O amor no Beco dos desesperados
Capítulo 1 PRÓLOGO

Paris, França. Numa ensolarada tarde de domingo, eu terminava de tomar um café na rue Vieille du Temple, quando, ao pagar a conta, recebi de troco uma nota de 2 € (dois euros) na qual estava escrito: allée de désespoir, ou “beco dos desesperados”. Deixei o local sem maiores preocupações e, pouco mais à frente, na esquina com a rue Barbette, me deparei com uma mulher elegante, óculos escuros, vestido justo, mostrando um bilhete para o guarda que, por sua vez, apontou na minha direção. Ela, que mais parecia ter saído de um desfile prêt-à-porter1 primavera-verão, passou por mim como uma locomotiva, deixando algo cair no chão. Abaixei-me e peguei o que parecia ser um bilhete. Olhei para trás, e a misteriosa mulher havia sumido. No bilhete estava escrito: Allée de désespoir. — Beco dos desesperados... — murmurei para mim mesmo. Pouco depois, cheguei ao hotel com aquele nome na cabeça. O sol das cinco da tarde invadia o meu quarto pela ampla janela que eu acabara de abrir quando, diante dos meus olhos, mais precisamente na rue des Francs Bourgeois, eu a vi novamente, andando na calçada. “A mesma mulher que perdeu o bilhete”, pensei, eufórico. — Ei, você! – gritei para ela, que replicou olhando friamente na minha direção sem uma única contração de face – cheguei a gelar – e, mais uma vez, ela saiu andando apressada, puxando uma pequena mala de viagem, dessas de rodinhas. Sem perder tempo, saí do quarto, peguei o elevador e, ao alcançar a rua, olhei para o caminho em que, supostamente, a mulher misteriosa teria seguido. Foi então que a vi cruzando a esquina com a rue de Sévigné, desviando-se dos transeuntes, mantendo o charme e a elegância, salto alto, bolsa a tiracolo, ajeitando, de vez em quando, as mechas longas que, com a ajuda do vento, estapeavam seu rosto. Não demorou muito, ela, com seus invejáveis quase um metro e oitenta de altura bem distribuídos, atravessava a movimentada rue de Turenne numa confiança inabalá- vel, como se tivesse certeza de que os motoristas jamais resistiriam a frear diante de tamanha beleza. E foi o que aconteceu. Repeti a sua ousadia e quase fui atropelado, tendo que me esquivar de vários carros – cheguei a saltar sobre o capô de um veículo Peugeot e, quase ao final da minha difícil travessia, levei uma buzinada do motorista de um Citröen vermelho que, após frear bruscamente, esbravejou: — Hey son fou! Voulez-vous mourir? [*Ei, seu louco! Você quer morrer?] Neste momento, a mulher misteriosa se assustou, olhou para trás, e apertou ainda mais o passo.Então, iniciei uma emocionante perseguição pelas ruas de Paris. — Mademoiselle*, espere! Só quero conversar! [*senhorita] Ela nem sequer olhou para trás e seguiu ainda mais veloz. Era como se algo sobrenatural me obrigasse a seguir uma mulher para lhe entregar um bilhete que ela certamente não tinha o menor interesse em recuperá-lo. Talvez o meu instinto masculino, de predador, fosse a principal causa daquele impulso que, àquela altura do campeonato, parecia incontrolável. ... E foi assim, num forte desejo de aproximação, que eu a segui por diversas ruas até, finalmente, ela parar na mais sombria e deserta. Naquele momento, mantive certa distância, apenas observando aquela linda mulher despir-se de sua elegância, diminuindo o passo até parar completamente, jogando seus pertences ao chão e prostrando-se na calçada como um trapo qualquer. Pude então ver a sua real condição de fragilidade e o limite de seu poder que, até então, parecia inabalável. Foi aí que me aproximei. — Mademoiselle. Por acaso perdeu