Os Imortais
Capítulo 1 A Profecia

Norte da Itália, 1800. O crepúsculo descia preguiçoso sobre as Dolomitas, tingindo de cobre e violeta as encostas ainda frias da primavera. O vento cortante agitava as tendas coloridas do acampamento cigano, tremulando sobre estacas tortas e arcos de madeira. Carroças enfileiradas formavam vielas estreitas, e o aroma de ervas queimadas misturava-se ao cheiro doce da madeira úmida e do pão fresco. Pequenos lampiões pendurados nas carroças lançavam círculos de luz trêmula sobre a terra batida, enquanto fogueiras espalhadas lançavam faíscas que dançavam sobre a relva molhada. O som distante de uma flauta ou do martelar em uma bigorna trazia vida às sombras que se alongavam, tornando o acampamento ao mesmo tempo acolhedor e inquietante. Crianças corriam entre as carroças, espiando com olhos atentos, e mulheres com véus bordados observavam de longe, mãos cruzadas sobre o peito, apreensivas. Seis cavaleiros avançavam pelo descampado em absoluto silêncio. À frente vinha ele - Drago Farkas. Ao desmontar, a luz das fogueiras revelou-lhe o rosto impecável, quase esculpido em mármore. Sua pele era clara, quase, translúcida; os cabelos castanhos escuros caíam longos até a nuca, moldando a testa ampla e as maçãs do rosto altas; uma barba rala delineava o queixo forte. Os olhos castanhos claros profundos e dourados, capturavam a luz das chamas, irradiando uma beleza fascinante e inquietante, capaz de prender olhares e silenciar murmúrios. Cada movimento seu era preciso, elegante, quase sobrenatural, e até o vento parecia contornar-lhe o corpo ao passar. Os cinco cavaleiros que o seguiam eram sombras de seu próprio porte — igualmente belos, igualmente distantes, movendo-se como espectros pelo acampamento. Crianças recuavam entre as tendas, os cães cessavam o latido, e até os adultos que se aventuravam pelo caminho baixavam a cabeça, como se presenciassem algo antigo e sagrado. Guiado por um dos anciãos, Drago atravessou o estreito corredor entre carroças e tendas até a tenda comunal. O espaço maior que as demais tendas estava envolto em fumaça e aromas de ervas queimadas. Lamparinas pendiam do teto e iluminavam rostos marcados pelo tempo, projetando sombras que se contorciam nas paredes de lona. O conselho aguardava em silêncio — rostos enrugados, cicatrizes de vidas longas, olhos atentos e cautelosos. Ao fundo, sobre um tapete de peles e cercada de cristais e ervas pendentes, estava a ‘drabarni’ - a vidente, seus olhos âmbar profundos parecendo atravessar o espaço e o tempo. Drago curvou-se levemente diante do patriarca, a voz grave e medida: — Recebi vossa convocação, ‘baro’. Mas o momento é perigoso. Estar tão perto do acampamento... pode atrair olhares indesejados. Dizei-me: por que chamastes a mim e ao meu bando? O patriarca do clã Kalderash trocou um olhar breve com a drabarni antes de responder, a voz rouca e carregada de reverência: — Porque ela viu o que esperávamos há gerações. O presságio se cumpriu. A vidente ergueu o rosto, e suas palavras vieram lentas, carregadas de peso e mistério: — No inverno, nascerá aqui a criança prometida. Aquele que trará equilíbrio entre os mundos. Não é um retorno... é um evento único, esperado e reverenciado. Um só nascimento, um só destino. Drago silenciou por um instante, como se deixasse o ar ao redor pesar com o significado do que acabara de ouvir. Quando ergueu o olhar para a vidente, seus olhos ardiam com uma gravidade antiga, e sua voz soou firme, carregada de uma solenidade que fez o fogo da tenda parecer vacilar: — Se o destino realmente traçou esse caminho, então que assim seja. A criança trará a marca da lua — uma cicatriz natural sobre a pele, como se o próprio céu tivesse tocado sua carne para assinalar o rumo que deverá seguir. Todos nós a reconheceremos quando o momento chegar, pois essa marca será o selo da profecia. Ele se endireitou, respirando fundo, como quem já sente o peso da partida antes mesmo de caminhar. — Mas enquanto eu permanecer aqui, o clã estará em risco. As sombras se movem mais rápido do que podemos perceber… e há olhos demais observando. Partirei na próxima noite. Viajarei por onde o vento levar, e voltarei apenas quando o tempo tiver revelado se a criança é, de fato, a escolhida. Por um instante, o silêncio dentro da tenda pareceu se expandir, como se o próprio destino prendesse a respiração. Lá fora, o vento mudou de direção, carregando o aroma da terra úmida, das ervas e da neve derretida. As fogueiras lançavam sombras que se alongavam, dançando sobre tendas e carroças. Por um instante breve, quase imperceptível, as sombras de Drago e de seu bando pareceram se fundir à noite que os trouxera, como se o próprio escuro reconhecesse sua presença ancestral. Enquanto se retirava da tenda, alguns membros do acampamento o observavam em silêncio. Não era apenas respeito que sentiam — era algo mais antigo, quase reverencial. Drago, com o andar elegante e quase sobrenatural, atravessava o acampamento como se pertencesse a outro mundo, deixando atrás de si um rastro de inquietação e admiração, e a certeza de que aquele momento jamais seria esquecido. … Meses depois, o inverno descia sobre as montanhas com punhos gelados. A neve caía densa, cobrindo o acampamento cigano como um manto branco, e o vento cortante fazia as tendas e carroças rangerem como se protestassem contra a vida que