Eu estava grávida de três anos de espera, presa no carro afundando na lama sob uma chuva torrencial. Liguei para o meu marido, Miguel, o capitão dos bombeiros, vinte vezes. Nenhuma resposta. Então, ouvi no rádio da polícia que ele estava controlando um pequeno incêndio no armazém da ex-namorada, Clara, muito longe dali. Mal cheguei ao hospital, vi a foto dela nas redes sociais. Miguel, o meu herói, segurava o gato dela, e Clara olhava para ele com adoração, louvando-o como o seu salvador. Quando ele finalmente me ligou, sem nem perguntar da nossa saúde, ele justificou a sua ausência. "A Clara estava em pânico! Era o meu trabalho!" O meu mundo desabou quando ele rejeitou a minha dor, acusando-me de drama e ciúmes, afirmando que Clara "não tinha mais ninguém". Como ele pôde? Abandonar a esposa grávida em perigo de vida por uma ex-namorada? E depois tentar culpar-me por querer justiça? Não era ciúme, era a escolha. A minha escolha estava feita. Será que ele realmente pensou que eu, ou o nosso filho, seríamos sempre a segunda opção? Eu não podia permitir isso. Peguei no telefone, bloqueei o número dele. E disse: "Vamos divorciar-nos."
Quando a polícia me encontrou, eu estava sentada no meio da lama, segurando o meu telemóvel com força. A chuva torrencial tinha parado, mas o céu continuava cinzento. O meu carro estava meio submerso na água barrenta da estrada desabada, a poucos metros de distância. Um dos polícias aproximou-se, envolvendo-me num cobertor. "Senhora, está bem? Consegue dizer-me o seu nome?" "Sofia. Sofia Marques." A minha voz saiu rouca. "O meu marido... Ele está a caminho?" O polícia hesitou, o seu olhar desviou-se por um segundo. "A senhora conseguiu contactá-lo?" Eu não respondi. Claro que não consegui. Liguei-lhe mais de vinte vezes. Nesse momento, o rádio do polícia crepitou com uma voz. "Confirmado, o incêndio no armazém da Rua das Flores está controlado. A equipa do Capitão Miguel Alves fez um trabalho excelente. A proprietária, Clara, e o seu gato foram resgatados sem ferimentos." Clara. O nome atingiu-me. Miguel, o meu marido, era o capitão dos bombeiros. O incêndio ficava na direção oposta à minha. A mais de uma hora de distância. Senti um frio que não vinha da chuva. "Senhora Marques," disse o polícia suavemente, "vamos levá-la para o hospital para um check-up. A senhora está grávida, precisa de ter cuidado." Eu olhei para a minha barriga. O bebé que tínhamos esperado durante três anos. A ironia era dolorosa. O meu marido, um herói para a cidade, não estava lá para a sua própria família. No hospital, depois de confirmarem que eu e o bebé estávamos, por um milagre, bem, deram-me um quarto para descansar. Peguei no meu telemóvel outra vez. Uma notificação. Era uma publicação de Clara nas redes sociais, com uma foto. Nela, Miguel segurava o gato de Clara, o pelo do animal chamuscado. Clara estava ao lado dele, a mão a tocar-lhe levemente no braço, o rosto cheio de adoração. A legenda dizia: "O meu herói, Miguel. Arriscou tudo por mim e pelo meu pequeno Floco. Não tenho palavras para agradecer." Senti o meu estômago revirar. Finalmente, o meu telemóvel tocou. Era Miguel. "Sofia? Estás bem? Soube do deslizamento de terras. Estava numa emergência, não consegui atender." A voz dele era apressada, quase mecânica. "Estou no hospital," disse eu, a voz sem emoção. "O quê? O bebé está bem?" Havia um pingo de pânico na voz dele agora. "Sim. Estamos bem." "Graças a Deus. Olha, desculpa. A Clara ligou-me em pânico, o armazém dela estava a arder. Eu tinha de ir." "A Clara." Repeti o nome dela, sem inflexão. "A tua ex-namorada." Houve um silêncio. "Sofia, não comeces. Foi um incêndio. É o meu trabalho." "O teu trabalho era na zona leste hoje. O incêndio foi na zona oeste. Tu abandonaste a tua área de responsabilidade, Miguel." "Eu fiz uma escolha! A vida dela estava em perigo!" "E a minha não estava? Eu liguei-te vinte vezes, Miguel. Vinte. Eu estava presa num carro a encher-se de água." A voz dele endureceu. "Estás a ser dramática. Estás viva, não estás? A Clara precisava de mim. Ela não tem mais ninguém." Ri, um som seco e feio. "Então é isso. Vamos divorciar-nos, Miguel." Ele explodiu. "Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? Estás grávida do nosso filho! Vais deitar tudo fora por um ataque de ciúmes?" "Não é ciúme, Miguel. É uma escolha. Tu fizeste a tua. Agora eu estou a fazer a minha." "És inacreditável! Estás a ser egoísta! Pensa no nosso filho!" "Eu estou a pensar nele," respondi, a minha voz surpreendentemente firme. "Ele merece um pai que escolha a sua família em primeiro lugar." Desliguei a chamada antes que ele pudesse responder. Bloqueei o número dele. Olhei para a minha barriga. Ele tinha razão, eu amava este bebé mais do que tudo. E era precisamente por isso que eu não podia ficar. Eu não podia criar o meu filho num lar onde ele seria sempre a segunda opção. A porta do quarto abriu-se e a minha sogra, Helena, entrou a correr, o rosto pálido de preocupação. "Sofia! Meu Deus, estás bem? O Miguel acabou de me ligar, ele estava em pânico." Antes que eu pudesse responder, o telemóvel dela tocou. Ela atendeu, colocando no altifalante por hábito. A voz de Miguel, cheia de fúria, ecoou no quarto silencioso. "Mãe! A Sofia enlouqueceu! Ela quer o divórcio! Podes acreditar? Depois de tudo o que fiz para salvar a Clara! A Sofia não tem um pingo de compaixão? A Clara podia ter morrido!" Helena olhou para mim, os olhos arregalados, sem saber o que dizer. A minha decisão solidificou-se. Já não havia volta a dar.