isso? – disse eu, mostrando-lhe o bilhete. Ela olhou para mim com viçosa e ingênua expressão de surpresa. Fiquei impressionado com a beleza dos seus lábios vermelhos contrastando com os belos olhos de topázio, que lhe rorejavam a pele. — Onde o encontrou? – perguntou ela. — Na esquina onde a senhorita buscava por informação... — Olha aqui, se me seguiu só para me entregar essebilhete, perdeu seu tempo, pois já encontrei o endereço, o beco é logo ali. — Se o endereço que procuras está tão próximo, por que não seguiu em frente? — Porque não é lá muito animador ir para um “beco sem saída”. — Um beco sem saída no final de uma rua sem saída, interessante – comentei. — Exatamente, por isso é tão difícil encontrar... Comecei a rir. — Ei, isso não é nada engraçado – disse ela, séria. — Desculpe. É que fiquei surpreso – disse eu, ainda sem conseguir me conter – é a primeira vez que conheço alguém procurando um “beco sem saída” em Paris. — Não se faça de idiota. Você leu o bilhete? — Sim, está escrito: “Beco dos desesperados, onde todo mundo sabe por que entrou, mas não tem a menor ideia de como vai sair”... Ela então se levantou e sorriu. — Ah, vocês homens... O que não fazem por um rabo de saia... Fiquei meio sem graça, e ela prosseguiu: — Você parece estrangeiro... Por acaso é imigrante? — Não. Sou escritor e vim a Paris em busca de inspira- ção para o meu novo livro. — Hum... escritor... – disse ela, me olhando de cima a baixo. Então, sem mais delongas, estendi-lhe a mão. — Prazer. Eu me chamo Albert Archibald...— Olhai os verdes campos; Rios de solidão; Madalena, nascida para o pecado... – citou. — Você então conhece meus livros? — Não só conheço como li todos – disse ela, agora com um quê de interesse. — E posso saber o nome desta minha ilustre leitora? — Anna Júlia. Sou modelo e atriz. Ao ouvir aquele nome, fiquei petrificado. Eu estava diante de Anna Júlia, que, apesar de ser uma subcelebridade e um fracasso como atriz, foi capa de diversas revistas masculinas. Fiquei meio constrangido ao pensar: “Prazer! Tenho todas as revistas em que você saiu pelada... E, quando eu era adolescente, já até fiz aquelas coisas de prazer solitário, olhando pra você.” Se eu dissesse isso, ela me chamaria de pervertido ou perfeito idiota. Então resolvi omitir essa informação, para o bem da minha conquista e reputação. — Aceita tomar um vinho comigo? – convidei. — Se fosse outro cara, eu não aceitaria, mas como você é Albert Archibald, não posso desperdiçar esta oportunidade. Pouco depois, estávamos sentados do lado de fora de um barzinho muito agradável, sentindo a fresca brisa daquele ensolarado final de tarde. Os olhos lindos de Anna reluziam na taça de vinho e eu mal podia acreditar que estava diante da mulher que tantas vezes admirei. Ela estava um pouco mais magra, abatida talvez, mas ainda assim continuava sedutora, até na maneira de conversar. — Então, estou diante do famoso escritor Albert Archibald...— Bondade sua. Não sou tão famoso assim. — Ah, deixa de ser modesto. S’il vous plaît*, conta, vai. Pode admitir. Não quero te sequestrar, não. [*Por favor] — Tá bom. Eu admito que tenho notável reconhecimento... — E quando foi que começou a escrever? — Eu tinha vinte e poucos anos, mas te garanto que não foi nada fácil, tomei muita porta na cara, várias editoras recusaram meu trabalho... — Pois é, e olha o que elas perderam. — Milhões de livros vendidos. Hoje, qualquer uma daquelas editoras faria de tudo para publicar alguma obra minha. — Acredito que o mesmo deve ter acontecido com sua vida amorosa – disse ela. — Bom, nesse quesito