ali se mantinha. Haviam se deslocado mais para sul das montanhas de Lessinia para um local menos insípido. Ainda assim, em meio ao frio e à escuridão, o acampamento respirava. Pequenas fogueiras crepitavam, lançando faíscas ao vento, e mulheres ocupadas em tarefas domésticas caminhavam rapidamente entre as carroças, aquecendo água ou preparando ervas para o parto que se aproximava. Dentro de uma pequena carroça, a respiração da mulher soava pesada, ritmada, quase como se desafiasse o inverno. Apenas mulheres estavam presentes: a mãe, Milena Bari, a velha drabarni e algumas ajudantes do acampamento, formando um círculo silencioso, repleto de respeito e concentração. Lá fora, Ruvim Bari permanecia junto à porta da carroça, a neve cobrindo seu manto, os olhos fixos na madeira que o separava do seu bebê que ainda não conhecia. Ele sentia cada som e cada movimento com ansiedade, mas sabia que não podia entrar. Quando a criança nasceu, o choro forte da menina cortou o silêncio da noite como uma trovão. Nasceu pequena, mas vigorosa, ela parecia desafiar o inverno, agarrando-se à vida com força surpreendente. A drabarni aproximou-se, com gestos firmes e cuidadosos, e examinou a pele da criança. Então, seu olhar iluminou-se. Sobre a pequena clavícula da menina, havia a marca da lua — circular e delicada, como se o próprio céu tivesse traçado o destino da criança desde o nascimento. A vidente ergueu a cabeça e falou com voz firme, quase reverente, para as mulheres ao redor: — A profecia se cumpriu. Esta é a criança prometida. Fora da carroça, Ruvim sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Ele não podia tocar a filha ainda, mas a voz da drabarni, carregada de solenidade, chegou até ele: — E saibam, homens do acampamento — disse, virando-se para a porta onde Ruvim esperava —, que em alguns anos, Drago virá reivindicá-la. A neve continuava a cair, cobrindo o acampamento e silenciando tudo ao redor, como se quisesse proteger aquele momento sagrado.  Ruvim, ainda do lado de fora, permaneceu observando a carroça por um longo instante, sentindo uma mistura de temor e reverência. Dentro, a menina pequena mas já cheia de força dormia nos braços de sua mãe, marcada pelo destino, ainda alheia às forças que a aguardavam e às sombras que a protegiam — silenciosas, vigilantes e antigas, como Drago e seu bando, sempre à espreita, mesmo na noite mais rigorosa.

Capítulo 2 O Retorno

Norte da Itália, 1825. Vinte e cinco anos haviam se passado desde aquele inverno em que a profecia se cumprira. Liliana Bari caminhava pelo acampamento como sempre: pequena, mas de presença magnética; pele clara como porcelana, cabelos longos em tom de chocolate escuro que caíam em ondas sobre os ombros, e olhos verdes com toques de mel que brilhavam com vivacidade e desafio. Ao mesmo tempo sonhadora e rebelde, era conhecida pelo sorriso travesso, pelas respostas afiadas e pela audácia que irritava e encantava o clã. Naquele dia, Liliana estava à beira do rio, jogando pedras na água e observando os círculos se abrirem e sumirem, como se o rio fosse o único capaz de ouvir seus pensamentos sem julgá-la. Logo, vieram as risadinhas familiares — as moças do acampamento, enfeitadas, já casadas, e perigosamente entediadas. Aproximaram-se em grupo, trocando olhares mal disfarçados de ciúme. — Vinte e cinco anos, Liliana! — disse uma, ajeitando o lenço de seda na cabeça. — Ainda esperando o tal Drago? Ou vai se casar com o rio de uma vez? Liliana ergueu o olhar, calma como sempre, arqueando uma sobrancelha com um sorriso que misturava doçura e desdém. — Casar com o rio parece tentador — respondeu. — Ele não interrompe, não dá conselhos tolos e, veja só, nunca tenta me dizer o que devo fazer. As moças riram, meio por nervosismo. Uma delas retrucou, a voz fina de inveja mal disfarçada: — É fácil falar assim quando todos os rapazes do acampamento te olham como se você fosse o sol. Liliana soltou uma risada breve, inclinando a cabeça. — Ah, é? Então talvez seja por isso que vocês vivem na sombra. Houve um silêncio curto, seguido por um riso engasgado de uma das mais jovens. Outra, a mais ousada, deu um passo à frente: — Se você fosse um pouco menos orgulhosa, Liliana, já estaria casada como o destino quis. — E perder toda essa diversão? — respondeu ela, jogando outra pedra no rio. — Além do mais, gosto de ver o destino se contorcendo quando alguém não obedece de primeira. — Um dia, Drago vem buscar você — disse uma, meio debochada. — Aí quero ver se ainda vai rir. Liliana fingiu pensar por um momento, o sorriso se abrindo lentamente. — Talvez eu ria mais. — Ela piscou. — Dizem que ele é bonito o suficiente pra compensar a tragédia. As moças gargalharam — algumas de verdade, outras só para esconder o incômodo. Do outro lado do acampamento, a voz de Milena Bari ecoou, firme: — Liliana! Filha! Não me faça te procurar de novo! Liliana suspirou, sacudindo a saia antes de se levantar. — Pois é, meninas… o dever chama. — E, antes de sair, lançou um último olhar provocador: — Tentem não falar muito de mim depois que eu for, sim? Ou o rio pode ficar com ciúmes. As jovens se entreolharam, divididas entre a irritação e o riso. Liliana atravessou a margem com a leveza de quem sabia o próprio valor. Milena a envolveu num abraço apertado, e Liliana, travessa, murmurou entre risos: — Prometo, mãe, não vou virar pedra no rio. Ainda tem