O Don e a Princesa Do Cartel
Capítulo 1 Isabela De La Vega - Quatro Anos Antes

A notícia chegou antes do amanhecer, não veio com delicadeza e não trouxe aviso. Não deu tempo para oração, despedida ou esperança. Chegou como um estouro seco no corredor da casa, com passos apressados, vozes atravessadas e a porta do quarto da minha mãe sendo batida com tanta força que bateu na parede. Já tinha decorado esse som, pois o barulho sempre refletia no meu quarto por ser ao lado do dela. Eu despertei no mesmo instante, ainda presa à névoa do sono, com o coração disparando sem saber por quê. Durante alguns segundos, fiquei sentada na cama, tentando entender o barulho, até ouvir o nome do meu pai sendo dito em tom baixo, urgente, quase engasgado. Minha mão subiu sozinha até a corrente no meu pescoço. Era um gesto antigo, quase involuntário, algo que meu corpo fazia sempre que alguma coisa saía do lugar. Os dedos encontraram a medalha de ouro, morna do calor da minha própria pele, e apertaram com força. Foi o bastante. Saí do quarto descalça, com a camisola amarrotada, e encontrei a casa em movimento. Homens armados atravessavam o corredor, uma das empregadas chorava perto da escada. Minha mãe, María, segurava o robe fechado sobre o peito com mãos trêmulas demais para parecerem firmes. E Mateo Vargas estava no centro de tudo. Meu meio-irmão mantinha a postura reta, os ombros duros, o rosto fechado num controle que só me irritou ainda mais naquela hora. Ele conversava com dois homens de confiança do meu pai ao pé da escada principal, enquanto Alejandro aparecia alguns degraus acima, ainda sonolento, jovem demais para entender o peso real do que estava acontecendo. - O que aconteceu? - perguntei, a voz falhando antes mesmo de terminar. Ninguém respondeu de imediato. Minha mãe virou o rosto na minha direção, e bastou ver os olhos dela para que eu soubesse. Não precisava ouvir ou que me explicassem, o meu mundo já tinha se partido. - Mamá... - sussurrei. Ela levou a mão à boca, tentando conter o soluço, mas não conseguiu. Foi Mateo quem falou. Seco. Direto. Sem piedade. - Mataram Don Diego. - A frase caiu sobre mim como chumbo. Por um instante eu não senti nada. Nem ar. Nem chão. Nem corpo. Apenas um vazio surdo, pesado, impossível de atravessar. Fiquei olhando para ele como se estivesse esperando que completasse a frase com alguma mentira, algum engano, alguma informação que consertasse tudo. Mas aquilo era a verdade, meu pai estava morto. O grande Diego de la Vega, homem temido por meio continente, dono de rotas, armas, homens e segredos, tinha caído. E eu só conseguia pensar no som da risada dele ecoando pela casa alguns dias antes, no perfume forte que sempre ficava no escritório depois que ele saía, na forma como a mão dele repousava no meu ombro quando queria me dizer algo sem que os outros percebessem. Pensei também na medalha. Ele mandou fazer três, uma para cada filho, no ano em que eu completei quinze anos. Ouro pesado, redondo, com a marca da família batida no centro, dessas que ourives de cidade pequena ainda faziam à mão. Colocou a corrente no meu pescoço ele mesmo, sem cerimônia, sem discurso, e disse apenas uma frase, com aquela certeza absoluta de quem nunca tinha sido contrariado na vida. Enquanto isso estiver aqui, ninguém encosta em você. Eu tinha acreditado. Durante sete anos, eu tinha acreditado. Meu pai era muitas coisas. Difícil. Perigoso. Orgulhoso. As vezes cruel. Mas era meu pai. E naquele instante eu ainda não conseguia separar o homem do monstro que o mundo conhecia. Alejandro desceu o restante da escada rápido demais, quase tropeçando no último degrau. - Não. - O rosto dele já estava molhado. - Não. Não. Não. Minha mãe abriu os braços e ele foi até ela como uma criança, mesmo não sendo mais uma. O abraçou com força, escondendo o rosto no ombro dela. Eu permaneci imóvel