O Silêncio da Guitarra Quebrada
Introdução

Hugo Gordon, um fadista outrora resgatado das ruas de Alfama, tornou-se a joia rara de Lisboa sob a asa da herdeira Juliette Hayes, que o moldou com um amor tão intenso quanto possessivo. Ele era o seu universo, submisso à sua adoração sufocante. Mas, numa noite fria e chuvosa, o seu mundo desabou quando Juliette, obcecada pelo novo surfista Leonel, o acusou de afastar o seu "novo brinquedo". De joelhos, tremendo, foi forçado a confessar uma mentira sob a ameaça impensável de Juliette: desligaria o suporte de vida da sua avó doente. A humilhação seguiu-se à dor: foi forçado a pedir desculpa a Leonel, a sua querida guitarra portuguesa foi brutalmente partida, e ele foi espancado na gala de caridade, com Juliette a assistir, impassível. O golpe final, porém, veio quando ela, para agradar Leonel, permitiu a morte da sua avó, a sua única família, arrancando a sua última vulnerabilidade. Como pôde o amor que ele nutria por ela ser tão facilmente esmagado? Como pôde a mulher que o tirou da sarjeta destruí-lo com tanta crueldade? A cada golpe, a cada lágrima não derramada, a questão ecoava: o que mais lhe seria tirado antes de tudo acabar? Naquele momento de desespero abissal, com o coração petrificado e a dignidade destroçada, Hugo Gordon morreu. No seu lugar, nasceu "Henrique Garcia", e uma determinação gélida: ia desaparecer, apagar Juliette Hayes da sua vida para sempre e, acima de tudo, nunca mais ser a vítima de ninguém.

Capítulo 1

Uma noite fria de inverno em Lisboa. A chuva gelada caía sem parar, transformando a varanda de mármore num espelho escuro e escorregadio. Hugo Gordon estava de joelhos, vestindo apenas uma camisa fina de linho que se colava ao seu corpo, tremendo incontrolavelmente. A água escorria pelo seu cabelo, pelo seu rosto, misturando-se com algo que poderia ser suor ou lágrimas. Juliette Hayes, sua esposa, estava de pé à sua frente, protegida sob o toldo da varanda. O seu rosto, normalmente cheio de uma adoração possessiva por ele, estava agora frio e duro como o mármore sob os joelhos de Hugo. "Ele bloqueou-me," disse Juliette, a sua voz calma mas cortante. "Leonel bloqueou-me em todas as redes sociais. Desapareceu. E tu vais dizer-me porquê." Hugo levantou o olhar, a confusão misturada com a dor do frio. "Juliette, eu não sei de nada. Eu nem sequer o conheço." "Não mintas para mim, Hugo," ela sibilou. Ela pegou no seu telemóvel, o ecrã brilhando na escuridão. Ela mostrou-lhe um vídeo. A imagem tremia ligeiramente, mostrando uma enfermeira num quarto de lar de idosos, ao lado de uma cama onde uma mulher idosa dormia, ligada a um ventilador. A mão da enfermeira pairava sobre o interruptor da máquina. O coração de Hugo parou. Era a sua avó. A única família que lhe restava. "A vida dela está nas tuas mãos," disse Juliette, sem desviar o olhar do dele. "Ela tem uma doença pulmonar crónica, lembras-te? Eu pago por este lar de luxo, pelos melhores médicos, por esta máquina que a mantém a respirar. Eu posso tirar tudo isso com um único telefonema." A ameaça pairou no ar, mais fria que a chuva. "Confessa," ordenou ela. "Diz-me que foste tu que o assustaste. Diz-me que disseste a Leonel para ficar longe de mim." Hugo olhou para o vídeo, para o rosto frágil da sua avó, e depois para Juliette, a mulher que ele amava, a mulher que o tinha resgatado das ruas de Alfama, que o tinha transformado num fadista de renome. A mulher que agora o estava a destruir. A sua dignidade quebrou-se. A sua resistência desmoronou-se. "Fui eu," sussurrou ele, a voz rouca. "Eu disse-lhe para se afastar. Tive ciúmes." Juliette sorriu, um sorriso fino e vitorioso. Ela guardou o telemóvel. "Bom rapaz," disse ela, como se estivesse a falar com um cão obediente. Ela virou-se e entrou na casa luxuosa, deixando-o de joelhos na chuva, o frio a penetrar-lhe até aos ossos. Ele não sentia o frio físico. Apenas o gelo que se formava à volta do seu coração. Ele sabia, naquele momento, que o amor obsessivo de Juliette tinha mudado de alvo. Ele já não era o centro do seu universo. Era apenas um obstáculo. E ela não hesitaria em esmagá-lo.