muita língua pra eu deixar enrolada por aqui. Milena suspirou, mas o sorriso traiu o sermão que não veio. Liliana era fogo — e o rio, talvez, o único capaz de não se queimar. Pouco depois, Liliana foi conduzida à tenda comunal. Aromas de ervas e incenso preenchiam o espaço, e lamparinas lançavam luz trêmula sobre os rostos sérios do patriarca, da drabarni e de seus pais. A vidente ergueu os olhos, âmbar e penetrantes, e falou com firmeza: — Liliana, tive uma visão. Drago está próximo. A profecia deve se cumprir. Por um instante, o ar pareceu fugir dos pulmões de Liliana. Ela piscou, confusa, a pedra que segurava escorregando de sua mão e caindo na terra úmida com um som seco. Ficou imóvel, tentando decifrar o que ouvira — como se a frase ainda ecoasse dentro dela, estranhamente distante e inevitável. — Drago? — repetiu, a voz um pouco mais baixa, quase incrédula. Depois, franziu a testa, cruzou os braços e retomou o tom firme, agora com um fio de tensão que traía o desconforto. — Um guardião do clã? Por que eu? Por que essa profecia me escolheu? Por que não outro? A pergunta saiu quase como um desafio — não apenas ao destino, mas à própria ideia de que sua vida pudesse ser decidida por visões e tradições antigas. O patriarca respirou fundo e, apoiado em seu cajado, começou a explicar com solenidade: — Drago não é apenas um guardião. Ele é um Strigoi, um vampiro milenar. Sua existência atravessa séculos, e durante todas essas gerações ele protegeu nosso clã. Ele é a sombra que vigia nossos inimigos, a força que nos mantém vivos quando o mundo se fecha contra nós. Sem ele, os Kalderash não teriam sobrevivido. A drabarni acrescentou, a voz carregada de peso ancestral: — Ele não é um homem comum, Liliana. Ele é força e vigilância, silencioso e impassível. Por muitas gerações, devemos a ele nossa vida. E agora, você — a criança da profecia — cresceu. O equilíbrio entre mundos depende de você e de seu destino com ele. Liliana mordeu o lábio, o coração acelerado, mas a ponta do lábio curvava-se num sorriso travesso, mesmo diante da magnitude da revelação: — Equilíbrio entre mundos? E se eu não quiser? E se eu me recusar a me tornar parte desse tal equilíbrio? — ela ergueu os ombros, desafiadora, mas havia um leve tremor em sua voz. O patriarca respirou fundo, sério: — Liliana, algumas forças são maiores que nosso querer. O destino escolhe antes de nós. Sua força, sua coragem, sua vida… tudo isso é parte de algo maior. Drago protegerá você, e você completará aquilo que começou no instante em que nasceu. Liliana fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como quem saboreia a contradição antes de engoli-la. Quando voltou a erguer o olhar, a rebeldia ainda cintilava ali, viva e provocante. Um canto de sorriso se formou, carregado de sarcasmo. — Então, que seja — disse, com um suspiro teatral. — Mas que fique claro: aceitar não é o mesmo que concordar. Ela deu de ombros, girando o colar entre os dedos com desdém controlado. — E se o destino quer me usar como peça, que ao menos saiba… eu não jogo fácil. … A noite caía espessa sobre as Dolomitas, e o acampamento cigano ardia sob o brilho das fogueiras. As mulheres dançavam em círculo, saias rodadas e véus coloridos girando em torno das chamas, enquanto flautas e tambores traçavam o pulso antigo dos cânticos Kalderash. Risadas, passos e o cheiro de madeira queimada se misturavam no ar vibrante. No centro, Liliana Bari girava entre as outras, leve e intensa, o fogo refletido nos olhos verdes com toques de mel. Pequena e graciosa, atraía olhares sem esforço; seu sorriso e o ritmo natural dos movimentos davam a impressão de que a própria dança nascera com ela — como se o sangue ancestral guiasse cada gesto. Enquanto o clã se entregava à festa, ninguém percebeu primeiro a presença dos estranhos que surgiu no limite da clareira, entre sombras e árvores. Vestido com mantos escuros que se misturavam à noite, ele montava sua postura inconfundível, alta e elegante, acompanhado de seu bando, cada um movendo-se com a precisão silenciosa e quase sobrenatural de quem está acostumado a vigiar e proteger. A luz da fogueira refletia em sua pele clara e em seus olhos penetrantes, revelando uma beleza impossível de ignorar, uma aura que parecia atravessar o tempo. Drago observava o círculo de mulheres dançantes com a paciência silenciosa de um predador antigo, cada movimento refletindo no brilho âmbar de seus olhos. O fogo iluminava rostos, tecidos, risos — tudo se misturava em um só pulsar de vida. E então, num instante que pareceu suspender o tempo, ele a viu. Liliana. O olhar dele se fixou nela como se o mundo ao redor tivesse perdido a cor. Algo em seu corpo — talvez o próprio sangue ancestral — reconheceu antes mesmo que a mente pudesse reagir. Ela não dançava: flutuava. Pequena como uma bailarina de caixa de música, sim, mas com uma presença tão intensa que o ar ao redor parecia se dobrar para acompanhá-la. Cada giro deixava um rastro de luz no olhar de Drago; cada risada contida, uma nota que o feria de espanto e fascínio. Havia nela algo que não pertencia inteiramente àquele tempo — algo que ele lembrava das visões, das vozes antigas que murmuravam sob a lua. E foi ali, entre o fogo e o canto distante, que ele soube. Sem precisar de confirmação, sem dúvida alguma: a criança da profecia estava diante dele. Adulta agora — e tão viva, tão