A Escolha de Isabel
Introdução

Quando o médico disse que o meu filho, Leo, tinha morrido, o meu mundo desabou. Eu estava no hospital, o chão frio sob os meus pés, enquanto as notícias da TV falavam de um colapso na mina. Forçando-me a levantar, fui procurar a minha esposa, Isabel. Encontrei-a no quarto do irmão, Miguel, ferido mas vivo. A voz dela era de alívio, a do meu sogro, de orgulho: "Fizeste bem, Isabel. A família vem sempre em primeiro lugar." Quando entrei, os olhos dela não tinham tristeza, apenas irritação. "O que estás a fazer aqui, Afonso?", perguntou. "O nosso filho está morto, Isabel," respondi, a minha voz estranha. A resposta dela foi um murro no estômago: "Eu sei. Foi um acidente terrível. Mas agora, o Miguel precisa de mim!" Um acidente terrível. Era assim que ela descrevia a morte do nosso único filho, por quem ela não esteve lá. "Onde estavas tu, Isabel?" "Ele ligou-te. Estava com febre alta." "O Miguel ligou-me primeiro! Ele estava preso na mina! Tive de o ir ajudar!" Ela escolheu o irmão, ferido com um tornozelo torcido, em vez do nosso filho de seis anos que pedia ajuda. O Leo não ia querer isto? O Leo não estava morto se ela não o tivesse abandonado. Ela atirou as coisas dele para o lixo, cuspiu que eu era fraco, que a culpa não era dela. O tapa dela queimava na minha bochecha. Como ela se atreveu a dizer isso? Decidi. Não tinha mais nada a perder. O divórcio estava à mesa e, desta vez, eu não desistiria até que ela perdesse tudo.

Capítulo 1

Quando o médico me disse que o meu filho, Leo, tinha morrido, o mundo parou. Eu estava sentado na sala de espera do hospital, o chão frio debaixo dos meus pés. As notícias na televisão do canto falavam de um colapso numa mina local, a Mina de Ouro Preto. Diziam: "Tragédia na Mina de Ouro Preto: Desabamento Deixa 3 Mortos e Vários Feridos." O meu corpo sentia-se pesado, mas forcei-me a levantar. Precisava de encontrar a minha esposa, Isabel. Ela estava no quarto ao fundo do corredor, ao lado da cama do seu irmão, Miguel. Ele estava ferido, mas vivo. Naquele momento, eu soube. O nosso casamento tinha acabado. Tentei ligar para a Isabel, mas o telemóvel dela estava desligado. Caminhei até ao quarto e parei à porta. A voz dela estava abafada, mas eu conseguia ouvi-la. "Oh, Miguel, graças a Deus estás bem. Eu estava tão preocupada. Quando soube do colapso, o meu coração parou." A voz do meu sogro, o Sr. Almeida, soou a seguir, cheia de alívio. "Fizeste bem, Isabel. A família vem sempre em primeiro lugar. O teu irmão precisava de ti." Eu entrei no quarto. Os olhos da Isabel encontraram os meus. Não havia tristeza neles, apenas irritação. "O que estás a fazer aqui, Afonso? Não vês que estamos a passar por um momento difícil?" "O nosso filho está morto, Isabel," disse eu, a minha voz soou estranha aos meus próprios ouvidos. "Eu sei," ela respondeu, virando-se de novo para o irmão. "Foi um acidente terrível. Mas agora, o Miguel precisa de mim. Ele está ferido." Um acidente terrível. Era assim que ela descrevia a morte do nosso único filho. "Vamos divorciar-nos," eu disse, as palavras a saírem antes que eu pudesse pará-las. O silêncio encheu o quarto por um momento, depois a raiva da Isabel explodiu. "Divórcio? Estás a brincar comigo? O meu irmão quase morreu, e tu estás a falar em divórcio? Não tens coração? O Leo não ia querer isto!" O Leo não ia querer isto? O Leo estava morto porque ela não estava lá. "Onde estavas tu, Isabel?" perguntei, a minha voz calma. "Ele ligou-te. Ele estava com febre alta. Eu estava preso no trabalho, pedi-te para ires para casa." "O Miguel ligou-me primeiro!" ela gritou. "Ele estava preso na mina! Eu tive de o ir ajudar! O que querias que eu fizesse? Deixasse o meu próprio irmão para morrer?" "Ele não estava a morrer. Ele tinha um tornozelo torcido. O nosso filho, Isabel. O nosso filho precisava de ti." "Pára de ser tão dramático, Afonso! Já me sinto suficientemente mal. Não preciso que me culpes também!" Com isso, ela virou-me as costas. O seu pai pôs uma mão no meu ombro, mas não era um gesto de conforto. Era um aviso. "A minha filha fez o que tinha de fazer," disse ele, a sua voz baixa e ameaçadora. "É melhor lembrares-te do teu lugar." Eu saí do quarto. O meu telemóvel vibrou no meu bolso. Olhei para o ecrã. Uma foto do Leo, a sorrir para mim. O ecrã ficou desfocado. A Isabel tinha razão sobre uma coisa. Se o Leo ainda estivesse vivo, eu nunca pensaria em divórcio. Eu faria qualquer coisa para manter a nossa família unida para ele. Mas agora, ele tinha-se ido. A única coisa que nos mantinha juntos tinha desaparecido. E a escolha dela não foi um acidente. A mina onde o Miguel trabalhava ficava na direção oposta da nossa casa. Ela conduziu para longe do nosso filho doente. Ela pensou nele quando ignorou as minhas 15 chamadas? Quando o nosso filho de seis anos lhe ligou, a chorar, a dizer que se sentia mal? Provavelmente não. Ela não se importava. Se se importasse, não teria escolhido o irmão em vez do seu próprio filho. O nosso filho. O menino que esperámos durante cinco anos. Lembro-me da febre, do pânico na minha voz quando finalmente consegui sair do trabalho. Lembro-me de o encontrar inconsciente. A corrida para o hospital. A espera. A notícia. Enquanto eu estava perdido nos meus pensamentos, o telemóvel do meu sogro tocou. Era a minha sogra. Ele atendeu. "Sim, querida... Sim, o Miguel está bem. A Isabel está com ele... O Afonso? Ele está a ser um idiota. A falar em divórcio, consegues acreditar? Logo agora! Ele não tem respeito nenhum. Mas não te preocupes, eu vou tratar disto." Ele desligou e olhou para mim, os seus olhos frios como gelo. "Vais arrepender-te disto, rapaz."