no corredor, sem conseguir chegar perto, sem conseguir recuar, presa naquele ponto exato em que a dor ainda parecia irreal. Foi então que um dos homens ao pé da escada disse alguma coisa em voz baixa. Não era para mim. Não era para ninguém além de Mateo. Mas a casa estava silenciosa demais e eu ouvi de qualquer forma. - ...los rusos preguntaron por él la semana pasada, patrón. Dos veces. Mateo virou o rosto tão rápido que o homem entendeu antes de terminar a frase. - Cala a boca - disse apenas. E foi só isso. Uma ordem curta, quase entediada, do tipo que não admite repetição. O homem baixou os olhos e recuou meio passo. Ninguém mais falou. Eu guardei aquilo. Não sabia por quê, não sabia o que fazer com aquilo, mas guardei, do mesmo jeito que a gente guarda um objeto pequeno no bolso e só percebe que continua ali muitos dias depois. Mateo dispensou os homens com um gesto curto, eles se afastaram sem discutir e aquilo me fez erguer os olhos. Eles não tinham esperado ordens. Não tinha consultado ninguém. Já estava agindo como se a casa, os homens e tudo o que meu pai deixara para trás respondessem a ele. Minha mãe percebeu o mesmo. Ela ergueu o rosto devagar, ainda abraçada a Alejandro. - Onde ele está? - No galpão do porto. Trouxeram o corpo há meia hora - Mateo respondeu sem mudar a expressão. Corpo. Não pai. Não Don Diego. Corpo. A palavra me encheu de raiva num segundo. - Você podia ter dito de outro jeito. - Ele desviou os olhos para mim. - A morte não muda porque você prefere palavras mais suaves, Isabela. Cruzei os braços sobre o peito, embora meu corpo inteiro ainda estivesse tremendo. - E você podia tentar não soar como um maldito pedaço de gelo no dia em que nosso pai morreu. Mateo sustentou meu olhar sem vacilar. - Seu pai morreu. O meu também. A diferença é que alguém precisa pensar no que vem agora. Minha mãe se afastou de Alejandro como se tivesse levado um golpe. - O que vem agora é o velório do homem com quem vivi metade da minha vida. - A voz dela saiu baixa, mas firme. - O que vem agora é respeitar a casa. Mateo passou a língua pelo canto interno da bochecha, num gesto de contenção que eu conhecia bem. Quando ele fazia aquilo, significava que estava escolhendo palavras que já vinham feridas desde o início. - O que vem agora é impedir que os cães sintam o cheiro de sangue e entrem por esta porta antes do enterro terminar. O silêncio que se seguiu foi pesado e cruel porque ele tinha razão. Meu pai não era apenas um homem de família. Era um nome. Um império. Um território. A morte dele não deixava apenas dor. Deixava espaço. E espaço, naquele mundo, significava disputa. Alejandro se desvencilhou do abraço de nossa mãe e limpou o rosto com a manga da camisa. - Quem fez isso? - Ainda não sabemos. - Mateo respirou fundo antes de responder. - Isso é mentira. - Dei um passo à frente. - Você sempre sabe mais do que diz. Os olhos dele vieram para mim de novo. Frios. Afiados. Insuportavelmente calmos. - E você sempre fala demais quando está com medo. - Não fala comigo desse jeito. - Dei mais um passo. - Então não me provoque no meio disso. - Basta. - Minha mãe ergueu a voz pela primeira vez. A palavra saiu como uma ordem antiga, daquelas que ainda conseguiam nos fazer parar mesmo no meio do caos. Eu fechei a boca. Mateo também. Alejandro continuou imóvel, respirando com dificuldade, tentando parecer mais homem do que ainda era. Minha mãe soltou o robe e endireitou os ombros, embora a dor continuasse rasgando o rosto dela. - Vamos ao porto. - Não é uma boa ideia. - Mateo a observou por um segundo. Ela chegou tão perto dele que os dois quase encostaram. - O homem morto lá embaixo era meu marido. - O que havia de frágil na voz dela desapareceu. - Não me diga o que é ou não uma boa ideia para mim. Mateo não insistiu, abriu espaço, mas o olhar dele dizia que aquilo não terminaria ali.

