Entre Lençóis e Negócios
Capítulo 1 Bonnie Dawson

Acordei de novo antes do despertador. O quarto ainda estava meio escuro, iluminado apenas pela luz tênue que passava pelas frestas da persiana, e o silêncio da manhã era tão pesado, quanto o aperto no meu peito. Acima da cafeteria, o pequeno apartamento que herdei junto com o negócio, era o único lar que Noah e eu conhecíamos. Era simples, antigo e com um cheiro constante de café moído o que, honestamente, era melhor do que o cheiro de desespero que às vezes parecia tomar conta. Me espreguicei com esforço e me sentei na beirada da cama por um segundo, tentei respirar fundo como se isso fosse organizar meus pensamentos, mas não funcionou. Me levantei devagar, fazendo o mínimo de barulho possível para não acordar Noah no quarto ao lado e a última coisa que ele precisava, era ver minha cara de derrota logo pela manhã. Na cozinha, preparei o café quase no automático. A cafeteira chiava e soltava aquele aroma que, em outros tempos, me trazia conforto, hoje, só me lembra das contas. O envelope do banco ainda estava ali, sobre a bancada, como se me observasse. Me sentei à mesa com a caneca quente nas mãos, os olhos fixos naquela carta dobrada. Eu já sabia o que dizia, mas mesmo assim, abri mais uma vez, como se torturar minha esperança fosse um hábito matinal. Prezada senhora Bonnie Dawson, informamos que o processo de execução hipotecária referente à propriedade, será iniciado em 30 dias, caso não haja regularização da dívida. Casa e cafeteria, as duas coisas que me restaram dos meus pais. Trinta dias. Era tudo o que eu tinha. Fechei os olhos e tentei manter a calma, meus pais não tinham deixado herança, fortuna ou garantias. Tinham me deixado esse prédio de dois andares, a cafeteria embaixo, lar em cima e um irmão de oito anos que ainda sonhava em pintar a fachada de amarelo com flores vermelhas na porta. Trinta dias. Passei as mãos no rosto, afastando o cansaço, Noah ainda dormia no quarto ao lado, respirei fundo, me obrigando a parecer forte quando abrisse a porta do quarto dele. - Noah? Hora de acordar, amor - chamei com suavidade. Ele se mexeu devagar, enfiando o rosto no travesseiro antes de se levantar com um bocejo enorme. - Já? Mas eu estava sonhando que na cafeteria tinha um dragão! - murmurou, os cabelos bagunçados e os olhos ainda pesados de sono. - Que bom! Talvez o dragão ajude com os boletos - respondi baixinho, mais para mim mesma. Dei o café da manhã a ele, ajudei com o uniforme, penteei seu cabelo rebelde e conferi o lanche na mochila. - Pronto, guerreiro? - perguntei, entregando a mochila nas costas dele. - Pronto! Mas hoje você me leva com a joaninha, né? - Claro. A joaninha sempre cumpre sua missão - forcei um sorriso. Descemos juntos os fundos da cafeteria, e ele correu até o fusquinha vermelho estacionado no beco lateral. O carro tossia antes mesmo de ligar, como um velho ranzinza, mas ainda era nosso único meio de transporte. - Vai, mana, acelera! - Noah gritou, animado, assim que entrou. - Isso aqui não é uma Ferrari, pequeno - retruquei, dando partida e torcendo para o motor colaborar. Pegamos a rua principal com o trânsito começando a esquentar. Noah cantava baixinho no banco de trás, e eu olhava de um lado para o outro, tentando prever os movimentos malucos dos motoristas ao redor. Faltava apenas uma quadra para chegar à escola, quando meu telefone vibrou no painel. Olhei por um segundo e era do Banco Central, o meu coração acelerou, a respiração ficou curta. Seria um retorno? Uma chance? E foi nesse segundo, um único segundo que quando voltei os olhos para a frente, o carro já estava perto demais. - Merda! - gritei, pisando no freio. Mas era tarde. O som do impacto me fez gelar. A frente da joaninha encontrou com a traseira impecável de um SUV preto, brilhante, que parecia recém-saído de um comercial de TV. Noah soltou um gritinho de susto, e eu instintivamente estiquei o braço à frente dele, mesmo com o cinto preso. - Você tá bem?! - virei para ele, o coração martelando no peito. - Tô