tive altos e baixos... — Ainda assim continua escondendo o jogo... Ah, escritores: atrapalhados, misteriosos, mas excelentes amantes... – disse ela, olhando para mim como se estivesse estudando um mapa. Então, achei que aquele seria o momento ideal para uma investida, e tentei beijá-la. — Oh, não, não. S’il vous plaît, vai parando por aí. Estou fechada para balanço. “Merda”, pensei, “tomei um fora”. — Poxa vida. Pensei que nosso encontro daria um romance perfeito... – disse eu, ainda sob o impacto daquela negativa. Ela voltou-se muito familiarmente para mim, e disse com a voz firme:— Pensou certo. Seria o romance ideal, mas é uma pena eu não ter te conhecido antes. Ainda assim, quero que saiba que, igual ao bilhete que você se ocupou em me trazer, meu querido: as coisas boas só chegam em minha vida tarde demais, quando já não adianta muita coisa. — Não diga isso... Por quê? — Estou à beira do abismo, senhor Archibald. Ou melhor, de um “beco sem saída”, que está logo ali na frente, pronto para me hospedar até Deus sabe quando. Minha vida está em ruínas, meu empresário ferrou comigo, não tenho mais espaço na mídia. Estou vivendo de bicos. — Vem comigo pra Nova York! Eu posso ajudá-la a recomeçar. — Não posso. Se eu fizer isso, terei de pagar uma série de multas rescisórias. — Tem certeza de que é somente esse o motivo? – perguntei. — Não. – respondeu ela – Tem mais coisas, sim. Pedi outra taça de vinho e ela então começou a revelar: — Vou te contar. Eu me envolvi com o meu empresá- rio. E, por mais que ele tenha destruído a minha vida, não consigo ficar sem ele. — Entendo. É como se fosse a sua droga. — Mais ou menos isso. — E acha que naquele beco, onde mal se vê a entrada, você irá se livrar desse vício? Ela então devolveu a pergunta: — E ir para Nova York com um estranho resolverá?— Isso não quer dizer nada. Seu ex-empresário não era nenhum estranho e ainda assim ferrou com você. — Não é só por isso. É que eu não quero entrar num relacionamento pra esquecer outro. Ou você prefere se envolver com uma mulher que ainda ama outro homem? — Claro que não. — Então, se você gosta de mim de verdade, espere eu retornar do beco com meu problema resolvido. Respirei fundo, e disse: — Tá bem. Combinado. Voltarei um dia pra te buscar. — Não precisa, o beco pode estar aqui ou em Nova York, Tóquio ou Dubai, São Paulo ou Rio. Ele está na mente de cada um de nós, e você só consegue enxergá-lo porque está compartilhando este momento comigo. — Que história fantástica! Acho que consegui a inspira- ção para o meu novo livro! E você será meu par romântico. — Fechado! Dizendo isso, ela então cedeu, e finalmente nos beijamos. Ficamos assim, entre um gole e outro, trocando carícias até o alvorecer, como se o relógio fosse apenas um adereço sem qualquer utilidade. Em pouco tempo estávamos falando de assuntos diversos, num desses encontros que a vida não sabe explicar. — Me conte uma coisa, senhor Archibald: tem algum desejo com que você se sente frustrado por não ter realizado? – perguntou ela bem abraçada a mim, enquanto eu acariciava seus cabelos. — Não ter sido ator. Essa foi, sem dúvida, minha maior frustração. E a sua, qual foi?