Na noite do meu casamento, o meu marido, Pedro, recebeu uma chamada. Era a sua ex-namorada, Sofia. Ela estava no hospital, e Pedro, com os olhos cheios de ansiedade, largou-me sozinha no nosso quarto para ir ter com ela. No dia seguinte, a minha sogra revelou a verdade: Sofia tinha tido uma overdose de comprimidos, por não conseguir aceitar o nosso casamento, e Pedro sentia-se terrivelmente culpado. Ele trouxe croissants e desculpas esfarrapadas, mas o lado dele da cama continuava intocado. Ele acusou-me de ser egoísta por não compreender a "gravidade" da situação. Sofia ligou-me, com uma voz fraca mas triunfante, para me dizer que Pedro estava lá para ela todos os dias e que eu tinha sido "egoísta" por pedir o divórcio. Tornaram-me a vilã. A esposa fria e sem coração que abandonou o seu nobre marido. Eu tinha sido substituída com uma rapidez impressionante, e o anel de diamante no dedo dela confirmava a sua vitória. Será que esta história é simplesmente sobre uma ex-namorada manipuladora e um homem com um complexo de herói? Ou haverá mais por trás, e a minha "egoísta" decisão de divórcio foi a única saída para a minha liberdade?
Na noite do meu casamento, o meu marido, Pedro, recebeu uma chamada. Era a sua ex-namorada, Sofia. "Pedro, estou no hospital. O médico diz que é grave. Estou com tanto medo." A voz dela soava fraca e trémula através do telefone. Pedro olhou para mim, a sua expressão era uma mistura de desculpa e ansiedade. "Laura, eu preciso de ir." Eu estava sentada na beira da nossa cama de hotel, ainda com o meu vestido de noiva. O tecido branco parecia frio contra a minha pele. "Hoje é a nossa noite de núpcias, Pedro." A minha voz saiu mais calma do que eu esperava. Ele agarrou nas chaves do carro. "Eu sei. Mas a Sofia... ela não tem mais ninguém aqui. A família dela está noutra cidade. Eu sou a única pessoa que ela conhece." "Eu volto logo. Prometo." Ele saiu apressado, deixando-me sozinha no quarto silencioso. A promessa dele pairou no ar, vazia. Eu não o impedi. O que poderia eu dizer? Dizer-lhe para não ir far-me-ia parecer uma esposa ciumenta e insensível. Mas o meu coração sentia-se pesado. Fiquei ali sentada por horas. O relógio na parede fazia um tique-taque alto, cada segundo a marcar a minha solidão. Liguei-lhe. Sem resposta. Liguei outra vez. Direto para o correio de voz. Finalmente, adormeci, exausta, com o vestido de noiva ainda vestido. Quando acordei na manhã seguinte, ele ainda não tinha voltado. O lado dele da cama estava intocado, frio. A maquilhagem do meu casamento estava borrada no meu rosto. Senti-me como uma piada. Pouco depois, o telefone dele finalmente tocou. Mas não era ele. Era a mãe dele, a minha sogra, Helena. "Laura, o Pedro está contigo?" A voz dela era aguda, cheia de preocupação. "Não. Ele não passou a noite aqui." Houve um silêncio do outro lado da linha, depois um suspiro profundo. "Aquele rapaz tolo. Ele está no hospital com a Sofia. Ela teve uma overdose de comprimidos para dormir." Senti o meu estômago revirar. "O quê?" "Sim. Aparentemente, ela não conseguiu lidar com o facto de ele se ter casado contigo. Ela tentou... tu sabes. O Pedro encontrou-a a tempo. Ele está a sentir-se terrivelmente culpado." Culpado. Ele sentia-se culpado por a sua ex-namorada não conseguir aceitar o nosso casamento. E eu? O que é que eu devia sentir? "Helena, eu preciso de desligar." Não esperei pela resposta dela. Desliguei a chamada e sentei-me na cama, a olhar para o nada. O nosso casamento mal tinha começado, e já estava assombrado pelo fantasma da ex-namorada dele. Um fantasma que estava muito vivo. ---
Pedro finalmente apareceu à tarde, com a cara cansada e os olhos vermelhos. Ele trazia café e croissants, como se isso pudesse consertar alguma coisa. "Laura, desculpa. As coisas ficaram complicadas." Coloquei a minha mala no chão. Já tinha feito as malas. "Eu sei. A tua mãe ligou-me." Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto que fazia quando estava stressado. "Ela não devia ter-te incomodado. A Sofia está estável agora. Ela só precisa de descanso." "E tu?" perguntei. "O que é que tu precisas, Pedro?" Ele olhou para mim, confuso. "O que queres dizer? Eu estou aqui agora." "Estás? Ou uma parte de ti ainda está com ela no hospital?" A minha voz era fria. Não conseguia evitar. A culpa no rosto dele transformou-se em frustração. "Laura, não compliques as coisas. A vida de uma pessoa estava em risco. O que é que eu devia fazer? Deixá-la morrer?" "Não. Mas talvez pudesses ter-me ligado. Talvez pudesses ter-te lembrado que tinhas uma esposa à tua espera na vossa noite de núpcias." Ele suspirou, o som encheu o quarto. "Eu sei que falhei. Mas eu estava em pânico. O meu telefone ficou sem bateria. Tudo aconteceu tão depressa." Desculpas. Eram sempre desculpas. "Eu quero o divórcio, Pedro." As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse detê-las. Mas no momento em que as disse, soube que era o que eu queria. Ele olhou para mim, chocado. "Divórcio? Estás a brincar? Casámo-nos ontem!" "Exatamente. E passaste a nossa primeira noite a consolar a tua ex-namorada que tentou suicidar-se porque tu te casaste comigo. Que tipo de futuro achas que vamos ter?" "Ela estava vulnerável! Ela precisa de mim!" "E eu não? Eu sou a tua esposa! Eu deveria ser a tua prioridade." A raiva dele explodiu. "Não sejas egoísta, Laura! Isto não é sobre ti! Uma mulher quase morreu! Tens alguma compaixão?" A palavra "egoísta" atingiu-me. Eu era egoísta por querer o meu marido na nossa noite de núpcias. Eu era egoísta por me sentir magoada e abandonada. Peguei na minha mala. "Sim, tenho compaixão. É por isso que te estou a deixar ir. Vai cuidar dela, Pedro. Claramente, é onde o teu coração está." Saí do quarto de hotel e não olhei para trás. ---