Capítulo 2 Isabela De La Vega

O porto cheirava a ferrugem, sal e pólvora antiga. O sol ainda não tinha nascido por completo quando chegamos. A claridade cinzenta da manhã deixava tudo mais cru, mais feio, mais real. Os galpões pareciam esqueletos enormes espalhados pela névoa e os homens armados em volta do perímetro tornavam o ambiente ainda mais sufocante. Eu sempre odiei aquele lugar, mas meu pai gostava dele justamente por isso. Dizia que o porto ensinava mais sobre poder do que qualquer escritório luxuoso, porque ali tudo era concreto: carga, rota, dinheiro, medo, mercadoria, sangue. Naquela manhã, eu só conseguia ver o lugar onde levaram o corpo dele. Entramos no galpão principal em silêncio e lá dentro, o ar estava frio demais. Uma mesa metálica havia sido colocada no centro do espaço, improvisada às pressas. Meu pai estava sobre ela, coberto até a altura do peito por um lençol branco que não escondia o bastante. O rosto tinha sido limpo, mas a violência continuava ali, estampada na palidez da pele, no corte perto da têmpora, na rigidez da mandíbula. Minha mãe parou de respirar por um segundo inteiro antes de caminhar até ele. Alejandro afundou ao meu lado e Mateo permaneceu atrás de nós. Eu me aproximei devagar, como se cada passo fosse uma traição contra a pequena parte de mim que ainda queria acreditar que aquilo não estava acontecendo. Quando finalmente fiquei diante da mesa, as minhas pernas falharam. Não caí porque me agarrei à borda metálica com força. Meu pai estava imóvel. Silencioso, vazio, e eu nunca o imaginei assim. Diego de La Vega sempre ocupava espaço demais para parecer pequeno. Até parado, ele dominava um ambiente. Até doente, irritado ou furioso, ele parecia impossível de ser vencido. Ver aquele corpo diante de mim foi como descobrir que as montanhas também desmoronam. Minha mãe levou os dedos ao rosto dele. - Dios mío... - O sussurro dela rasgou mais do que qualquer grito. Alejandro começou a chorar outra vez, eu continuei quieta, não por falta de dor, mas porque havia dores grandes demais para caber em som. Fiquei ali, olhando para o homem que me ensinou a nunca demonstrar medo diante de estranhos, a sempre perceber quando alguém mentia com os olhos e a jamais confundir gentileza com fraqueza. O mesmo homem que me proibiu de entrar em certas salas quando eu era criança, que ergueu muralhas ao redor de tudo o que julgava importante e que ainda assim, de algum jeito torto, me amava. Foi só então que reparei no pescoço dele. Estava vazio. A corrente do meu pai tinha sumido, e com ela a medalha. A mesma que ele usava desde antes de eu nascer, a mesma que era a primeira das três, a matriz de onde as nossas tinham saído. Quem quer que tenha feito aquilo não levou o relógio, não levou os anéis, não levou a arma que ele sempre carregava na cintura. Levou a medalha. Minha mão subiu até a minha, escondida sob a gola da blusa, e apertou até doer. Por trás de mim, escutei a voz de Mateo dando ordens baixas aos homens do porto. Nomes. Rotas. Turnos de vigilância. Contatos. Outra vez aquilo me feriu. Nem tínhamos enterrado o nosso pai e ele já estava ocupando o lugar que sequer lhe havia sido dado. Um dos homens mais velhos, o Ramiro, que trabalhava com meu pai desde antes de Alejandro nascer, se aproximou com o boné amassado entre as mãos. - Patrón... foram três carros. Nenhum deles era da região. - A voz dele saiu rouca, cuidadosa. - Os rapazes disseram que ninguém reconheceu as caras. Não eram daqui, não eram do norte, não eram... - Ramiro. - Mateo nem elevou a voz. Só disse o nome. O velho parou no meio da frase e engoliu o resto. Era a segunda vez em duas horas. Duas vezes um homem começava a dizer alguma coisa sobre quem tinha matado