Capítulo 2

Saí do hospital e o ar frio da noite atingiu-me. O cheiro a chuva e a terra molhada enchia o ar. A minha casa já não parecia um lar. Estava vazia, silenciosa. O quarto do Leo estava exatamente como ele o tinha deixado. Os seus carrinhos de brincar estavam alinhados no chão, o seu pijama estava dobrado na cama. Sentei-me no chão, o coração a doer. Peguei num dos seus desenhos. Um boneco de palitos a segurar a mão de outros dois. "Mamã, Papá, Leo." Uma lágrima caiu no papel, manchando a tinta. A porta abriu-se de repente. A Isabel entrou, o rosto uma máscara de fúria. "O que pensas que estás a fazer?" ela sibilou. "Estou no quarto do nosso filho," respondi calmamente. "Nosso filho? Tu abandonaste-o! Vens aqui para te fazeres de vítima?" "Eu não o abandonei, Isabel. Tu sim." Ela riu, um som feio. "Eu salvei o meu irmão! Isso é algo que tu nunca entenderias. Tu não tens família." Era verdade. Os meus pais morreram quando eu era jovem. Eu não tinha ninguém. A família dela era tudo o que eu conhecia. "Eles nunca gostaram de mim, pois não?" perguntei, mais para mim mesmo do que para ela. "Claro que não," ela cuspiu. "És fraco. Sempre foste. O meu pai tinha razão sobre ti." Ela caminhou até ao armário do Leo e começou a tirar as roupas dele, a atirá-las para um saco do lixo. "O que estás a fazer?" gritei, levantando-me. "A limpar. A livrar-me destas coisas. Não podemos viver no passado." "Pára!" Agarrei-lhe no braço. "Não tens o direito." Ela arrancou o braço do meu alcance. "Eu tenho todo o direito! Eu sou a mãe dele!" "Uma mãe que o deixou morrer!" O estalo do seu tapa ecoou no quarto silencioso. A minha bochecha ardeu. "Nunca mais digas isso," ela ameaçou, os olhos a brilhar. "A culpa não foi minha. Foi um acidente." "Continua a dizer isso a ti mesma," eu disse, a minha voz a tremer de raiva. "Talvez um dia acredites." Virei-me e saí do quarto. Saí de casa. Eu não podia ficar ali mais um segundo. Enquanto eu caminhava pela rua escura, o meu telemóvel tocou. Era o meu advogado, o Sr. Costa. "Afonso? Tenho os papéis do divórcio prontos. Onde queres que nos encontremos?" "Encontra-me no meu escritório," respondi. "Vou para lá agora." Havia trabalho a fazer.

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