diferente do que sonhara — que, por um breve segundo, Drago esqueceu o próprio destino e apenas a observou, tomado pela certeza de que nenhum presságio o havia preparado para aquilo. … O canto e a dança continuavam, mas a chegada de Drago e seu bando logo se fez notar. Murmúrios surgiram, e homens e mulheres do clã se moveram com precisão para organizar a recepção, como se toda a festa tivesse sido ensaiada para aquele instante. Dois silêncios distintos surgiram junto com o vento frio: duas carroças enormes, estranhamente sem janelas, apenas com uma porta de madeira simples para entrar e sair, foram trazidas pelos cavaleiros de Drago. A madeira escura refletia a luz da lua e das fogueiras de forma sombria, e o ar ao redor parecia mais denso. Ninguém ousava se aproximar demais. A sensação era de que as carroças guardavam algo ancestral, vivo e temível. Liliana continuava no círculo, mas agora os olhos verdes com toques de mel estavam fixos em Drago. Ele parou alguns metros à frente, imóvel, cada gesto calculado, cada detalhe seu emanando autoridade e algo hipnotizante. A respiração da moça acelerou, e por um instante, parecia que a festa inteira se transformara em uma dança silenciosa ao redor dele. O patriarca se aproximou, erguendo a voz para organizar o clã: — Kalderash! Recebam Drago Farkas e seus companheiros! Honrem sua chegada! Homens afastaram carroças e organizaram os animais; mulheres estenderam mantos coloridos para receber os visitantes. O ar se encheu de expectativa e reverência. Drago observava tudo com olhos atentos, como um predador avaliando seu território, mas seu olhar voltou-se inevitavelmente para Liliana. O fascínio que sentira à distância intensificou-se com cada gesto dela, cada pequeno movimento da moça rebelde que ainda se mantinha parcialmente dentro do círculo de dança. Drago desviou os olhos apenas para confirmar o que seu coração já sabia. No colo de Liliana, próximo ao ombro, a marca da lua crescente se mostrava com clareza. Seu instinto nunca falhava. E havia nela aquele cheiro inconfundível e arrebatador: Um perfume delicado, de notas florais e cítricas, pairava no ar — lírios, flores de laranjeira e um toque quase etéreo de vento após a chuva. Era um aroma vivo, fresco e envolvente, que parecia sussurrar segredos antigos apenas a ele. Ele avançou, e parecia que uma montanha inteira se erguia diante de uma única flor. O magnetismo e a autoridade que emanava eram quase tangíveis. Liliana nunca tinha visto um homem tão belo antes. Ela sentia seu cheiro, Um perfume masculino de notas amadeiradas — cedro, âmbar e um leve toque de tabaco — envolvia-o como uma assinatura silenciosa. Era um aroma quente e limpo, que evocava força contida e tempo antigo, provocando nela um arrepio involuntário. Mesmo assim, não recuou. Mantinha a postura firme, o olhar desafiador, como se desafiar o desconhecido fosse a única resposta possível. O patriarca percebeu a postura de Liliana e deu um passo à frente, apoiado em seu cajado, tentando quebrar a tensão: — Drago… quero lhe apresentar Liliana Bari, filha de Milena e Ruvim Bari.  Permita-me pedir desculpas pela insolência da menina. — Ele olhou para Ruvim, que assentiu em concordância. — Ela sempre foi… intensa, irreverente. Não é fácil domar o espírito dela. Ela é assim desde criança: livre, inquieta, questionadora. Drago inclinou levemente a cabeça, analisando Liliana com a calma e precisão de alguém que observava uma força rara e antiga. Um leve sorriso curvou seus lábios, quase imperceptível, mas carregado de fascínio: — Não há necessidade de desculpas. A força que ela emana não deve ser contida. A audácia, a rebeldia… são a essência do povo que vive em liberdade. Ela tem o direito de questionar, de desafiar, de existir plenamente. Liliana sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Aquele homem não apenas a encarava, como a compreendia, sem medo de sua insolência. E, pela primeira vez, a presença de alguém parecia equilibrar sua própria força. Mas nada falou. Drago deu um passo à frente, seu olhar intenso prendendo cada centímetro dela: — E é exatamente por isso que deve ser respeitada. Forte, indomável, viva… você é tudo o que este povo precisa para continuar existindo. Mas também… você é minha responsabilidade agora. Liliana sentiu o peso dessas palavras. Um calafrio percorreu sua espinha, mas ela não recuou, mesmo diante daquele Strigoi milenar, cuja presença parecia distorcer o ar ao redor. — Sua responsabilidade? — disse ela, a voz carregada de desafio. — E se eu não quiser que seja sua responsabilidade? E se eu quiser escolher meu próprio caminho? Drago sorriu levemente, olhos penetrantes fixos nos dela: — Isso não muda o que você é, nem o que nasceu para ser. Você pode questionar, desafiar, tentar fugir… mas a força que existe em você foi moldada para este momento, para este encontro. Nada nem ninguém pode mudar isso. Liliana mordeu o lábio, respirando fundo, o coração acelerado, mas ainda firme em sua rebeldia. A tensão entre eles era quase tangível, como se a própria noite segurasse a respiração. Drago aproximou-se mais, sem quebrar a distância necessária, e sua presença parecia puxá-la como ímã, fascinante e intimidante. O bando dele permanecia silencioso e imponente, sombras à volta das carroças sem janelas, reforçando a sensação de que nada na noite era comum. O encontro entre eles não