meu pai e duas vezes Mateo cortava antes do fim. Virei o rosto. - Você pode esperar? - Não. - Ele não se desculpou, nem baixou a cabeça. Minha mãe também se virou. Os olhos dela, vermelhos e molhados, repousaram sobre ele por um instante longo. - Seu pai ainda está aqui. - Ele não é e nunca foi o meu pai. - Mateo deu um passo à frente. - E é justamente por isso que eu não posso esperar. - Para de falar como se isso fosse uma reunião. - Alejandro passou a mão pelo rosto. - Vocês querem chorar? Chorem. Rezar? Rezem. - Mateo apertou o maxilar. - Mas entendam uma coisa: no minuto em que a notícia sair inteira, metade dos aliados do Don Diego vai tentar provar lealdade, e a outra metade vai tentar comprar o que restar da casa. Não existe luto limpo para homens como ele. Eu me afastei da mesa metálica. - Então o que você quer? Que a gente ajoelhe e aplauda porque você é o único racional aqui? - Eu quero que parem de agir como crianças. - Vai se foder. - A frase fez Alejandro avançar. Mateo virou o rosto para ele, não elevou a voz ou levantou a mão, mas havia ameaça suficiente no modo como o encarou. - Você ainda fede a leite, mas com essa atitude, nunca será um Don. - E você sempre foi um maldito bastardo arrogante. - Alejandro deu mais um passo. - Chega. - Minha mãe se colocou entre os dois antes que a briga piorasse. O peito dela subia e descia com rapidez agora, e eu vi algo mudar em seu rosto. A tristeza ainda estava ali, mas começava a dividir espaço com outro sentimento. Medo. Não pelo que havia acontecido. Mas pelo que viria depois. Mateo passou a mão pelo nó da gravata, como se a simples existência da emoção alheia o incomodasse. - A partir de hoje, eu assumo os negócios. Foi simples assim. Sem nenhum cuidado, respeito ou espera, a frase caiu dentro do galpão como gasolina. - Não. - Minha mãe piscou devagar. - Não é uma questão de opinião. - Mateo a encarou sem expressão. - É uma questão de sangue - ela rebateu, agora firme o bastante para me deixar arrepiada. - Você não pode assumir. Ele ergueu uma sobrancelha. - Não? - Não é o herdeiro legítimo. Alejandro levantou o rosto na mesma hora, como se a esperança tivesse retornado por um segundo. Eu permaneci imóvel, porque sabia que aquilo não bastaria. Mateo soltou um riso breve, sem alegria alguma. - Herdeiro legítimo? - Ele voltou a atenção para nossa mãe. - Isabela não pode assumir. - O olhar dele veio até mim por um instante. Frio. Calculado. - É mulher. - Depois desviou para Alejandro. - E ele é novo demais. Impulsivo demais. Inútil demais para manter homens obedientes. Alejandro partiu para cima dele antes que eu pudesse pensar. Mateo segurou o braço dele no ar com tanta facilidade que pareceu humilhante. Alejandro tentou se soltar, mas Mateo o conteve sem esforço, empurrando-o para trás. - Você não manda em mim! - Alejandro gritou. - Ainda não - Mateo disse entre os dentes. - Mas vou mandar em todos vocês se continuarem agindo assim. Minha mãe respirou fundo, mas a voz saiu afiada: - Diego nunca quis isso. - Diego está morto. Eu me movi antes de pensar, o tapa no rosto dele ecoou pelo galpão, o som metálico pareceu ainda maior por causa do silêncio em volta. Mateo virou o rosto com o impacto. Por um segundo, ninguém respirou. - Nunca mais fala dele assim na minha frente. - Meu peito subia e descia com violência a palma da minha mão ardia. Mateo trouxe lentamente o rosto de volta para mim, os olhos dele estavam escuros agora. Perigosos. - Cuidado, Isabela. - Não. - Dei mais um passo. - Você que tenha cuidado. E foi nesse instante que o olhar dele desceu. A gola da minha blusa tinha se aberto com o movimento do braço. A corrente apareceu inteira, e a medalha ficou exposta contra a minha pele por dois, três