— Ela acaba de ser resolvida. — Sério? Como? — Agora, com você. — Vai me dizer que seu sonho era namorar um escritor? — Não, não é isso. É que, até hoje, só me relacionei com caras que amavam a Anna Júlia das revistas, sabe? Era horrível. Eu me sentia um objeto... – Ela tomou um gole de vinho e prosseguiu: – Sabe o que meu último namorado disse? Que, antes de me conhecer, fez sexo solitário várias vezes, olhando para a minha foto nua nas revistas. Chegou a me dar nojo... Engoli em seco e, meio sem graça, tentei desviar o assunto. — Quando você e seu ex-empresário romperam? — Na semana passada, depois que eu recebi “o chamado”. — Chamado? — Sim, esse bilhete que você veio me trazer. — Meu Deus! – exclamei, preocupado. – Veja isto. – E mostrei-lhe a nota de 2 € que eu havia recebido de troco no café da rue Vieille du Temple naquela tarde. — Lamento lhe dizer, meu querido, mas você também recebeu o chamado. Alguns segundos de silêncio. De repente, ela começou a rir. — Está rindo do quê? – perguntei, completamente confuso. — De você. De quem mais seria? Pensei que, por ser um escritor, fosse mais dedutivo.— O que eu poderia deduzir de uma nota escrita “beco dos desesperados”? — Raciocine comigo: você veio a Paris buscar inspira- ção para o seu novo livro, certo? — Correto. — Daí, sem inspiração, você entraria em decadência e, inevitavelmente, seu destino seria se hospedar naquele beco. Aí, você conhece uma parisiense desesperada, e eis que surge o seu novo sucesso literário: O Beco dos Desesperados. — Ei, então, pelo que entendi, para ter a inspiração, eu precisava viver um novo amor. É isso? — Exatamente. — Vou ficar te devendo essa – disse eu. Voltei a beijá-la intensamente, acariciando seus cabelos, que derramavam-lhe em fartos anéis sobre a brancura do pescoço, caindo em trêmulas madeixas ao lado do rosto. Enfim, chegamos naquele momento em que a alma parece derreter-se na saturação dos vapores do prazer. Nossos hálitos, impregnados de vinho, e os nossos perfumes se misturavam, despertando sentidos que entorpecem o espírito, embriagam ainda mais o sangue, fazendo o corpo ceder a todo tipo de volúpia. Instante em que mais deliciosamente gemem os violinos – que, naquele momento, tocavam She, de Charles Aznavour. Era como se tudo ali fosse o cenário de um típico longa parisiense: a música, nossa trilha sonora, o garçom, os violinistas e os poucos fregueses, meros figurantes. Restava saber se eu e AnnaJúlia, os protagonistas, estávamos no início de uma história romântica ou no fim de um drama, encenando uma triste despedida. — Chegou a minha hora – disse ela, meio sem graça – Você me acompanha até a entrada do “beco”? — Claro – disse eu, um pouco surpreso e decepcionado. Então, contra a minha vontade, acompanhei Anna ao seu destino. Chegando lá, fiquei observando a entrada daquele lugar curioso e enigmático... De fora, o Beco dos Desesperados tinha o aspecto de um local vago, sem qualquer indício de habitação. Essa sensação foi quebrada quando Anna tocou a campainha estridente e apareceu o mestre de cerimônia, um senhor careca, olhos fundos, rosto pálido e sem vida, trajando terno de cor preta, que a introduziu ao interior do recinto com uma cortesia respeitosa. — Pois não, Mademoiselle?... Seja bem-vinda! — Oh, merci* – respondeu ela. [*obrigado!] — S’il vous plaît, deixe eu lhe ajudar com seus pertences – disse ele, pegando sua mala de viagem. Neste momento, dei o último beijo em minha amada, que adentrou o local, meio desconcertada. Enquanto isso, o mestre de cerimônias, olhando para mim – mantendo aquele mesmo sorriso receptivo – começou a puxar, lentamente, as duas abas do enorme portão de imbuia maciça, talhado com detalhes góticos do século XVIII. — Com licença, cavalheiro. – disse ele, no meu idioma. Depois disso, apenas ouvi o barulho triste e abafado dabatida do velho portão, seguido de uma forte poeira cinza e densa em meu rosto. Fechei e abri os olhos. Então, como se fosse uma miragem, aquele local simplesmente desapareceu.

