Minha vida era um conto de fadas sombrio, onde eu, Luna, a Guardiã do Elixir da Vida, zelava pela fonte da imortalidade. Mas o caos varreu meu mundo quando o elixir foi trocado por água, e eu fui a única culpada por essa catástrofe. O Conselho das Sombras me condenou a 300 anos de confinamento em uma prisão de cristal, uma tortura consciente que congelou meu corpo e despedaçou minha alma. Ao fim da sentença, reencontrei meu noivo, o Lorde das Sombras, e meu filho Astaroth, que me acolheram com um alívio que parecia genuíno, e por um instante, a culpa que me corroía diminuiu. Eu tentava compensar o "erro" que havia "cometido", vivendo para agradá-los, cega em minha gratidão por tê-los de volta. Até que uma noite, no corredor, uma conversa roubada abriu a caixa de Pandora da minha existência. "Pai, não aguento mais fingir," Astaroth sussurrou, e meu mundo desabou. Descobri que a troca do elixir, minha prisão, meus 300 anos de sofrimento, tudo foi um plano orquestrado pela minha própria irmã, Lilith, com a cumplicidade do meu filho e do homem que eu amava, para benefício dela. Eu não era uma guardiã que falhou, era um sacrifício, um bode expiatório perfeito para a ascensão de Lilith ao poder. A humilhação me engoliu, eu era apenas uma peça descartável em um jogo de poder que nem sabia que estava sendo jogado. Ninguém se importou comigo, ninguém me defendeu, eles eram todos cúmplices em sua fria conspiração. Eu fui "salva" pelo Lorde das Sombras no passado, não por amor, mas para me tornar uma devedora controlável, uma posse. A mulher que eu era, cheia de esperança e gratidão, morreu naquele corredor - em seu lugar, nasceu uma fúria fria e cortante. Forçada a presenciar a "celebração" de Lilith, vestindo minhas antigas vestes cerimoniais como um troféu, minha humilhação foi pública e cruel. Um ancião do conselho me agrediu em plena festa, e Astaroth, meu filho, desviou o olhar, enquanto o Lorde das Sombras me ignorou, escolhendo acalmar Lilith. A indiferença deles era mais dolorosa que o tapa, confirmando que eu não significava absolutamente nada. Fui encurralada por Lilith, que confessou tudo, revelando a manipulação e o desprezo que sempre sentiu. Ela encenou um ataque, me incriminando mais uma vez, e o Lorde das Sombras me condenou sem hesitação, me lançando contra a parede com magia, tirando minha consciência. Apesar da dor, um pensamento claro me invadiu: o espelho de tempo de minha mãe, meu segredo, minha fuga havia começado. Aquele espelho proibido abriu uma fenda, e eu atravessei para um mundo que nunca imaginei, deixando tudo para trás. Dez anos se passaram, e meu refúgio no mundo humano era uma pequena livraria: "O Refúgio", e meu filho de coração, Tigre, era minha família. Um dia, o sino da livraria tocou, e na porta, estavam eles, o Lorde das Sombras e Astaroth, visivelmente quebrados, buscando perdão. Eu, Luna, não era mais a presa - eu era a caçadora de minha própria paz, e minha resposta foi um eco da dor que me causaram. "A Luna que vocês conheceram está morta. Vocês a mataram." Eles foram condenados a 3000 anos na prisão de cristal, dez vezes a minha pena, uma justiça poética. Mas eu não celebrei; queimei a notificação, as cinzas do meu passado se dissolvendo no fogo. "Nada importante, querido. Apenas uma história antiga que finalmente chegou ao fim."
