A luz do entardecer, filtrada pelas cortinas de veludo carmesim do recém reformado Bar Apolo desenhava sombras douradas no salão. Eu estava sentada em um dos banquetes do bar, o laptop aberto diante de mim, meus dedos dançando sobre o teclado enquanto traduzia um romance francês para o português. A música suave do piano do meu avô, o Sr. Gaspar, ecoava como um fio condutor entre as palavras que surgiam na tela. "La nuit était froide, mais froide encore que son regard..." - traduzi, pausando para observar o homem de cabelos prateados que, como todas as tardes, vestia seu terno marrom e dedilhava as teclas do piano como se conversasse com fantasmas. O cheiro de uísque single malt que ele insistia em beber aos goles lentos misturava-se ao aroma de madeira envernizada e café fresco. O bar ainda estava fechado. Garçons ajustavam toalhas impecáveis sobre mesas de mogno e o som de copos sendo organizados na prateleira acompanhava a melodia do piano. Foi nesse cenário que a porta de carvalho rangel, violando a rotina vespertina. Um homem entrou como uma tempestade contida. Alto, magro, com ombros largos que tencionava o tecido impecável de seu paletó azul-marinho, ele parecia ter saído de um catálogo de revista, e, no entanto, havia algo que quebrava sua postura. Seus cabelos castanhos escuros, levemente ondulados, caiam de forma desordenada sobre a testa como se ele não se importasse o suficiente para domá-los. Seus olhos, porém, eram o que me prendiam, um cinza metálico quase prateado que escaneavam o ambiente com a frieza de um algoritmo. Não sorriu. Não cumprimentou. Apenas parou no centro do salão, com as mãos enfiadas nos bolsos, enquanto seu olhar percorria cada um dos cantos como se calculasse riscos invisíveis. "O bar abre às 18 horas." Falei, fechando o laptop com um clique seco. Minha voz era suave, mas carregada de autoridade, o que fez com que os garçons ignorassem suas tarefas para observar. O homem virou-se lentamente em minha direção. Seu rosto era uma escultura de mármore, queixo angular, nariz afilado, uma cicatriz quase imperceptível cortando a sobrancelha esquerda. Bonito, sim, mas de uma beleza que doía. Ele me fitou por alguns segundos, os olhos pousados em mim como se decifrasse um código antes de responder. "Não vim beber. Vim inspecionar." A voz dele era grave, rouca, como se não fosse usada com frequência. Cruzei os braços, como que em um movimento de defesa, sentindo um arrepio na nuca. "Inspecionar?" Repeti arqueando a sobrancelha. "O noivado de Gabriel e Sofia... ela é minha irmã. Preciso garantir que o local esteja seguro. Câmeras, saídas de emergência, rotas de evacuação." Ele puxou o celular do bolso interno do paletó, os dedos deslizando rapidamente sobre a tela. Nem sequer olhou pra mim para falar. Ri, um som curto e desprovido de humor. "Esse bar tem mais de trinta anos e nunca precisou de rotas de evacuação." Finalmente ele ergueu os olhos. Havia uma centelha ali, algo que poderia ser irritação ou interesse. "Se tem mais de trinta anos, pode estar cheio de falhas." respondeu secamente. "E você é...?" "Ária Garcia. A dona." Ele inclinou a cabeça como se aquela informação fosse algo a ser registrado, não uma apresentação. "Fred Almeida. Preciso de acesso aos sistemas elétricos e ao mapa estrutural." Senti o sangue latejar nas têmporas. Não sou uma mulher muito paciente. "Você poderia começar com um boa tarde." Disse, descendo do banco com movimentos lentos. Me aproximei dele, os saltos das minhas botas ecoando no assoalho. Fred não recuou, mas seus dedos se contraíram levemente em torno do celular. Eu o observava, impassível, enquanto inalava seu perfume, uma fragrância com uma aura de poder inabalável, confiança que beira arrogância e o luxo de quem não pede licença. Uma explosão fria e cortante, densa quase palpável com uma projeção que ocupa espaço como um manto invisível de autoridade. Um