segundos. Mateo olhou para ela do jeito que olhava para um carregamento chegando ao porto. Inventário. Valor. Destino. - Ainda usa isso - comentou, quase distraído. - Ele me deu. - Ele deu três. - Mateo endireitou a gravata. - E, no fim, tudo o que ele deu volta para a casa. Puxei o tecido, cobrindo a medalha de novo, e não respondi. Mas alguma coisa dentro de mim já tinha entendido o recado. Minha mãe levou a mão à cabeça, exausta, e Alejandro voltou para perto dela. Os homens do porto, espalhados pelo galpão, fingiam não olhar, mas eu sentia cada atenção presa em nós. Mateo passou a língua no corte mínimo que o anel no meu dedo havia deixado no canto de sua boca. - Você vai se casar. Demorei um segundo para entender que ele falava comigo. - O quê? - Vai se casar com quem eu decidir. - A postura dele voltou à rigidez costumeira. - É assim que a casa se mantém. É assim que as alianças sobrevivem. Você serve mais casada do que opinando sobre aquilo que não entende. - Não ouse. - Minha mãe ficou branca. - É exatamente por entender esse mundo melhor do que vocês que eu sou o mais indicado. - Mateo virou-se para ela. - Você é o mais ambicioso - eu cuspi. - Não o mais indicado. - Ambição mantém homens vivos. - Ambição matou o nosso pai - rebati. Aquilo o atingiu. Pouco, mas atingiu. Mateo me olhou com uma dureza que só confirmava que eu tinha tocado onde devia. Minha mãe respirou fundo, reuniu o que ainda restava de autoridade e falou com a firmeza de uma mulher que ainda era dona daquela casa, ainda que homens como Mateo quisessem esquecê-lo. - Ninguém decide nada hoje. - Eu decido e já decidi! - Não. - Ela ergueu o queixo. - Enquanto eu estiver viva, você não governa esta família sozinho. Mateo ficou em silêncio por alguns segundos, depois respondeu quase em tom de ameaça: - Então não me obriguem a fazer isso do jeito difícil. - O gelo percorreu minha espinha, não porque eu duvidasse dele, mas porque sabia que Mateo jamais fazia ameaças vazias. - Vou reunir todos do cartel para uma votação, é claro que serei eleito, assim... não quero nenhum questionamento de vocês.

Capítulo 3 Isabela De La Vega

O enterro aconteceu dois dias depois. Vieram políticos demais, padres demais, homens armados demais, mulheres usando véu e joias caras demais. Todos diziam as mesmas frases: perda irreparável, homem respeitado, grande legado, família forte. Ninguém tinha coragem de dizer a verdade na frente do caixão. Meu pai não era um homem respeitado, era temido. E, naquele mundo, muitas vezes isso valia mais. Fiquei ao lado da minha mãe durante toda a cerimônia. Alejandro permaneceu do outro lado, em um silêncio sombrio. Mateo não chorou uma única vez. Recebeu condolências, apertou mãos, ouviu promessas de lealdade e já se comportava como se o sobrenome De la Vega tivesse escorregado naturalmente para o corpo dele. Naquela tarde, quando voltamos para casa, a briga recomeçou. O escritório do meu pai ainda cheirava a tabaco, couro e uísque caro. Tudo estava exatamente no mesmo lugar. A caneta sobre a mesa. Os mapas nas gavetas. O retrato antigo na estante. A cadeira de encosto alto atrás da escrivaninha. Quase tudo. A segunda gaveta da direita estava entreaberta, e eu sabia o que meu pai guardava ali, porque passei a infância inteira sendo enxotada daquela sala justamente quando ele a abria. A agenda de capa preta, gasta nos cantos, onde ele anotava à mão o que não confiava a telefone nenhum. A gaveta estava vazia. Nem dois dias tinham passado. Mateo entrou primeiro e fechou a porta. Minha mãe não pediu licença. Eu também não. Alejandro apareceu logo depois, rígido, abatido e com raiva demais para pensar. Mateo apoiou as mãos sobre a mesa do nosso pai. - A partir de amanhã, eu