O telefone tocou e a voz do meu marido, Pedro, era urgente: "A Sofia sofreu um acidente de carro! Vai para o hospital, leva o cartão do banco, não te preocupes com o dinheiro." Larguei a espátula, o coração aos saltos, enquanto ele desligava apressadamente. A minha mãe estava a dias de uma cirurgia cardíaca importante e eu cozinhava para ela, mas a urgência na voz de Pedro, e o facto de a Sofia ser filha do chefe dele, fez-me correr. No hospital, encontrei a Sofia com um arranhão e um susto, nada grave. Respirei de alívio, até que o meu telemóvel tocou: era a enfermeira da minha mãe. "A sua mãe está com uma forte dor no peito, o ritmo cardíaco está instável. O médico precisa de falar consigo com urgência." O meu sangue gelou. Mas, ao tentar sair, Sr. Almeida e Pedro puseram-se à minha frente. "Não sejas egoísta, Ana. A Sofia precisa de ti. Pensa na minha carreira, na minha promoção!" Pedro apertou o meu braço, a sua voz baixa e carregada de pressão. A vida da minha mãe, uma emergência médica, era um mero "capricho" na mira da sua promoção. Como é que a minha mãe, à beira da morte, valia menos do que a promoção do meu marido? Como pude estar cega por tanto tempo? Decidir naquele instante não foi difícil. A minha mãe precisava de mim. Mas ele, em vez de se preocupar, envia uma mensagem fria: "Acabou. Quando eu chegar a casa, quero as tuas coisas fora de lá." Fui varrida da minha própria casa, com as minhas malas atiradas à porta e uma moldura partida. O que eu fiz para merecer isto? O que faria agora? Como se sobrevive a uma traição tão cruel do homem que jurou amar-te, quando tudo o que fizeste foi tentar salvar a tua mãe?
Eu estava a cozinhar quando o meu marido, Pedro, me ligou. "Ana, despacha-te e vai para o hospital. A Sofia sofreu um acidente de carro." A espátula caiu da minha mão, batendo com força no chão da cozinha. O meu coração parou por um instante. "O quê? Como é que ela está? É grave?" A minha voz tremia. "Não sei os detalhes, o trânsito está um caos. O pai dela, o meu chefe, o Sr. Almeida, está desesperado. Eu estou a caminho para o ajudar. Tu conheces bem a Sofia, vai lá e acalma a situação. Leva o cartão do banco, não te preocupes com o dinheiro." Antes que eu pudesse responder, ele desligou. Olhei para a sopa de galinha a ferver no fogão, que eu tinha preparado durante horas para a minha mãe. Ela tinha uma cirurgia cardíaca importante no dia seguinte. Hesitei, mas a urgência na voz de Pedro convenceu-me. A minha mãe estava estável por agora, mas a Sofia, a minha melhor amiga e filha do chefe do meu marido, precisava de mim. Peguei na minha mala e corri para o hospital. Quando cheguei, o corredor da urgência era um pandemónio. Encontrei a Sofia sentada num banco, com um arranhão no braço e a chorar nos braços da sua mãe. O Sr. e a Sra. Almeida olharam para mim com alívio. "Ana, ainda bem que vieste," disse a Sra. Almeida. "A Sofia não para de chorar, está muito assustada." Fui até ela. "Sofia, o que aconteceu? Estás bem?" Ela levantou a cabeça, os olhos vermelhos. "Ana, o meu carro… ficou completamente destruído. Foi horrível." Examinei-a. Para além do arranhão e do choque evidente, ela parecia fisicamente bem. O médico confirmou que eram apenas ferimentos leves e um grande susto. Respirei fundo, aliviada. Nesse momento, o meu telemóvel tocou. Era o hospital onde a minha mãe estava internada. Atendi rapidamente. "Senhora Ana? Sou a enfermeira do quarto da sua mãe. Ela está a sentir uma forte dor no peito, o ritmo cardíaco está instável. O médico precisa de falar consigo com urgência. Pode vir agora?" O meu sangue gelou. "Estou a ir, estou a caminho!" Virei-me para os Almeida, a minha voz era um fio. "Tenho de ir. A minha mãe não está bem." O Sr. Almeida franziu a testa. "Mas e a Sofia? Ela precisa de ti." "É uma emergência. A minha mãe…" "Toda a gente tem emergências," interrompeu ele, com um tom frio. "O Pedro não te disse para ficares aqui? A Sofia está traumatizada. A tua presença é importante para ela." Olhei para ele, incrédula. Olhei para a Sofia, que me olhava com olhos suplicantes. E olhei para o Pedro, que tinha acabado de chegar e ouviu a última parte da conversa. Ele aproximou-se e agarrou-me no braço. "Ana, não sejas egoísta. O Sr. Almeida tem razão. A tua mãe tem enfermeiras, a Sofia só te tem a ti. Fica." A sua voz era baixa, mas cheia de uma pressão que eu conhecia demasiado bem.
"Egoísta?" A palavra ecoou na minha cabeça. Olhei para o aperto firme da mão de Pedro no meu braço. Depois olhei para o Sr. Almeida, cuja expressão dizia que a minha obediência era esperada, não pedida. "A minha mãe vai fazer uma cirurgia ao coração amanhã. Ela está a ter uma crise. Eu preciso de ir." A minha voz saiu mais firme do que eu esperava. A Sra. Almeida suspirou, um som teatral. "Oh, querida, que pena. Mas olha para a nossa Sofia. O choque pode deixar marcas para a vida. Um pouco de companhia agora faz toda a diferença." Sofia fungou, encostando-se mais à mãe. "Ana, por favor, não vás. Estou com tanto medo." O meu telemóvel vibrou novamente na minha mão. A mesma enfermeira. O meu pânico aumentou. Pedro apertou mais o meu braço. "Ana, para com isto. Pensa na minha carreira. O Sr. Almeida está a oferecer-me uma promoção. Não estragues tudo por um capricho." Um capricho. A vida da minha mãe era um capricho. Puxei o meu braço com força, libertando-me. "A tua promoção vale mais que a minha mãe?" Os olhos de Pedro escureceram. "Não digas disparates. A tua mãe vai ficar bem. Agora sê razoável." "Razoável?" Ri, um som seco e sem alegria. "Eu estou a ser muito razoável. Estou a ir ver a minha mãe." Virei-lhes as costas e comecei a andar, quase a correr, pelo corredor. Ouvi o Sr. Almeida dizer com desdém, "Pedro, parece que não consegues controlar a tua mulher." E a resposta de Pedro, fria e cortante, seguiu-me. "Não se preocupe, senhor. Vou resolver isto." Não olhei para trás. Continuei a correr, o som dos meus passos a ecoar a batida descontrolada do meu coração.