O meu nome é Sofia. Hoje, eu deveria estar a escolher um nome para o meu filho. Em vez disso, escolhi um para o meu túmulo. Presa nos destroços retorcidos do metro, o meu filho a nascer, liguei 18 vezes ao meu marido Pedro. Nenhuma chamada atendida. Ele estava ocupado a consolar a sua irmã, a minha cunhada Clara, que tivera um ataque de pânico em casa, segura, a quilómetros de distância. Quando finalmente o alcancei, a sua voz foi raiva e irritação: "O que foi agora, Sofia? Estou ocupado." Depois, soube. O meu filho tinha morrido. Asfixia neonatal. E a sua resposta foi um grito: "Estás a culpar-me? Eu não podia estar em dois sítios ao mesmo tempo! A Clara estava em perigo!" A família dele apoiou-o. O meu sogro chamou-me "egoísta". A Clara enviou uma mensagem a dizer que "a família vem sempre em primeiro lugar". O meu seguro de saúde foi cancelado. Mas o choque mais frio foi quando vi a Clara a usar o colar que o Pedro me deu no nosso primeiro aniversário de casamento, aquele que tinha desaparecido há meses. Aquele colar revelou que a traição ia muito além de um dia fatídico. Como é que o pai do meu filho, o homem que jurei amar, pôde escolher a sua irmã, ignorar os meus desesperados pedidos de socorro, e depois ainda me culpar pela minha própria dor? Como pude não ver que a verdade era muito mais repugnante do que eu imaginava? Eu não tinha mais lágrimas. Apenas uma decisão. Eles mataram o meu filho. Agora, eu ia destruir a família deles.
O meu nome é Sofia. Hoje, eu deveria estar a escolher um nome para o meu filho. Em vez disso, escolhi um para o meu túmulo. A certidão de óbito do meu filho recém-nascido estava na minha mão, fria e pesada. O médico disse que foi asfixia neonatal. Mas eu sabia a verdade. Foi o meu marido, Pedro, que o matou. Ele não o sufocou com as mãos, mas com a sua indiferença. O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira, com o ecrã estilhaçado. Mostrava 18 chamadas não atendidas para ele, todas feitas enquanto eu lutava para respirar, presa nos destroços do metro. A notícia na televisão do hospital falava da tragédia. Um deslizamento de terra causado por chuvas torrenciais engoliu uma carruagem do metro. Eu estava lá. "Pedro, onde estás? A minha água rebentou... estou presa..." "Pedro, ajuda-me, não consigo respirar..." "Pedro, o bebé..." As minhas mensagens não foram entregues. As minhas chamadas, ignoradas. Quando finalmente consegui ligar-lhe, horas depois, a sua voz estava cheia de irritação. "O que foi agora, Sofia? Estou ocupado." A sua voz era distante. No fundo, ouvi a voz suave de Clara, a minha cunhada. "Pedro, obrigada por teres vindo tão depressa. Fiquei tão assustada. O Trovão também não para de tremer." Trovão era o cão dela. Eu estava presa debaixo de metal retorcido, e o meu marido estava a consolar a sua irmã e o cão dela, que estavam seguros em casa, a quilómetros do desastre. "Pedro," a minha voz era um sussurro rouco. "O nosso filho... morreu." Silêncio. Um silêncio longo e pesado. Depois, a sua voz explodiu, cheia de uma raiva que não compreendi. "Morreu? Como assim, morreu? Sofia, que raio estás a dizer? Estás a culpar-me? Eu não podia estar em dois sítios ao mesmo tempo!" "A Clara estava a ter um ataque de pânico! A vida dela estava em perigo! Tu estavas apenas presa no metro, havia equipas de resgate a caminho!" A vida dela estava em perigo por causa de um ataque de pânico. Eu estava a perder o meu filho. "Vamos divorciar-nos, Pedro." Disse as palavras com uma calma que me assustou. "Divórcio? Ficaste louca? Depois de tudo o que passámos? Estás a usar a morte do nosso filho para me manipular? És doente, Sofia. Doente." Ele desligou. Tentei ligar de volta. O meu número estava bloqueado. Claro que estava. Olhei para a minha barriga vazia. A dor física era nada comparada com o vazio que me consumia. O meu filho. O meu bebé. Tínhamos tentado durante três anos. Três anos de tratamentos, esperanças e desilusões. Quando finalmente aconteceu, o Pedro parecia feliz. Pelo menos, eu pensava que sim. Agora, questionava tudo. O telemóvel da minha mãe, que estava a dormir na cadeira ao meu lado, começou a tocar. O nome no ecrã era "Ricardo", o meu sogro. A minha mãe mexeu-se, mas não acordou. Atendi a chamada. A voz de Ricardo era um trovão. "Marta! Que raio de filha é que criaste? Ligar ao meu filho a culpá-lo pela morte do bebé? A ameaçá-lo com o divórcio? Ela não tem coração?" Ele não parou para respirar. "A Clara é frágil, ela podia ter morrido! O Pedro fez a escolha certa, salvou a sua irmã! A Sofia tem de aprender a ser menos egoísta. Ela não é a única pessoa no mundo que sofre!" Egoísta. Eu, que perdi o meu filho, era a egoísta. Não respondi. Apenas desliguei o telemóvel e coloquei-o de volta na mesa, silenciosamente. A minha mãe abriu os olhos, o rosto pálido e cansado. "Era o Ricardo?" Eu assenti. "O que é que ele queria?" "Nada. Apenas a dar os parabéns." A minha voz era desprovida de qualquer emoção. Virei-me para a janela, olhando para a cidade molhada pela chuva. Eu não tinha mais lágrimas. Apenas uma decisão. Eles mataram o meu filho. Agora, eu ia destruir a família deles.