era apenas o cumprimento de uma profecia, mas um choque de forças, um jogo de vontades e resistência, onde nenhum dos dois cederia facilmente. O canto e o ritmo dos tambores recomeçaram suavemente, como se a própria festa sentisse a presença de Drago e tentasse envolver a tensão crescente. Liliana voltou a girar no círculo de mulheres, mas agora com o coração acelerado, cada passo sentindo o peso dos olhos dele sobre ela. Drago se manteve alguns metros à frente, imóvel, observando cada movimento, cada gesto. A fumaça da fogueira misturava-se à noite fresca, criando um véu de mistério ao redor do Strigoi. Ela rodopiou mais uma vez, o vestido rodado saltando em cores, e lançou um olhar desafiador: — Está me observando há quanto tempo? — provocou, tentando domar o turbilhão que sentia. — Vai ficar aí parado só para me assustar ou vai finalmente falar? Drago deu um passo, o suficiente para aproximar-se, sem romper a distância necessária, voz baixa, firme e carregada de autoridade: — Observo desde que cheguei. Cada gesto seu confirma o que sempre soube: você é indomável, intensa e irresistível. — Sua respiração era quase imperceptível, mas cada palavra parecia atravessar a noite. Liliana sorriu, misturando ironia e fascínio. — Irritante e irresistível… interessante combinação. — Ela girou de novo, cabelos saltando, provocando-o. — Mas não pense que vou me curvar por causa de profecias ou de olhares penetrantes. Drago sorriu levemente, olhos penetrantes fixos nos dela, admirando a audácia: — Não espero que se curve. Quero que permaneça assim: forte, viva, rebelde. Mas saiba que não poderá escapar do que nasceu para ser. O grupo de músicos começa a tocar uma nova melodia: uma canção cigana, lenta, pulsante e carregada de desejo, lembrando uma bulería flamenca que parece reverberar no próprio ar. Liliana sorri, vira-se de costas para Drago e desliza em direção à grande fogueira, deixando a saia girar em ondas sedutoras. O fogo estala e dança, refletindo chamas douradas sobre sua pele, enquanto cada passo seu parece hipnotizar a noite. Drago entra na roda com determinação, batendo palmas e marcando os pés no ritmo da música. O som ecoa como um chamado, e ele se aproxima, cada movimento seu respondendo ao dela como uma conversa silenciosa. Aos poucos, os outros ciganos recuam, formando um círculo que os transforma no único ponto de vida e energia no espaço, como se tudo ao redor tivesse desaparecido. O calor do fogo envolve seus corpos, a batida da música pulsa em suas veias, e cada giro, cada passo, cada gesto é carregado de tensão, desejo e promessa. Eles dançam frente a frente, em um jogo de olhares e movimentos, como se o tempo tivesse parado, e o mundo inteiro se resumisse à chama da fogueira e à música que os une. Os olhos dela encontraram os dele — e, por um instante, o mundo ao redor pareceu desaparecer. O fogo se intensificou, o ar vibrou, e alguns dos presentes recuaram instintivamente, sentindo algo que não compreendiam. Quando a música atingiu seu auge, Drago a puxou para perto, os rostos quase se tocando. Ela sentiu o frio do corpo dele, e ele, o calor pulsante do coração dela — um coração que, inexplicavelmente, ainda batia. O toque durou segundos, mas pareceu uma eternidade. Então, a música cessou. Silêncio. O clã observava, imobilizado. O som do vento entre as árvores era o único ruído. Alguns homens murmuravam entre si, inquietos. Outros trocavam olhares apreensivos, conscientes de que presenciavam algo além da compreensão — um presságio, talvez. As mulheres, por sua vez, mantinham os olhos fixos em Liliana. Sabiam, no instinto, que algo havia mudado. A festa, que até então celebrava a vida, tornara-se algo diferente: um ritual involuntário, uma colisão entre eras. Drago ainda segurava a mão dela. A luz da fogueira desenhava reflexos dourados sobre sua pele pálida. — Nunca dancei assim — murmurou ele, quase para si mesmo. Liliana arqueou uma sobrancelha, o sorriso sutil. — Talvez nunca tenha encontrado uma parceira à altura. Por um instante, ele nada respondeu. Limitou-se a fitá-la, o olhar misto de admiração e perigo. — Ou talvez — disse, enfim, baixando o tom — tenha encontrado algo que nem mesmo um milênio pôde me preparar para enfrentar. Ela recuou um passo, o coração acelerado, mas o olhar firme. — Então aprenda, Drago. Nem todas as forças do mundo estão sob o teu controle. Antes do amanhecer, o patriarca ordenou que os homens preparassem as carroças para Drago e seu bando. Sem janelas e com portas robustas, os veículos pareciam absorver a própria escuridão, protegendo seus ocupantes e mantendo o mistério. Drago entrou primeiro, mas antes de desaparecer, aproximou-se de Liliana. Com um gesto suave, tomou sua mão entre as dele e inclinou-se, depositando um beijo frio e breve sobre a pele. — Até que nos encontremos de novo, minha pequena flor — murmurou, com voz baixa, carregada de significado.  Em seguida, entrou na carroça, seguido pelo bando, cada gesto irradiando autoridade e presença quase sobrenatural. Liliana permaneceu imóvel, sentindo a eletricidade do contato e o reconhecimento silencioso que ninguém mais poderia transmitir. O vento frio e as últimas faíscas das fogueiras tornavam a noite inesquecível, carregada de tensão, promessa e perigo. Enquanto a festa ecoava ao longe, Liliana sabia que aquela noite marcaria o início de algo impossível de ignorar.