cheiro daqueles que deixa um rastro que persiste mesmo após a saída do portador, como um aviso silencioso de que ele está sempre dois passos à frente. Ou talvez eu só esteja lendo livros demais de romance. "Boa tarde." Concedeu após uma pausa intencional. "Agora posso ver os sistemas?" Quase rosnei. Quase. Em vez disso, apontei para o corredor estreito atrás do balcão. Gabriel era meu melhor amigo e era por ele que ela deixaria a irritação de lado. "A sala técnica é lá. Mas me avise antes de mexer em qualquer coisa. Vamos abrir em breve e não quero ter que lidar com nenhum problema." Fred acenou com a cabeça, já se movendo em direção ao corredor. Parou um instante ao passar pelo piano onde meu avô agora dedilhava As Time Goes By. O velho homem inclinou o copo de uísque em sua direção, um sorriso enigmático nos lábios. Fred hesitou. Um micro gesto que eu quase perdi, então seguiu em frente, desaparecendo na penumbra. Enquanto isso, do lado de fora, a chuva começava a cair, batendo nas janelas como dedos impacientes. Voltei ao banco, abri o laptop e tentei focar na tradução. "Seu coração era um inverno interminável..." escrevi, mas as palavras pareciam vazias. Olhei para o corredor escuro, onde a silhueta de Fred se movia como uma sombra disciplinada. Arrogante. Calculista. Insuportável. Mas por que minhas mãos tremiam levemente ao digitar? Meu avô terminou a música e levantou-se, arrastando a cadeira com um ruído áspero, passou por mim e pousou uma mão em meu ombro. "Cuidado, minha netinha!" Sussurrou o cheiro de uísque, envolvendo-me como um abraço familiar. "Tempestades sempre começam com um só raio." E antes que eu pudesse responder, ele saiu deixando para trás o eco de suas palavras e o silêncio pesado que precede a queda de um trovão. No corredor, Fred examinava os fios elétricos com dedos ágeis, e olhos atentos a cada detalhe. A movimentação no de arrumação continuava, faltava menos de quarenta minutos para abrirmos e resolvi encerrar meu trabalho de tradução . Pedi que um dos garçons guardasse meu laptop no meu escritório e continuei observando os movimentos do arrogante visitante perdido em seu trabalho investigativo. Assim que ele sair vou ligar pra Gabriel para saber o motivo de tanta preocupação. A porta rangeu mais uma vez, permitindo que outra figura irritante entrasse no local. "Ária, você não fez o depósito que eu pedi. Eu te falei que era urgente." Tiago se aproximou falando com indignação. Fechei meus olhos e respirei fundo. "Não me lembro de ter concordado em fazer depósito algum na sua conta. Até onde eu sei, Tiago, eu não te devo absolutamente nada." "Tá de brincadeira, Ária? Eu vou te pagar. Já te falei que vou te pagar. Eu preciso muito desse dinheiro. Posso perder meu negócio se você não fizer esse depósito pra mim." "Tiago, acabou. Essa fonte secou. Não. Entenda isso." Ele se aproximou mais e colocou a mão sobre meu ombro. "Deixa eu te explicar uma coisa..." Ele foi interrompido pela chegada de Fred, que o encarava com uma expressão séria. De repente o bar estava silencioso e não havia mais movimento algum, todos os olhos estavam concentrados em nós. Percebi que mais dois homens que eu desconhecia, vestidos de terno e gravata, também se aproximaram em silêncio. "Senhor, preciso que retire sua mão dela e se afaste devagar." Fred disse em tom baixo, porém autoritário. Tiago retirou sua mão do meu ombro, mas não se afastou. "Posso saber quem é você?" Tiago perguntou com um sorriso cínico na cara. Fred deu mais dois passos em nossa direção, e seu movimento foi repetido pelos dois homens desconhecidos. "Eu sou a pessoa que vai te tirar à força daqui se o senhor não se afastar e sair por conta própria." Tiago riu novamente e passou a mão pelo rosto. "Eu sou marido dela." "Ex. Ex-marido. Acho melhor você ir embora em paz, Tiago. Se você retornar, vou fazer uma queixa pra polícia e pedir uma