começo a reorganizar as rotas. - Você não ouviu nada do que eu disse no porto? - minha mãe riu baixo e sem humor. - Ouvi. - Ele se endireitou. - Acredito que quem não tenha me ouvido foi você, mamá. - Mateo deu um sorriso de lado. - Hoje teve a votação do cartel e acabei de receber o resultado, já que não pude comparecer, pois estou cuidando da família de Don Diego. - O que decidiram? - Sou o novo Don do cartel, 96% dos votos a favor! - Você quer mandar desde sempre. - Alejandro bateu a mão na estante. - Porque desde sempre alguém precisava fazer isso direito. - Mateo nem olhou para ele. - Diego jamais entregaria tudo a você. - Minha mãe deu a volta na mesa e parou diante dele. - Diego também jamais entregaria tudo a uma mulher. - Mateo a encarou com frieza. - Agora você precisa pensar bem como se dirige a mim, não é porque é viúva do Don Diego de La Vega que pode falar desse modo. O silêncio seguinte foi tão duro que até Alejandro ficou quieto. Minha mãe parecia feita de vidro naquele momento. Não por fraqueza, mas porque eu via cada rachadura, cada esforço dela para não desabar. - Você se parece com ele no pior sentido - disse ela. - E, ainda assim, sou o único capaz de impedir que tudo isso afunde. - Mateo estreitou os olhos. - Não. Você é o único que está aproveitando o cadáver dele para subir. - Eu me aproximei. - E que esvaziou a gaveta dele antes do corpo esfriar. Alguma coisa passou pelo rosto de Mateo. Rápido demais para ter nome, mas eu vi. - Cuidado com o que você acha que entende, Isabela. - E você continua emocional demais. - Mateo virou-se para mim de novo, recuperando o tom de sempre. - O que você vai fazer? Sentar nesta cadeira? Dar ordens a homens que te olhariam como se fosse decoração? Você não nasceu para isso. Aquilo me acertou em cheio. Não porque eu acreditasse, mas porque eu tinha passado a vida inteira ouvindo versões mais educadas da mesma sentença. Não nasceu para isso. Não é lugar de mulher. Case bem. Fale pouco. Sirva à família de outro jeito. Meu pai nunca dizia dessa forma. Mas dizia. Sempre dizia. - Basta. - Minha mãe fechou os olhos por um instante. - Você vai se casar quando eu disser. - Mateo ignorou. - Não vou. - Minha voz saiu firme. - Você não decide minha vida. - Decido o que for necessário. - Ela não é moeda de troca. - Minha mãe se adiantou outra vez. - Todo mundo é, em algum momento - ele retrucou. Alejandro tentou avançar de novo, mas estendi o braço na frente dele. Foi nesse instante que eu soube. Eu precisava ir embora, não havia mais casa, pai ou proteção. Havia apenas um homem se levantando sobre as ruínas de tudo, disposto a usar meu nome, meu sangue e meu corpo da forma que lhe parecesse mais útil. Uma semana depois da morte do meu pai, Mateo entrou na sala enquanto jantávamos e anunciou, com a naturalidade cruel de quem já havia decidido tudo, que na manhã seguinte tornaria público o meu casamento com um homem do cartel. Pelo que eu lembrava, ele tinha mais de cinquenta anos, e eu não conseguia enxergar que tipo de benefício aquela união traria além de reforçar alianças que eu nunca escolhi sustentar. O silêncio que se instalou depois das palavras dele foi pesado, sufocante, como se ninguém ali tivesse permissão para reagir. - Isso é uma decisão da família - acrescentou, apoiando as mãos na mesa e mantendo o olhar fixo em mim. Levantei devagar, sentindo o sangue ferver sob a pele. - Não é uma decisão minha - respondi, segurando o tom. Mateo inclinou levemente a cabeça, como se já esperasse aquilo. - Você não precisa decidir. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Alejandro bateu o copo na mesa com força. O som ecoou pela sala, alto demais para alguém tão novo, tão fora de lugar naquele tipo de conversa. Ele tinha apenas quatorze anos, e ainda assim estava ali, tentando me defender. - Ela não é um acordo, Mateo - disse ele, a voz carregada de uma coragem que não combinava com a idade. Mateo virou o rosto lentamente na direção dele, avaliando-o com frieza. - E você acha que tem voz para opinar? Alejandro se levantou, os punhos fechados ao lado do corpo, o olhar firme apesar da tensão evidente. - Eu sou irmão dela. - Você é uma criança - rebateu Mateo, sem qualquer hesitação. - E deveria se comportar como uma. - Eu não vou ficar quieto vendo você fazer isso com ela. - Alejandro avançou um passo, o maxilar travado. Minha mãe soltou um som baixo, nervoso, como se quisesse impedir aquilo antes que fosse tarde demais. Mateo se levantou devagar, aproximando-se. - Então aprende a ficar - disse ele em tom baixo, perigoso. - Não - Alejandro respondeu, sustentando o olhar, mesmo menor, mesmo mais novo, mesmo em desvantagem. O ar ficou pesado. Mateo parou a poucos passos dele, inclinando levemente o corpo. - Se você continuar me confrontando assim - disse, a voz baixa e controlada -, eu te jogo no porão. O silêncio caiu de uma vez. Pesado e denso. Alejandro não recuou de imediato, mas vi o instante exato em que a ameaça atingiu. O olhar dele vacilou por uma fração de segundo, o suficiente para mostrar que ele entendia. Todos nós entendíamos, mesmo assim, ele não abaixou a cabeça. - Você não pode fazer isso - retrucou, mais baixo agora, mas ainda firme. Mateo segurou o colarinho dele de repente, puxando-o para frente com força. A cadeira arrastou no chão, o som seco cortando o ambiente. Minha mãe se levantou, desesperada, tentando separar os dois. - Chega, Mateo - pediu, a voz trêmula. - Ele precisa aprender - respondeu, sem soltar Alejandro. - Ele é só um menino - ela insistiu, tentando afastar a mão dele. - Então que comece a agir como um - rebateu, apertando mais um pouco antes de soltá-lo de forma brusca. Alejandro deu um passo para trás, respirando pesado, mas não desviou o olhar. Entrei entre os dois antes que aquilo piorasse. - Já chega - falei, firme. Mateo ajeitou a própria roupa, como se nada tivesse acontecido. Então olhou para o meu pescoço outra vez, e o gesto foi tão rápido, tão natural, que quase passou despercebido. - E tira isso antes de amanhã - completou, apontando a corrente com o queixo. - Não fica bem uma mulher prometida usando a marca de um homem morto. Minha mão foi até a medalha por reflexo. - Amanhã de manhã - disse, olhando diretamente para mim. - Esteja pronta. Virei o rosto, recusando a ordem. - Eu não vou. - O silêncio voltou, mais pesado que antes. - Vai. - Mateo me encarou por alguns segundos e em seguida saiu da sala como se tudo já estivesse decidido. Alejandro passou a mão pelo rosto, ainda tenso. - Você não vai - disse ele, olhando para mim. Aproximei-me, segurando o rosto dele por um instante, sentindo o quanto ainda era só um garoto. - Eu não posso ficar. Ele entendeu, pelo jeito que o olhar dele mudou. Pela forma como a respiração dele desacelerou, como se estivesse tentando aceitar algo que não queria. Naquela noite, enquanto minha mãe chorava em silêncio no quarto e Alejandro estava sozinho na varanda dos fundos, tentando parecer mais velho do que era, eu comecei a arrumar uma mala. Pouca coisa. Dinheiro escondido. Documentos. Uma muda de roupa mais simples. As joias pequenas que eu poderia vender depois. Uma fotografia antiga dos meus pais. Demorei menos de vinte minutos. A medalha eu cheguei a tirar. Fiquei com ela na palma da mão por um tempo longo demais, sentindo o peso do ouro, pensando em tudo o que aquilo significava e em tudo o que aquilo poderia custar se alguém a reconhecesse do outro lado da fronteira. Depois