Adeus, Meu Pedro
Introdução

Meu carro engasgou na autoestrada, o motor morreu, e uma fumaça branca subiu do capô. Lá fora, um congestionamento infernal. Dentro, minha bolsa de água tinha acabado de romper. Eu estava a caminho do hospital, sentindo as primeiras contrações fortes. Liguei para meu marido, Pedro, mas ele não atendeu. Tentei de novo, dez, vinte vezes. Todas as chamadas foram para o correio de voz. Foi então que liguei para a minha sogra, Laura, a voz dela cheia de apreensão. "Catarina? O que se passa? Já estás no hospital?" Eu mal conseguia respirar, as dores aumentando. "Mãe, o carro avariou na A5, a bolsa rompeu. E o Pedro não atende!" A voz dela mudou, de preocupação para uma tensão que eu não entendi. "Não consigo falar com o Pedro. A Sofia ligou-me há pouco, em pânico." Sofia, a prima dele. "A prancha dela partiu-se a surfar, bateu com a cabeça numa rocha. O Pedro foi ter com ela, era o mais próximo. Ele está com ela agora no hospital." Guincho, na direção oposta ao hospital para onde eu ia parir o filho dele! Eu estava em trabalho de parto, sozinha, no meio de uma autoestrada, e meu marido estava com a prima porque ela teve uma "pequena concussão". Enquanto eu sentia as dores lancinantes, ouço a frase de Laura: "Sê compreensiva com o Pedro. A Sofia não tem mais ninguém. Tu sabes como a vida dela tem sido difícil." Compreensiva? E a minha vida? Eu estava a carregar o neto dela, o filho dele! Quando a ambulância finalmente chegou, recebi a mensagem dele: "O meu telemóvel morreu. Estou com a Sofia no hospital. Não te preocupes, fico aqui com ela. A minha mãe já chamou uma ambulância para ti. Vemo-nos mais tarde. Força." "Vemo-nos mais tarde." Ele não perguntou como eu estava. Não mencionou o nosso filho. Naquele momento, as lágrimas que eu segurava finalmente caíram. Um vazio gelado tomou conta de mim. Aquele não era o homem com quem me tinha casado. Por que ele fez isso? Naquele dia, sozinha num hospital onde o Pedro não queria estar, onde nosso filho nasceu prematuro e em estado crítico, eu vi a verdadeira face do meu marido. Eu vi o Pedro escolher a ela. As palavras "divórcio" não eram mais uma ameaça zangada. Eram a única forma de sobreviver.

Capítulo 1

O meu carro parou de repente na autoestrada. Fumo branco saía do capô. Eu estava a caminho do hospital, a minha bolsa de água tinha acabado de romper. Liguei para o meu marido, Pedro, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Liguei para a minha sogra, Laura, e ela atendeu rapidamente, a sua voz cheia de preocupação. "Catarina? O que se passa, querida? Já estás no hospital?" "Mãe, o carro avariou na A5, a caminho de Cascais. A bolsa rompeu. Não consigo contactar o Pedro." A voz dela ficou tensa. "Não te preocupes, vou já para aí. Vou tentar ligar ao Pedro. Mantém a calma, respira fundo." Desliguei e tentei ligar ao Pedro mais dez vezes. Todas as chamadas foram para o correio de voz. O pânico começou a instalar-se. As contrações estavam a ficar mais fortes. Olhei para o trânsito que passava. Ninguém parava. Eu estava sozinha. Finalmente, a minha sogra ligou de volta. "Catarina, não consigo falar com o Pedro. O telemóvel dele deve estar sem bateria. A Sofia ligou-me há pouco, em pânico." Sofia. A prima do Pedro. A sua melhor amiga. "Ela estava a fazer surf na Praia do Guincho e a prancha partiu-se. Bateu com a cabeça numa rocha. O Pedro foi para lá, ele era o mais próximo." A minha respiração ficou presa na garganta. Guincho ficava na direção oposta. "Ele está com ela agora no hospital. Parece que ela engoliu muita água e está com uma pequena concussão. Não é nada de grave, mas ela estava muito assustada." Uma pequena concussão. Eu estava a entrar em trabalho de parto, sozinha, no meio de uma autoestrada. "Mãe, eu preciso dele aqui." A minha voz tremeu. "Eu sei, querida, eu sei. Já chamei uma ambulância para ti. Eles estão a caminho. Eu encontro-te no hospital." Laura parecia genuinamente preocupada comigo, mas as suas palavras seguintes fizeram o meu mundo desabar. "Sê compreensiva com o Pedro. A Sofia não tem mais ninguém. Tu sabes como a vida dela tem sido difícil desde que os pais faleceram. Ela só tem a nós." Compreensiva? A vida dela era difícil? E a minha? Eu estava a carregar o neto dela, o filho dele. A ambulância chegou. Os paramédicos foram rápidos e profissionais. No caminho para o hospital, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem do Pedro. "Desculpa, o meu telemóvel morreu. Estou com a Sofia no hospital. Ela magoou-se a fazer surf. Não te preocupes, fico aqui com ela até ela ter alta. A minha mãe já me disse que chamou uma ambulância para ti. Vemo-nos mais tarde. Força." "Vemo-nos mais tarde." Ele nem sequer perguntou como eu estava. Ele nem sequer mencionou o nosso filho. As lágrimas que eu tinha estado a segurar finalmente caíram.

Capítulo 2

No hospital, as dores eram insuportáveis. A Laura chegou, o seu rosto pálido de preocupação. Ela segurou a minha mão com força. "Ele vai nascer saudável, vais ver. És forte, Catarina." As suas palavras eram amáveis, mas a minha mente estava noutro lugar. Estava no hospital onde o Pedro estava com a Sofia. As horas passaram como uma tortura. Cada contração era um lembrete da ausência dele. As enfermeiras perguntavam pelo pai. "Ele está a caminho," mentia a Laura por mim. Eu já não tinha forças para falar. Finalmente, levaram-me para a sala de partos. O médico olhou para mim com simpatia. "Vamos a isso, Catarina. O seu bebé está quase a chegar." Eu só conseguia pensar no Pedro. Será que ele pensou em mim por um segundo? Será que ele se importava que o seu filho estivesse a nascer? A dor era física, mas a dor no meu peito era pior. Uma dor fria e vazia. De repente, o monitor cardíaco do bebé começou a apitar de forma alarmante. O rosto do médico ficou sério. "O ritmo cardíaco está a baixar. Precisamos de o tirar agora." Pânico encheu a sala. "Cesariana de emergência. Agora!" A última coisa que senti antes de a anestesia me apagar foi a mão da Laura a apertar a minha com força e o som assustado do seu choro.

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