bem! - ele respondeu, assustado, mas ileso. Saí do carro correndo, o coração aos pulos, dei a volta, engolindo o pânico, e encarei o estrago. A joaninha agora tinha mais personalidade do que nunca, pena que isso significava um prejuízo que eu jamais poderia pagar, e então, com o estômago revirando, levantei os olhos. A porta do SUV se abriu devagar, como se até isso tivesse sido ensaiado, o homem que saiu dali parecia esculpido por deuses, alto, ombros largos, terno impecável, cabelo penteado para trás, e uma expressão de puro desgosto. Ele passou as mãos pelo rosto, como quem não acredita no que acabou de acontecer. - Mas é claro... - murmurou para si mesmo, fechando a porta com firmeza. - Como se meu dia já não tivesse começado uma merda. - Moço... eu sinto muito! - me adiantei, encolhendo os ombros, o rosto pegando fogo. - Eu... eu tava levando meu irmão para a escola e... foi só um segundo. Eu vou pagar! Nem que leve a vida inteira, mas eu vou pagar! Ele virou o rosto lentamente na minha direção, os olhos dele de um azul quase cortante pousaram em mim com intensidade, mas nada disse e o meu corpo todo se arrepiou com aquilo. - Eu juro que não costumo dirigir distraída - continuei, nervosa. - Só... só me dá um tempinho. Não tenho como pagar agora, mas... - Pare. - Ele levantou a mão. A voz era baixa, autoritária. Engoli em seco. - Só me dá os seus dados que o meu advogado entra em contato - completou ele, tirando o celular do bolso com impaciência. Voltei para o carro correndo, peguei minha bolsa no banco do carona e peguei um papel e caneta que sempre carregava por precaução e no meio da tremedeira anotei tudo o que precisava e voltei até o homem e entreguei o papel. Ele pegou o papel sem nem sequer olhar muito, apenas assentiu e voltou para dentro do carro. Eu voltei para a joaninha, entrei no banco do motorista com as mãos ainda tremendo e olhei para Noah. - Tá tudo bem, amor? - perguntei, tentando recuperar o fôlego. - Tô bem. Só... assustado. Você vai ter que pagar o carro dele? - É... mas a gente dá um jeito. - Sempre dá. Assenti devagar, engolindo seco. Dei partida novamente. A joaninha, milagrosamente, ainda funcionava. Dirigi até a escola com cautela redobrada, deixei Noah no portão e só voltei a respirar quando ele sumiu pelos corredores. E eu? Eu ainda não sabia o nome daquele homem. Mas aquele carro, o acidente... ia mudar tudo em minha vida.

Capítulo 2 Bonnie Dawson

O mesmo prédio frio e reluzente de sempre, as paredes de vidro, as plantas falsas, o som metálico dos saltos de executivos apressados. Parecia que tudo ali dentro pulsava em um ritmo que eu nunca tinha aprendido a acompanhar. Enquanto esperava ser chamada, apertei os papéis do meu plano de negócios contra o colo com força, precisava apenas que o gerente me desce a oportunidade olhando o que eu tinha planejado, talvez ele ficasse com pena e me liberando o valor que precisava ao menos para não sermos despejados, não agora. Tudo rabiscado com noites sem sono e esperança de sobra. Finalmente, o gerente baixinho e careca apareceu usando a sua camisa branca impecável, gravata azul escura, sorriso que parecia colado com fita adesiva. - Senhorita Dawson, pode me acompanhar, por favor? - me levantei como quem caminha para a linha de tiro. A sala era minimalista e fria, a cadeira de couro fez um rangido sutil quando me sentei. Ele se acomodou do outro lado da mesa com uma postura quase clínica, entreguei a pasta para ele e em seguida digitou algo no computador, olhou meus papéis, conferiu os números. E tudo ficou em silencio, exceto pelo barulho dos seus dedos batendo em cada tecla do seu computador e isso era o bastante para deixar meu coração na garganta. - Então... senhorita Dawson - ele começou, com aquela voz treinada, empática na medida. - Nós analisamos sua solicitação, conforme os documentos enviados, e, infelizmente, não será possível conceder o empréstimo no valor solicitado. Eu não disse nada de imediato, o ar parecia mais denso, mais frio. - Mas... - tentei sorrir, ou talvez