Capítulo 2

Hugo acordou na sua própria cama. O seu corpo doía e ele tinha febre alta, uma consequência inevitável da noite anterior. Um médico particular, chamado por Juliette, tinha-lhe administrado medicamentos e agora estava a dormir um sono inquieto. Ele abriu os olhos e viu Juliette sentada numa poltrona ao lado da cama, a olhar para o seu telemóvel com um sorriso. Ao lado dela, de pé, estava Leonel Acosta, o surfista. O seu ar era arrogante, e ele olhava para Hugo com um desprezo mal disfarçado. "Olha quem acordou," disse Leonel com um tom de escárnio. "A primadona do fado." Juliette nem sequer levantou o olhar do telemóvel. "Leonel, não sejas mau. Ele está doente." A sua voz era desinteressada, como se estivesse a falar do tempo. Hugo sentou-se, a cabeça a latejar. "O que é que ele está a fazer aqui?" "Eu convidei-o," disse Juliette, finalmente olhando para ele. O seu olhar era frio. "Ele veio para ouvir o teu pedido de desculpas." "Pedido de desculpas? Porquê?" Leonel riu-se. "Por me teres ameaçado, claro. Por teres tentado sabotar a minha carreira. Juliette contou-me tudo." Hugo olhou para Juliette, incrédulo. Ela tinha acreditado na sua mentira forçada e agora estava a usá-la contra ele. "Isso não é verdade," disse Hugo, a sua voz fraca. "Não interessa," disse Juliette, levantando-se. Ela aproximou-se da cama, o seu perfume caro a encher o ar. "Vais pedir desculpa ao Leonel. Agora." Dois seguranças corpulentos entraram no quarto, posicionando-se atrás de Juliette. A mensagem era clara. Hugo olhou para os rostos impassíveis dos seguranças, para o sorriso trocista de Leonel, e para o olhar gelado de Juliette. Ele sentiu-se encurralado, impotente. "Desculpa," murmurou ele, sem olhar para Leonel. "Não ouvi," disse Leonel, aproximando-se. "Pede desculpa como deve ser, Hugo," insistiu Juliette. "Ou os meus homens vão ajudar-te a encontrar a tua voz." Com o maxilar cerrado, Hugo olhou para Leonel. "Peço desculpa por te ter dito para te afastares da Juliette." Leonel sorriu, satisfeito. Ele virou-se para Juliette e beijou-a longamente, à frente de Hugo. "Estás a ver? Eu disse-te que ele era fácil de domar." Depois do beijo, Leonel afastou-se de Juliette e disse com um ar dramático: "Juliette, meu amor, depois disto... acho que não podemos continuar. Este homem, o teu marido, está entre nós. É uma sombra constante." Juliette pareceu alarmada. "O que queres dizer, Leonel? O que posso fazer?" Leonel olhou para Hugo com desprezo. "Divorcia-te dele. Livra-te dele. Só assim poderemos ter um futuro." O mundo de Hugo desabou. Divórcio. A palavra ecoou na sua cabeça. Juliette não hesitou. Ela olhou para Hugo, o seu rosto uma máscara de indiferença. "Ouviste. Vamos divorciar-nos. Vou dar-te uma compensação generosa. Podes comprar uma casa, viver confortavelmente. Mas vais desaparecer da minha vida." Leonel passou o braço à volta da cintura de Juliette. "E vamos anunciar o nosso noivado na próxima gala de caridade. Vai ser o evento do ano." Eles saíram do quarto, rindo, deixando Hugo sozinho com os seguranças e o eco das suas palavras. O amor não era nada. Era uma transação. E ele tinha acabado de ser vendido pelo preço de um novo brinquedo.

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