Capítulo 3 O Pacto

O amanhecer chegou tingindo de ouro pálido as encostas das montanhas. O acampamento cigano, antes imerso no fogo e nas sombras da festa, agora ganhava vida com os sons familiares do dia. O estalar da lenha nos fogões improvisados, o riso das crianças correndo entre as carroças, o tilintar dos talheres e das panelas, o murmúrio das mulheres preparando ervas e tecidos - tudo voltava à normalidade. As carroças seladas, entretanto, permaneciam imóveis no centro do acampamento, cobertas por mantas grossas para proteger do sol. Ninguém se aproximava muito; mesmo os mais corajosos mantinham distância respeitosa. Sabiam que os visitantes dormiam lá dentro - ou descansavam, como dizia a drabarni, "em silêncio de pedra e sombra". Liliana despertou tarde, como sempre, com o cabelo emaranhado e a lembrança da noite anterior queimando em seus pensamentos. Vestiu-se com um lenço vermelho nos cabelos e uma blusa branca com mangas largas, descendo da carroça de seus pais enquanto o vento fresco da manhã balançava as fitas coloridas do acampamento. Durante o dia, ajudava a mãe a trançar ervas e a separar panos para os tecidos que seriam vendidos nas aldeias. Às vezes, escapava para o rio, jogando pedras na água como fazia desde menina, murmurando para si mesma sobre o "maldito destino" e o homem de olhos profundos que agora dormia a poucos passos de sua tenda. As mulheres do clã cochichavam, trocando olhares curiosos: - Ela o viu de perto, dizem que falou com ele! - Que coragem... ou loucura. Ele é um Strigoi, um vampiro, vive entre os mortos! Liliana ouvia tudo, fingindo desdém, mas o coração se acelerava a cada menção do nome Drago. O dia passava preguiçoso, e o sol começava a cair sobre as montanhas. O acampamento mudava de tom - as cores ficavam mais profundas, o ar mais frio, e um silêncio reverente tomava conta. As carroças seladas se tornavam o centro das atenções, como altares de um segredo antigo. E então, ao cair da noite, o ar mudava. O vento parecia conter o próprio som. As trancas das carroças se moviam com um estalo seco, e as portas se abriam lentamente. Um por um, os membros do bando de Drago saíam, silenciosos, de pele pálida, olhares atentos, movimentos leves e precisos. Por fim, ele. Drago surgiu da escuridão da carroça como uma sombra sólida. A luz das fogueiras refletia em seus olhos, e o brilho frio de sua pele contrastava com o fogo. Seu manto se movia com o vento, e por um instante, o acampamento inteiro pareceu prender a respiração. Liliana, que fingia não esperar por ele, estava sentada perto da fogueira principal, limpando ervas com a drabarni. Não resistiu e ergueu o olhar. Ele a viu imediatamente - como se a procurasse desde o primeiro passo fora da carroça. - Está acordado, finalmente - disse ela, a voz carregada de ironia, tentando esconder o nervosismo. - Dormiu bem no seu caixão ambulante? Um sutil sorriso curvou os lábios de Drago, e ele se aproximou até a luz tocar apenas parte de seu rosto, o restante envolto na penumbra. - Durmo melhor quando há quem me observe - respondeu, com calma, o tom grave fazendo o ar parecer mais denso. Liliana desviou o olhar, fingindo irritação, mas o coração batia descompassado. - Não estava te observando. Só acho... curioso alguém que dorme de dia e surge como um vulto à noite. - Pausou. - Vocês são mesmo assim? Sempre entre o mundo dos vivos e o dos mortos? Drago se aproximou mais, os olhos fixos nos dela: - E você, Liliana Bari... sempre entre a rebeldia e o medo? Ela ficou sem resposta por um instante, e ele aproveitou o silêncio. Drago ajeitou-se ao lado dela, o rosto parcialmente iluminado pelo lampejo bruxuleante das velas. Seus olhos dourados, antes ameaçadores, agora refletiam apenas um cansaço antigo. - O que somos não importa tanto quanto o que protegemos - começou, com voz grave, mas suave. - Este clã existe há séculos por causa do sangue que derramamos por ele. O sangue é o preço da existência, Liliana... e também o que a mantém. Ela desviou o olhar, inquieta. - Eu ainda não compreendo. Como é possível viver... alimentando-se da vida de outros? Drago inclinou a cabeça, observando-a com paciência. - O sangue é o fio que liga tudo o que respira. Humanos o derramam em guerras, magos em rituais, e nós... bebemos para continuar. Não é um ato de maldade, mas de necessidade. Cada ser neste mundo consome algo para existir. Nós apenas conhecemos o preço do que tomamos. Liliana o olhou, tentando decifrar se havia arrependimento em suas palavras. - Então você não se arrepende? Ele hesitou antes de responder, e seu olhar tornou-se distante. - Arrependo-me apenas das vezes em que precisei tomar mais do que devia. - Suspirou, um som quase humano escapando-lhe dos lábios. - Mas a sede... é como o vento - nunca desaparece, apenas muda de direção. Aprendi a controlá-la. Aprendi a escolher de quem e por que. Ele a fitou novamente, com uma expressão que mesclava dor e ternura. - Eu não vivo entre os mortos, Liliana. Vivo entre os que precisam permanecer vivos. As palavras ficaram suspensas entre eles, como um feitiço antigo. Liliana sentiu o corpo estremecer. Pela primeira vez, enxergou nele não apenas a criatura das histórias, o predador da noite, mas algo mais profundo - um guardião condenado a existir nas sombras para que outros pudessem viver à luz. - E quanto a mim? - perguntou, com a voz quase num sussurro. - Também terei de... beber sangue? Drago se aproximou devagar, o toque dos dedos frios roçando o queixo dela. - Sim - respondeu, sem rodeios, mas com gentileza. - O sangue será tua força e teu fardo. Mas tu não serás como nós. Há algo diferente em ti, algo que nem mesmo eu compreendo. Ela sentiu o coração bater forte, o eco do medo e da curiosidade se misturando. - E se eu... me recusar? Drago sorriu com melancolia. - Então o tempo fará isso por ti. O corpo imortal não se alimenta de vontade, mas de instinto. Quando chegar a hora, saberás o que fazer. E quando fizer, entenderás. O silêncio voltou, mais denso e íntimo. Liliana respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Ele, por sua vez, observava-a como quem contempla uma chama - sabendo que, se chegasse perto demais, queimaria. E, ainda