implorar - é para salvar meu negócio. Um pequeno café, sabe? Local, familiar. Eu... eu tenho planos. Só preciso de tempo. Mais três meses e posso equilibrar as contas. Está tudo aqui. - Empurrei os papéis na direção dele com delicadeza, quase como se eles pudessem falar por mim. Ele os olhou com uma expressão gentil, quase piedosa. - Eu entendo, de verdade. Mas a renda atual e o histórico financeiro ainda estão muito comprometidos. Seu comprometimento com o crédito anterior, os atrasos registrados, somado à instabilidade de fluxo no negócio... E então veio o sorriso, aquele sorriso corporativo: educado, polido, vazio. O tipo de sorriso que transforma um "não," em algo que deveria parecer civilizado, mas machuca do mesmo jeito. - Não podemos correr esse risco. - Foi como levar um tapa com luva de veludo. Respirei fundo engolindo seco, a minha garganta ardia, mas me recusei a chorar ali na frente dele. Apenas assenti, peguei meus papéis de volta e agradeci. Saí do banco com o mundo pesando nos ombros. O vento estava gelado, mas foi o silêncio que mais doeu. Aquele era o quarto banco a me dizer "não." Quatro reuniões, quatro recusas, quatro vezes ouvindo que meu sonho não era suficiente, que minha luta não compensava o risco. Caminhei até o carro sentindo como se tivesse deixado pedaços de mim naquela sala estéril. Dirigir de volta para o Little Spoon, foi automático. Eu não tinha forças para pensar, gritar e nem para desmoronar, não quando Noah dependia de mim. E aquela cafeteria, mesmo respirando por aparelhos, ainda existia. Ainda era nossa, e eu ainda estava de pé, mesmo em pedaços. Fui até o carro como um fantasma. Abri a porta da joaninha com movimentos lentos, me joguei no banco e fechei os olhos. Por um instante, senti o volante gelado contra a testa. Não agora. Não chora agora. Noah estava na escola e mais tarde precisava buscá-lo e tinha que fingir que estava tudo bem. Que a cafeteria ainda era nossa. Liguei o carro. A joaninha resmungou, tossiu, e, como sempre, aceitou a batalha. Dirigi até o Little Spoon sem pensar. As ruas passavam borradas. As lojas, os postes, os rostos - tudo se misturava em minha visão turva. Estacionei no beco dos fundos, desci e olhei para a fachada apagada da cafeteria. Estava tudo ali, o trabalho dos meus pais, meus sonhos e a infância do Noah. As lembranças que a vida tentou deixar para trás e agora... tudo isso estava por um fio. Apoiei a testa na porta de vidro e sussurrei: - Só mais um pouco, tá? Só mais um pouco, por favor. E enquanto eu estivesse de pé, o Little Spoon ainda tinha uma chance. London Alguns dias começam errados. Outros parecem planejados para te derrubar. Acordei com o humor de um touro ferido. Esfreguei o rosto ainda deitado, como se isso pudesse me preparar para o que viria. Mas nada poderia. Já sentia que aquele, seria o tipo de dia que se arrasta - e ainda pisa em você. Levantei com preguiça e atravessei o quarto com passos pesados. A luz fraca da manhã filtrava pelas persianas, e a casa parecia quieta demais. Na cozinha, o cheiro de café fresco me alcançou antes mesmo de eu chegar ao balcão. Peguei minha caneca preta favorita e dei um gole sem pensar. Arregalei os olhos e me engasguei levemente. - Mas que droga é essa? - murmurei, afastando a caneca como se ela tivesse me mordido. - Bom dia, senhor Turner! - disse Inácia, minha governanta, entrando pela porta com seu típico sorriso gentil e vestido florido. - Bom dia, Inácia... - soltei, com a voz arrastada e olhar morto. - Ou algo perto disso. Ela me observou, os olhos atentos como de uma mãe experiente. - O que aconteceu? Tá com essa cara de quem perdeu uma ação na bolsa e caiu da cama ao mesmo tempo. - Só comecei o dia com o pé esquerdo - ironizei, largando a caneca na pia. - E até o café resolveu me trair hoje. Isso aqui tá mais amargo que minha infância no internato. Inácia riu baixo, já abrindo a geladeira como se procurasse uma solução mágica para o meu mau humor. - Bom... então acho que não vai gostar da notícia que eu tenho. Meu olhar foi direto