O caos se instalou no mundo humano de uma hora para outra, uma praga silenciosa que ninguém entendia, no dia em que o elixir da vida, a fonte de vitalidade e longevidade, se transformou em água comum, o espírito que o guardava havia trocado o precioso líquido, e as consequências foram imediatas e devastadoras, espalhando pânico e desespero por todos os cantos. Pessoas que contavam com o elixir para curar doenças incuráveis morriam em seus leitos, e idosos que mantinham sua juventude através dele envelheciam anos em questão de horas, suas peles enrugando e seus corpos enfraquecendo diante dos olhos de suas famílias aterrorizadas. A ordem mundial, que dependia sutilmente da existência daquela magia, desmoronou. Eu, Luna, a guardiã do elixir, fui apontada como a única culpada pela catástrofe, minha falha em proteger a fonte da vida era imperdoável aos olhos do conselho da dimensão das sombras. Não me deram chance de defesa, as acusações caíram sobre mim como uma avalanche, e a punição foi rápida e severa. Fui sentenciada a 300 anos de confinamento em uma prisão de cristal, uma punição cruel onde meu corpo ficaria congelado no tempo, mas minha mente permaneceria consciente, forçada a reviver meu fracasso a cada segundo de cada dia, por três séculos. A dor de ser arrancada de tudo que eu amava, de ser vista como uma traidora, era quase tão insuportável quanto a própria sentença. Quando os 300 anos finalmente chegaram ao fim, a prisão de cristal se desfez em uma poeira brilhante, e meu corpo, rígido e frio, caiu no chão. Antes que eu pudesse sentir o impacto, braços fortes me ampararam. Eram meu noivo, o Lorde das Sombras, e nosso filho, Astaroth, que agora era um homem feito. Seus rostos expressavam uma tristeza profunda e um alívio imenso por me verem livre. O Lorde das Sombras me segurou com cuidado, seus olhos escuros fixos nos meus. "Luna, eu vim te buscar. Acabou." Astaroth, meu filho, segurou minha mão, seus olhos cheios de lágrimas. "Mãe, me perdoe. Eu senti tanto a sua falta." Aquele reencontro foi um bálsamo para minha alma ferida. O calor do abraço deles era tudo que eu desejei durante os longos e solitários séculos na prisão. Eu me senti grata, acreditando que, apesar do meu erro terrível, minha família ainda me amava e estava ali por mim. A culpa que eu carregava parecia um pouco mais leve, e eu me agarrei àquela sensação de pertencimento como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira. Nos dias que se seguiram, eu os segui fielmente, como uma sombra grata. Eu me esforçava para agradá-los, para compensar a vergonha que eu acreditava ter causado. Eu cozinhava suas comidas favoritas, arrumava os aposentos do Lorde das Sombras com o mesmo cuidado de antes e ouvia atentamente tudo que Astaroth contava sobre o mundo que eu perdi. Eu estava tão imersa na minha gratidão e na alegria de tê-los de volta que não percebi os olhares estranhos, as conversas interrompidas quando eu entrava em um cômodo, o jeito como eles pareciam sempre estar escondendo algo. Minha confiança neles era cega, absoluta, construída sobre anos de amor e história compartilhada. Uma noite, porém, essa confiança foi estilhaçada. Eu estava passando pelo corredor do castelo, a caminho da biblioteca, quando ouvi vozes vindas do escritório do Lorde das Sombras, a porta estava entreaberta, e a conversa que flutuava até mim me fez parar, meu sangue gelou nas veias. Era Astaroth e o Lorde das Sombras. "Pai, eu não aguento mais fingir," a voz de Astaroth estava embargada, cheia de uma angústia que eu nunca tinha ouvido antes. "Toda vez que olho para a mãe, sinto o peso do que fiz. Tia Lilith disse que era o único jeito de ela conseguir a aprovação do conselho, mas não me disse que a mãe seria a culpada." O coração parou de bater no meu peito. Lilith. Minha irmã. O que ela tinha a ver com isso? A resposta do Lorde das Sombras veio, fria e calculista, desprovida de qualquer emoção. "Astaroth, sua tia precisava do poder que o cargo de guardiã do elixir lhe daria. Luna era o sacrifício necessário. Ela era o bode expiatório perfeito. Quem questionaria a culpa da guardiã que falhou?" O chão pareceu desaparecer sob meus pés. Sacrifício. Bode expiatório. As palavras ecoavam na minha cabeça, cada uma delas uma facada no meu coração. A troca do elixir, o caos no mundo humano, meus 300 anos de tortura... tudo tinha sido uma armadilha. Uma armadilha armada por minha própria irmã, com a ajuda do meu filho e a conivência do homem que eu amava. Minha penitência não foi justiça, foi um plano para beneficiar Lilith. E eu, cega de amor e gratidão, tinha caído diretamente na teia deles.