Helena desligou a chamada, o rosto uma máscara de confusão e desapontamento. "Sofia, o que se passa? Divórcio? Vocês esperaram tanto por este bebé." "Foi o Miguel que se passou, Helena. Ele deixou-me para morrer para salvar a ex-namorada dele." A minha voz era fria, desprovida de qualquer emoção que eu sentia. "Salvar a... Clara?" O nome pareceu deixar um gosto amargo na boca dela. Helena nunca gostou de Clara. Mostrei-lhe a publicação no telemóvel. A foto de Miguel, o herói, com a mulher que ele tinha escolhido em vez de mim. Helena olhou para a imagem, e a sua expressão mudou de confusão para uma raiva fria. "Aquele idiota," ela murmurou. "Depois de tudo o que ele te prometeu." Ela sentou-se na beira da cama, a sua mão encontrou a minha. Estava fria. "Eu sinto muito, Sofia. Eu não criei o meu filho para ser este tipo de homem." "Eu sei," disse eu. E eu sabia. Helena era uma boa pessoa, presa no meio. Ficámos em silêncio por um momento. O único som era o bipe suave de um monitor nalgum lugar no corredor. "O que vais fazer agora?" ela perguntou finalmente. "Vou para casa da minha mãe. Preciso de espaço." "Claro. Eu ajudo-te." Quando saí do hospital, não havia sinal de Miguel. Apenas Helena, que me levou para o apartamento que eu partilhava com o marido. O nosso lar. O lugar parecia estranho, como se pertencesse a outra pessoa. As fotos de nós os dois na parede pareciam uma mentira. O nosso casamento feliz, as nossas férias, os nossos sorrisos. Tudo uma farsa. Helena ajudou-me a fazer uma mala. Roupas, artigos de higiene, o livro sobre gravidez que eu lia todas as noites. Quando estava prestes a sair, vi o uniforme de bombeiro de Miguel, cuidadosamente pendurado. O cheiro a fumo ainda pairava sobre ele. Por um momento, senti uma pontada de algo. Nostalgia? Tristeza? Depois lembrei-me da lama, da água a subir, do silêncio no outro lado da linha. A sensação desapareceu. A minha mãe vivia numa pequena casa nos subúrbios. Ela abriu a porta, o rosto enrugado de preocupação. "Minha filha! O que aconteceu? A Helena ligou-me." Abracei-a, e pela primeira vez naquele dia, senti as lágrimas a quererem sair. Mas eu forcei-as a recuar. Eu não ia chorar. Não por ele. "Acabou, mãe. Eu e o Miguel." Ela não fez perguntas. Apenas me guiou para dentro, para o quarto de hóspedes que sempre fora meu. Naquela noite, recebi uma mensagem de um número desconhecido. "Sofia, sou eu, a Clara. O Miguel contou-me o que aconteceu. Eu sinto muito. Eu não queria causar problemas." Senti uma onda de raiva. "Tu não causaste problemas, Clara. Tu és o problema." A resposta dela foi instantânea. "Isso não é justo. Nós temos uma história. O Miguel e eu... há coisas que tu não entendes." "Eu entendo que o meu marido me deixou numa situação de perigo de vida por ti. Isso é tudo o que preciso de entender." "Ele ama-te. Ele só estava preocupado comigo." "Guarda as tuas desculpas. E diz ao Miguel para não me contactar mais. O meu advogado falará com ele." Bloqueei o número dela também. Sentei-me no escuro, a mão na minha barriga. O bebé mexeu-se, uma pequena ondulação sob a minha pele. "Somos só nós os dois agora," sussurrei. "Eu vou proteger-te. Eu prometo."