ordem de restrição." Ele ficou em silêncio por um tempo. Seus olhos corriam de mim para Fred. "Tá trepando com ele, Ária? É isso? Ele é seu novo brinquedinho?" "Como disse antes, Tiago, não te devo nada, muito menos satisfação sobre com quem eu trepo. Mas eu não vou mentir pra você." Levantei do banco e cheguei mais pertinho de Fred, envolvi seu rosto em minhas mãos e o beijei nos lábios. Senti o corpo dele endurecer, talvez pela surpresa, mas logo ele correspondeu o beijo e enlaçou minha cintura me puxando mais pra perto. Eu havia pensado, se é que eu pensei em alguma coisa, em um beijo rápido, um roçar de lábios, um golpe de cena. Mas quando a língua dele roçou na minha, involuntária e suave, algo dentro de mim estremeceu como um cristal antigo atingido por uma nota aguda. Aquele perfume dele me invadindo, seus braços apertando o abraço como uma necessidade de proximidade... Meu cérebro gritava que aquilo era um erro, que ele era um estranho, mas meu corpo traidor, registrava cada detalhe: o calor da palma dele nas minhas costas, o gemido rouco que escapou de sua garganta, o gosto de hortelã e perigo. O corpo dele me mostrando seu nítido desejo... Finalmente consigo me afastar. Sinto meus lábios inchados e percebo que meu batom havia se transferido para os lábios dele como uma tatuagem mal feita. Não percebi mais a presença de Tiago, ele havia ido embora. Fred me encarava, seus olhos escurecidos como nuvens antes da tempestade. Ele passou o polegar sobre a própria boca, apagando os vestígios do beijo, um pouco ofegante e totalmente silencioso. Eu sabia que precisava dizer alguma coisa, mas não sabia exatamente o que. "Me desculpe. Eu só queria que ele se afastasse." Ele continuava a me encarar em silêncio. Seus olhos se desgrudaram dos meus por um momento para dispensar os homens que o acompanhavam, o que o fez sem dizer nada. "Você não tem segurança aqui?" Ele voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. "Eles já deveriam ter chegado. Sempre ficam dois seguranças aqui e dois na entrada. Devem estar atrasados por causa da chuva. Não se preocupe." Ele olhou em volta mais uma vez como se precisasse de tempo para se acalmar. "Olha, Fred. Obrigada pela ajuda. Eu vou ficar bem." "Não espere a próxima vez. Peça uma ordem de restrição. Se precisar de ajuda com isso, me ligue." Ele tirou um cartão de visitas do bolso e me entregou. "Vou deixar meu pessoal aqui até os seus seguranças chegarem." Eu ia dizer que não precisava e mais alguma coisa que se perdeu na minha mente antes mesmo de chegar a minha boca, mas ele simplesmente foi embora me deixando com cara de boba e com as palavras que eu nem sabia que queria dizer engasgadas
Era impossível esquecer aquele beijo. A lembrança ficava voltando a minha memória o tempo inteiro. Eu podia sentir o cheiro dela que era como um convite. Um veneno dourado que mistura doçura com ferocidade, deixando quem a prova preso entre o desejo de conquistá-la e o medo de ser devorado. O gosto do beijo misturado ao perfume era como cerejas negras embebidas em conhaque - doce, amargo, intoxicante. Mesmo depois que cheguei em casa aquele cheiro não se dissipou. Estava nas minhas roupas, nas minhas mãos, na minha memória. Selvagem. Perigoso. Impossível de esquecer. Tudo que eu não preciso é de complicação na minha vida. Não quero um relacionamento. Nem tenho tempo pra isso. Mesmo assim, tenho ido ao bar todos os dias. Ária é sinônimo de confusão, disso eu tenho certeza. Mesmo assim, fiquei preocupado com o comportamento daquele ex-marido dela. Mais uma vez, estou aqui, sentado no bar esperando para vê-la. A gente não se falou mais desde aquele dia. Ela me vê, me cumprimenta do balcão. Eu sempre sento em uma mesa nos fundos, bem afastado do balcão onde ela fica. É mais seguro assim. Hoje é sexta-feira e o bar está lotado. Tem uma banda de rock tocando e percebo que o número de seguranças