Grávida de oito meses, com a minha mãe doente, ficamos presas num parque de estacionamento subterrâneo que inundava. Liguei desesperada ao meu marido Leo. Ele atendeu irritado, com música alta. «Estou com a Sofia. Ela tem medo de trovões», disse. Desligou, abandonando-nos. Eu lutei sozinha, exausta, para salvar a minha mãe e o meu bebé. Quando acordei no hospital, o vazio na minha barriga era a prova da sua escolha. O meu filho. Perdemos o bebé. Ele veio ao hospital, e com ele a Sofia, com o seu "choro" forçado. Ele e o pai dele tentaram justificar a sua ausência, culpando-me. «Drama», «exageros», enquanto o meu coração se partia. Escolheu a comodidade da irmã em vez da vida da própria família. Mas a dor deu lugar a uma fria determinação. Olhei para ele, para o vazio que ele criou, e a minha decisão foi inabalável. «Quero o divórcio, Leo.» Ele não fazia ideia do inferno que eu tinha guardado para ele. E eu tinha as provas que iriam desmascarar cada uma das suas mentiras.
A água gelada já me chegava aos tornozelos, encharcando a carpete do carro. O parque de estacionamento subterrâneo estava a inundar depressa, e a eletricidade tinha ido abaixo, mergulhando tudo numa escuridão quase total. A única luz vinha do ecrã do meu telemóvel. "Leo, atende o telefone, por favor, atende," eu sussurrava para mim mesma, com a voz a tremer. A minha mãe, Helena, estava no banco do passageiro, a sua respiração ofegante e ruidosa no silêncio do carro. Finalmente, a chamada foi atendida. A voz do meu marido, Leo, soou irritada, abafada por música alta. "Clara? O que foi agora? Estou ocupado." "Ocupado? Leo, estamos presas! O parque de estacionamento do centro comercial está a inundar, a água não para de subir!" A minha voz era um grito agudo de pânico. "A mãe está aqui comigo, ela não se está a sentir bem." Houve uma pausa. Ouvi-o dizer a outra pessoa, "Espera um pouco, Sofia." Sofia. A sua meia-irmã. "Calma," disse ele, voltando para mim. "Não faças drama. É só um bocado de chuva. Os bombeiros resolvem isso." "Não é só chuva, Leo! A água está a entrar no carro! As portas não abrem!" "Olha, a Sofia está com muito medo da tempestade, a luz dela foi abaixo e ela está sozinha. Tive de vir aqui para lhe fazer companhia. Não posso simplesmente abandoná-la." A sua calma era inacreditável. "E a nós? Vais abandonar-nos a nós? Eu estou grávida de oito meses, Leo! O teu filho está aqui dentro!" Eu bati na minha barriga, como se ele pudesse ver. "Exatamente por estares grávida é que tens de manter a calma," disse ele, com um tom de quem repreende uma criança. "Liga para os serviços de emergência. Eles são pagos para isso. Tenho de ir, a Sofia precisa de mim." Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou. O som da chamada terminada foi mais alto do que o barulho da água a subir. Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. Eu, a sua mulher grávida, e a minha mãe, estávamos presas numa armadilha mortal. E ele estava a consolar a sua irmã porque ela tinha medo de trovões. A água já me chegava aos joelhos.
"Clara... a minha... a minha mala..." A minha mãe murmurou, com os olhos a revirar. "Mãe, esquece a mala! Precisamos de sair daqui!" Ela apontou para o porta-luvas. "Os meus... comprimidos..." Antes que ela pudesse terminar a frase, o seu corpo amoleceu e a sua cabeça pendeu para o lado. Ela tinha desmaiado. "Mãe! Mãe, acorda!" Gritei, sacudindo-a, mas ela não reagiu. O pânico transformou-se em terror puro. Estávamos sozinhas. Completamente sozinhas. Tentei ligar para o 112, mas o meu telemóvel morreu. A bateria tinha acabado. A água barrenta e fria já estava na altura da minha cintura, o meu vestido flutuava à minha volta. O bebé dentro de mim mexeu-se violentamente, um pontapé de protesto ou de medo. "Nós vamos sair daqui," disse eu em voz alta, mais para mim do que para o meu filho por nascer. "Eu prometo." Tentei abrir a porta novamente, empurrando com todo o meu peso. Inútil. A pressão da água era demasiado forte. O vidro. Tinha de partir o vidro. Olhei à volta no escuro. A mala da minha mãe. Ela queria os comprimidos. Abri o porta-luvas com as mãos a tremer, a água a dificultar cada movimento. Encontrei o frasco de comprimidos e, ao lado, um objeto pesado e metálico. Um martelo de emergência que o Leo insistiu que tivéssemos no carro "para o caso de acontecer alguma coisa". A ironia era tão cruel que me fez soltar uma gargalhada seca e sem humor. Agarrei no martelo. Com a outra mão, protegi a minha barriga. Respirei fundo e bati no canto do vidro do meu lado com toda a força que consegui reunir. Uma, duas, três vezes. Na quarta pancada, o vidro estalou e desfez-se em mil pedaços, deixando a água entrar em força, submergindo-me até ao peito. O choque da água gelada tirou-me o fôlego, mas eu lutei. Subi pela abertura da janela, com os cacos de vidro a rasgarem-me a pele e as roupas. Uma vez cá fora, a água dava-me pelos ombros. Agarrei-me ao tejadilho do carro. Depois, voltei-me para a minha mãe. Puxá-la pela janela ia ser impossível. Nadei até à porta do passageiro de trás, mergulhei e tentei abri-la por dentro. Milagrosamente, ela cedeu. Com um esforço sobre-humano, puxei o corpo inerte da minha mãe para fora do carro, mantendo a sua cabeça acima da água. Ela era pesada. O meu corpo gritava de dor, as minhas costas pareciam partir-se, e uma cãibra aguda atravessou a minha barriga. "Aguenta, mãe. Por favor, aguenta." Comecei a nadar lentamente em direção à rampa de saída, arrastando-a comigo. Cada braçada era uma agonia. A escuridão era total, exceto pelas luzes de emergência distantes que piscavam no topo da rampa. Foi aí que ouvi vozes. "Alguém aqui em baixo?" "Socorro!" gritei, com a voz rouca. "Estamos aqui! Ajuda!" Uma luz forte de uma lanterna varreu a água e fixou-se em nós. Vi as silhuetas de dois bombeiros. A última coisa de que me lembro foi da cãibra na minha barriga se transformar numa dor lancinante e avassaladora. Depois, tudo ficou preto.