telefone tocou no meio da noite, um som agudo que cortou o silêncio do meu apartamento. Era a minha mãe. A voz dela estava embargada, quebrada pelo pânico. "Sofia, é o teu pai." O meu coração parou por um segundo. "Ele teve um ataque cardíaco. A ambulância está a levá-lo para o hospital de Coimbra. É grave." Coimbra ficava a duas horas de Lisboa. O ar saiu dos meus pulmões. "Mãe, acalma-te. Eu estou a ir para aí." Desliguei e disquei imediatamente o número de Ricardo. O meu namorado. O homem com quem eu vivia há cinco anos. Caixa de correio. Liguei de novo. E de novo. E de novo. Na quinta tentativa, ele atendeu. A voz dele estava distante, abafada por música alta e conversas. "Sofia? O que foi? Estou ocupado." "Ricardo, o meu pai. Ele teve um ataque cardíaco. Está a caminho de Coimbra. Preciso que me leves, agora. O meu carro está na oficina." Houve uma pausa. Ouvi uma voz feminina a rir perto dele. Clara. A "musa" dele. "Agora? Amor, é impossível. Estou na inauguração da galeria do Mário. Isto é super importante para a minha carreira. Estão cá todos." A voz dele era leve, irritada com a minha interrupção. "Ricardo, não estás a perceber. É uma emergência. O meu pai pode morrer." "Não sejas dramática, Sofia. Os hospitais sabem o que fazem. Pega um Uber ou um autocarro. A gente fala amanhã." "Um autocarro? Ricardo, são duas da manhã!" "Então um Uber. Tu tens dinheiro para isso. Olha, tenho de ir. O Mário está a chamar-me. Beijo." Ele desligou. Fiquei a olhar para o telemóvel, para o ecrã preto. O som da galeria, o riso de Clara, a frieza na voz dele. Tudo ecoava na minha cabeça. Cinco anos. Cinco anos a apoiar a "arte" dele, a pagar as contas, a acreditar nas promessas. E na noite em que eu mais precisei dele, a carreira dele e a companhia de outra mulher foram mais importantes. Senti uma calma estranha apossar-se de mim. Uma clareza fria. Abri a aplicação da Uber. A estimativa da viagem era de duzentos e cinquenta euros. Confirmei sem hesitar. Enquanto esperava, enviei-lhe uma mensagem. "Não te preocupes em voltar para casa. Quando eu voltar, não quero encontrar-te aqui." Não houve resposta. O nosso relacionamento tinha acabado. Eu só não sabia disso até àquele momento.

Capítulo 2

A viagem de carro foi um borrão de luzes de autoestrada e ansiedade. O motorista não disse uma palavra, e eu agradeci por isso. Cheguei ao hospital de Coimbra com o sol a querer nascer. O cheiro a desinfetante e a doença pairava no ar. Encontrei a minha mãe na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. Ela parecia ter envelhecido dez anos em poucas horas. "Mãe." Ela abraçou-me com força, a chorar silenciosamente no meu ombro. "Ele está lá dentro. Os médicos dizem que as próximas horas são críticas. Foi muito grave, Sofia." Sentei-me ao lado dela, peguei na sua mão. Ficámos ali, em silêncio, a olhar para a porta fechada que nos separava do meu pai. Tirei o telemóvel do bolso. Uma chamada perdida de Ricardo. E uma mensagem. "Calma, amor. Exagerada. Liga-me quando chegares." Exagerada. A palavra ficou a flutuar na minha mente. O meu pai estava a lutar pela vida, e eu era exagerada. Apaguei a mensagem. Apaguei o registo da chamada. Senti um nojo profundo a subir-me pela garganta. Um médico saiu da UCI. Era jovem, com ar cansado. "Família de António Mendes?" Levantámo-nos as duas de um salto. "Somos nós." "Conseguimos estabilizá-lo, por agora. O enfarte foi extenso. Ele está sedado e vai permanecer em observação intensiva. As próximas 48 horas são cruciais. Podem vê-lo, uma de cada vez, por cinco minutos." A minha mãe olhou para mim. "Vai tu primeiro, filha." Entrei na sala. O som dos monitores era constante, um bip rítmico que media a vida. O meu pai estava deitado na cama, pálido, com tubos a sair dele. Parecia tão frágil. Peguei na mão dele. Estava fria. "Pai, estou aqui. Luta, por favor." As lágrimas que eu tinha segurado durante horas finalmente caíram.

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