é o mesmo de um dia em que o movimento é normal. Isso não é nada prudente. Ela está ocupada servindo bebidas junto com o bartender, mesmo assim, de vez em quando nossos olhares se cruzam. A festa de noivado de Gabriele Sofia é amanhã. Decidimos que seria melhor fechar o bar só para a festa e estou me convencendo de que depois disso, vou sossegar minha cabeça e seguir com a minha vida. A banda faz um intervalo e eu agradeço por isso. Não que eu não goste de rock, eles até que não são ruins, eu só não gosto de tanto barulho. Eu deveria ir embora, mas por algum motivo, permaneço. O uísque do meu copo termina e eu faço sinal para que o garçom traga outro, geralmente eu fico o tempo de uma dose apenas, mas hoje é diferente. Ária era uma contradição ambulante, cabelos negros como asas de corvo, cortados em camadas desalinhadas que caíam pelos ombros e emolduravam um rosto de traços afiados, olhos amendoados de um verde quase dourado como folhas de outono sob o sol e lábios carnudos que raramente se curvavam em sorrisos fáceis. Usava um vestido solto no corpo, verde-esmeralda, simples, mas elegante, que contrastava com botas de couro. Seu colar de prata de uma lira pendurada no pescoço, era a única joia que se permitia a si mesma. E essa contradição tentadora estava vindo em minha direção trazendo outra dose de uísque. Parece que ela gosta de botas, no dia que nos conhecemos ela também usava botas. A minha imaginação logo começa a trabalhar imaginando- a só com seu acessório preferido e nada mais, caminhando em minha direção em um ambiente mais íntimo do que esse. Ela coloca o copo na minha frente, me entrega um guardanapo e se acomoda na cadeira à minha frente, cruzando as pernas e fazendo meu coração acelerar. "Você tem vindo aqui todos os dias. Ainda é pelo trabalho de inspeção?" Ela me pergunta provocativa. "Aqui é um bar. Eu venho beber." Respondo sem querer parecer afetado com a presença dela. "Por quê? Minha presença te incomoda?" "Não. Só fiquei pensando... Fred, aquele beijo... não foi nada de mais. Foi só pra irritar o meu ex." "Claro. Foi pura atuação. Uma atuação perfeita, eu diria, cheia de sensações... Eu entendi. Não se preocupe, Ária. Não estou procurando um relacionamento." "Então, me diz o que você está procurando, Fred." Ela cruzou os braços. "Como disse antes, eu só venho beber." Ergui meu copo na direção dela e bebi um gole. "Você deveria pensar em colocar mais seguranças aqui no dia de eventos como esse." Ela riu do meu comentário. "Você por acaso contou pro Gabriel sobre o que aconteceu aqui?" "Não. Eu deveria?" "Não. Ele vai ficar preocupado à toa. Se isso pudesse ficar só entre nós, eu agradeceria." Fiquei imaginando o real motivo dela querer fazer disso um segredo. O Gabriel deve saber de toda a situação que eu não nem deveria estar pensando em me envolver. "Como acabou casada com um cara daqueles?" Perguntei. Ela pareceu incomodada com o assunto. "Erro de juventude. Talvez, rebeldia. Me casei cedo demais. Estava cega, apaixonada. Talvez carente. Esse é o resumo. "Você pediu a ordem de restrição?" Só do jeito que ela me olhou eu pude adivinhar que não. Respirei fundo e bebi todo o resto do conteúdo do meu copo. "Você ainda sente alguma coisa por esse homem?" Ela levantou uma sobrancelha sem responder minha pergunta. Puxei meu cartão pra pagar minha conta. Precisava me afastar daquela situação. "É por conta da casa." Ela disse quase em um sussurro. "Obrigado. Eu já vou. Boa noite, Ária!" Guardei meu cartão e me levantei, assim que passei por ela, que continuava sentada no mesmo lugar, ela segurou meu pulso. Me surpreendi com o toque. Olhei na direção dela e encontrei seus olhos verdes, que pareciam estar escurecidos. "Não sinto mais nada. Pelo menos nada de positivo. Também não sinto ódio. Mas ele se tornou uma figura indigesta pra mim. O divórcio foi difícil. Ele fez ser bem difícil e