para ela. A expressão se fechou ainda mais. - Por favor, não me diz que você queimou os croissants. Qualquer coisa, menos... - Sua avó - ela interrompeu, sem perder a calma. - Ligou ontem à noite. Chegou em Nova Iorque e quer te ver hoje. Fechei os olhos e joguei a cabeça pra trás, como se estivesse tomando um soco imaginário. - Droga... - Eu sabia - disse ela, rindo e apoiando as mãos na cintura. - Você faz essa cara toda vez que ela aparece sem avisar. - O que ela quer agora? Medir meu nível de responsabilidade com fita métrica? Inácia deu de ombros, como quem já viu esse filme antes. - Só disse que precisa falar com você. E que é urgente. - Claro que é. Sempre é. - E o que eu digo quando ela ligar de novo? - ela cruzou os braços. - Porque vai ligar. Ou pior, vai aparecer aqui de surpresa. - Diz que eu passei a noite fora - respondi sem pensar, pegando as chaves do carro em cima da bancada. - Diz que fui... sei lá... jantar com um ministro em Paris. Qualquer coisa. Amanhã eu resolvo. Ela arqueou uma sobrancelha. - Vai fugir da própria avó, London? - Não estou fugindo - retruquei, indo em direção à porta. - Estou... adiando o inevitável. E se você me ama, Inácia, não me entrega. - Deus me livre. Mas que eu vou rir quando ela te pegar, ah, isso vou. - Ria baixinho então - respondi, já atravessando o corredor. Desci até a garagem como quem caminha para a cova. Cada passo ecoava nas paredes silenciosas da casa, e tudo parecia compactar meu humor ainda mais. Destranquei o carro, joguei a pasta no banco do passageiro e me afundei no banco como quem vai para a guerra. Mal girei a chave na ignição, o telefone vibrou no console. Olhei de relance: mensagens acumuladas do escritório. Ignorei. Já estava atrasado. A H. Turner Corp. me esperava com relatórios, rostos carrancudos e reuniões que pareciam interrogatórios. E, como se não bastasse... agora tinha que lidar com minha avó também. Apertei os olhos e suspirei, engatando a marcha. - Que venha o inferno. Já estou vestido para isso mesmo.

Capítulo 3 London Turner

O sinal ainda estava vermelho, e meu carro parado no meio da avenida parecia o reflexo perfeito da minha paciência naquela manhã: esgotada. A reunião mais importante da semana começaria em menos de trinta minutos, eu já estava atrasado, e minha cabeça ainda martelava os resquícios da noite mal dormida. Levei as mãos à nuca e fechei os olhos por um instante. Foi aí que veio a pancada. Um som seco, metálico, preciso, como um aviso, ou uma maldição. O SUV tremeu com o impacto na traseira, e o primeiro pensamento que tive foi: "Sério? Agora?" Fechei os olhos com força. Respirei fundo. Desci do carro com a expressão dura e o maxilar travado, preparado para despejar um sermão no primeiro sinal de imprudência. Mas então... eu a vi. Uma mulher correndo em minha direção, visivelmente apavorada. Tinha o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto tenso, os olhos arregalados. Falava rápido. Muito rápido. Eu não entendi metade das palavras. Só fragmentos. Ela gesticulava demais, a voz falhava de vez em quando, e por um instante, eu só observei. Não consegui focar no que ela dizia. Só na maneira como dizia, tinha algo nela que me pegou desprevenido, a maneira como olhava direto nos meus olhos mesmo tremendo, a forma como parecia mais preocupada com o carro dela do que com o meu. Ela era o completo oposto do mundo em que eu vivia, e por algum motivo... isso me prendeu. - Me dá seus dados - foi tudo o que consegui dizer, interrompendo o turbilhão de palavras que ela despejava no ar. Foi para o seu carro e voltou com um pedaço de papel e me entregou como quem entrega um pedaço de si, peguei o papel, assenti com a cabeça e entrei de volta no carro. Mas mesmo quando o motor voltou a roncar, mesmo quando o trânsito enfim andou... a imagem dela não saiu da minha mente, era só mais uma batida de trânsito, mas algo me dizia... que aquele encontro não terminaria ali. *** A imagem dela ainda estava na minha cabeça. A mulher do carro amassado, cabelo preso de qualquer