O cheiro a queimado ainda pairava no ar quando abri os olhos, o corpo a doer por todo o lado. Vi o meu marido, Pedro, ao meu lado, a sorrir para o telemóvel. Não era um sorriso de alívio por me ver acordada. Era de divertimento. Perguntei o que tinha acontecido ao nosso restaurante, o sonho de uma vida. Ele, impaciente, disse que tinha pegado fogo. Lembrei-me de o ter empurrado para a saída antes do colapso. Então, uma videochamada: a minha cunhada Sofia, deitada numa cama, com o meu pai a cuidar dela. Pedro, carinhoso, disse: "És a minha irmã. Claro que te ia salvar primeiro." Salvar primeiro. Eu, que o havia salvado, fui abandonada à morte. Pedi o divórcio, e ele respondeu: "Não penses que vais ficar com um cêntimo." Dois dias depois, saí do hospital e o meu pai, cego pela lealdade, defendeu-o. Cheguei ao meu apartamento: vazio. Ele tinha levado tudo, até as joias da minha mãe, dadas à irmã. O meu próprio pai defendeu-o, dizendo que ele "estava sob pressão". Como podia o homem que eu amava ser tão cruel? Como o meu pai podia defender o roubo das memórias da minha mãe? A dor da traição era insuportável. Até que o Tiago, o chef, me ligou. "Eu vi o Pedro mexer nas válvulas do gás antes do incêndio." O meu coração parou. Não foi um acidente. Foi deliberado. Ele tentou matar-me por dinheiro do seguro. Casei-me com um monstro. Mas o jogo virou. Eu ia virar-me e certificar-me de que ele pagava por tudo o que fez.
O cheiro a queimado e a fumo ainda pairava no ar quando abri os olhos. A sirene de uma ambulância soava ao longe, um som agudo e persistente que cortava o silêncio da noite. O meu corpo doía por todo o lado, especialmente o meu braço esquerdo, que estava enfaixado e latejava com uma dor surda. Virei a cabeça e vi o meu marido, Pedro, sentado ao meu lado. Ele segurava o seu telemóvel, o rosto iluminado pelo ecrã, e sorria. Não era um sorriso de alívio por me ver acordada, era um sorriso divertido, como se estivesse a ver algo engraçado. "Pedro?" A minha voz saiu rouca, arranhada. Ele levantou a cabeça, o sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de impaciência. "Finalmente acordaste. Pensei que ias dormir para sempre." "O que aconteceu?" perguntei, tentando sentar-me, mas uma dor aguda no meu peito forçou-me a deitar-me novamente. "O que achas que aconteceu? O restaurante pegou fogo. Tivemos sorte em sair de lá." O restaurante. O nosso restaurante. O sonho pelo qual trabalhámos durante cinco anos. As memórias voltaram de repente, o cheiro a gás, o calor intenso, os gritos. Lembro-me de ter empurrado Pedro para a saída de emergência antes de o teto desabar. "O meu pai... onde está o meu pai?" perguntei, o pânico a subir pela minha garganta. "O teu pai está bem. Ele está a tratar da Sofia." A voz dele era fria, desprovida de qualquer emoção. Sofia. A sua irmã mais nova. Uma chamada de vídeo interrompeu a nossa conversa. Pedro atendeu imediatamente, o sorriso a voltar ao seu rosto. "Olá, maninha! Estás a sentir-te melhor?" No ecrã, vi o rosto pálido de Sofia. Ela estava deitada numa cama de hospital, com o meu pai, Rui, a ajustar-lhe o soro. "Estou bem, Pedro. Só inalei um pouco de fumo. O pai Rui tem estado a cuidar de mim. Obrigada por me tirares de lá tão depressa. Se não fosses tu, eu..." A voz dela tremeu. "Não digas isso," disse Pedro, a sua voz suave e carinhosa. "És a minha irmã. Claro que te ia salvar primeiro." Salvar primeiro. As palavras ecoaram na minha cabeça. Eu era a sua esposa. Eu estava mais perto da explosão. Eu empurrei-o para a segurança. E ele deixou-me para trás para salvar a irmã dele. "Pedro," chamei, a minha voz agora firme. "Quero o divórcio."
O silêncio no quarto do hospital tornou-se pesado. Pedro olhou para mim, a sua expressão a passar de surpresa para raiva. "Divórcio? Estás a falar a sério? Depois de tudo o que passámos?" "Sim," respondi, olhando diretamente para os seus olhos. "Estou a falar muito a sério." Ele desligou a chamada com a irmã e levantou-se, caminhando de um lado para o outro no pequeno quarto. "Não podes estar a falar a sério, Ana. O nosso restaurante ardeu, perdemos tudo, e a tua primeira reação é pedir o divórcio? Onde está a tua lealdade?" "A minha lealdade?" ri sem humor. "Onde estava a tua quando me deixaste para trás no meio do fogo?" "Eu não te deixei para trás!" ele gritou, a sua voz a ecoar no quarto silencioso. "A Sofia estava em pânico, ela precisava de mim! Tu és forte, eu sabia que te ias safar!" Forte. Eu estava sempre a ser a forte. A forte que trabalhava 16 horas por dia no restaurante. A forte que investiu todas as suas poupanças no negócio. A forte que o apoiou quando ele quis desistir. As minhas mãos tremiam. Tentei controlar a minha respiração. "Eu podia ter morrido, Pedro." "Mas não morreste!" ele retorquiu, como se isso resolvesse tudo. "Estás aqui, não estás? Um pouco queimada, mas viva. A Sofia é frágil, ela tem asma. O fumo podia tê-la matado." Então a vida dela valia mais do que a minha. Era essa a equação. "Quero o divórcio," repeti, a minha voz agora um sussurro gelado. "Não há mais nada para discutir." Ele olhou para mim, os seus olhos cheios de desprezo. "Está bem. Queres o divórcio? Vais tê-lo. Mas não penses que vais ficar com um cêntimo. O restaurante era nosso, e agora não há nada. Estás por tua conta." Ele virou-se e saiu do quarto, batendo a porta com força. Fiquei sozinha com o som do meu próprio coração a bater, um ritmo constante e doloroso no silêncio. Olhei para o meu braço enfaixado. A dor física não era nada comparada com o vazio que se instalara no meu peito. O nosso sonho tinha virado cinzas. E o meu casamento também.