O cheiro a desinfetante no hospital lembrava-me o dia em que o meu pai morreu. A minha irmã, Beatriz, acabara de ser transferida para a enfermaria geral, depois de um acidente de carro que quase lhe custou a vida. Com o corpo dorido, agarrei no telemóvel e vi as dezenas de chamadas não atendidas para o meu marido, Pedro. Finalmente, voltei a ligar. A sua voz, fria e cheia de irritação, ecoou: "O que foi agora, Lúcia? Estou ocupado!" Ao fundo, ouvi a voz mimada da minha cunhada, Sofia, a lamentar um joelho arranhado, e a minha sogra, D. Helena, a instruir Pedro a cuidar da Sofia, pois ela "caiu por causa dele". Enquanto a minha irmã lutava pela vida, o meu marido ignorou as minhas dezoito chamadas para cuidar do joelho de Sofia e do seu cão que não comeu. Era o fim da minha paciência. O nosso casamento, um arranjo para salvar a minha família da ruína, tinha-se tornado uma jaula. "Pedro", disse, com a voz a tremer, "quero o divórcio." A sua raiva explodiu: "Divórcio? Ficaste maluca? A Sofia também está magoada! Não tens um pingo de compaixão?" Ele ameaçou destruir o que restava do negócio do meu pai e deixar-nos na rua se eu não recuasse, chegando a usar a minha irmã doente contra mim. Fui humilhada publicamente por ele e pela família dele, que tentaram sabotar o negócio da minha mãe, chamando-nos de ingratas e oportunistas. Como é que podiam ser tão cegos, tão cruéis? O meu sofrimento e o perigo da minha irmã não eram "problemas reais" para eles; apenas um arranhão numa perna era. Mas eles não sabiam que eu, a "esposa ingénua" que pensavam ter sob controlo, tinha encontrado um aliado inesperado. Eu ia lutar. Não pelo dinheiro deles, mas pela minha dignidade e liberdade. E eles iam pagar o preço.
O cheiro a desinfetante enchia o quarto do hospital. Era o mesmo cheiro do dia em que o meu pai morreu. A minha irmã mais nova, Beatriz, tinha acabado de ser transferida para a enfermaria geral. O médico disse que ela tinha tido sorte, que o acidente de carro podia tê-la matado. Sentei-me no banco duro, o meu corpo todo doía. Peguei no meu telemóvel. A bateria estava quase a acabar. Vi as dezenas de chamadas não atendidas para o meu marido, Pedro. Finalmente, liguei-lhe outra vez. O meu coração batia depressa. A minha mãe estava sentada ao meu lado, os seus olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Ela segurava a minha mão com força. Eu sabia que era o fim. O nosso casamento não podia continuar. O telefone tocou, tocou, tocou. Um som frio e vazio. Quando estava prestes a desligar, ele atendeu. A sua voz estava cheia de irritação. "O que foi agora, Lúcia? Estou ocupado!" Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo. Era a Sofia, a minha cunhada. A sua voz era doce e um pouco mimada. "Pedro, o meu joelho ainda dói tanto. Podes ir buscar-me mais gelo? E o Biscoito ainda não comeu nada, estou tão preocupada." Depois, ouvi a voz da minha sogra, a D. Helena. "Meu filho, não te preocupes com a Lúcia. A Sofia é que precisa de ti agora. Ela caiu das escadas por tua causa, tens de cuidar bem dela. Pobrezinha, está com tantas dores." A Sofia caiu das escadas. O cão dela não comeu. E por isso, o meu marido ignorou as minhas dezoito chamadas enquanto a minha irmã lutava pela vida. Um sorriso amargo formou-se nos meus lábios. "Pedro," disse eu, a minha voz a tremer um pouco, "quero o divórcio." Houve um silêncio por um segundo. Depois, a raiva dele explodiu através do telefone. "Divórcio? Ficaste maluca? A tua irmã sofreu um acidente, não foi? E eu não estou aqui a cuidar da minha própria irmã? A Sofia também está magoada! Não tens um pingo de compaixão?" "Ela caiu das escadas, Pedro. A Beatriz foi atropelada por um carro." "E então? Uma lesão é uma lesão! Estás a dizer que a dor da tua irmã é mais importante que a dor da minha? Para de ser tão egoísta! A Sofia precisa de mim! És a esposa, devias compreender!" Ele gritava, e cada palavra era um peso no meu peito. "Não posso mais, Pedro. Acabou." "Acabou? Estás a ameaçar-me? Lúcia, pensa bem! Quem é que te vai querer depois de um divórcio? Pensa na tua família, na tua mãe. Queres envergonhá-los a todos?" Ele desligou o telefone na minha cara. Tentei ligar de novo. Ele tinha-me bloqueado. Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. Ele tinha razão numa coisa. Eu pensava sempre na minha família. Foi por isso que aguentei tanto tempo. Casei-me com o Pedro porque a minha família precisava de ajuda. O negócio do meu pai tinha falido, e a família dele era rica e poderosa. O meu casamento foi um negócio para salvar a minha família. Eu pensei que com o tempo, ele poderia aprender a amar-me. Ou pelo menos, a respeitar-me. Enganei-me. Para ele, eu era apenas um meio para um fim. Uma esposa conveniente. Mas a família dele, a irmã dele, até o cão da irmã dele, seriam sempre mais importantes. Onde estava ele quando eu precisei dele? Onde estava ele quando a minha irmã estava a ser operada de urgência? Ele estava a pôr gelo no joelho da irmã. A dor no meu peito era forte. Olhei para a porta do quarto da minha irmã. Ela estava a dormir, pálida e frágil. Ela era tudo o que me restava do meu pai. Eu tinha de ser forte por ela. O telemóvel da minha mãe tocou de repente. Era a minha sogra, a D. Helena. A minha mãe hesitou, depois atendeu. A voz da D. Helena era alta e cheia de desprezo, e eu conseguia ouvi-la perfeitamente. "Clara! Que raio de filha é que tu educaste? Ela atreve-se a pedir o divórcio ao meu filho? Só porque ele está a cuidar da própria irmã? Ela não tem vergonha? Diz à tua filha para parar com estas parvoíces imediatamente, ou então vocês as duas vão arrepender-se!" A minha mãe ficou pálida. Ela olhou para mim, com os olhos cheios de medo e preocupação. Eu tirei o telemóvel da mão dela. "Dona Helena," disse eu, com a voz firme. "A decisão é minha. O seu filho e eu vamos divorciar-nos."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha. Depois, a voz da D. Helena voltou, ainda mais aguda. "Como te atreves a falar assim comigo? Lúcia, tu esqueceste-te de quem és? Esqueceste-te de tudo o que a nossa família fez por ti e pela tua? O negócio do teu pai estava na lama. Fomos nós que o salvámos! E é assim que nos agradeces?" "Agradeço a vossa ajuda," respondi calmamente. "Mas o meu casamento não era parte do acordo financeiro. E acabou." "Acabou? Tu não decides quando acaba! O Pedro é o meu filho! Ele cometeu um erro, está bem. Ele devia ter ido ter contigo. Mas pedir o divórcio por causa disso? É ridículo! És uma ingrata!" "Um erro?", repeti, incrédula. "A minha irmã quase morreu. Ele nem sequer atendeu o telefone. Isso não é um erro, é uma escolha. Ele escolheu a irmã dele em vez da esposa dele. Sempre." "A Sofia é a família dele! Sangue do seu sangue! Tu és apenas a esposa!" As palavras dela pairaram no ar. "Apenas a esposa." Era isso que eu era para eles. Um acessório. Um contrato. "Exatamente," disse eu. "E esta esposa já teve o suficiente. Vou enviar os papéis do divórcio ao Pedro amanhã." Desliguei o telefone antes que ela pudesse gritar mais. A minha mãe olhava para mim, com uma mistura de orgulho e terror nos olhos. "Filha, tens a certeza? Eles são... perigosos. Eles podem arruinar-nos." "Mãe, eles já nos arruinaram. O que mais nos podem tirar? O nosso orgulho? Eu já não tenho nenhum. Só quero a minha vida de volta. Só nos quero a nós de volta." Ela abraçou-me com força. As lágrimas dela molharam o meu ombro. "Estou contigo, filha. Sempre." Na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz foi ligar ao meu advogado. Expliquei-lhe a situação. Ele disse que seria um divórcio complicado, por causa dos interesses comerciais. "Eles vão lutar com unhas e dentes, Lúcia. Especialmente por causa da empresa." "Eu sei," disse eu. "Mas eu não quero o dinheiro deles. Não quero a empresa. Só quero a minha liberdade." Quando saí do escritório do advogado, senti-me mais leve. Mas também sabia que a guerra estava apenas a começar. O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi. "Lúcia, sou eu, a Sofia." A voz dela era chorosa e fraca. "O que queres, Sofia?" "Por favor, não te divorcies do Pedro. Ele ama-te. Ele estava apenas preocupado comigo. Eu caí, sabes? Doeu tanto." "Eu sei. E a minha irmã foi atropelada por um carro." Houve uma pausa. "Isso é diferente," disse ela. "Tu és forte. A tua família é forte. Eu... eu sou frágil. Preciso do meu irmão. Por favor, Lúcia. Pensa na nossa família." "Eu estou a pensar na minha família, Sofia. E é por isso que estou a fazer isto." Desliguei. Eles não entendiam. Eles nunca iriam entender. Para eles, o mundo girava em torno deles, das suas necessidades, dos seus pequenos dramas. A dor dos outros era apenas um inconveniente. Voltei para o hospital. A Beatriz estava acordada. Ela sorriu quando me viu. Um sorriso fraco, mas era um sorriso. "Mana," disse ela, a voz rouca. "Onde está o Pedro?" O meu coração apertou. "Ele... ele teve de resolver umas coisas, Bia." Eu não conseguia dizer-lhe a verdade. Não ainda. Ela precisava de recuperar. Sentei-me ao lado dela e segurei a sua mão. A mesma mão que eu segurava quando éramos crianças e tínhamos medo do escuro. "Eu estou aqui, Bia. Não vou a lado nenhum." Ela adormeceu pouco depois. Fiquei a observá-la, a respiração dela calma e regular. O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem do Pedro. "Precisamos de falar. Encontra-me no nosso café. Agora." Não era um pedido. Era uma ordem. Por um momento, hesitei. Mas depois olhei para a minha irmã. Lembrei-me das palavras da D. Helena. "Apenas a esposa." Eu não era "apenas" nada. Respondi à mensagem dele. "Não."