desgastante. Por isso..." Ela soltou meu pulso e se levantou sem tirar seus olhos dos meus. "Entendi." Peguei meu celular no bolso, desbloqueei e entreguei pra ela. Seus olhos baixaram até o aparelho. "Coloque seu número aqui." Ela pegou o celular, salvou seu número e me devolveu. Escrevi uma mensagem e enviei para que ela pudesse identificar o meu número. "Se ele aparecer novamente, me ligue." Nós estávamos tão próximos que eu podia facilmente alcançar seus lábios. Por um momento, isso não saía da minha cabeça enquanto eu encarava aqueles lábios vermelhos. Mas ela não era qualquer mulher. Ela não era uma mulher para uma noite só e eu não queria um relacionamento. Nem sei se sou capaz de ter um relacionamento novamente. Com grande esforço consegui escapar de seu campo gravitacional e me retirei sem olhar para trás. Enquanto caminhava para fora do bar, eu tinha certeza de que ela continuava me olhando. Podia sentir sua força me atraindo de volta pra ela. Meu apartamento era como uma cápsula de silêncio na madrugada. E podia ouvir o leve zumbido do ar condicionado em minha solidão profunda. Aquele silêncio não ajudava em nada a acalmar o turbilhão na minha mente que me mantinha acordado. Eu caminhava de um canto a outro do quarto, as mãos enterradas nos cabelos desgrenhados, na tentativa de arrancar a imagem dela dali. Ela havia se tornado um constante incômodo em meus pensamentos. Da mesma forma que havia se tornado a personagem principal do meu mais novo esporte favorito praticado debaixo do chuveiro, que certamente me causaria calos na mão. A lua cheia derramava uma luz prateada pela janela, desenhando sombras alongadas no chão. Parei diante da vidraça, com os olhos fixos no céu estrelado. "Ela é como um pulsar", murmurei pra mim mesmo, minha voz rouca de insônia. "Um daqueles corpos celestes que emitem uma radiação letal, mas você não consegue deixar de olhar." Ária não é só uma mulher bonita, é um fenômeno cósmico. Toda vez que a gente se encontra eu sinto essa atração como uma força física. Uma gravidade que distorce o ar ao redor, fazendo o tempo desacelerar enquanto meus músculos tensionam, como se meu corpo pudesse prever, antes da razão, que está diante de algo perigoso. "Pulsares giram rápido demais." Me ouvi dizer, lembrando de um documentário que assisti recentemente. "Eles são restos de estrelas mortas. Densos. Imprevisíveis. Destroem qualquer coisa que se aproxime." Eu já estava enlouquecendo a ponto de falar sozinho. Me joguei na cama e fechei os olhos, me forçando a dormir, mesmo sabendo que isso nunca funcionava. O sorriso dela me veio à mente. Irônico, sempre meio torto , como se guardasse um segredo que eu nunca decifraria. "Não é uma boa ideia, Frederico!" Disse em voz alta para me ancorar à realidade. Eu sei como isso termina. Ela vai me consumir e não sobrará nada além de poeira estelar. Mas meu corpo não me ouve, minha mente desdenha de mim, me trazendo as lembranças e todas as sensações daquele beijo. "Porra! Essa mulher me enfeitiçou? Por que diabos não consigo parar de pensar nela?" O celular se iluminou na cabeceira da cama. Era uma mensagem dela. Talvez, só agora ela tenha lido a minha mensagem. Naquele momento, sem pensar racionalmente, como sempre acontece quando ela está por perto, escrevi que ela poderia me chamar a qualquer momento por qualquer motivo ou motivo algum. Meu dedo hesitou sobre o ícone do aplicativo. "Só queria testar. Escrevo sem motivo algum, mesmo sabendo que, provavelmente, você está dormindo." Aquilo parecia mais um feitiço do que uma mensagem inocente. Havia uma intenção. Não responda! Eu gritava mentalmente pra mim mesmo. Ela acha que estou dormindo, não espera nenhuma resposta. Mas é um teste. "Puta merda!" Xinguei baixinho. Meus dedos se moveram sozinhos, traidores. "Estou aqui." Escrevi. Duas palavras apenas. Bastaram para confirmar o quanto eu estava fodido. "Fred, seu idiota!" Resmunguei imaginando Ária em seu quarto, deitada em sua cama, tão acordada quanto eu. Um pulsar em repouso, inconsciente do caos que gerava. No instante que o sono finalmente me tomava, admiti pra mim mesmo em um sussurro quase inaudível: "Já estou em queda livre