Capítulo 2 Cap 1

À primeira vista, aquele local não passava de duas paredes alinhadas. Mas para aquelas sombras inquietas, que por ali deslizavam, ele era uma espécie de degredo, retrato de suas vidas, ou simplesmente purgatório, sobretudo para aqueles que perderam as rédeas da carruagem chamada vida e acabaram colidindo, inevitavelmente, com aquela espécie de pocilga, onde havia de tudo: bêbados, drogados, andarilhos; embusteiros e corruptos; homens e mulheres de todas as idades, ideologias, credos e nacionalidades, que conversavam, caminhavam, falavam ao celular, e também dormiam em colchonetes ou esteiras de palha2 como se estivessem na pró- pria casa, pessoas que, de alguma forma, sempre viveram em um beco sem saída, eles apenas demoraram a perceber isso. — ...Tá bom, pode ficar tranquilo, seu dinheiro está seguro. Nossa corretora trabalha com as empresas mais sólidas do mercado – argumentava por celular o rapaz de trinta e poucos anos, camisa social listrada e calça azulmarinho, sentado numa pilha de três tijolos. Acima, um cano de ferro gotejava. De repente, uma ratazana passousobre um de seus sapatos; ainda assim ele manteve a pose e, com a firmeza daqueles que acreditam nas próprias mentiras, prosseguiu: – De jeito nenhum... Nós não fechamos as portas... apenas estamos em fase de transição, mudando para novas e modernas i n s... t a l a... ções – disse pausadamente, olhando meio sem graça para o precário lugar, quando uma gota d’água caiu em sua testa. Perto daquela cena patética, estava um senhor de cabelo grisalho, magro, estatura média, que aparentava ter seus cinquenta e poucos anos, observando aquele diálogo sem qualquer discrição, dando risadas e fazendo gestos e expressões do tipo: “Humm... ai, ai, ai...” “Ih, lascou tudo!”. Sem se importar com seu vizinho indiscreto, o jovem prosseguiu falando com seu cliente ao celular: — Eu sei que esse dinheiro era para pagar sua cirurgia do coração... Minha avó passou por isso, sabia? Hoje, a veia tá nova, até casou-se de novo... – Naquele momento, o rapaz foi interrompido bruscamente pelo cliente, que, aos berros, praticamente o impediu de seguir com suas escusas. – Calma, seu Fortunato, não é bem assim... Deixa eu falar... Seu Fortunato! O senhor não pode se alterar... Olha o coração... Seu Fortunato... Deixa eu falar, porra!... Alô, alô!... Seu Fortunato?... Alô?!... Seu Fortunatoôô? Alô, alô... Alôôôôôô! Sem perder tempo, o senhor grisalho indagou, nitidamente dirigindo a palavra ao jovem desesperado: — Xiii... será que o velho enfartou? – Sem obter resposta, o autor da piada sugeriu: – Por que não tenta ligarde volta?... Ops... Já ia esquecendo, aqui ninguém tem crédito no celular. Oh, e não adianta olhar pra mim, o meu tá sem crédito, sem bateria e sem carregador – disse, dando uma gargalhada. O rapaz abaixou a cabeça e se manteve em silêncio. O piadista estalou os dedos na sua direção e perguntou: — Ei, tudo bem aí, amigo? — Que pergunta mais idiota! Quem pode dizer que está bem nesta merda? – finalmente se manifestou o rapaz. — Ei, não precisa ficar nervoso, aqui estamos todos no mesmo barco, ou melhor, no mesmo beco. Deixe eu me apresentar, me chamo Gerald. — Prazer... Fabrício. — Você fazia o que antes de vir pra cá? – perguntou Gerald. — Era corretor de valores. — Cara, isso dá muito dinheiro. Como tu veio parar aqui? — Eu morava em Nova York, onde fiz fortuna no mercado de ações, mas perdi muito dinheiro com a crise dos créditos imobiliários de risco, o subprime. Já ouviu falar? — Claro. Tive um vizinho que perdeu a casa, a mulher e o cachorro – disse o senhor grisalho, enquanto pegava duas caixas de cervejas vazias que estavam jogadas num canto, improvisando dois assentos. – Sente-se aí, meu rapaz, e continue. — Daí, voltei para o Brasil, montei uma corretora,onde investi o resto do meu dinheiro e de meus clientes em empresas ligadas