assim, ficou. Ele se afastou devagar, voltando-se para o fogo. - Amanhã o sol voltará, e dormiremos novamente. Mas você... - disse, olhando-a por sobre o ombro - parece feita para a noite. Ela o observou se afastar, o manto escuro dissolvendo-se na penumbra, o coração dividido entre raiva, fascínio e medo. A drabarni, que observava em silêncio, sorriu levemente e murmurou: - A lua reconheceu seu reflexo, menina. E agora, nenhum dos dois poderá se esconder. ... E assim os dias e noites se sucederam. Durante o dia, o clã vivia em cores e risadas; durante a noite, o acampamento mergulhava em mistério, sob o olhar silencioso de Drago e de seus companheiros nas carroças seladas. Entre o sol e a lua, entre o fogo e a sombra, Liliana e Drago se encontravam - dois destinos opostos, atraídos por algo tão antigo quanto a própria profecia que os unia.As noites nas Dolomitas tornaram-se diferentes desde a chegada de Drago. O ar parecia mais frio, as fogueiras ardiam por mais tempo, e até os lobos nos vales distantes uivavam com uma cadência diferente, como se saudassem o retorno de um velho senhor das sombras. Liliana sentia isso - não apenas no ambiente, mas em si mesma. Dormia pouco, e quando fechava os olhos, via o rosto dele: a barba rala sombreando o maxilar, os cabelos castanho-escuros caindo até a nuca, e aqueles olhos, impossíveis de esquecer, tão profundos que pareciam guardar o próprio tempo. Durante o dia, ela tentava manter-se ocupada, ajudando Milena e as outras mulheres, lavando roupas no rio, cuidando das crianças, rindo alto para espantar pensamentos perigosos. Mas ao entardecer, quando o sol começava a se esconder atrás das montanhas, o coração dela disparava. Ela sabia que logo ele despertaria. Três semanas após a festa, Liliana o viu novamente. Drago estava sentado próximo à fogueira central, sozinho, observando o fogo como quem lê um idioma que só ele entende. A luz alaranjada tocava seu rosto, criando um contraste entre o brilho e a sombra - a beleza humana e a natureza sobrenatural. Ela se aproximou com passos firmes, mas o coração pulsava forte. - Você sempre fica olhando o fogo assim? - perguntou, sentando-se diante dele sem pedir permissão. - Parece que tenta decifrar algo ali dentro. Drago levantou o olhar, lento, com aquele ar que misturava gravidade e curiosidade. - O fogo guarda memórias - respondeu. - Se olhar o bastante, pode ver rostos, lugares, tempos esquecidos. - E o que você vê agora? - ela provocou. Ele a observou por um instante longo, o suficiente para que o ar parecesse prender-se entre eles. - Vejo o que o fogo sempre me mostrou... um eco do destino. E, hoje, esse eco tem o seu rosto. Liliana desviou o olhar, sentindo as bochechas queimarem - não pelo fogo, mas pelo que aquela voz causava nela. - Você fala como se eu fosse parte de um sonho antigo - disse, tentando manter o tom leve. - Não um sonho - respondeu Drago - uma promessa. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo estalo das brasas. Ao redor, o clã já dormia, as carroças envoltas em penumbra. Liliana ficou ali, sentada, olhando-o. - Dizem que você não envelhece - murmurou, quase para si. - Que vive entre nós há séculos. Que protege os Kalderash desde o tempo em que os ventos tinham outro nome. Isso é verdade? Drago olhou o fogo outra vez. - A verdade é um fardo pesado demais para os que medem o tempo pelo nascer do sol - respondeu com serenidade. - Mas sim... há muitas luas desde que o primeiro de vocês pediu abrigo nas montanhas. Eu os encontrei quando ainda eram nômades de sangue quente e passos silenciosos. Prometi proteger seus filhos e os filhos de seus filhos. E agora... chego ao fim dessa promessa. - Comigo - completou Liliana, a voz trêmula entre desafio e medo. Drago assentiu lentamente. - Com você. Ela ficou em silêncio por um longo tempo, sentindo o peso das palavras. O vento soprava leve, carregando o cheiro de terra fria e lenha queimada. Então, num impulso, ela perguntou: - E se eu disser que não quero isso? Que não quero ser a continuação de uma promessa feita antes mesmo de eu nascer? Drago se inclinou para frente, o olhar preso ao dela, intenso, implacável, mas sem violência. - Então direi que o destino não se importa com o que queremos. Ele apenas... acontece. - Fez uma pausa, e sua voz baixou quase a um sussurro. - Mas se te serve de consolo, Liliana Bari, nem eu pedi por isso. A sinceridade daquela confissão a desarmou. Pela primeira vez, ela viu algo em Drago que não era poder ou mistério - era cansaço. Um cansaço antigo, de quem carregava a eternidade nos ombros. Ela respirou fundo, o coração leve e pesado ao mesmo tempo. - Você é mesmo uma criatura estranha, Drago - disse, sorrindo de canto. - E perigosa. Ele retribuiu o sorriso, um lampejo quase humano cruzando seu rosto. - E você, minha florzinha, é teimosa, impulsiva e linda como a chama que insiste em queimar mesmo sob a chuva. - Seu olhar baixou por um instante, antes de se afastar. - Mas é isso que me mantém... desperto. Liliana sentiu o mundo girar por um segundo. Quis responder, provocá-lo de novo, mas as palavras morreram na garganta. Drago levantou-se devagar, o manto ondulando. - Vá descansar. O amanhecer logo virá... e eu preciso da escuridão. - Ele começou a se afastar, mas antes de desaparecer na sombra, completou: - Voltarei amanhã. Se quiser entender o que realmente é a profecia... venha até mim quando a lua tocar o topo da montanha. E então ele se foi, silencioso, dissolvendo-se na penumbra. Liliana ficou ali, sozinha diante da fogueira quase apagada, o fogo refletido nos olhos - e um novo brilho, desconhecido, queimando dentro dela. ... O ar estava frio e denso, e o acampamento dormia em silêncio - todos, exceto Liliana Bari. Ela caminhava sozinha pela encosta, o manto escuro cobrindo os cabelos, o coração pulsando com a certeza de que ele a esperava. Já havia passado um ciclo inteiro desde o primeiro encontro à beira da fogueira - e na noite seguinte seria seu casamento. Os tambores estavam mudos, e até o vento parecia conter o som. Liliana seguia o caminho iluminado pela lua até o alto de uma clareira. Lá, entre as pedras antigas e o brilho pálido do luar, Drago