jeito, olhos grandes e mãos tremendo enquanto tentava juntar frases. Bonnie Dawson. Não era o tipo de pessoa que normalmente me chamaria atenção. E mesmo assim, ali estava eu, parado no sinal, com a mente rodando nela, como se aquele acidente tivesse sacudido mais do que o para-choque do meu carro. Cheguei à sede da H. Turner Corp. feito um furacão, as portas de vidro se abriram com o sussurro automático, e a recepcionista imediatamente abaixou os olhos para o monitor. Um funcionário do financeiro se desviou discretamente no corredor. O pessoal do marketing fingiu estar mais ocupado do que de fato estava. Eles me chamavam de Carrasco, embora nunca dissessem em voz alta. E eu preferia assim. Meus passos ecoavam no mármore do saguão. O barulho do meu sapato contra o chão era quase coreografado. A tensão no ar era familiar. Contagiante. Subi direto até o andar da presidência. Adam veio atrás de mim logo que saí do elevador, com uma pasta de relatórios embaixo do braço e aquele sorriso debochado que só ele conseguia manter diante do meu humor matinal. - Você tá mais azedo do que de costume - provocou, erguendo uma sobrancelha enquanto me acompanhava pelo corredor. - A vida colabora - respondi seco, empurrando a porta do meu escritório. Entrei e joguei o paletó com força sobre a poltrona de couro, afrouxando a gravata com um puxão rápido, como se isso pudesse aliviar a pressão no peito. Adam me seguiu e parou na porta, curioso. - O que aconteceu? - perguntou. - Perdeu alguma ação ou pisaram no seu ego? - Fui batido - soltei, sem rodeios, me sentando com força na cadeira. - Batido? - ele arregalou os olhos. - Tipo... em um carro? No seu carro novo? - Exatamente. Uma batida bem dada, para deixar claro que meu dia ainda tinha espaço para piorar. Adam riu com gosto, apoiando-se na lateral da estante. - E quem foi o infeliz? - Uma mulher - murmurei, esfregando o rosto com as duas mãos. - Cabelo bagunçado. Voz trêmula. Com cara de quem tá tentando salvar o mundo vendendo café com leite e sonhos amassados. - Então você foi atropelado por uma cafeteria? - ele zombou. - Uma cafeteria ambulante - rebati, tirando o papel dobrado do bolso do paletó e jogando sobre a mesa. - Bonnie Dawson. Peguei os dados. Pedi para o jurídico calcular o conserto. - E... vai cobrar? - Não. Quero que transfiram o valor direto pra ela. Só resolve isso - respondi, abrindo o notebook e evitando o olhar dele. Adam, no entanto, não era do tipo que deixava passar. Ele estreitou os olhos, cruzou os braços e se aproximou devagar, como se analisasse uma peça rara. - Tá me dizendo que o inflexível, o implacável CEO da H. Turner Corp., tá distribuindo cheques agora? Assim? Por empatia? - Não é empatia - rebati, sem convicção. - Então é o quê? Suspirei e passei as mãos pelas têmporas, tentando tirar a imagem dela da cabeça. Mas ela não saía. - Ela parecia que não dormia a dias... abatida ou cansada... - disse, mais pra mim do que para ele. - Mas de pé, como alguém que já deveria ter desabado, mas insiste em continuar. Me irritou... e me prendeu ao mesmo tempo. Adam soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. - Isso vindo da sua boca... soa perigoso. - Talvez seja. Mas não falei mais nada, porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não fazia ideia do que vinha a seguir. E isso vindo de mim era o mais perigoso de tudo, antes que eu pudesse retrucar, Sophie surgiu na porta, com a pasta na mão e a testa franzida. - Senhor Turner - ela disse, cautelosa, - sua avó está na sala de reuniões. - O quê? - levantei os olhos de imediato. - Chegou há vinte minutos, está te esperando. Disse que é urgente. Meu estômago deu um giro seco. Quando Eleonor Turner aparece sem marcar horário, não é por saudade. É por bomba. Ela estava sentada à cabeceira da mesa de reuniões como uma imperatriz que nunca abdicou do trono. A bolsa de couro perfeitamente alinhada no colo, os dedos entrelaçados sobre ela, o rosto sem uma ruga fora do lugar. Imóvel. Intimidadora. E completamente no controle.

Continuar lendo