coloquei de volta no pescoço. Se era para eu perder tudo, que ao menos uma coisa saísse comigo. Minha mãe entrou no quarto antes que eu terminasse. Ela não se assustou ao ver a mala sobre a cama, como se já soubesse, como se, no fundo, tivesse esperado por aquilo desde a conversa no escritório. - Você vai embora - disse ela, a voz baixa. Assenti, e os olhos dela se encheram de água novamente. - É o único jeito. - Ele vai te procurar. - Ela se aproximou devagar. - E, se encontrar, não vai deixar barato - continuou, segurando meu rosto entre as mãos quentes e trêmulas, cheias de amor e culpa. - Eu devia ter tirado vocês daqui muito antes. - Não fala isso. - Balancei a cabeça. - É verdade. Ela me abraçou com força, e foi ali, presa aos braços dela, que chorei pela primeira vez desde a notícia da morte do meu pai. Não chorei por Diego de la Vega. Chorei por tudo, pela casa perdida, pela infância enterrada, pela mulher que minha mãe foi obrigada a ser, pelo menino que Alejandro ainda era, pela filha que eu não podia mais continuar sendo. Quando nos soltamos, ela limpou meu rosto com os polegares. - Para onde? - Las Vegas - demorei um segundo antes de responder. Ela assentiu devagar, talvez porque Vegas fosse grande o bastante para me esconder, porque o deserto engolisse nomes com facilidade, ou porque até minha mãe soubesse que, às vezes, sobreviver exige distância mais do que coragem. - Leva isso - disse ela, me entregando um envelope. - Não é muito, mas compra algum tempo. Peguei o envelope. Era mais grosso do que devia ser só por causa do dinheiro. Minha mãe percebeu meu olhar e fechou minha mão em volta dele. - Não abre aqui - pediu baixo. - Abre depois da fronteira. - Mamá... - Eu mandei fazer no ano passado. - A voz dela saiu quase sem som, e havia nela algo que eu nunca tinha ouvido antes: vergonha e alívio ao mesmo tempo. - Quando seu pai começou a falar em casamento pela primeira vez. Ele nunca soube. Ninguém nunca soube. Nem o homem que fez sabe para quem era. Meu peito inteiro se fechou. Minha mãe, que rezava três vezes por dia, que baixava os olhos quando meu pai levantava a voz, que parecia frágil demais para o mundo em que vivia, tinha comprado uma saída para mim muito antes de eu precisar dela. E tinha guardado em silêncio, sozinha, sabendo que só usaria aquilo no pior dia da nossa vida. - E Alejandro? - Eu cuido do seu irmão - respondeu, mas o olhar dela se partiu. Quis acreditar e naquela noite, saí pela porta dos fundos pouco antes das três da manhã. Não me despedi de Alejandro. Se eu olhasse para ele, talvez não conseguisse ir. O carro que me levou até a estrada tinha sido arranjado por uma velha amiga da minha mãe. O motorista não fez perguntas, e aquilo foi um alívio. O silêncio ao longo da viagem até a fronteira parecia mais suportável do que qualquer tentativa de consolo. Abri o envelope quando as luzes do posto de fronteira ficaram para trás. Dinheiro. A fotografia. E uma carteira de identidade em papel legítimo, com selo legítimo, com um número que existia em algum sistema de verdade, com o meu rosto numa foto que eu nem lembrava ter tirado. E um nome que não era o meu. Luna Reyes. Li três vezes, em voz baixa, sentindo a estranheza da coisa na boca. Luna Reyes. Uma mulher sem pai, sem cartel, sem porto, sem galpão, sem sobrenome que fizesse homens baixarem a voz. Uma mulher que podia estar viva em qualquer lugar do mundo. No banco de trás, com a mala pequena aos pés e a fotografia antiga entre os dedos, eu assisti o céu mudar do preto para o cinza, do cinza para o laranja pálido. Quando o sol surgiu de verdade, eu já não era mais a filha protegida de Diego de la Vega. Era apenas uma mulher fugindo do próprio sobrenome.

Continuar lendo