O meu filho, Leo, nasceu morto. Quando o silêncio mortal preencheu o quarto, a minha alma partiu em mil pedaços. Com os dedos trémulos, liguei ao meu marido, Pedro, que estava a festejar o aniversário do filho da sua ex-namorada. "Sofia? O que se passa? Estou ocupado" foi a sua resposta irritada, antes de desligar na minha cara. Ele não só ignorou a morte do nosso filho, como me acusou de tentar arruinar a festa da ex. Os dias seguintes foram um inferno: Pedro não ligou, a sua mãe disse que eu era "demasiado dramática", e ele só apareceu para exigir o corpo do bebé. Ele queria um funeral rápido, como se Leo fosse lixo a descartar, para não atrapalhar a sua vida com "o Dani, que teve pesadelos". "As pessoas perdem bebés todos os dias, Sofia! Supera isso!", gritou-me ele, chamando-me egoísta e histérica. Como podia ele ser tão cruel? Como podia o homem que jurei amar abandonar-me na minha maior dor? A raiva, fria e dura como aço, substituiu a minha dor. Eu não o ia deixar escapar com isto. Decidi que, para ele, a brincadeira tinha acabado.
O meu filho, Leo, nasceu morto. No mesmo dia, o meu marido, Pedro, estava a celebrar o aniversário do filho da sua ex-namorada. A enfermeira colocou o meu bebé, pequeno e sem vida, ao meu lado. Ele não chorou, não se mexeu. Apenas um silêncio mortal enchia o quarto. A minha mãe, ao meu lado, chorava em silêncio, o seu corpo tremia. Eu não conseguia chorar. Olhei para o pequeno rosto do Leo, tão parecido com o do Pedro. Peguei no meu telemóvel, os meus dedos a tremer tanto que mal conseguia segurá-lo. Liguei ao Pedro. A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, o som de fundo era barulhento, cheio de música e risos de crianças. "Sofia? O que se passa? Estou ocupado." A sua voz soava irritada, impaciente. "Pedro, o nosso bebé..." A minha voz falhou. "O que tem o bebé? Nasceu? É um rapaz ou uma rapariga? Espera, não me digas, quero ter uma surpresa quando chegar aí." "Pedro..." Antes que eu pudesse terminar, ouvi a voz de outra mulher ao fundo. Era a Helena, a sua ex. "Pedro, querido, o Dani está à tua espera para cortar o bolo! Vem cá!" Depois, a voz de um menino. "Pai, pai! Vem rápido! Eu quero o meu presente!" Pai. Aquela palavra atingiu-me. Pedro suspirou ao telefone. "Olha, Sofia, tenho de ir. O Dani está a chamar-me. Falamos mais tarde." "O Leo morreu, Pedro." Disse as palavras de forma clara e fria. O barulho do outro lado parou por um instante. Apenas um segundo de silêncio. Depois, a voz do Pedro voltou, cheia de raiva. "Que raio de piada é essa, Sofia? Não se brinca com uma coisa destas! Estás a tentar estragar o aniversário do Dani de propósito?" "Não é uma piada." "Para com isso! Sabes o quão importante este dia é para o Dani. Ele não tem pai, eu sou a única figura paterna que ele tem. Não sejas tão egoísta. Ligo-te mais tarde." Ele desligou. Desligou-me o telefone na cara. Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. Depois olhei para o meu filho silencioso. A minha mãe tirou o telemóvel da minha mão. "Deixa-o, Sofia. Ele não merece." Eu não respondi. Apenas continuei a olhar para o meu bebé. A enfermeira voltou para levar o Leo. Eu agarrei-me a ele. "Não. Por favor, não." "Minha senhora, temos de o levar." A minha mãe abraçou-me. "Sofia, querida, tens de o deixar ir." Eu não o deixei ir. Eu não conseguia. Ele era a única coisa que me restava.
Passaram três dias. Eu não saí do hospital. O Pedro não ligou. Não mandou uma única mensagem. A minha mãe ficou comigo o tempo todo. A minha sogra, a mãe do Pedro, não apareceu. Ela enviou uma mensagem à minha mãe. "Diz à Sofia para não ser dramática. Estas coisas acontecem. O Pedro está muito ocupado a dar apoio emocional ao Dani, o menino está muito abalado." Abalado porquê? Porque o seu bolo de aniversário não era suficientemente grande? O meu filho estava morto. No quarto dia, a minha mãe foi a casa buscar-me algumas roupas limpas. Assim que ela saiu, o Pedro apareceu. Ele não parecia triste. Parecia zangado. "Onde está ele?" Foi a primeira coisa que disse. "Onde está o quê, Pedro?" "O corpo. Onde está o corpo do bebé?" Eu olhei para ele, sem expressão. "Para quê?" "Precisamos de o enterrar, obviamente. A minha mãe já tratou de tudo. Um funeral simples e rápido. É melhor assim." Ele falou como se estivesse a organizar a eliminação de lixo. "Eu não quero." Ele franziu o sobrolho. "O que queres dizer com 'não quero'? Não podes simplesmente mantê-lo aqui para sempre." "Ele chama-se Leo." "O quê?" "O nome dele é Leo. Não é 'o corpo'." O Pedro revirou os olhos. "Sofia, não temos tempo para isto. A Helena e o Dani precisam de mim. O Dani tem tido pesadelos." "Eu também tenho tido pesadelos." "Não é a mesma coisa. Ele é uma criança. Tu és uma adulta." Ele aproximou-se da cama. "Onde é que o hospital o pôs? Vou tratar disto agora." "Eu não te vou dizer." A raiva dele explodiu. "Pára de ser tão difícil! Já não basta o que me fizeste passar? Tive de mentir ao Dani, dizer-lhe que tive uma emergência de trabalho. Estragaste-lhe o aniversário!" "Eu estraguei-lhe o aniversário?" A minha voz estava perigosamente calma. "Sim, tu! Com o teu drama! As pessoas perdem bebés todos os dias, Sofia! Supera isso! Não és a única!" "Sai." "Não vou sair até me dizeres onde ele está." "Sai. Daqui. Agora." Ele olhou para mim, chocado com o meu tom. Depois, o seu rosto endureceu. "Está bem. Fica aí a chafurdar na tua miséria. Quando estiveres pronta para agir como uma adulta, avisa-me." Ele virou-se e saiu, batendo a porta atrás de si. Sozinha outra vez. Mas desta vez, algo dentro de mim mudou. A dor ainda lá estava, um buraco enorme no meu peito. Mas agora, havia outra coisa. Raiva. Fria e dura como aço.