a esperava. Ele estava de pé, imóvel, como uma estátua viva. Os olhos, brilhando sob a luz lunar, pareciam conter o reflexo de eras inteiras. - Eu sabia que viria - disse ele, a voz grave, baixa, quase um murmúrio que se misturava ao vento. Liliana parou diante dele, respirando fundo. - E eu sabia que você estaria aqui - respondeu, firme, embora a voz tremesse. - Sempre está. Por um instante, apenas o silêncio os envolveu. Então Drago estendeu a mão, convidando-a a aproximar-se. - Amanhã o destino será selado diante de todos. Mas antes que isso aconteça, há algo que precisa saber. Liliana deu um passo à frente, o coração acelerado. - A profecia... - começou ela. - Fale. Diga o que realmente significa. Drago ergueu o rosto para o céu, e a luz prateada da lua tocou sua pele pálida, quase translúcida. - O que foi profetizado não é um casamento comum. É o início de uma nova era. - Fez uma pausa. - Ishtar, a Mãe das Estrelas, a Deusa das Bruxas, aquela que ensinou aos seres a magia, marcou você no nascimento. A lua na sua pele é o selo da deusa primordial, o símbolo da união entre o sangue humano e o eterno. Liliana tocou o próprio ombro, como se a marca ali queimasse. - E o que isso faz de mim? Drago se aproximou, e sua presença era ao mesmo tempo fria e magnética. - Faz de você a Rainha de todos os ciganos, humanos e inumanos. E faz de mim o Rei. Juntos, resgataremos o equilíbrio entre os mundos. Um novo ciclo começará. A era em que o medo da noite dará lugar à liberdade. Liliana baixou os olhos, atordoada. - E se eu não quiser? Se eu não quiser viver assim... nas sombras, alimentando-me de sangue, vendo todos que amo envelhecer e morrer? Drago permaneceu em silêncio por um instante, o olhar distante. Quando falou, sua voz era calma, cheia de sabedoria antiga. - Viver para sempre não é o dom que muitos imaginam. É observar o tempo destruir o que se ama, é carregar memórias que nunca se apagam. Mas também é ter a eternidade para aprender, para sentir, para proteger. - Ele fez uma pausa, dando um leve sorriso triste. - O sangue... é apenas o preço da vida que não termina. Não é fome, é lembrança. Cada gota traz a essência dos que passam, e é isso que me mantém humano o bastante para ainda sonhar. Liliana o encarou longamente. Nos olhos dele havia algo que jamais esperava encontrar - ternura. - Então é isso... - murmurou ela. - Eu não sou apenas parte de uma profecia. Sou a escolha que você esperou por séculos. Drago assentiu. - E, ainda assim, não te forçarei. - Aproximou-se mais, o rosto a poucos centímetros do dela. - Com ou sem profecia, com ou sem deusa, você tem o direito de escolher. Se disser "não", eu partirei com o vento. E a lua jamais te cobrará o que foi escrito. O mundo pareceu parar. O vento cessou, o som das folhas desapareceu. Liliana sentiu o coração disparar. Tudo dentro dela - o medo, o desejo, a raiva e a fascinação - se misturava numa única certeza. Ela ergueu o queixo, olhos firmes nos dele. - Então ouça bem, Drago. Não escolho por medo, nem por dever. Escolho porque já não sei onde termino e onde você começa. Se o meu destino é caminhar entre a lua e a sombra, quero fazê-lo ao seu lado. Drago respirou fundo, e algo - algo muito antigo - brilhou em seus olhos. Ele se inclinou lentamente, o movimento quase solene. - Assim será, Liliana Bari. Rainha dos vivos e dos que caminham além da vida. A distância entre eles se dissolveu como névoa ao vento. Por um instante, apenas se olharam - o silêncio era denso, quase sagrado. O olhar de Drago, profundo e sombrio, prendia o de Liliana com uma intensidade que parecia atravessar a alma dela. O tempo parou. O som do vento, o farfalhar das folhas, o crepitar das tochas ao longe - tudo se calou. Quando ele levantou a mão, o gesto foi lento, hesitante, como se temesse profanar algo puro demais. Os dedos tocaram de leve o rosto dela, traçando a curva da mandíbula até o queixo. A pele de Liliana estremeceu sob o toque - fria e quente ao mesmo tempo -, e um arrepio percorreu-lhe a espinha. Drago a segurou com delicadeza, o polegar roçando-lhe o canto dos lábios, como se memorizasse o instante antes que ele se quebrasse. Liliana não recuou. O coração dela - ainda vivo, pulsante - batia acelerado contra o peito. O toque dos lábios foi leve, quase um sussurro. Um roçar breve, tênue como a primeira nota de uma música antiga, mas suficiente para rasgar o véu do mundo. O ar pareceu vibrar ao redor deles; o vento soprou de repente, arrebatado, fazendo as chamas das tochas dançarem e se erguerem num clarão súbito. Drago aprofundou o beijo, agora menos contido. As mãos dele subiram, uma pousando na nuca de Liliana, a outra percorrendo-lhe os cabelos como se tentasse prender o tempo entre os dedos. O beijo se tornou mais intenso, ardente, mesclando o gosto frio da noite com o calor inesperado de suas bocas. Liliana respondeu com igual fervor - o corpo se inclinando, os dedos segurando o tecido da camisa dele, puxando-o para si. E o mundo pareceu desaparecer: não havia carroça, não havia luar, não havia passado nem profecia - apenas o som das respirações entrecortadas, o sabor de eternidade e o pulsar de algo que desafiava a própria natureza deles. Quando por fim se separaram, ofegantes, o ar ao redor ainda tremia. A lua, alta e plena, parecia brilhar com mais força, tingindo o rosto dos dois com uma luz prateada e viva. Drago manteve a mão em seu rosto, o olhar ainda preso ao dela. - Liliana... - murmurou, a voz rouca, reverente. - Você é o meu amanhecer. Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro - e pela primeira vez, a noite pareceu menos escura. O primeiro beijo deles não foi apenas o encontro de dois seres - foi o cumprimento da promessa de Ishtar, o selo da união que marcaria o destino dos povos e das eras. Quando se separaram, a respiração de Liliana era trêmula, mas o olhar firme. Drago pousou a mão sobre o coração dela. - Amanhã o mundo começará a mudar. E, quando o sol se esconder de novo... nenhum de nós será o mesmo. A lua, testemunha silenciosa, derramava sua luz sobre eles - o Rei e a Rainha de uma nova era. E a noite, finalmente, parecia sorrir.

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