O dia do meu casamento com Lucas foi também o funeral do meu pai. Num vestido de noiva branco, eu vestia luto por dentro, casando-me com o filho do nosso maior rival para salvar a empresa da minha família. Mas não era um casamento, era uma transação. Com a morte do meu pai, tornei-me a incubadora trocada pelo império Almeida. A minha sogra, Dona Helena, tratava-me com um desprezo gélido, e Lucas, o meu marido, era uma sombra alheia. Fui vigiada 24 horas por dia, a minha gravidez controlada, a minha própria mãe impedida de me ver. O meu corpo e a minha vontade já não me pertenciam, apenas o bebé dentro de mim importava para a 'herdeira'. Quando a pré-eclâmpsia me levou ao limite, à beira da morte, ouvi o médico dizer: "Ou ela ou o bebé." Como é que uma vida pode ser reduzida a um contrato e uma moeda de troca? Como posso amar um filho que nasceu da minha humilhação e sofrimento? Como se reerguer quando se sente apenas um produto? Mas quando o Lucas, com quem nunca tive uma conversa sincera, me olhou nos olhos e disse: "Tu vales tudo", percebi que talvez, apenas talvez, um novo começo fosse possível fora das cinzas do passado.
O dia do meu casamento com o Lucas foi também o dia do funeral do meu pai. A chuva caía sem parar, pesada e fria, como se o céu estivesse a chorar comigo. Eu usava um vestido de noiva branco, mas por baixo, vestia luto preto. A minha mãe, Sofia, segurava a minha mão com força, os seus dedos estavam gelados. "Lia, tens a certeza disto? Não precisas de fazer isto por mim." Olhei para ela, para o seu rosto pálido e os seus olhos inchados de tanto chorar. "Mãe, é a única maneira. A empresa do pai não pode falir. Não podemos perder tudo." Ela começou a chorar de novo, em silêncio. O Lucas estava à minha espera no altar, com um sorriso que não chegava aos olhos. Ao lado dele, a sua mãe, a Dona Helena, olhava para mim com um desprezo mal disfarçado. Ela nunca gostou de mim, achava que a minha família estava acabada e que eu só queria o dinheiro deles. Mal sabia ela que era exatamente o contrário. A nossa empresa familiar, fundada pelo meu avô, estava à beira da falência após a morte súbita do meu pai. A família do Lucas, os Almeidas, eram os nossos maiores rivais nos negócios. Eles ofereceram-se para nos salvar, mas com uma condição. Eu tinha de me casar com o Lucas, o seu único filho. Foi a Dona Helena que fez a proposta, com uma voz fria e calculista, no mesmo dia em que encontrámos o corpo do meu pai. "É uma troca justa. A vossa empresa pela tua mão. Salvo a tua herança, e tu dás-me um neto." Por isso, aqui estava eu, a trocar a minha vida pela sobrevivência da minha família. O padre falou, mas eu não ouvi uma única palavra. A minha mente estava no cemitério, onde o caixão do meu pai estava a ser baixado à terra. Quando chegou a altura de dizer "Sim", a minha voz falhou. O Lucas apertou a minha mão, um aviso. "Sim," sussurrei. Tornou-se oficial. Eu era agora Lia Almeida. Não houve festa, nem lua de mel. Fomos diretamente do cartório para a mansão dos Almeida. A casa era enorme, fria e silenciosa, como um museu. A Dona Helena esperava por nós na sala de estar. "Bem-vinda à tua nova casa, Lia. O teu quarto é no final do corredor, à esquerda. O quarto do Lucas é à direita." Ela olhou para nós os dois. "Espero não ter de esperar muito pelo meu neto. Foi para isso que paguei." Virei-me para o Lucas, à espera que ele dissesse alguma coisa, que me defendesse. Ele apenas desviou o olhar. "Estou cansado. Vou para o meu quarto." E deixou-me ali, sozinha com a minha sogra. Subi as escadas, o meu vestido de noiva a arrastar-se no chão. O meu quarto era grande e luxuoso, mas sentia-me como se estivesse numa prisão. Tirei o vestido branco e vesti as minhas roupas pretas. Sentei-me na beira da cama e finalmente deixei-me chorar. Chorei pelo meu pai, pela minha liberdade perdida, pela vida que nunca teria.
As semanas transformaram-se em meses. A minha vida na mansão Almeida era uma rotina monótona. Acordava, tomava o pequeno-almoço em silêncio com a Dona Helena, que me olhava sempre como se eu fosse uma deceção. O Lucas saía cedo para a empresa, a empresa que antes era do meu pai, e voltava tarde. Mal nos falávamos. Ele dormia no seu quarto, eu dormia no meu. Éramos estranhos a viver sob o mesmo teto. A única coisa que a Dona Helena me perguntava todos os dias era: "Já estás grávida?" E todos os dias, a minha resposta era a mesma. "Não." O seu rosto endurecia ainda mais. "Para que é que serves, então? Comprei-te por uma razão. Cumpre a tua parte do acordo." Eu não respondia. Apenas baixava a cabeça e continuava a comer. Uma noite, o Lucas chegou a casa mais cedo do que o habitual. Ele parecia ter bebido. Entrou no meu quarto sem bater. Eu estava a ler na cama. Assustei-me. "O que estás a fazer aqui?" Ele cambaleou até à cama e sentou-se. O cheiro a álcool era forte. "A minha mãe não para de me pressionar," disse ele, a sua voz arrastada. "O neto. O herdeiro. É tudo o que ela quer saber." Ele olhou para mim, os seus olhos turvos. "Temos de fazer isto, Lia. Temos de lhe dar o que ela quer." O meu coração começou a bater mais depressa. "Lucas, eu não..." Ele não me deixou terminar. Agarrou-me pelos ombros. A sua força surpreendeu-me. "Não temos escolha. Tu sabes disso. Foi este o acordo." Naquela noite, ele cumpriu a sua parte do acordo. Foi rápido, mecânico e sem qualquer emoção. Quando terminou, levantou-se e saiu do meu quarto sem dizer uma palavra. Fiquei deitada na escuridão, a sentir-me vazia e suja. As lágrimas escorriam silenciosamente pelo meu rosto. Isto não era um casamento. Era uma transação comercial, e eu era o produto.