ao Pré-Sal... e o resto tu já sabe... O jovem tirou um maço de cigarros do bolso, acendeu um, oferecendo outro ao amigo com um gesto, e perguntou em seguida: — E tu, por que veio parar aqui? — Dívidas, meu caro! Tô atolado até o pescoço – respondeu Gerald. — Quem não está endividado neste mundo? – indagou Fabrício, irônico. — Poucos como eu – disse, soltando um trago. — Não entendi! Endividado é endividado em qualquer lugar! — Meu caso é diferente. Meu credor não é banco, loja, cartão de crédito ou qualquer uma dessas porcarias! — Você deve pra quem... pro diabo? — Pior, eu devo pras minhas ex-mulheres. Pensão alimentícia, e posso ser preso a qualquer momento. — Você disse ex-mulheres??? — Sim. Tive cinco casamentos frustrados. No último, quase me internei em um hospício. — Ainda bem que nem penso em me casar! – salientou Fabrício. — Mas sua hora vai chegar. — Que nada! Casar hoje significa que cedo ou tarde tu vai ter uma ex-mulher. — Essa coisa de ex-mulher faz sentido no começo. Depois que os filhos crescem, volta tudo! Você passa a ter diferentes famílias e ex-mulheres, entende? É proble-ma pra tudo que é lado. A única diferença é que você vai dormir apenas com uma, ou com nenhuma delas, que é o meu caso. Naquele momento, um senhor de estatura média e acima do peso, com uma barriga saliente, narigudo, bigode, calvo, de uns sessenta e poucos anos, foi chegando de mansinho, assoviando uma velha canção, e começou a bater palmas. — Sábias palavras. Os dois amigos entreolharam-se sem entender a aproximação daquela figura, enquanto o homem, de forma bem intimista, foi lhes estendendo a mão. — Deixe-me apresentar, Astoufo Peçanha. — ...Tá aqui também por causa de pensão? – perguntou Fabrício, com olhar desconfiado. — Antes fosse. Não passo de um apresentador de TV em fim de carreira – franziu a testa, numa leve expressão de desânimo. — Pera aí... eu me lembro de ti! – exclamou Fabrício. – Astoufo Peçanha, do programa “Verdade Nua e Crua”! — O próprio. — Que puta sacanagem que fizeram te tirando do ar... — Sair do ar foi o de menos. Tomei mais de 20 processos nas costas! O último deles perdi sem direito a recorrer. Resultado: fui obrigado a pagar uma indenização de um milhão de reais. — Por quê? — Coloquei no ar a foto de um político que desviou milhões dos cofres públicos.— Nossa! Só por causa disso? — O problema é que na foto estavam a esposa, a sogra, os filhos e o cunhado do larápio. E o imbecil do câ- mera se esqueceu de desfigurar a imagem deles – disse, franzindo a testa e levando a mão à cabeça. — Isso é o que eu chamo de mau enquadramento de cena... – ironizou Fabrício. De repente, Gerald fez um sinal de silêncio: — Xiiiiiii... pera, pessoal! Parece que tá chegando gente nova no beco. Todos ali passaram a observar um sujeito chegando de mansinho, com aparência de megaempresário, sapatos bem lustrados, terno preto engomado, combinando com a camisa branca sob a gravata vermelho-carmim, óculos sobre as bochechas rosadas, cabelo liso, penteado para o lado, aparentando uns 43 anos. — Esse aí parece grã-fino! – disse Gerald, olhando fixamente para o sujeito. — A começar pelo sapato... – completou Astoufo. — É brasileiro, é brasileiro! – comemorou Fabrício. — Como é que você sabe? – perguntou Astoufo. — O mestre de cerimônia deu as boas-vindas em português. — Pela elegância, podia jurar que era francês... — Vou lá bater um papo com ele! – disse o gaúcho, animado. — Ei, ê, ê... pera aí! – intercedeu Gerald. – Deixa ele ir sossegado. — Pra onde ele tá indo? – perguntou Fabrício— Para onde todos vão, quando chegam aqui. Não se lembra? — Sim! Pro final do beco. — Exatamente. É lá que ele vai começar a entender que está em um beco sem saída. — Mas de uma coisa vocês podem ter certeza: ele é brasileiro e não desiste nunca! – comentou Astoufo. — ...E vai sempre acreditar que existe uma saída – completou Gerald.