O bar respirava magia naquela noite. As luzes douradas dos lustres de cristal dançavam sobre as paredes de tijolo aparente, enquanto velas em castiçais prateados cintilavam no centro das mesas de madeira, envoltas em toalhas de linho cor de vinho. Arranjos de flores brancas e rosas bordô pendiam discretamente sobre o balcão de mármore, onde garrafas de champanhe reluziam como tesouros. No canto, o velho piano do meu avô aguardava silencioso, como um guardião das memórias que aquelas paredes guardavam. Ele preferiu não vir à festa. Quase não sai mais de casa, exceto pela rotina diária de vir ao bar por pelo menos uma hora antes de abrirmos para tocar seu velho piano. Temos um piano elétrico super moderno em casa, que ele se recusa a tocar. A música suave do violoncelo ecoava pelo ambiente, misturando-se ao burburinho dos convidados. Familiares próximos e amigos sorriam, abraçando Gabriel e Sofia, felicitando-os pelo noivado, cujos rostos brilhavam mais que as estrelas do verão. Eu observava toda a movimentação, de longe, apoiada na coluna de madeira próxima ao piano. Meus dedos tamborilavam contra a madeira, num ritmo nervoso e sem motivo. A festa era um sucesso. Tudo corria muito bem e meu melhor amigo era só sorrisos. "Ele está aqui." Sussurrei pra mim mesma, olhos fixos em Fred, que conversava com um tio de Sofia perto da estante de vinhos. Eu estive tão ocupada com os afazeres da festa que ainda não havia me dado conta de sua presença. De terno cinza chumbo, ajustado ao corpo, tinha uma lapela de cetim, camisa branca, colete combinando com o paletó e uma gravata cinza texturizada, os cabelos levemente despenteados como sempre, parecia ter saído de um sonho antigo. Cada gesto seu parecia calculado, porém natural, como se a elegância fosse parte de seu DNA. Quando riu de algo que o tio disse, o som rouco e quente me fez segurar a respiração. "Aí está nossa anfitriã!" Gabriel surgiu ao meu lado, o sorriso largo como de uma criança. "Muito obrigado, minha querida amiga, por esta linda noite! Não precisava de tudo isso e nem ter fechado o bar por causa do nosso noivado. Sei que isso deve ter tido o dedo de Fred e peço desculpas por isso. Ele é muito cuidadoso com a segurança de Sofia e agora, com a minha também." Ele olhou em volta. "Caramba, Ária! Está tudo... perfeito!" Seus olhos estavam brilhantes de emoção. Eu o abracei com força, sentindo o cheiro do seu perfume cítrico, tão familiar. "Você merece mais que isso. O vovô está orgulhoso de você. Ele não veio porque... você sabe." Ele segurou minhas mãos e apertou de leve. "Fico feliz que você esteja feliz. Te amo muito, meu amigo!" Gabriel segurou meu rosto, seus dedos acariciando minhas bochechas. "Foi aqui que eu aprendi que família não é só sangue. Você e seu avô salvaram minha vida. Você é e sempre será minha família. Eu também te amo." Os olhos dele piscaram para o piano, onde adolescentes, nós dois desafinávamos enquanto o vovô ria e corrigia nosso dedilhado. Sofia aproximou-se, o vestido champanhe fluindo como seda. "Está tudo perfeito, Ária! Obrigada. Por tudo." Sua voz suave, mas os olhos perspicazes pousaram em Fred, depois em mim novamente. "Fred está mais animado hoje. Quase humano." Sorriu, deixando a frase pairar como um convite para uma confissão qualquer. Engoli seco tentando disfarçar meu encantamento por ele. "Ele... parece estar se divertindo." Comentei com meus olhos pousados nele. "Sim. Ele parece diferente. Não é muito comum ver meu irmão tão sorridente. Ele está sempre tenso e ocupado com seu trabalho e conosco." Sofia tirou os olhos de seu irmão e olhou para mim