A vida de Clara, grávida de oito meses, parecia seguir o seu curso natural. Estava a caminho com a sua mãe, ansiosa pela chegada do bebé. Mas um acidente brutal e repentino virou tudo de pernas para o ar. O carro destruído, a minha mãe inconsciente, e eu, a sangrar, com medo pelo meu filho. Liguei imediatamente ao meu marido, Lucas, esperando socorro. Em vez disso, ele respondeu com impaciência. A cunhada, Sofia, tinha torcido o tornozelo. Ele escolheu ir cuidar dela, desligando na minha cara, abandonando-nos. Aquela escolha custou a vida do meu bebé. No hospital, Lucas e a sua mãe vieram apenas para me culpar pela minha "negligência", enquanto a minha sogra elogiava a Sofia frágil. Como podia a vida do nosso filho valer menos que um tornozelo torcido? Porque é que ele me abandonou naquele momento de desespero absoluto? A justificação dele era uma afronta, um desprezo insustentável. A raiva e a dor borbulhavam no meu peito. Olhando para aquele trio de mentiras e egoísmo, soube. O meu casamento tinha acabado. "Quero o divórcio", disse, com uma voz fria como aço. Não só o divórcio, mas a verdade por trás daquela traição. E a justiça, custe o que custar.
O som do metal a rasgar foi a última coisa que ouvi antes de a minha cabeça bater no volante. O cinto de segurança apertou o meu peito, a minha barriga de grávida de oito meses pressionada de forma perigosa. "Mãe? Estás bem?" A minha voz saiu trémula, cheia de pânico. A minha mãe, no banco do passageiro, estava desmaiada, com um corte feio na testa a sangrar abundantemente. O nosso carro estava destruído contra uma árvore na berma da estrada, o motor a fumegar. O outro condutor fugiu. As minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar no telemóvel. O primeiro número que disquei foi o do meu marido, Lucas. Ele atendeu ao terceiro toque, a sua voz impaciente. "Clara? O que foi agora? Estou ocupado." "Lucas, tivemos um acidente. Um acidente grave. A mãe está ferida, eu... eu não sei. Preciso de ti." O pânico na minha voz era óbvio, mas ele não pareceu notar. "Um acidente? Estás bem? Chama uma ambulância, estou a meio de uma coisa importante." "Importante? Lucas, eu estou a sangrar! A mãe não acorda!" Houve uma pausa, e ouvi a voz da minha cunhada, Sofia, ao fundo. A sua voz era chorosa e mimada. "Lucas, o meu tornozelo dói tanto. Podes ir buscar-me gelo? Por favor?" A voz do meu marido suavizou-se instantaneamente, cheia de uma ternura que ele raramente me mostrava. "Calma, Sofia, estou a ir. Não te mexas." Ele voltou a falar comigo, o seu tom novamente frio e duro. "Ouve, a Sofia torceu o tornozelo a descer as escadas. Ela está em pânico, preciso de cuidar dela. Fica onde estás, a ajuda há de chegar." "Ela torceu o tornozelo? E eu estou num acidente de carro! Lucas, por favor!" "Pára de ser dramática, Clara. Não vês que a Sofia precisa de mim? Ela é frágil. Resolve os teus problemas, liga para o 112. Tenho de ir." Ele desligou. O som do silêncio no meu ouvido foi mais ensurdecedor do que o da colisão. Olhei para a minha mãe inconsciente, para o sangue nas minhas calças, para a minha barriga enorme. Naquele momento, debaixo do fumo do motor e do cheiro a gasolina, eu soube. O meu casamento tinha acabado.
Uma dor aguda e lancinante atravessou o meu abdómen, fazendo-me gritar. As luzes da ambulância finalmente chegaram, uma eternidade depois. Os paramédicos tiraram-me do carro com cuidado, colocando-me numa maca. "A minha mãe," consegui dizer. "Salvem a minha mãe." No hospital, tudo se tornou um borrão de luzes brancas, vozes apressadas e o cheiro a antissético. Levaram-me para uma sala de operações de emergência. Quando acordei, a primeira coisa que senti foi o vazio. O peso na minha barriga tinha desaparecido. Uma enfermeira com um rosto simpático estava ao meu lado. "Onde está o meu bebé?" perguntei, a minha voz rouca. Ela evitou o meu olhar. "Lamento, Sra. Alves. Devido ao trauma do acidente e à hemorragia, não conseguimos salvar a gravidez. Era um menino." As suas palavras não fizeram sentido de imediato. Um menino. O meu menino. Toquei na minha barriga, agora estranhamente lisa debaixo do lençol do hospital. Não havia mais pontapés. Não havia mais vida. As lágrimas começaram a rolar silenciosamente pelo meu rosto. Não havia soluços, apenas uma torrente silenciosa de dor que parecia não ter fim. O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Tinha 15 chamadas perdidas da minha sogra, Helena, e nenhuma do Lucas. Ele não se importou em ligar. Ele estava ocupado com um tornozelo torcido. Uma médica entrou no quarto. "Clara, sou a Dra. Mendes. A sua mãe está estável. Teve uma concussão e algumas costelas partidas, mas vai recuperar. Ela teve sorte." "E eu?" perguntei, a voz morta. "Eu tive sorte?" A médica olhou para mim com compaixão. "O que passou foi terrível. A perda do seu filho foi uma consequência direta do impacto e do stress agudo. Se tivesse recebido ajuda mais cedo..." Ela não terminou a frase. Não precisava. Se o meu marido tivesse vindo. Se ele me tivesse colocado a mim e ao seu filho em primeiro lugar. O meu menino ainda estaria aqui.