Capítulo 3 Cap2

— Gente! O sujeito com pinta de megaempresário tá chegando aí. – anunciou Fabrício. Ao chegar, o camarada olhou para os demais e ao redor, com visível ar de superioridade. E Gerald, curioso para saber o que um sujeito tão polido fazia ali, foi logo puxando assunto: — Ficou pouco tempo no final do beco, senhor! — Alguns minutos, nada mais, foram suficientes para me sentir renovado. — E aí, o que senhor achou? – perguntou Fabrício, um pouco temeroso da resposta. — Sabe de uma coisa? Adorei este lugar. Um espetáculo! Um monte de gente na merda acreditando que o amor, desses romances de folhetins baratos, poderá salvá-los desta pocilga. Ah! Serei fonte inesgotável de motivação para esses miseráveis, ainda que tudo pare- ça perdido! “Mesmo que a vida lhes mostre o contrário, nunca desistam de seus sonhos!” – disse, com expressão afirmativa. – “Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia”, Sir Charles Chaplin! — Frases profundas. O senhor lê muitos livros de autoajuda? – perguntou Fabrício. — Não só leio como escrevo, dou palestras e tudo mais. — Parou por quê? – perguntou Gerald. — Uma falência inesperada... — É. Tem muita gente aqui na mesma situação... – disse Gerald. — Meu caso é diferente... quero unir o útil ao agradá- vel, dar a volta por cima neste lugar desprezível e, ao mesmo tempo, conseguir novos leitores ávidos por motivação. — Ô! Cliente é o que não vai faltar... – disse Astoufo. — Só não garanto que eles terão condições de comprar os seus livros... – disse Fabrício, irônico. — Eu sei, um bando de pés-rapados, dividindo a almôndega do almoço pra comer a outra metade no jantar. Mas ainda assim não desistirei desses pobres diabos. “A vitória pertence ao mais perseverante”, já dizia Napoleão Bonaparte. — Isso. Gostei de ver – disse Gerald, batendo palmas. – Esta é a fórmula do sucesso: seguir firme, sem perder a esperança! E o Palestrante Motivacional Falido (vamos chamá-lo assim) completou: — “O sonho e a esperança são dois calmantes que a natureza concede ao ser humano”, Frederico Primeiro.— Bah. Sei não! Acho que o melhor pra ti é repensar essa teoria ou tu vai acabar morrendo com uma superdose desse calmante – ironizou Fabrício. — De forma alguma! “A esperança é o sonho do homem acordado”, já dizia Aristóteles. Enfim, esperança nunca é demais! — Depende! – contrapôs Fabrício. – Aprendi que acreditar desmedidamente nas coisas pode te levar a um beco sem saída como este em que nos metemos. — Pois saiba, meu amigo, para o desgosto dos pessimistas, vou acreditar sempre, mesmo que eu tenha que deixar de acreditar; pois acredito que, acreditar que deixar de acreditar para depois acreditar que o deixar de acreditar foi necessário para voltar a acreditar, é de vital importância para acreditar a voltar a acreditar, pois deixar de acreditar para voltar a acreditar torna possível inventar uma nova maneira de deixar de acreditar para voltar a acreditar. Entende? — Ou seja, você não chega a lugar nenhum! – ironizou Fabrício àquelas palavras totalmente sem sentido. — Chegar a lugar algum pode ser um grande avanço para quem está em um beco sem saída como nós. Quiçá, a solução. — Então o senhor acredita que conseguiremos sair daqui? – perguntou Astoufo, animado. — Lógico que sim! E muito mais fortalecidos. “Preste atenção no que vou lhe contar: em uma de minhas palestras, das milhares que dei pelo mundo, falei exatamente sobre isso. Existe beco sem saída, mas existesaída sem beco, entende? Ou seja, quando você sair desta merda, não vai haver outro beco pra te infernizar. Será uma saída ampla com horizontes e possibilidades infinitas!” Fabrício se irritou com aquele positivismo exacerbado, arrancou o livro do sujeito e disparou: — Ah, não! Aí já é demais! Gerald logo intercedeu, tentando apaziguar. — Ei, calma! Deixa ele desabafar. — Desabafar é uma