Dois dias depois, saí do hospital. A minha mãe, Marta, segurava o meu braço com força, como se eu fosse partir-me em mil pedaços. O nosso apartamento estava silencioso e frio. As coisas de bebé que tínhamos comprado com tanta alegria estavam por todo o lado. O berço montado no canto. As pequenas roupas dobradas. Cada objeto era uma facada no meu peito. "Vou deitar isto tudo fora," disse a minha mãe, com a voz embargada. "Não," respondi, a minha voz firme. "Deixa ficar. Eu preciso de me lembrar." Pedro não apareceu. Não ligou. Era como se eu e o nosso filho morto nunca tivéssemos existido. Em vez disso, recebi uma mensagem de Clara. "Sofia, sei que estás a passar por um momento difícil, mas não podes culpar o Pedro. Ele ama-te. Mas a família vem sempre em primeiro lugar. Eu sou a irmã dele. Espero que entendas." Entender. Peguei no meu computador portátil. As minhas mãos tremiam, mas a minha mente estava clara. Pedro e eu tínhamos uma conta poupança conjunta. Era para o futuro do nosso filho. Agora, tinha um novo propósito. Transferi cada cêntimo para a minha conta pessoal. Não era muito, mas era o suficiente para começar. Depois, comecei a procurar advogados. Precisava do melhor. Alguém implacável. O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi. "Sofia? Sou eu, o João. O amigo do Pedro da universidade." A voz dele era hesitante. "Lamento muito pelo que aconteceu. Não consigo imaginar a tua dor." "Obrigada, João." "Olha, eu não devia estar a dizer-te isto... mas o Pedro... ele não está bem. Ele está a dizer coisas estranhas." Fiquei em silêncio, à espera. "Ele continua a dizer que se livrou de um problema. Que agora pode finalmente ser feliz." O meu sangue gelou. "O que mais é que ele disse?" "Ele... ele mencionou a Clara. Disse que agora nada os pode impedir." Fechei os olhos. A verdade era mais feia do que eu imaginava. Não se tratava apenas de negligência. Era um plano. "Obrigada por me dizeres, João. Agradeço a tua honestidade." Desliguei e respirei fundo. A dor transformou-se em gelo nas minhas veias. Abri o guarda-roupa do Pedro. As suas roupas caras, os seus sapatos polidos. Comecei a empacotar tudo em sacos do lixo. Metodicamente. Sem pressa. Cada camisa, cada par de calças. Quando terminei, a minha mãe estava a olhar para mim da porta, com os olhos arregalados. "O que estás a fazer, filha?" "A limpar o lixo." Levei os sacos para a rua e deixei-os ao lado do contentor. Voltei para dentro e enviei uma mensagem a Pedro. "As tuas coisas estão no lixo. Tal como tu." A resposta foi quase imediata. Uma chamada. Atendi e coloquei em altifalante. "ESTÁS LOUCA? AS MINHAS ROUPAS! OS MEUS FATOS! SABES QUANTO CUSTA AQUILO?" A voz dele estava distorcida pela raiva. "Menos do que a vida do meu filho," respondi calmamente. "Tu vais pagar por isto, Sofia! Juro por Deus, vais arrepender-te!" "Não, Pedro. Quem se vai arrepender és tu." Desliguei. A minha mãe aproximou-se e abraçou-me. "Estou aqui contigo," sussurrou ela. "Vamos passar por isto juntas." Eu sabia que sim. Mas não íamos apenas "passar por isto". Íamos lutar.