Eu continuei parada ali, escondida na penumbra do corredor, incapaz de me mover, cada palavra que saía daquele escritório era mais uma camada de engano sendo arrancada de forma brutal. "Mas ela sofreu por trezentos anos, pai," Astaroth insistiu, sua voz um fio de desespero. "Ela não merecia isso. Ela é minha mãe." A risada do Lorde das Sombras foi curta e desdenhosa, um som que me causou um arrepio de puro horror. "Não seja ingênuo, Astaroth. Ela é apenas uma guardiã de um clã menor. Sua tia Lilith vem de uma linhagem de poder ancestral. A posição de guardiã sempre deveria ter sido dela. Luna foi apenas um empecilho temporário. Agora, com Luna manchada por essa falha, o caminho de Lilith para se tornar a nova líder suprema está livre. A presença de Luna aqui, submissa e quebrada, só fortalece a imagem de Lilith como a salvadora que corrigiu o erro." A humilhação me atingiu como uma onda. Um empecilho. Era isso que eu era para ele. Uma peça descartável em um jogo de poder que eu nem sabia que estava sendo jogado. Todos os nossos momentos, todas as promessas, tudo parecia uma farsa elaborada. Ele não me amava, ele me usava. Minha mente voltou para a prisão de cristal, para o silêncio ensurdecedor e a solidão esmagadora. Lembrei-me dos rostos dos membros do conselho, da minha própria família, todos me olhando com desprezo enquanto eu era sentenciada. Ninguém me defendeu. Ninguém questionou. Fui abandonada por todos, e agora eu entendia o porquê. Eles eram todos cúmplices. Uma memória específica veio à tona, uma que eu guardava com carinho, mas que agora se tornava amarga. Anos antes de tudo isso, meu clã enfrentou uma pequena crise política, e o Lorde das Sombras interveio, usando sua influência para me "salvar" da desonra. Ele se tornou meu herói, meu porto seguro. Eu me apaixonei por sua força, por sua aparente devoção a mim. Eu o via como o pilar da minha vida, o homem que me protegeu quando ninguém mais o fez. Que tola eu fui. Aquela "salvação" não foi um ato de amor, eu percebia agora com uma clareza dolorosa. Foi um investimento. Ele me colocou em uma posição de dívida eterna, me moldando para ser a noiva perfeita e obediente, a guardiã que ele poderia controlar facilmente. Ele não me salvou, ele me comprou. Aquele gesto não foi de proteção, foi de posse. O amor que eu sentia, a vida que construímos, tudo era baseado em uma mentira monumental. Eu pensei em tudo que fiz por ele, por nossa família. Abri mão de minhas próprias ambições para apoiar as dele, dediquei minha vida a proteger o elixir e a manter o equilíbrio, criei nosso filho com todo o amor que eu tinha. E para quê? Para ser descartada como lixo quando não era mais conveniente. Para que minha irmã, a mesma irmã que sempre me olhou com inveja disfarçada de afeto, pudesse roubar minha vida, meu título, meu propósito. A dor no meu peito era física, uma pressão que me impedia de respirar. Não era apenas a traição que doía, era a anulação de toda a minha existência. Meus sacrifícios, meu amor, minha lealdade... nada daquilo importava para eles. Eu era uma ferramenta, e agora que meu propósito foi cumprido, eu deveria ficar quieta em um canto, quebrada e grata por migalhas de uma afeição que nunca foi real. A mulher que entrou naquele castelo há alguns dias, cheia de esperança e gratidão, morreu naquele corredor escuro. Em seu lugar, uma raiva fria e cortante começou a crescer.