por alguns segundos em silêncio, como que se dando tempo para arrumar seus pensamentos. "Mas parece que você o faz sorrir mais que o normal." Ela sorriu e apertou os olhos. "Cuidado ou vou ficar com ciúmes." Ela me deu uma piscadinha que fez meu coração dar um salto. Antes que eu pudesse responder, Sofia e Gabriel foram puxados por uma pessoa para fotos. Senti meu coração acelerado. Por que Sofia disse aquilo? Será que eu estou dando muita bandeira? Ou será que ele comentou alguma coisa com ela? Por que estou reagindo assim? Não quero me envolver com ninguém e ele já deixou bem claro que também não quer. Fingi tirar uma mancha inexistente da madeira do piano tentando me acalmar. Quando levantei os olhos, Fred estava diante de mim, segurando duas taças de vinho tinto. "Pra você." Ele me entregou uma taça, seus dedos roçando levemente os meus. O toque foi rápido, mas suficiente para fazer meu pulso formigar. "Obrigada." Minha voz saiu mais áspera do que o normal. Ele inclinou a cabeça, me observando. Ele não quer nenhum relacionamento, mas tudo que ele faz é extremamente sedutor. Resta saber se esse flerte constante, esse ato contínuo de sedução é mesmo pra mim ou ele é assim com todas as mulheres. Não o conheço tempo suficiente para responder essa questão e não posso perguntar isso pra Sofia, que já parece desconfiar de alguma coisa. "Gabriel me contou que você reformou o bar sozinha. Mantendo a alma do lugar, mas modernizando. Impressionante." Isso significa que ele e Gabriel conversam sobre mim. O que mais ele conseguiu descobrir nessa conversa? "Meu avô sempre diz que mudanças são importantes, mas que essências precisam ser conservadas." Meus olhos fugiram para o piano. Fred seguiu meu olhar. "Ele estava tocando aqui naquele dia... Gabriel me disse que você também toca. Que vocês aprenderam juntos." Ri, envergonhada. "Mal. Meus dedos são mais hábeis com copos do que com as teclas de piano. O Gabriel toca melhor que eu." "Duvido." Ele deu um gole no vinho, seus olhos fixos nos meus. "Tenho certeza que você é boa em tudo que faz." O violoncelo parou, e por um segundo, apenas o tilintar de taças e risos preencheram o ar. Mas os olhos dele continuaram fixos em mim e o mundo pareceu desacelerar. Um silêncio pairou sobre nós e todos desapareceram. Por um momento éramos só ele e eu. "Fred!" Uma voz nos trouxe de volta a realidade e ele piscou, recuando. "Precisamos de você para o brinde! Ária, você também!" Gritou Miguel, o irmão de Gabriel, acenando para nós. Fred assentiu para Miguel, em seguida virando-se para mim. "Vamos!" Ele estendeu a mão pra mim, e por alguns segundos eu simplesmente não podia me mover. A festa seguiu em risos, brindes e histórias embaraçosas de Gabriel e Sofia. Quando o último convidado partiu. Desabei na cadeira, os pés doloridos. Eu os libertei dos sapatos cruéis de saltos altos e respirei fundo aliviada. A equipe recolhia copos, louças e enfeites. O silêncio começava a se instalar. Caminhei até o piano e comecei a dedilhar uma de minhas músicas preferidas, The Way You Look Tonight, de Jerome Kern. Uma das músicas que meu avô me ensinou a gostar. Me peguei cantarolando a letra baixinho enquanto executava a melodia no piano. Quando terminei a música, alguns garçons aplaudiram. Já fazia algum tempo que não tocava. Fechei o piano e já ia me levantar quando uma música começou a tocar, vinda do celular de alguém. Nothing Else Matters. "Última dança?" Era Fred, de mangas arregaçadas, sem o paletó, os três primeiros botões da camisa desabotoados. Estendia a mão, vulnerável, como se estivesse com medo de ser rejeitado. Olhei pra mão dele, depois para seus olhos. "Eu não danço." "É só me acompanhar." A mão continuava esticada, me aguardando. Ele sorriu sem reservas e eu me derreti por dentro. Nossas mãos se encontraram e ele me puxou pra junto do seu corpo. "Finalmente." Uma voz ecoou na minha cabeça