coisa, cuspir besteira é outra! Gerald puxou Fabrício para o canto e cochichou: — Fica assim, não! Olha pra esse cara. Num tá vendo que ele tá louco? É só não entrar na pilha dele, entende? Gerald, Fabrício e Astoufo ficaram observando o sujeito, de expressão débil, que se demonstrava completamente perdido. Mesmo assim, talvez para disfarçar a sua difícil situação, tentava passar o máximo de segurança e tranquilidade. Era como se ele estivesse em uma barca encharcada a todo instante por fortes ondas, durante uma tempestade, no meio do oceano cheio de tubarões e, ainda assim, procurasse fósforos para acender uma fogueira, tentando chamar a atenção da guarda costeira. Ele estava totalmente em transe, o que o tornava imune aos impactos psicológicos de sua complicada situação, um quadro difícil de reverter, sobretudo em um sujeito acostumado a tirar pessoas da beira do precipício através de suas palestras e livros de autoajuda. Sendo assim, os três degredados deixaram que ele continuasse seu discurso desconexo:— Amigos! Vou lhes dizer! Daqui, deste beco, saíram grandes homens! É no abismo que entendemos a profundidade do fracasso e quanto são ilimitadas as possibilidades de sucesso! “Ter sucesso é falhar repetidamente, mas sem perder o entusiasmo.” Winston Churchill. Já dizia Thomas Edison: “Eu não falhei. Só descobri 10 mil caminhos que não eram o certo”. E blá, blá, blá e blá... — Bah, Chegaaaaaaaa!!! – esbravejou Fabrício. – Cara, eu tentei, mas num teve jeito! Eu sabia que a próxima asneira que tu falasse desses malditos livros de autoajuda, que você leu e não te ajudaram pra porra nenhuma, eu ia te falar umas verdades, abrir teus olhos, guri... pra ti acordar de vez! – disse Fabrício, furioso. — Deixa ele, Fabrício! – defendeu Gerald. Como se estivesse com um colete à prova de balas, praticamente ileso de qualquer ataque verbal, o Palestrante Motivacional Falido, numa aparente tranquilidade, disse: — Liga, não! Deixe que ele continue! Devemos tirar proveito de todas as situações. “Um homem de sucesso é aquele que cria uma parede com os tijolos que jogaram nele.” David Brinkley, jornalista. — Ah é? Então vamos ver... – Fabrício ameaçou jogar-lhe um tijolo. Borrando de medo, o Palestrante se encolheu, tentando se proteger com uma das mãos. — Ei, calma. Nada de violência – censurou Gerald, segurando o braço do colega. – Você poderia matá-lo com essa porcaria. Tá maluco?— Ficar com certeza, maluco beleza... – cantando e tocando um violão, entrou em cena um sujeito com cavanhaque, cabeludo, óculos escuros, colete e calça boca de sino, estilo anos 70 do século passado. — Ihhh! Chegou mais um doido! – disse Gerald, colocando a mão sobre a testa. — Quem é esse? – perguntou Fabrício. — É o Cantor de Um Sucesso Só, que hoje não toca nem em botequim risca faca de quinta categoria. O sujeito, com fala cantada, dá seu apoio ao palestrante. — Olha, meu irmão! Tava vendo o teretetê de vocês e, como soteropolitano, na minha visão poética de musicalidade, tenho que concordar com nosso amigo empresá- rio palestrante motivacional e outros “gári gáris”. A gente tem que acreditar! A vitória tá em nossas mãos, tá sabendo? Este beco em que a gente está metido pode ser uma verdadeira higiene mental... Astoufo cutucou Gerald e perguntou baixinho: — Que música ele cantava quando fazia sucesso? — Linda do Carnaval. Dizem que ficou dois anos nas paradas. — Eu me lembro dessa música! – disse Fabrício – Ei, toque... — Xiiiii – Gerald fez sinal de silêncio – Pelo amor de Deus! Não pede pra ele tocar! — Por quê? – perguntou Fabrício— Desde que ele chegou aqui, não faz outra coisa. Ele deve ter tocado essa música mais de mil vezes. Pera aí! Parece que ele vai tocar outra. — “Ando devagar porque já tive pressa e levo este sorriso porque já chorei demaaais”...

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